SOBRE AS MULHERES DE MEU PAI, DE EDUARDO AGUALUSA

Foto: divulgação
O escritor angolano Eduardo Agualusa viaja pela África em seu novo romance
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eucanaã ferraz · Rio de Janeiro, RJ
18/8/2007 · 91 · 3
 

As mulheres do meu pai , último romance Eduardo Agualusa, além de ser um livro de viagens é também um livro-viagem: além de a narrativa percorrer o continente africano, a narração percorre a literatura, compreendida aqui não como seqüência de eventos temporais, mas como instância produtora de linguagens. Assim, como livro-viagem, As mulheres do meu pai passeia por diferentes gêneros ou modos de contar: entrevista, carta, diário, diálogos, monólogos, descrições. Diante da multiplicidade e da inconstâncias das coisas, a escrita também se fragmenta, aproximando-se da heterogeneidade absurda do real e evitando um ponto de vista estático para a compreensão do que lhe escapa.

Digamos que, na escrita de Agualusa, a indecisão é um método. Não decidir significa, então, evitar o corte, deixar a escrita contaminar-se da pluralidade para devolvê-la ao leitor em sua potência máxima, ativadora de uma consciência que se deve passar longe da simplificação, da facilitação, da escolha prévia (do preconceito, portanto). A indecisão põe em evidência, por outro lado, a dificuldade de análise do escritor que ambiciona um projeto em que não se perca de todo o que se poderia chamar de “realismo”. A indecisão porém, não se esgota numa espécie de mimetismo, de aproximação do que está fora da escrita. Assim, ela é, na escrita de Agualusa, uma atividade criadora que refaz a realidade, que a redimensiona, que dá a ver o conjunto de funções e mecanismos do escritor e da literatura como um todo.

Segmentação e arranjo são algumas das principais atividades do método-indecisão.

Pensemos em nós mesmos, quando, numa viagem, munidos de nossas cada vez menores máquinas fotográficas, escolhemos determinados instantes, determinadas paisagens, determinados ângulos, e montamos um álbum fotográfico para exibir aos outros e para nossa recordação. E, então, refazemos na memória, ou na narrativa para outrem, uma viagem reconstituída às custas de inúmeros corte, recortes, vazios, redundâncias, acasos, falhas, num conjunto de gestos que, mais ou nos inconscientemente, aproxima nosso prosaico álbum de fotografias de um filme. Lembremos ainda que, antes desse trabalho de “edição”, ocorrera a própria escolha de locações e roteiro, que em nossas viagens-filmes costumam obedecer a contingências várias, impostas por, exemplo, pela quantidade de luz, pela possibilidade de termos ou não um bom ângulo, de estar chovendo ou fazendo muito sol, de termos esquecido ou não a máquina no hotel, de haver ou não uma pessoa por perto para lhe pedirmos que, por favor, faça uma foto que nos inclua no cenário, e assim por diante. Um livro-viagem, como As mulheres do meu pai, utiliza-se de um mecanismo de edição bastante semelhante. Mas na escrita já não pode haver ingenuidade.

O escritor não pode desconhecer o quanto cortes, recortes, vazios, redundâncias, acasos, falhas, desvios e toda sorte de escolhas são partes de uma atividade ficcionalizante.

Neste novo livro de Agualusa, o personagem-narrador descobre, em sua viagem, que aquilo que o movera era uma ficção, não a verdade de uma explicação, como imaginara no início. O que o romance chama, nessa altura, de “a verdadeira história”, é apenas a elucidação de que o mundo se move pela ficção. A reconstituição da história paterna, que não deixa de ser a procura do pai e de uma família, mostra-se, nesse desfecho, sob uma luz irônica, perturbadora, cabendo ao leitor saborear o grão amargo que denuncia a memória como maquinação, fábula, engenho, engano, ou ainda, como mentira. Não por acaso, já na primeira página de As mulheres de meu pai deparamo-nos coma seguinte pergunta: “Com quantas verdades se faz uma mentira?” A provocação borra os limites entre o que chamamos utilitariamente de verdade e mentira e, mais que isso, empresta a ambas o valor maior da ficcionalidade. E se, nesse mesmo gesto, traz para dentro da ficção o dado histórico e/ou biográfico, também questiona o valor da história como verdade. Tudo desaba e se refaz noutros moldes sob a força da “indecisão”.

E é aí que a escrita se ilumina como projeto ético e político.
A cada livro, Agualusa como que reafirma e define com maior nitidez e capacidade de fabulação o que chamei de projeto: distante dos mitos raciais, da xenofobia, da intolerância, do par vencedor/vencido, a escrita reivindica para a história a multiplicidade, a contradição, as significações cambiantes e a disponibilidade imaginativa que definem a literatura. Em Nação Crioula, O ano em Zumbi tomou o Rio, O vendedor de passados, Manual prático de levitação e agora em As mulheres do meu pai deparamo-nos com a idéia de que a história é também ficção, que todos nós somos igualmente invenção e que, sendo assim, é possível escrevermos nossas vidas de maneira livre e libertadora. Não há dúvida de que Agualusa está sempre às voltas com o “tema” da memória (questão, de resto, fundamental num processo de escrita da história através da ficção), mas é fundamental registrar, igualmente que Agualusa põe em cheque os estatutos da literatura e do registro histórico, daí resultando, de saída, a dissolução do fato e, por outro lado, a abertura do ficcional à dimensão histórica. E, ainda, o acontecimento como verdade e a memória como instância abonadora são objetos preferenciais da ironia do autor, que desqualifica toda e qualquer ilusão. A memória surge, então, como metáfora, não como verdade a ser reconstituída.

Nesse processo de desqualificação das ilusões, o que mais me chama atenção e emociona em As mulheres do meu pai é que neste romance está superada o que se poderia chamar de concepção psicológica da cultura. Explico: para esta, relações culturais e políticas explicam-se em termos psíquicos, por mecanismos individuais e universais. Sob tal visão, Portugal é pai do Brasil. Definindo-se a história nesses termos, temos aí uma relação de autoridade, de carinho, e, por outro lado, um desejo de negação, ou de superação movido por uma espécie de impulso parricida. Em ambos os casos, relações de independência e de igualdade seriam impossíveis. E, decerto, enquanto a cultura e a política forem compreendidas em termos psicológicos, continuaremos limitados ao trauma e às suas conseqüências, e sejam estas a imobilidade ou o desejo de saltar por sobre ela, permanece o trauma como princípio de tudo. Sob o ponto de vista psicológico da cultura, a África, por exemplo, é a “mama” África, e as necessárias relações políticas entre Estados limitar-se-ão a gestos circunscritos ao âmbito edipiano: amamos a África? Esquecemos a África? Libertamo-nos da África? Crescemos e, portanto, a África não nos interessa mais? Qual é , de fato, a nossa dívida com a África? Temos obrigação moral de amar a África? Ora, tais perguntas, no âmbito da política, simplesmente não fazem sentido. A maturidade política exige relações baseadas em interesses comuns, tendo por base o direito, a justiça, a economia, e não uma vaga fantasmagoria que funde afeto, culpa, piedade e mágoa.

Neste novo romance de Agualusa, a procura pelo pai, e pela família, acaba desembocando numa grande ironia, numa espécie de abandono. A figura do grande civilizador – pai dos povos – é jogada ao chão como um ídolo frágil, que já não serve para manter nossa ilusões de há uma origem a nos resguardar.

Por fim, registro a presença do erotismo no romance. Recuperando uma linhagem aberta por Jorge Amado, na qual pode-se ver uma espécie de elogio antropológico do sexo, a obra de Agualusa – não só o seu último romance – move-se longe da culpa e do moralismo das ideologias de direita ou de esquerda, bem como do puritanismo religioso ou da frigidez pseudo-intelectual. O sexo aparece livre, e no âmbito do que chamei de projeto ético-político, pode ser entendido na sua dimensão civilizatória e libertadora, pois é ele que está na origem da miscigenação.

Sem os gestual fraco da didática ideológica ou estética, As mulheres de meu pai, como os outros livros de Eduardo Agualusa, tem uma clara dimensão pedagógica. Há que aprender com ele sobre nós mesmos, homens de agora, quando sairemos de sua leitura mais maduros e mais livres.

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Hermano Vianna
 

oi Eucanaã: bem-vindo ao Overmundo - não sei se você viu este meu texto sobre o Miguel Gullander - bom abrir o Overmundo para a literatura de outros cantos do mundo da língua portuguesa! abraços!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 17/8/2007 00:37
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hugemess
 

salut Eucanãa, bacana sua matéria, não conhecia Overmundo. O livro de Agualusa foi um dos que participaram do Laboratório de Roteiros do Festival CINEPORT em J.Pessoa, que ajudei a organizar, o li em manuscrito e adorei, realmente muito original. bjHugo

hugemess · Rio de Janeiro, RJ 18/8/2007 18:01
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
juliana jabor
 

que resenha boa! fiquei com muita vontade de ler o livro. sua resenha está participando dessa "instância produtora de linguagens", ainda mais quando inscrita no overblog.

juliana jabor · Portugal , WW 19/8/2007 09:35
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir

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