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SOBRE ÉTICA E OUTROS BICHOS

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Bia Marques · Campo Grande, MS
7/10/2006 · 87 · 11
 

(ou simples desabafo de mãe)

Tenho um compromisso com meu filho desde que soube dele em mim, prometi ser sincera, sempre.
Mais de uma década se passou e mantenho minha palavra. Não houve até aqui pergunta dele que me recusasse a responder, todo pensamento que me ocorreu e considerei relevante lhe foi comunicado. Às vezes ele me diz que falo demais, sobre muita coisa... Prefiro morrer de qualquer excesso a me arrepender de qualquer falta.
Ao longo desses anos falamos de tantos assuntos quantos surgiram em nosso cotidiano, de política a geografia, de futebol a coerência, nada passou em branco.
Nesses tempos de campanha eleitoral falamos também dessa coisa que é ser político. Do fato de eu me recusar a votar em gente que não me inspira nem confiança nem ideologia, gente pra quem ética é mais uma palavra bacana do dicionário pra se aplicar em discursos e promessas...
Tivemos nos últimos dois anos problemas com escolas. Questionei a qualidade do ensino e a capacidade de professores diante dos conteúdos e situações que vinham a cada aula. Mudamos de colégio esse ano, persisti nos questionamentos em prol de uma educação qualitativa. Me estarrece ver professoras graduadas (sim, com curso superior no currículo) que escrevem e falam errado.
Há coisa de duas semanas a criatura chega da escola e me diz:
“Mãe, você tem que escrever uma redação.”
No meio da rotina, pedi que não me deixasse esquecer.
E por duas ou três vezes o pequeno me lembrou.
Na véspera da data final de entrega ele me intima:
“Mãe, você tem que escrever, é um concurso e o primeiro lugar vale uma viagem para Porto Seguro!”
Peço o tema e esse garoto (outro dia um cisquinho de gente) me mostra cheio de ânimo:
A Incentivo à Leitura no Enriquecimento da Cultura.
Começo a escrever... Primeira versão, 28 linhas.
“Mas, mãe, tem que ter 15 linhas...” me diz acabrunhado.
Reescrevo mais duas vezes até atingir o limite imposto pela folha impressa da escola.
Satisfeito ele leva o rascunho e o texto final.
Dias depois, um sábado (30 de setembro de 2006 mais exatamente) sigo com o pequeno pra escola.
É a VII Mostra Cultural.
Cada turma apresenta sua pesquisa, falam de artes (a bárbara Lídia Baís), de inclusão social, matemática, influências dos imigrantes na cultura regional... Visito todas as salas, me emociono ao ver o moleque apresentando seu saber, fotografo, aplaudo. Coisa de mãe.
No intervalo já me incomodo. Enfrento um fila lascada pra comprar sucos na cantina e vejo um monte de meninos quase da mesma idade do meu querendo furar a fila. Implicante, argumento da injustiça disso, da falta de respeito com todos que pacientemente aguardam sua vez e por aí vai. Coisa de quem não se conforma com a práxis da desonestidade, com o fato de cada vez mais ser comum e pacífico prejudicar o outro em benefício próprio.
Chega o momento final.
Tinha saído do prédio da escola para fumar um cigarro. Volto e o filho está agitado me chamando e dizendo que a premiação do concurso de redação será anunciada. Acalmo o bichinho e me sento para ouvir. Terceiro lugar para uma aluna da 5ª série, segundo lugar para outro. Confesso que não imaginava ganhar, nunca fui boa em concursos, sorteios e que tais. Primeiro lugar, dizem o nome do meu filho que se levanta sob aplausos e emocionado me chama para receber com ele o prêmio. O menino chora de emoção, meu olho se enche de lágrimas ao ver tanta intensidade num ser tão jovem, meu filho. Ganho uma camiseta e uma assinatura mensal da Folha, ele recebe um pequeno envelope.
Serenadas as emoções, recebidos os cumprimentos, saímos felizes pra casa e a criança abre o envelope. Um pequeno pedaço de papel diz que ele tem direito a um ingresso de cinema e um lanche da MC Donalds, entre surpreso e atordoado ele me diz que deve ser um prêmio a mais. Procuro acalmá-lo dizendo que ao chegarmos em casa ele pode telefonar à escola e esclarecer o ocorrido.
Ele telefona e a professora responsável pela Mostra lhe diz que falará com ele na terça-feira.
Hoje quando cheguei do trabalho encontrei o filhote dormindo.
Quando acordou perguntei como tinha sido a conversa com a professora.
Ela lhe disse que a viagem era brincadeira.
Passei a tarde pensando em que atitude tomar.
A avó é advogada, daquelas que dá o boi pra não entrar na briga e a boiada pra não sair. Me pergunta mil coisas, telefona para um colega, quer reunir provas e testemunhas.
Eu quero apenas registrar a que ponto chegamos.
Na escola que me foi tão recomendada ensinaram a meu filho o que é ser enganado, que é comum ser ludibriado, ensinaram que promessas são feitas apenas no calor da hora e seu cumprimento não é, de forma alguma, conseqüência...
E se é isso que a escola de hoje tem a ensinar não cabe mais defender a cultura e sua importância, o respeito e a ética.
Era desse mundo que eu tinha medo quando ainda jovem afirmava que não teria filhos. É nesse mundo que, a despeito dos métodos anticoncepcionais, meu filho nasceu e cresce.
Noite adentro me pergunto como é que vai ser a vida dessa criaturinha se na instituição onde aprendi a escrever e gostar de ler ele aprende tudo que menos prezo na sociedade que temos....

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Sofia Amorim
 

Bia:
Adorei o seu texto! Traz uma questão muito importante, que tem mexido muito com todos aqueles que ainda se preocupam com a ética.
Sou professora e fiquei intrigada com o que vc diz. Talvez não haja escolas perfeitas, nem mestres perfeitos. Existem aqueles lugares em que há uma busca maior. Mesmo assim, acho que seria importante pontuar tal questão na escola. Se formos bem honestos, as escolas particulares, por mais excelente que sejam, educam por dinheiro. Isso já é um problema, pois é um direito que temos. Algumas não fazem somente por isso, talvez nessas, vc possa encontrar algo além de "mentirinhas bobas", algo que já demonstra a falta de compromisso ético.

Sofia Amorim · Ribeirão Preto, SP 4/10/2006 13:08
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Bia Marques
 

Tenho pontuado incessantemente Sofia, sou a famosa "mãe chata", que liga, vai, pergunta tudo, quer saber mais... O caso é que agora me pergunto onde estão as escolas que educam?

Bia Marques · Campo Grande, MS 4/10/2006 16:18
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Sofia Amorim
 

Bia, eu concordo com a sua pergunta: Aonde estão as escolas que educam? Mas acho que podemos adicionar: aonde estão as pessoas que educam, a mídia, os livros, a net, etc. O mundo não parece ser um lugar muito educativo dependendo do olhar que tivermos.
É realmente uma tarefa árdua encontrar lugares que educam - mas eu ainda tenho alguma fé de que eles existam. Principalmente, porque se temos filhos queremos que eles sejam transformadores nesse mundo e não meros passageiros.
Você já ouviu falar em Educação em Valores Humanos? Acho que talvz goste das propostas e, se tiver alguma escola com esse trabalho, também goste da escola.

Sofia Amorim · Ribeirão Preto, SP 6/10/2006 01:40
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Rangel Castilho
 

Bia, estamos todos no mesmo campo de trigo. O que nos cabe é fornecer informação suficiente a nossos filhos, amigos, enfim, aos que fazem parte de nosso círculo de afeto, que saibam colher, armazenar, distribuir, e, mais do que isso, usufruir do bem comum que é esse nosso mundo!!
Gostei!!
Parabéns!!

Rangel Castilho · Anastácio, MS 9/10/2006 11:21
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Bia Amorim
 

Foi o melhor texto que li até agora aqui, me sinto exatamente na mesma situação que você, mas alguns passos atrás, pois meu filho ainda tem 9 meses. mas a questão é, quando chegar a hora de leva-lo a uma escola, será que ainda existem escolas que superem nossas expectativas, ensinando não só a ler e a escrever, mas completando e até melhorando a educação recebida em casa, dando um "toque" de valores humanos e verdade?
Eu só saberei quando a hora chegar e quanto a você, boa sorte e que seu filho saiba superar essa mentira ridícula e seja um ser humano maravilhoso.

Bia Amorim · Ribeirão Preto, SP 9/10/2006 15:41
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Zé Neto
 

É Bia Marques!Que bom ter pessoas em alerta como vc,isso faz falta numa sociedade que engole a palo seco injustiças e falcatruas!Lutar pelo o que é correto,ético e necessário nunca será exagero e sim ato de extrema sensatez e consciencia humana.

Zé Neto · Campo Grande, MS 27/10/2006 22:50
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Bia Marques
 

Briga feia num mundo sem educação. Me sinto feito cachorro correndo atrás do rabo, quando alcança, dói....

Bia Marques · Campo Grande, MS 28/10/2006 05:11
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sandra vi
 

ô minha flor, lamento, mas acho que ainda vamos sofrer muito por esses e outros motivos mais ou menos parecidos, o gui já levou muita lambada por não admitir coisas desse tipo, e nas escolas em que estudou acabei batendo de frente com as professoras e diretoras, só para um exemplo - ele fez um trabalho sobre os estados da água, usou figuras dos ursos polares em pedaços de gelo desprendidos pelo efeito estufa para mostrar a passagem do sólido p/ o líquido, os rios para a evaporação, as nuvens que viram água e por aí... a profa. devolveu pois TINHA QUE SER COMO ELA PEDIU... com aquela estória de água fervendo na chaleira e á gua no congelador...
mas sabe, pagaremos esse preço, e seguiremos em frente que junto tem mais gente.

sandra vi · Petrópolis, RJ 12/11/2006 20:20
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Bia Marques
 

Avante mulher, bom ter notícias da tua presença no mundo!

Bia Marques · Campo Grande, MS 13/11/2006 09:26
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Márcia  Rita
 

Bia, muitas mães têm passado por situações semalhantes e revoltantes como a que você descreve. As escolas assumiram o "comodo" discurso de que as famílias não contribuem com ela, mas ela, a escola, tem contribuído, e muito para andar na contramão daquilo que temos nos esforçado a ensinar aos nossos filhos. Eu, realmente me sinto envergonhada.

Márcia Rita · Campo Grande, MS 28/4/2007 22:33
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Bia Marques
 

Salve Mestra, que bom você por aqui! Penso que enquanto houver quem reaja e se indigne e não cale, ainda há esperança, pois não? Abraço

Bia Marques · Campo Grande, MS 29/4/2007 10:13
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