Sobre Maria

Kiko Neto
Maria Escandalosa deixando del Rei
1
Marcus Assunção · São João del Rei, MG
5/3/2007 · 253 · 19
 

Antes da partida, num vagão vazio, sonolento da noite de farra anterior, escuto as marchinhas de carnaval reproduzidas pelos alto-falantes da estação. Hoje começa o carnaval, hoje finalmente chega a “turma do funil”. Ansioso de carnaval e trem, acompanho os turistas retardatários, que nesta sexta vêm em pouco número e apresentam um sorriso de leve assombro no rosto.


O trem se prepara para a partida. Tocam-se as sinetas. O apito da Maria Fumaça. Sinetas. O despertar de Maria. As marchinhas continuam tocando nos alto-falantes enquanto saímos da estação, o sol ilumina os bancos dos vagões. A rua de cidade corre ao lado, ao longo da longa rua que corre ao lado da estação uma mãe carrega uma criança. Dois comissários de bordo aparecem e pedem minha passagem. Apito do trem. A cidade vem no lombo do trem. Num cruzamento, os carros esperam que a locomotiva passe. Apito. Os vagões balouçam. Um homem de fisionomia estranha pára numa esquina e observa a máquina com nome de mulher, como em outras milhares de vezes. Parece a primeira. Ponte urbana de ferro. Sobre ela, já cantei bêbado certa madrugada. Apito demorado, Maria Fumaça, Maria. “Danceteria Caminho do Trem”, lugar de forró e de morenas tímidas. Que se derretem por muito pouco. Atravessamos o bairro do Matosinhos, trânsito novamente parado. Aceno para trabalhadores e não pareço ridículo. A máquina, aqui, é um elo de ligação, não de afastamento. Apito, sinetas. Vamos deixando São João del Rei.


Uma moça entra em meu vagão vazio com uma bandeja de cocadas. Obrigado, já estou saciado de doçura. Vamos deixando São João del Rei. Já. Rio cheio de chuva. Sítios esparsos. Cavalos comendo grama. Garotos à beira do rio cheio acenam. Aceno de volta. Uma pena que seja “proibido viajar na plataforma”. Começo a entender a fascinação do mineiro pelo trem. Natureza dos dois lados horizontais. Vaquinhas ao sol mascando clichês. Tremula belíssimo campo de girassóis. Um Corcel branco debaixo de árvore não abriga casal clandestino. Longo trecho sem apitos. Pequena igreja sulcada nas pedras no sopé de montanha. Apito longo saúda o mundo. Atrevo-me a andar pelo vagão, desisto. Milharais. Delineia-se a serra de São José, aquela que conforta Tiradentes e um casal de cinéfilos que não se conhecem de noite anterior. Maria se insinua, e eu lembro de uma Maria, do corpo sobre uma pia de carnaval, eu já sou outro, todos já somos outros, e como isso nos conforta. “Proibido Pescar”. Apito, fumaça. Trabalhadores surrados deixam de ser trabalhadores para se verem crianças no trem.


Mundo.


A serra de São José nos acompanha. Trem. Montanha. 10.38. Ponte de ferro sobre rio revolto, aquele das mortes. Borboletas. Vamos entrando em Tiradentes, cidade chaveiro. Prefiro as cidades que não cabem dentro de um bolso. No vagão em frente, a moça das cocadas com pano branco enrolado na cabeça conversa com um dos comissários de bordo. Magnífica paisagem de levantar vôo dos pássaros sobre campos inundados. As crianças de Tiradentes nos recebem com novos acenos, um garoto está com tridente e chifres. Era, é carnaval. Apito, aí vem Maria. Casas com hortas, cachorros. O maquinista capricha nesta chegada. Sinetas, pracinha. Charretes esperam os turistas. Estação, onde está a estação. Curva. A estação chega, e pára devagar. Fim? A moça das cocadas sorri. Desce do vagão da frente, também vazio. Fala “é tão gostoso que não dá vontade de sair mais do trem, não”. Falou pra mim?, talvez se chame Maria, talvez falou para o senhor que vende postais. Desço. Passo pelas charretes, pelos trilhos. Entro em Tiradentes a pé, querendo pensar em trens que me atormentam. Na volta, é certo: falarei com Maria de Maria.

(As fotos que ilustram o texto são do fotógrafo sanjoanense Kiko Neto. Confira o trabalho dele em www.olhares.com/kikoneto. Vale a pena também uma visita em São João del Rei ao museu localizado na própria estação, que conta a história da origem do transporte sobre trilhos e conta com instrumentos como relógios, alicates de porcelana para troca de fusíveis, injetores de água de locomotiva a vapor, máquinas impressoras de bilhetes, monômetros, telégrafos, etc, além da locomotiva Baldwin 4.4.0, fabricada em 1880 na Filadélfia, Estados Unidos, que transportou D. Pedro II e sua comitiva à São João Del Rei para a inauguração da Ferrovia Oeste de Minas, em 28/08/1881. O museu possui também reproduções de jornais antigos relatando a chegada das ferrovias em Minas. Preço das passagens: inteira ida - 15 reais; inteira ida e volta - 25 reais. Funciona sextas, sábados, domingos e feriados).

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Sergio Rosa
 

Dê um espaço entre os parágrafos. Fica mais fácil de ler.

abcs

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 3/3/2007 19:30
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Bia Marques
 

ai que essa paisagem com o som do trem no trilho me faz uma falta de infância...

Bia Marques · Campo Grande, MS 4/3/2007 04:05
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Higor Assis
 

Esta aqui na minha cabeça tudo guardado, viajei junto ao texto e me senti no vagão ao lado, valeu Marcos!!!

Higor Assis · São Paulo, SP 7/3/2007 14:40
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markinho
 

valeu marcos que fotos,que viagem,que poesia
abraços
markinho

markinho · São Luís, MA 7/3/2007 15:37
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Luli
 

Nossa que delícia relembrar!
Minas é um encanto atrás do outro e esta viagem ..é muito legal!

Amo São joão Del Rei.

O texto muito bem escrito, e faz agente viajar nesta Maria Fumaça,
parece até que escuto aquele apito, aquele sonzinho....

Luli · Vitória, ES 7/3/2007 21:53
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Sergio Rosa
 

O que quer dizer "cidade chaveiro"? Rola uma rixa sjdr x tiradentes? pq?

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 7/3/2007 21:58
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Zéduardo Calegari Paulino
 

Eu quero Maria!

Zéduardo Calegari Paulino · Campo Grande, MS 7/3/2007 22:01
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Felipe Obrer
 

Bom... vejo que o autor deixou a colaboração órfã, mas mesmo assim digo ao vento: que o trem, ainda que seja movido a fumaça, apareça mais e transite o overmundo... texto muito bom!
Abraços.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 8/3/2007 08:07
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Marcus Assunção
 

obrigado, galera. Sérgio, rola uma rixa sim, Tiradentes, cidade-cenário, cidade-chaveiro, cidade-souvenir, anda pegando todos nossos turistas. Mas como mesmo disse um australiano ontem no bar, prefiro muito mais minha del Rei "anti-turística", com sua arquitetura verdadeira, com sua gente que pensa e vive e não apenas vende lembrancinhas, distinta da fake Tiradentes para agradar turistas preguiçosos. Na verdade, é covardia e perda de tempo comparar as duas cidades, até porque são complementares. Falando nisso, escrevi um texto para o Overmundo sobre a arquitetura sanjoanense, entrará em breve no ar, conto com a leitura de todos vcs! Abração.

Marcus Assunção · São João del Rei, MG 8/3/2007 08:31
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André Gonçalves
 

já fiz essa viagem. é mesmo linda!

André Gonçalves · Teresina, PI 8/3/2007 09:05
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Fanny
 

Gostei demais! O texto é tão lindo quanto as fotos. Que saudades!

Fanny · Rio de Janeiro, RJ 8/3/2007 10:11
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Sergio Rosa
 

Mas é "fake" por que? Ela foi reconstruída? A arquitetura de Tiradentes não é contemporânea da de sjdr?

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 8/3/2007 10:56
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Ana Cullen
 

Sérgio, acho que ele quis dizer da mitificação para o turismo, mas adorei seu comentário! Entendo a mágoa que se tem com o que o turismo provoca, mas acredito que é assim mesmo que funciona, não dá para manter-se intacta a cultura (a arquitetura está inserida nesse conceito), ela é orgânica e como tal, vive se transformando.
Lindo texto e lindas fotos, Marcus.
Abraços!

Ana Cullen · Brasília, DF 8/3/2007 15:53
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Regis Andrade
 

nunca andei de trem, mas deu pra viajar um pouco.

Regis Andrade · Fortaleza, CE 8/3/2007 20:17
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Marcus Assunção
 

Sérgio, muitas casas foram remodeladas, eram modernas e voltaram a coloniais, então vc tem a impressão de estar mesmo num cenário: o único objetivo da cidade é manter o turista no filme. Aliás, vou parando com essas comparações por aqui, pois estamos falando de cidades completamente diferentes em tamanho, população e importância histórica. Sorte que a região tem as duas, e eu adoro dar as caras em Tira. Ana, sobre o que vc falou, tem razão, tomara que vc leia meu texto sobre arquitetura, acho que vai gostar. Abraços.

Marcus Assunção · São João del Rei, MG 9/3/2007 13:49
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Sergio Rosa
 

Saquei agora. Não sabia que algumas casas tinham sido reconstruídas nos moldes coloniais. Realmente, em alguns momentos a cidade dá a impressão de ser um cenário de filme. Tudo excessivamente no lugar e cor e luz certa. Mas você tem razão, é bom que sjdr e tiradentes sejam próximas e diferentes.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 9/3/2007 15:55
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Ana Cullen
 

Que texto Marcus? Fui procurar no seu perfil e não tem nada novo, sobre arquitetura...
Quando você publicar deixa um recado aqui avisando? Adoro esse assunto!
Abraços!

Ana Cullen · Brasília, DF 14/3/2007 13:31
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Antonio Rezende
 

Já fiz o passeio, olhos arregalados como um menino, até mesmo acenando às pessoas pelo caminho, todo espanto e alegria. Mas viajei com você, Marcus, mergulhando no texto.

Eu sei. A colaboração é de março e só agora eu apareço. Explico: acabo de editar uma dica de passeio sobre a Gruta REI DO MATO e peguei uma seqüência de outras dicas naquela janelinha lateral que aparece no site.

Gostei das fotos em caprichado preto e branco, bem ao modo dos velhos tempos.

Não podia deixar de registrar: vi uma daquelas esfinges gigantescas na segunda foto menor; ela stá à direita da imagem, ao lado dos trilhos, e lembra uma cabeça humana um pouco disforme encarando a estação.

Thuuuuuuuuu!!!

Antonio Rezende · Palmas, TO 3/1/2008 19:46
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Antonio Rezende
 

Ah. Fiz recentemente o passeio de Ouro Preto a Mariana, também muito bacana por conta da paisagem. A Maria é mais modernosa e não tem a graça da que parte de São João Del Rei, de bitolinha estreita e sacolejante.

Thiuiiiiiiiiiiiii!!!

Antonio Rezende · Palmas, TO 3/1/2008 19:49
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