sobre música para baixar e o ataque de zeroquatro:

divulgação
fred zeroquatro
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jean mafra 2 · Florianópolis, SC
28/9/2009 · 31 · 25
 

fred zeroquatro foi um dos meus heróis. de certo modo, na verdade. a questão é que, mesmo sendo fã de sua música, sempre me senti mais atraído pela criatividade ensolarada de chico science que pela sisudez e o panfletarismo do líder da munda livre s.a.. embora seja seu admirador, o fato do vocalista vir se colocando publicamente contra o movimento/fórum mpb (que ele chama irônica e/ou preconceituosamente de "música demo para baixar") em entrevistas (aqui, por exemplo), diz mais a respeito de sua postura combativa que sobre os fatos atacados por ele...

quando, em 2000, lançam por pouco por uma gravadora emblemática do sistema falido de indústria fonográfica que, de certo modo, ajudou a (praticamente) inviabilizar o comércio de música no brasil, a abril music, o mundo livre poderia perfeitamente ser classificado como um grupo que remava contra a maré daquele modelo (por, dentre outras coisas, sua postura irônica — chegaram a contratar modelos para aparecer em clipes, já que eles eram, são ainda, muito feios). quase 10 anos depois as coisas estão muito diferentes, mas o líder da banda continua na contra corrente e, aparentemente, com saudade do triste período em que a abril dominava o mercado com investimentos pesados (jabá?) — é de responsabilidade da gravadora o êxito exemplar de anna júlia (para ficarmos com apenas um irônico caso). se três anos depois a empresa faliria, isso se deu, certamente, menos por causa da pirataria, como afirmaram seus dirigentes então, mas mais pelo modelo de negócio auto-destrutivo em que se investia desproporcionalmente mais no departamento de marketing que na (produção da) música. é contra esse tipo de atitude que se coloca o mpb, movimento de artistas e produtores e ativistas e ouvintes de música que se unem em torno não da ideia de destruir as gravadoras, mas de construir possibilidades novas para um mercado que já está aos frangalhos.

a fala de fred zeroquatro é lúcida em alguns pontos e coloca algumas questões pertinentes, como a da dificuldade se manter a cadeia produtiva da música (e falo isso de dentro do sistema, pois sou um artista que atualmente finaliza um disco cujos custos ultrapassam 15 mil reais — um valor médio para o mercado profissional). o problema é que ela, sua afirmação, esconde certas informações também. como a de que foi fora de uma gravadora que a banda passou a circular pelo país no período em que lançaram manoela do rosário e bêbado groove (em 2004/05/06 — nessa época cheguei a dividir o palco com a banda em duas ocasiões — a samambaia sound club abriu dois shows do mundo livre s.a. aqui em florianópolis). embora não devamos ser ingênuos, pois não dá para negar que isso se deu pelo grupo já ter um público formado no período em que estiveram em gravadora(s) — que lhes garantiam exposição nos grandes meios midiáticos, é preciso estar atento para o que escapa ao atual discurso de zeroquatro: primeiro, que ele serve de defesa do modelo condenável de indústria (que exclui qualquer chance de democratização dos meios à grande maioria dos artistas), e segundo, que nos três anos citados acima o mundo livre conseguiu atingir uma nova audiência e pode perceber que existe um circuito independente no brasil ainda em formação. é justamente para que esse circuito se solidifique e se transforme em alternativa consistente ao atual modelo que surgem iniciativas como o mpb. não para demonizar gravadoras (para usar um termo do músico), mas para propor algo novo. o que não dá é para continuar como está.

descriminalizar o download gratuito não é a única bandeira levantada por quem está se engajando nesse movimento (que ainda engatinha). um dos pontos centrais na conversa desta segunda-feira, dia 21, no bate-papo que ocorreu aqui foi justamente o de como viabilizar um circuito de shows e de distribuição de música brasil afora (muitos esforços nessa direção vem sendo feitos pelas mais diferentes iniciativas: circuito fora do eixo, conexão vivo, abrafin, mpb). até porque o mercado de vendas de cds, lps, dvds, é uma realidade que não morreu, nem morrerá. o caminho para um artista hoje é viabilizar seu trabalho no máximo de formatos que lhe seja possível para, assim, atingir o maior número de pessoas (o download gratuito é só uma possibilidade — e o que é inegável: se o dono da obra não o fizer, outro fará). ninguém no mpb disse que não se deve mais pagar pela música. um dos pontos discutidos é de que modo se poderá agregar valor a esse produto (porque a música também o é) para que ele se torne atraente a quem pode hoje ter uma faixa com apenas um clique (uma pergunta útil: e antes, quando para se ter uma música era preciso comprar um disco com 11 outras?).

voltando a zeroquatro: seu comentário sobre o mpb é reflexo de quem, de certo modo, está perdido e pensa que o melhor caminho é a volta de um modelo que, felizmente, não tem volta... não condeno o autor, pois acredito que ele poderá se juntar aos que pretendem construir alternativas. agora, lamento sua afirmação, que o download gratuito favoreça artistas "absolutamente medíocres, que não tem a menor chance de ser descoberto por gravadoras", pois isso acaba encobrindo o fato de que durante anos as grandes gravadoras investiram em artistas absolutamente medíocres mas que lhes rendiam algum dinheiro. sinceramente, acho louvável que uma empresa que viva de música contrate um artista, arque com os custo da gravação de sua música e depois a venda, mas desde que isso seja feito de maneira a não prejudicar ninguém. não é o que vem acontecendo no brasil desde meados da década de 70 (em música, ídolos e poder — do vinil ao download andré midani aponta, de dentro da indústria fonográfica, algumas destas mudanças de cenário...). fred zeroquatro continua a ser um dos meus heróis, pois mesmo com toda sua sisudez e panfletarismo ele sabe disso.

____________________

por fim:
é preciso lembrar que o mercado de música no brasil é muito complexo, que vivemos no terceiro mundo e que existem circuitos independentes já sedimentados por aqui. exemplo: o carnaval baiano, o mercado de música gauchesca e o êxito nacional e internacional da maior banda independente deste país, o calypso!!!

o download gratuito é crime? e o jabáculê?

leitura interessante: aqui.

ah, e lily allen é uma boboca (mas é uma gracinha)...

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jean mafra 2
 

amigos,
esse texto foi disponibilizado por mim, inicialmente em meu blog (jean mafra em minúsculas). sou um dos artistas envolvidos com o mpb e, de certo modo, sou um dos represetantes do movimento aqui em santa catarina. os convido a participar da discussão, pois é através dela que construiremos o futuro da comercialização da música no brasil.

desde já, obrigado,
mafra.

jean mafra 2 · Florianópolis, SC 28/9/2009 19:00
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Adroaldo Bauer
 

Disponibilizar pela rede seja o que for seja a quem queira aparece como idéia generosa. Ser contra isso desqualificando o criador e produto da criação de quem disponibilzia grátis não é apenas um erro de foco, de enfoque... é gosto por discussão estéril, assim como achar desde um ponto de vista estético alguém ou algo bonito...
Assim é, se lhe parece, dizem os membros da Ordem da Jarreteira.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 29/9/2009 11:05
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Roberto A
 

eu concordo com os pontos do fred.
o música pra baixar não tá com essa bola toda não.
não percebo articulação e nem foco.

por enquanto é apenas um sigla, e nem nisso é original.
MPB
fala sério...

Roberto A · Cuiabá, MT 29/9/2009 11:37
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Alex Real
 

esse assunto merece um debate mais profundo, há que se separar o joio do trigo, se por um lado a internet se torna inexoravelmente o melhor veículo de divulgação, em termos de custo benefício, por outro ela não permite um controle de qualidade, acredito que uma nova forma de divulgar e distribuir comercialmente conteúdos, sejam eles quais forem, será uma coisa híbrida entre o gratuíto e o pago, tem que se achar uma maneira de operacionalizar isso, acessível pra quem quer consumir e rentável pra quem produz...

parabens pelo artigo, muito bom

abraços

Alex Real · Florianópolis, SC 29/9/2009 14:25
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Roberto A
 

Aqui está o trecho onde (supostamente) fred ataca o MPB:


G1 - Existe alternativa?
Fred Zero Quatro - Posso até parecer pedante, mas antes isso do que a demagogia rasteira que está assolando o falso debate sobre o assunto. Ao contrário do que estão chamando de “movimento para baixar”, eu preferia apostar numa alternativa como o “movimento para pagar e baixar” ou “música para pagar e baixar”, ou ainda “música demo para baixar”, como acontece com os demos dos games que as empresas disponibilizam. Para ter acesso à versão profissional, tem de pagar.

Eu, pessolmente não vi ataque algum, vi sim, sugestões alternativas de como pagar pelas músicas.
Ou acha-se uma solução, ou a indústria da música vai pro saco, e consequentemente os artistas, produtores e músicos.

Roberto A · Cuiabá, MT 29/9/2009 18:01
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Roberto A
 

Jorge DuPeixe, cantor do Nação Zumbi, prega contra a internet em São Paulo...

http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL1317795-7085,00-LIBERAR+OU+NAO+O+DOWNLOAD+DILEMA+DO+MP+ILEGAL+VOLTA+A+TIRAR+O+SONO+DOS+ARTI.html

Roberto A · Cuiabá, MT 29/9/2009 18:25
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Roberto A
 

As duas virgulas no endereço acima, estragaram o link,
copie TODO o endereço e cole em teu navegador.

Roberto A · Cuiabá, MT 29/9/2009 18:27
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jean mafra 2
 

roberto,
não uso o termo "ataque" apenas por causa de uma entrevistas de zeroquatro, mas por causa da soma de algumas falas dele ao longo das últimas semanas. o músico, inclusive, se reportou depreciativamente ao "mpb" em conversas com alguns dos "ativistas" ligados ao projeto.

o convido a contribuir com articulação e foco ao "mpb", pois é disso que artistas precisam para mudar (pra melhor) o cenário da música no brasil.

quanto ao fato de você não gostar do título, mpb, não concordo contigo... aliás, acho que enfim se encontrou um uso razoável pra sigla.

(por fim, não me reportei a nação zumbi pois a banda não tem uma posição clara a respeito — sugiro que você pesquise mais sobre o assutno).

abraço,
mafra

jean mafra 2 · Florianópolis, SC 29/9/2009 21:43
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Roberto A
 

Eu tentei jean,, fui no 'pré lançamento' do mpb em cuiabá, onde vivo...
ficou nisso.

Já fui muito afins de fazer pela cultura. me enchi cara.
hoje torço por dias melhores...

Roberto A · Cuiabá, MT 30/9/2009 11:25
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capileh charbel
 

Não precisa chamar os cara de feios né, isso não é argumento.
Se o cara quizer disponibilizar porque não? O comércio de música e a sobrevivencia dos profissionais da música ainda está longe de ser decifrado.

capileh charbel · São Paulo, SP 30/9/2009 11:26
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eduardo ferreira
 

puxa vida, roberto auad, você tá parecendo uma criança mimada. finge que entende de tudo, não participa de nada, mete um cubo fora camiseta adentro, não vai a uma discussão, não faz nada e só sabe desarticular o que vem sendo feito.

garoto: já disse e repito: não existe essa receita que vc espera com bolo pronto e acabado. tem que fazer o bolo. e isso é todo dia. não espere milagre rapaz.

mpb incomoda muita gente. aqui em mato grosso não é diferente. qual é o foco? aumente a lente meu caro, abra os olhos, tente enxergar o futuro, é assim que trabalhamos, abrindo picadas nesse deserto de possibilidades, ou nessa selva de desarticulados e desarticuladores, tipo zero tipo A (positivo ou negativo)

vai lá numa palestra que faremos (bate-papo) dia 20 na escola técnica federal onde tem uma garotada querendo saber mais e provocando essa conversa que se desenrolando em vários espaços, se desdobrando, plantando aqui e ali e avançando, sempre.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 30/9/2009 12:46
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Roberto A
 

vem com essa nao cara.
apenas dei minha opiniao.
ve se me erra.

Roberto A · Cuiabá, MT 30/9/2009 14:37
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Roberto A
 

vem com essa nao cara.
apenas dei minha opiniao.

o que eu estou desarticulando meu peixe...dizae!
ve se me erra.

Roberto A · Cuiabá, MT 30/9/2009 14:38
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Denis Sen@
 

História viva!

Denis Sen@ · Salvador, BA 1/10/2009 02:22
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Adroaldo Bauer
 

Esterilidade de juízos é isso.
Pra pensar, todos somos livres.
Pra fazer, bem... aí aparecem as circunstâncias, os jabás, os interesses, as tribos e, até, o egoísmo de conduta.
- Sei tudo, sabes nada.
- Sou acerto, és errada.
Quando o pepino nasce torto,
desentorta só à faca.
O que algumas pessoas já trazem sempre à mão,
nem mais na bota ou nas bainhas.
Assim é que tudo embota e vira farinha.
Tô fora!

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 1/10/2009 10:53
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jean mafra 2
 

uau!!!!

calma, calma, meus amigos.

que tal sugestões construtivas?

bom, e quanto ao fato de dizer que eles são feios... foi uma piada, ok, de mau gosto, mas foi. a questão é que, irônicamente, a mesma indústria que eles questionvam (a mundo livre) ao contratar modelos pra fazer fotos em seus lugares é mesma que muitas vezes prefere investir em artistas MEDÍOCRES e LINDOS... mas ok, foi uma piada boba.

abraço.

jean mafra 2 · Florianópolis, SC 1/10/2009 15:04
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capileh charbel
 

eu sei meu bom, foi só pra engatar o assunto, tranquilo.

capileh charbel · São Paulo, SP 1/10/2009 15:26
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Roberto A
 

nego resolveu lavar roupa suja logo aqui.
básico.

não aceita-se críticas, tem que falar benção pra tudo, concordar sempre...

Roberto A · Cuiabá, MT 2/10/2009 10:09
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Roberto A
 

se a mpb incomoda ou não muita gente, pouco importa.
resultados sim importam...

Roberto A · Cuiabá, MT 2/10/2009 10:10
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Júlia Eleguida
 

gostaria de comentar sobre o que alex real falou sobre a internet, que neste meio não há controle de qualidade. e ao contrário do que falaste acho a internet maravilhosa por este fato.

a internet possibilita conhecer bandas dos mais variados lugares, e não preciso de ninguém que me dite o que bom ou ruim, o meu conceito estético eu posso apurar, me informando, lendo, ouvindo.

não preciso que o faustão, a mtv e o rick bonadio me falem o que é bom ou ruim. vou usar o exemplo do prêmio vmb, que ontem premiou vários bandas de um mesmo estilo musical, o emo. e é isso que a grande mídia vêm vendendo, um nicho, uma moda que dura um ano e depois acaba, pois precisa continuar vendendo. e já passamos pelo rock 80, o axé, o sertanejo, o funk, o pagode e agora o emo. cansei desta imposição, quero diversidade e possibilidade, que só encontro através da internet. infelizmente.

por isso acho crucial que as bandas que querem apresentar seu som, o que estão produzindo e não encontram espaço neste master mídia - que é um verdadeiro funil, ou melhor uma roleta russa, nunca se sabe qual será a próxima aposta publicitária - se organizem para que possam apresentar seu trabalho, para que consigam mostrar suas músicas em lugares diferentes. e isto funciona mais ou menos assim, eu conheço o fulano do acre e o convido para abrir um show aqui em santa, aqui eu tenho público, as pessoas conhecem o trabalho dos caras e depois a banda daqui vai para o acre se apresentar.

só que para isso precisa grana, e não temos uma gravadora investindo grana a rodo, não somos filhos de ninguém, por isso neguinho tem que rebolar, se organizar, colar cartaz, fazer o show, divulgar, conquistar um público, e quando isso rola com um pouco de organização, com um pessoal que cria uma corrente, tem mais chances de funcionar.

este é ao meu ver, um dos objetivos do música para baixar, formar uma corrente, para que não precise ficar na dependência de um empresário, de uma gravadora ou da próxima onda, que se possa construir a onda!

Júlia Eleguida · Florianópolis, SC 2/10/2009 18:17
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capileh charbel
 

isso isso isso Julia, o incrivel deste "causo" é que o própio VMB ( e a MTV) tem incriveis méritos e desméritos. (mérito ainda tem acento?). Mas a opção é totalmente do artista/compositor.
As ferramentas estão ai.Gostei do "rebolar". rererere.
Alguem ai disse que Kalipso (?) é a maior banda independente.
Vamo lá meu povo.A sorte sempre está lançada.

capileh charbel · São Paulo, SP 2/10/2009 18:45
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capileh charbel
 

corrigindo. Júlia. com acento.

capileh charbel · São Paulo, SP 2/10/2009 18:46
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Alex Real
 

Concordo contigo Júlia, quando falei da falta de controle de qualidade na internet, falei de uma maneira geral, não especificamente de algum conteúdo, ela, se bem utilizada poderia ser a saída, não resta dúvida, mas da forma como vem sendo feito não vai a lugar nehum

Alex Real · Florianópolis, SC 2/10/2009 20:14
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jean mafra 2
 

ôpa, dona júlia,
que bom vê-la colocando a discussão nos eixos!

valeu.

jean mafra 2 · Florianópolis, SC 4/10/2009 17:05
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eduardo ferreira
 

quero a luz e a lucidez da júlia. ponto.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 4/10/2009 19:53
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