As escolhas dos jornalistas dizem muito sobre seu caráter, as decisões desde qual fonte ouvir até qual o enfoque da matéria. Com base nisso o repórter Cristiano Navarro fez sua escolha: defender os direitos dos índios e reportar suas lutas.
“Os pistoleiros vieram gritando, pararam e desceram da caminhonete bem ali. Depois pegaram um galão de gasolina e botaram fogo em tudo, moço. Daí saíram dando tiros para todos lados. Então acertaram meu filho, que caiu logo ali. E você sabe como ele morreu? Assim de joelhos, pedindo para não morrer”. Quem ouviu este relato foi o jornalista Cristiano Navarro. “Naquele dia, em uma aldeia no interior do Maranhão, o depoimento da testemunha, um velho índio de mais de noventa anos, cego de um dos olhos e pai do cacique Guajajara, João Araújo, me ensinou algo definitivo sobre o jornalismo: a prioridade das fontes fala muito sobre o caráter do repórter. No lugar onde o ancião apontou, o líder Maruzan Camoraí ainda me revelou os vestígios da violência. 'Este é o sangue que nosso parente derramou lutando pela terra'”.
Esta foi a história que marcou a carreira do santista, que há quatro anos trabalha com a causa indígena. Ela foi usada pelo Ministério Público como acusação contra o Estado brasileiro na Organização dos Estados Americanos . “Imagine que três dias antes, a própria vítima havia denunciado à polícia e aos meios de comunicação que vinha sendo ameaçada de morte por capangas de um fazendeiro, que é político e invasor de suas terras. Entretanto, com a morte de Araújo, a primeira coisa que imprensa e policiais fizeram foram transformar as vítimas em criminosos. Então me pergunto: de que ponto e vista devo contar esta história e tantas outras semelhantes”.
Trabalhar com a causa indígena exige um engajamento maior porque implica visitar aldeias que ficam isoladas das grandes cidades. Navarro mudou de cidade e trabalha no Conselho Indigenista Missionário, o CIMI. “O impacto da mudança é grande porque os índios têm uma forma de pensar o mundo completamente diferente. A sua percepção como jornalista muda em contato com eles. É uma questão que ultrapassa o entendimento, exige sentimento”.
Não há muitos profissionais de imprensa trabalhando com índios. “Nos três primeiros anos, era editor do Poranti, eu fiquei muito preocupado com o fato de ser conhecido como o ‘Cristiano dos índios’. Agora penso que não há nada errado em ter um estigma que me identifique porque eu acredito nesta causa, eu trabalho para mudar alguma coisa”.
Espaço
O repórter é contundente ao afirmar que o jornalismo que faz não tem espaço nos grandes meios de comunicação. “Não é interessante que se paute a causa indígena para as empresas, que são anunciantes. Eu faço matérias que não têm grande circulação. Uso a Internet para ajudar a difundir”. A questão vai além por causa do problema com a terra. “As multinacionais querem a terra indígena para plantar pinheiros e os fazendeiros soja”.
O público que tem acesso as informações que Navarro produz é bem restrito. “Quem lê são formadores de opinião, quem se interessa ou tem aproximação pela causa, estudantes, antropólogos e religiosos”.
Deturpação
Outro problema enfrentado pelo jornalista é o preconceito com o índio. “Quando uso um índio como fonte percebo a indiferença das pessoas, elas dão mais credibilidade para outras fontes”.
Existe, também, a deturpação cultural do índio. “As pessoas não compreendem o que é o índio. Elas perguntam as coisas mais absurdas sobre eles para mim”. Há, ainda, a deturpação por interesse latifundiário. O índio tem um histórico de luta pela terra desde o início do Brasil. “O índio como movimento social, que luta pela terra, que é um direito garantido pela constituição, passa a ser inimigo, não só dos fazendeiros. O índio só quer a terra dele, não quer poder nem acumular riquezas”.
Esta deturpação prejudica a sociedade no entendimento dos fatos, já que quando os índios tomam alguma atitude violenta, não é noticiado o que os levaram àquele ato. “O nosso jornalismo não contextualiza historicamente os fatos. Ele noticia que os cintalargas mataram os garimpeiros. Porém não conta que eles tentaram afastar pacificamente os invasores de suas terras durante anos e não conseguiram. Até que tomaram uma atitude drástica”. Não foi noticiado em lugar nenhum a devastação deste povo. “Há 30 anos, os cintalargas eram 5 mil e hoje em dia são mil índios, mesmo eles se reproduzindo muito. A mídia não mostra que foram massacrados”.
O atual projeto de Navarro é formar comunicadores populares nas aldeias Guaranis, nos quatro países: Bolívia, Argentina, Brasil e Paraguai. “Antes cinco porque no Uruguai todos os índios Guaranis foram exterminados”. O objetivo é fortalecer a comunicação destes povos, já que a comunicação é um ponto da articulação política, e restabelecer a luta pelos direitos dos povos. “Entregamos uma cartilha chamada Tem Aldeia na Política para os líderes, que fazem estudos junto com as comunidades”. A cartilha contém informações sobre política, como funcionam os partidos e qual a participação dos povos nestes processos. “E, é claro, o papel dos meios de comunicação nisso tudo”.
Começo
O jornalista, que se formou na Universidade Santa Cecília, afirma que seu engajamento social começou ao decidir por essa profissão. "Escolhi jornalismo porque achava que tinha uma função de trabalho relevante para a sociedade, com o papel político claro de pautar as discussões do dia-a-dia das pessoas”. Durante a universidade, Navarro se aproximou do tema com leituras na área, por meio do movimento estudantil e pelo tema do seu Trabalho de Conclusão de Curso, que foi sobre Movimentos de Moradias em Santos. “Quando me formei estava desiludido com o jornalismo e não via perspectiva de trabalho. Minha visão mudou quando fui convidado pelo Renato Rovai para cobrir o Fórum Social Mundial de 2002.
Depois desta cobertura o santista viu a possibilidade de trabalhar com o social dentro do jornalismo. “Vi pessoas do mundo inteiro que trabalham com comunicação alternativa, que tem uma perspectiva diferente das grandes redações”. Navarro também colaborou com a revista Caros Amigos, trabalhou na Sem Fronteiras e no Jornal Brasil de Fato.
Seu texto tem foco interessante, Bianca. A "grande mídia" tem compromissos definidos com as elites e adotam linha editorial dura nesse sentido. Vejamos, por exemplo, a sina dos repórteres políticos. Vivem da especulação em torno das possibilidades do que pode ser ou acontecer a partir do que pensam ou articulam verdadeiras nulidades políticas, detentoras de mandatos e de mandos em currais eleitorais nos estados. Fico me perguntando qual é a graça de fazer jornalismo assim. Dar voz às minorias é que é o grande lenitivo.
PS: reveja a concordância em alguns pontos do texto.
Bianca, sou um otimista por natureza. Independente disso, sua matéria reforça minha convicção de que muitas pessoas estão buscando aliar suas carreiras profissionais em busca de uma mudança de cultura em nossa sociedade. Parabéns pelo conteúdo.
Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 26/12/2006 14:04
Olá, Bianca! Concordo com Alê. O que mais anima em tudo isso é que cada vez mais venho conhecendo pessoas como você. Gente que atua na profissão que escolheu com o intuito de ir além daquelas ilusões que grandes empresas põem na cabeça de milhares de empregados: "Vista a cabeça da empresa!" "Vamos levantar a empresa..." "Vamos ser os melhores!"... Um monte de besteiras que, no final, servem mais pra enriquecer os patrõezinhos! hahahah (BAIXOU O ESPÍRITO REVOLUCIONÁRIO!!).
Mas, um toque jornalístico: nas próximas matérias, tenta evitar o uso excessivo de citações do próprio entrevistado no texto. Algo como:
O público que tem acesso as informações que Navarro produz é bem restrito. São formadores de opinião, gente que se interessa ou tem aproximação pela causa, estudantes, antropólogos e religiosos.
Vai em frente!!
beijos
Em vez de:
O público que tem acesso as informações que Navarro produz é bem restrito. “Quem lê são formadores de opinião, quem se interessa ou tem aproximação pela causa, estudantes, antropólogos e religiosos”.
Oi Bianca, participei como ouvinte, durante dois dias, da Assembléia Geral dos Povos Indígenas do Oiapoque, que aconteceu no final de setembro, na aldeia Kumenê. Não vi a divulgação do encontro, que só acontece de dois em dois anos, e das idéias discutidas - incluindo o polêmico asfaltamento da BR que liga Macapá ao Oiapoque (e conseqüentemente viabiliza a travessia para a Guiana Francesa, com a futura inauguração de uma ponte) em jornais do Amapá.
Na época, o preconceito contra os índios ficou evidente num texto altamente ofensivo e sem base jornalística, "assinado" por um tal de Caveirinha, num jornal da cidade. Nele, citava-se entre outros "horrores" do Oiapoque a "máfia dos índios", que, segundo o texto, obstruía a obra porque queria TVs de plasma e outros bens em troca, apesar de já ter terra, ouro etc. Algo assim.
Na Assembléia, ajudei a redigir uma carta de repúdio ao jornal e incentivei os índios a exigirem seu direito de resposta. Dias depois, um dos líderes da associação dos índios encontrou o dono do jornal, que disse que tudo era uma "brincadeira". Esse é um dos problemas do jornalismo no país: às vezes, brinca-se demais, seja com as fontes, seja com o público.
Parabéns Navarro pelo seu trabalho e Bianca, por divulgá-lo.
Opa, texto bom que discuti jornalismo, atividade que tá na berlinda seja pela obrigatoriedade do diploma em discussão, seja pelas tecnologias como o overmundo que vêem mudando paradigmas.
Faltou dizer Bianca onde que a gente pode ler o Navarro.
No mais é reforçar os elogios e o comentário do AD Luna. Quando comecei a ler o texto pensei que ele poderia ser uma entrevista ping-pong tal o número de citações. Acho que seria uma boa passar o discurso direto para o indireto mais vezes. O texto flui melhor.
um abraço,
Ah Olhando a foto vi o Cristiano na frete com os índios de pano de fundo. A imagem me fez lembrar da importância do protagonismo dos índios nessa história toda, sem que se tenham brancos como "os" defensores deles, mas sim os ajudando, dando suporte tecnológico e fazendo essa ponte entre as estruturas de poder da nossa sociedade. Essa situação é bem complexa até, não pode ir muito longe nisso, não tenho muitas informações, mas com certeza deve ser uma das principais preocupação do Cristiano. Esse projeto Tem Aldeia na Política aponta claramente pra isso, né?
valeu
Exatamente isso Pedro. O Cristiano faz questão de deixar os índios serem protagonistas das próprias causas. Inclusive nas entrevistas, ele faz questão que seja ouvido os depoimentos dos índios e não o dele.
Bianca Pyl · São Paulo, SP 29/12/2006 13:33Bianca, gostei da matéria. A primeira frase é excelente, deveria inclusive ser discutida em faculdades de jornalismo. Afinal, um dos grandes mitos do jornalismo é que existe objetividade absoluta. Não; o jornalista é como o cineasta: ele volta sua "lente" sobre determinado assunto, sempre em detrimento de algum outro ângulo ou ponto de vista, e é seu caráter (entre outras coisas) que determina o tipo de matéria e sua qualidade. Parabéns pelas observações argutas.
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 30/12/2006 09:51Então Fábio, a matéria faz parte do meu Trabalho de Conclusão de Curso, que é uma grande-reportagem sobre Jornalismo Social. A minha idéia é justamente esta: levar a discussão para a faculdade e ir um pouco além, discutir também na sociedade, que é diariamente retratada (pelo menos deveria ser) pelo jornalismo. A ótica que é contada uma história é tão importante quanto o que é contado...
Bianca Pyl · São Paulo, SP 30/12/2006 13:56Pois é, Bianca, às vezes a gente se esquece de que conteúdo sem forma não é nada. Obrigado por nos lembrar disso! :-)
Fábio Fernandes · São Paulo, SP 30/12/2006 18:16O que poderia de dizer do caráter de um jornalista - ainda hoje - sem o deslumbre por grandes vitrines e pé no chão como esse cara? Fabuloso. Nem tem muito o que dizer.
Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 31/12/2006 02:11A luta é nobre e mereceria sim, um grande destaque na mídia nacional. Porém como o Cristiano Navarro afirmou, não há interesse por parte das empresas em colocar na pauta a questão indigena. Mas, enquanto existir alguém que vá atrás, que busque uma forma de defender o mais fraco (o índio, até quando é usado como fonte é marginalizado, como se fosse uma fonte inferior). Assim como Chico Mendes fez pelos seringueiros da Amazonas, Cristiano pode fazer pelos índios da região. A diferença está no fato de que, Chico era seringueiro e Navarro não pertencia ao contexto que se envolveu, porém se entregou.
Thais Guimarães · Ribeirão Preto, SP 13/4/2007 20:52Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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