Sob(re) o chão nosso de cada dia

recorte de foto de Ana Luisa Isola
recorte da quarta edição da Raiz. sobre o movimento hip-hop
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Pedro Rocha · Fortaleza, CE
22/12/2006 · 204 · 5
 

A Revista Raiz. completou um ano mês passado. Em sua primeira edição estampava o Maracatu e em um trecho do editorial trazia: “A missão de Raiz. é dar a conhecer e fazer consumir a produção cultural popular brasileira em todas as suas expressões – sonora, iconográfica. Cênica, escrita. Os brasileiros se orgulham das dimensões continentais do país, saúdam sua diversidade cultural como uma benção – mas, “cegos de tanto ver”, desconhecem quase inteiramente a riquíssima gama de manifestações da própria cultura de raiz”. Li com uma ânsia delicada de quem ama e tem desejo por jornalismo cultural.

A primeira sensação - “lá se vêm os folcloristas...” – não durou o folhear de algumas páginas. Junto com o Maracatu, uma entrevista com Gil, o então recém lançado Futura do Nação Zumbi, um artigo sobre software livre e direitos autorais... Ilustrando tudo isso um projeto gráfico sóbrio com entradas de matérias de página dupla, um ensaio fotográfico. Uma revista apurada.

Agora, aproveito a oportunidade da disponibilização de todo o conteúdo da Revista em seu site, além do projeto e-vento: levantando a poeira da cultura popular brasileira que está fazendo e disponibilizando uma série de entrevistas com artistas, produtores e pensadores em geral sobre a relação cultura popular e mercado, para fazer essa entrevista com Edgard Steffen Junior, editor da Raiz. As perguntas são um tanto vagas, amplas, apressadas, mas (ou por isso mesmo) a cada resposta vem um “artigo” que deixa claro os rumos da revista, sua avaliação do jornalismo cultural praticado pelos grandes meios e a relação da revista com o MinC, um de seus principais patrocinadores.

O nome a princípio da a idéia que a revista que pautaria uma "cultura de raiz", ligada a conceitos como autenticidade, genuinidade, muito ligados a concepções folcloristas. Mas ao vermos os números da revista, lemos diversas dimensões da cultura popular e sua dinâmica. Como a revista entende a cultura popular?

Bom, esta é uma questão complexa que mereceria uma entrevista inteira somente para respondê-la, pois estamos falando de identidade, que é um conceito muito amplo e que necessita conhecimentos múltiplos para sua discussão. Temos ótimas bases com Mário de Andrade, Darci Ribeiro, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire, Câmara Cascudo e tantos outros que nos dão a régua e o compasso para navegarmos nesse oceano.

Gostaria de esclarecer alguns pontos conflitantes na sua pergunta. Primeiro, não somos ligados a concepções folcloristas, aliás as abominamos. Acreditamos que a cultura popular brasileira é uma das únicas culturas nacionais ainda não folclorizadas, daí a sua força e penetração global, tão apreciada como manifestação de cultura e nação. Pelo contrário, nossa capacidade antropofágica, oriunda de nossa formação mestiça, permite visualizar uma produção cultural particular e inovadora. O maracatu se funde com o rock, os santeiros se fundem com o cartoon, as danças juntam África com hip hop e assim vamos.

Segundo, para nós Cultura é todo componente que não é oriundo da natureza e, sendo assim, permeia várias atividades humanas. Como já falamos, nós brasileiros temos um jeito todo especial para tratar dessas questões com criatividade, inovação e incorporação de tudo que nos rodeia – inclusive fastfood e Hollywood, com alegria e solidariedade. A cultura popular genuína não é pobre como é vista pelos meios midiáticos, ao contrário é riquíssima e conta com público consumidor cativo. Por isso tivemos que invadir as bancas, a Internet, as livrarias e as bibliotecas que estavam às moscas sobre o tema da Cultura Popular Brasileira.

A apresentação temática diversa da Revista RAIZ. é decorrência natural dessa compreensão de que nossa cultura popular é viva e não produto de museu, não é folclorizada, ao contrário, se manifesta ricamente em várias expressões. Na Itália você vai comer macarrão, no México tacos, na Inglaterra fish and chips, no Japão variados sushis, mas, e no Brasil? Aqui tomamos chimarrão no sul e comemos tapioca no nordeste, comemos tutu de feijão em Minas e moqueca no Espírito Santo. Da culinária vamos para a música, onde a sanfona da cultura gaudéria é completamente diferente da sanfona forrozeira nordestina. Da música vamos para as danças, onde a quadrilha junina caipira paulista dança em roda, assim como a ciranda do norte e nordeste, mas com outro apelo e característica. Enfim, temos fartura cultural e a RAIZ pretende ser reveladora, em parte, desse universo dinâmico.

Qual a avaliação que você faz do jornalismo cultural praticado no Brasil atualmente?


Tenho cuidado em falar de nossos companheiros de trabalho, pois também vivemos o dia a dia das indiosincrasias do jornalismo cultural, além do embate com o mercado. Mas, na realidade não tenho identificado nenhum jornalismo cultural em voga no país. A imprensa e os famosos "Cadernos 2 de Cultura" não passam de agendas comentadas. Não se discute cultura e não se divulga nada que não faça parte da dita "Agenda Cultural", que nada mais é do que pauta sobre os espetáculos que estão anunciados nas publicações.

Historicamente tem sido o diálogo profundo com nossa identidade, a alavanca dos grandes processos criativos da nossa história. A Semana de 22 com o Barroco Mineiro, Villa-Lobos com as cantigas tradicionais e o chorinho, a bossa-nova com jazz e samba, a Tropicália misturando chiclete com banana, o mangue beat trazendo para a MPB a batida seca e ritmada do maracatu. E poderíamos falar do Cinema Novo, da literatura de Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Graciliano Ramos, Ariano Suassuna e tantos outros. Então por que esse certo desdém com a nossa cultura? Por que o preconceito? É tão cotidiano que a gente nem percebe a beleza? O jornalismo cultural está devendo e muito, pelo menos a grande mídia.

Raiz se distancia do jornalismo cultural ligado a "lançamentos" e "eventos" para questionar e pensar a própria dinâmica da cultura e políticas públicas para o setor?


O que ocorre é que não cobrimos a cultura de massa, e sim a cultura popular. Ou seja, nós cobrimos intensamento lançamentos e eventos, mas da cultura popular. Somos ligados a isso, promover o que está sendo realizado, agora dentro do universo que pretendemos cobrir. Veja que no fundo a pergunta carrega os vícios e preconceitos vigentes: eventos e lançamentos populares são "menores" e portanto parece que a RAIZ. discute o sexo dos anjos ou as politicas públicas para o setor... Aliás, somos a única revista e o único Portal na Internet com agenda focada na Cultura Popular e nas suas atividades, o volume é grande e as manifestações intensas.

Nosso objetivo é o de dar poro aos porões e nesse processo procurar entender/revelar essa dinâmica. Se por um lado, o mercado desdenha da Arte Popular, como se ela fosse ingênua e não carregada de significados, vida e inteligência - apesar dela ser tão expressiva que mesmo sem alavancagem comercial perpetua-se por tanto tempo. Por outro lado, o artista popular também tem que se posicionar frente ao mercado, sem medo, porque o medo esconde e o que está acanhado em um canto é engolido ou ignorado.

Se olharmos nosso passado recente vemos que todos os avanços culturais brasileiros vêm no sentido do resgate de nossa identidade para, a partir dai, traçar novos caminhos. O que foi a semana de 22, a Tropicália, o Mangue beat? Se imaginarmos o Brasil de Villa-Lobos, Drummond, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Vinícius de Morais trabalhando como agentes governamentais. Se pensarmos no CPC da UNE de Odvaldo Vianna Filho – O Vianinha - e de Dias Gomes, o Teatro Arena, o Show de João do Vale e Bethânia da onde sempre lembramos do “Caracará”, João Gilberto e Tom Jobim cozinhando o samba com o jazz, os festivais de música enfim a lista é grande e significativa.

Luiz Gonzaga e o baião foram campeões de vendas na década de 40, o samba na década de 50, a bossa nova na década de 60, daí veio a ditadura e o “Ame-o ou deixe-o”, que contribuiu para deixar a pecha nacionalista como uma “coisa de milico”. Ao mesmo tempo a economia americana preparava-se para a sua internacionalização, com a cultura do “way of life” a frente. Quebra-se o ciclo virtuoso. Os nossos valores passam a ser tratados como “menores”, sem “tecnologia”, sem “glamour”. O popular ficou sendo o brega.

Até num processo de resgate, como o Programa Central da Periferia da TV Globo, apresenta nossos valores como aqueles da cultura de massa. A distinção clara entre cultura popular e cultura de massa muitas vezes são fronteiras tênues.

O Ministério da Cultura tem seus projetos constantemente pautados na revista, além de ter algumas páginas patrocinadas. Como fica a autonomia da revista em relação ao Minc?

O Ministério da Cultura desenvolveu um ritmo muito grande de ações culturais na gestão do Gilberto Gil. Cultura entrou na ordem do dia com peso e respeito. Como decorrência surgiram muitas pautas; lugares e pessoas esquecidas foram lembradas, a não discriminação da nossa cultura de raiz também. Esse cenário proporcionado pelo MINC alavancou o tema da Cultura Popular. Além de outras questões importantes como a questão digital, dos softwares e licenças livres; ou dos Pontos de Cultura, que é uma nova maneira de implementar políticas públicas.

Agora, a cultura popular por sua quase ausência do mercado de entretenimento ou cultural se apóia hoje enormemente no Estado, do nacional ao local. Então o MINC aparece como um agente importante no processo. Naturalmente abrimos um espaço na RAIZ., que na minha opinião ainda não foi potencializado, para retratar esse cenário do Ministério da Cultura, informando a sociedade e os artistas do novo processo e oportunidades em curso.

Agora, a dependência com o MINC é nenhuma. Nunca ninguém me ligou falando para fazer isso ou aquilo, ou então criticar algo. A postura do MINC tem sido muito positiva no sentido de fornecer informações. Alguns falam que este espaço aberto para o MINC pode levar a Revista a ser "chapa branca". Eu não preciso nem responder, pois a RAIZ. se explica por si. Coloco uma questão, qual é a chapa da Veja, ou do O Globo, ou da Bravo, ou do Jornal Nacional. São isentos? Não acredito em isenção. Nós somos totalmente tendenciosos para com os artistas populares e para com a nossa cultura de raiz, que é viva e moderna, exatamente o que a grande mídia não quer deixar transparecer.

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Kuja
 

Lúcida a entrevista. VIDA LONGA A RAIZ.!

Kuja · São Paulo, SP 22/12/2006 15:01
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Fábio Fernandes
 

Entrevista belíssima, Pedro. Não li a RAIZ mas já sou fã e faço coro com o kuja: VIDA LONGA!
E vamos continuar divulgando a belíssima mistureba que é a cultura vista pelos brasileiros!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 22/12/2006 20:49
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jjLeandro
 

Feliz Natal, mano
http://jjleandro.blog.terra.com.br/
http:fotolog.terra.com.br/jjleandro60

jjLeandro · Araguaína, TO 24/12/2006 12:28
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Dal Pires
 

Hum...orgulho desse rapaz...:) Ficou bem bacana, Pedro.

Dal Pires · Fortaleza, CE 25/12/2006 10:20
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
gilmar de carvalho
 

Depois da experiência bem-sucedida e fugaz da revista Palavra ("fora do eixo"),"Raiz" vem cumprindo bem seu papel de um jornalismo que supera a idéia de centro e periferia, passa por cima do conceito de hegemônico e mostra a produção cultural em sua diversidade. A matéria de Pedro Rocha merece ser lida e discutida, principalmente pela escassez de textos lúcidos e densos sobre o chamado "jornalismo cultural". Parabéns!!!
Gilmar de Carvalho (jornalista e professor do Curso de Comunicação Social da UFC)

gilmar de carvalho · Fortaleza, CE 30/12/2006 07:50
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