Cantor, compositor, guitarrista, rabequeiro, mestre na poesia rimada, por três discos Siba capitaneou o Mestre Ambrósio, um dos grupos mais expressivos do manguebeat. Após o fim do grupo e de uma estadia de 7 anos na cidade de São Paulo, Siba retornou a Pernambuco e fixou residência em Nazaré da Mata, importante eixo de produção musical de maracatu rural, coco, ciranda entre outros. A partir da instalação de um home studio, criou o grupo A Fuloresta, reunindo a nata dos poetas e instrumentistas da Zona da Mata: Biu Roque (percussão e voz), Mané Roque (percussão e voz), Zeca (percussão), Roberto Manoel (trumpete), Galego (trombone), João Minuto (sax tenor) e Bolinha (tuba). O grupo lançou em 2002 o independente e aclamado Fuloresta do Samba, e, em 2007, Toda Vez Que Eu Dou um Passo o Mundo Sai do Lugar, com as participações da cantora Céu, do guitarrista Lúcio Maia, de Fernando Catatau e de Isaah, ex-integrante do Comadre Fulorzinha.
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No registro da música “folclórica”, a acessibilidade ocasionada pela evolução dos equipamentos de gravação e edição digitais favoreceu a expansão dos títulos em uma escala nunca experimentada antes. Dos anos 30, particularmente dos esforços compilatórios de Mario de Andrade, até meados da década de 90, contam-se nos dedos as iniciativas de registro das manifestações musicais rurais ou oriundas de contextos urbanos menos favoráveis. Os esforços mais representativos nesse sentido: o Documento Sonoro do Folclore Brasileiro, projeto da Funarte, parcialmente relançado em CD, e o Mapa Musical do Brasil, produzido por Marcus Pereira, ambos com pretensões de registro; anos depois, o cd quádruplo Música do Brasil, uma compilação de artistas de todo o Brasil, dirigido por Hermano Vianna e Beto Villares, gravado no intuito de flagrar a diversidade musical brasileira em plena atividade. Em ambos os casos, diferentes abordagens do problema da cultura popular, ao qual poderíamos anexar o “resgate” levado a cabo por Ariano Suassuna (mas também pelo rótulo “samba de raiz”) e a proposta de diálogo com a cultura estrangeira do manguebeat. Na iniciativa da Funarte, o registro funcional das manifestações musicais; no sistema de Suassuna, uma perspectiva sobre a cultura que subscreve a produção a uma essência “nacional”; na iniciativa de Hermano e do manguebeat, a preocupação com o presente e com o futuro das práticas musicais e culturais. Este painel, incompletíssimo, apresenta no entanto algumas posições fundamentais nos debates sobre música no Brasil: primeiro, o fetiche da essência, a crença na imobilidade e o respeito à tradição; depois, o bem intencionado e institucional cultivo do registro; e, ainda, a promoção de meios para a mobilidade constante e da interlocução da música com as mais diversas formas de produção cultural.
“A vida não dá certeza, pois tudo se movimenta”: com seu último disco, ainda que Siba e Fuloresta se posicionem de alguma forma neste debate, o fazem de modo a superá-lo definitivamente. Pois nele, apesar de termos perfilados uma série de cocos, cirandas e frevos, gêneros considerados “folclóricos” e/ou “regionais” e que, por isso, são arrolados em alguns dos discursos listados acima, pode-se dizer, com segurança, que as palavras “registro”, “essência”, “tradição” e, até mesmo, “mobilidade” e “interlocução” não comportam toda a invenção que grupo e álbum nos trazem. A música da Fuloresta reside à parte deste universo, válido, mas excessivamente acadêmico, burocrático e idealista. Com Toda Vez…, o grupo afirma pelo menos duas novidades interligadas: uma naturalidade, uma sabedoria, um “estar-à-vontade” em relação aos gêneros trabalhados, e, ao mesmo tempo, uma disposição para recriá-los às antípodas das gravações que até então foram consagradas a eles. É música viva, que se explica por si só, que não carece de adendos e notas. Aqui, não cabe o velho discurso sociológico, que a cada faixa tem de perfazer toda uma gama de fenômenos extra-musicais para explicar, por exemplo, o que é o coco (“Com influência africana e indígena, o coco é uma dança de roda acompanhada de cantoria e executada em pares…”). Devo observar também que, ao contrário da música da Nação Zumbi ou de Marcelo D2, que acabaram por privilegiar o elemento estrangeiro, Siba e a Fuloresta propõem que a base seja criada a partir dos sons de Nazaré da Mata, e que o adereço seja “estrangeiro” (uma guitarra, um piano, um efeito na voz, um sample…). Obviamente, digo isso sem preconceito, mas é uma diferença digna de nota, observável não só em toda a carreira de Siba e a Fuloresta, como também em Candombless, de Carlinhos Brown.
Dito isto, vamos à matéria. Trata-se de um disco extremamente dançante e bem humorado, itens que lhe conferem uma leveza em nada comparável com a banalidade da MPB pseudo-chic que vigora por aí. Primeiramente, porque Siba e a Fuloresta desenvolvem um trabalho sólido de composição sobre o vocabulário do frevo, do coco e da ciranda. São belas canções como “Alados”, parceria de Siba com Lúcio Maia; irônicas em diversos momentos, mas sobretudo em “Meu Time”; e críticas como em “12 Linhas”, cantada por Mané Roque (“em cada morada um berço, em cada berço um pagão…”) ou “Será” (“será que ainda vai chegar o dia de se pagar até a respiração…”). No que diz respeito à instrumentação, Toda Vez… tem por eixo central o trabalho com a percussão e o metais. E aqui podemos dizer que se encontra o segundo grande destaque do disco, porque o modo como o grupo resolve as dinâmicas de percussão e arranjos de metais é de uma riqueza prodigiosa. São muitas as vezes em que nos surpreendemos com os diversos recortes harmônicos e rítmicos, sejam realizados pela tuba, como na faixa-título e na linda “A Folha da Bananeira”, cantada por Biu Roque, seja pelo ataque em conjunto do trumpete, do sax alto e do trombone em “Meu Time” e “Tempo II”, seja ainda pela interação dos metais com a percussão, em “Pisando em Praça de Guerra”. Soma-se à composição e instrumentação, o elemento arranjo, no qual o disco também se destaca: são sensíveis as intervenções dos efeitos, particularmente em “12 Linhas”, as colocações dos instrumentos esporádicos como o piano em “Alados”, os pequenos detalhes, como as palmas na faixa título ou a ambiência de “Meu Time”. Do início do álbum, um relato de nascimento e iniciação (“Pisando em Praça de Guerra”), até a ode alegre à morte em “A Velha da Capa Preta”, Siba e a Fuloresta excedem todas as expectativas anteriormente criadas pelo já excelente Siba e a Fuloresta, de 2005. Completa a riqueza do álbum a programação visual criada pelos grafiteiros paulistas “Os Gêmeos”, baseada no trabalho realizado para um DVD do grupo.
Pode ser considerada uma limitação de minha parte que ainda tenha que situar o disco nas polêmicas confusas do debate nacional-popular-cultura-de-massas… Mesmo querendo dissociar a excelência de Toda Vez… desse quiprocó, me foi inevitável fazê-lo. Pois tenho a certeza de que, por mais que reconheçamos o novo, ainda assim, somos tributários do contexto que o produziu, e que “rupturas” são apenas produtos da nossa imaginação. Mesmo o novo, ele próprio, identifica-se de alguma forma com aquilo que critica. Na perspectiva oficial encontram-se elementos isolados que fornecem, em instrumentos e sugestões, as armas para sua própria neutralização. Toda Vez… traz em si o germe da mudança, mas esse germe foi inoculado em diversos níveis por uma alta consciência, que, ao menos em parte, interagiu com esferas diferentes, aparentemente desconectadas: a institução, a academia, o comércio, que sobrecodificam e traduzem as manifestações rurais, ausentes das cidades. Depois, houve um momento em que esta consciência se pôs em direção ao contexto criativo e, daí então, a criação de uma relação específica de visões e, sobretudo, uma articulação concreta no sentido de reinterpretar a interpretação da institução, da academia e do comércio. Siba é esta alta consciência, que soube fazer a ponte. Entretanto, uma coisa é pensar a questão de um ponto de vista sócio-cultural, na qual, penso eu, acabo por resvalar. Outra, é a experiência de ouvir o disco. Toda Vez… possui essa altivez contagiante e dionisíaca, dançante e carnavalesca, mas também reflexiva, capaz de criar condições adequadas para a ultrapassagem das limitações objetivas e subjetivas da confusão musical brasileira.
Originalmente publicado na camarilha dos quatro.
Bernardo,
Admiro muito o Siba e seu texto é muito interessante.
Abs,
valeu marcilio!
Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 15/7/2008 15:50Bernardo, adorei teu texto. Trata do disco de Siba fazendo uma contextualização muito bem pensada. Sobre esses trabalhos de mapeamento musical, sempre me chamou atenção o fato de alguns dos principais deles terem sido obra de esforços individuais (quero dizer, de pessoa física), pelo menos no primeiro momento. Foi assim com Mário de Andrade, com Marcus Pereira e com o Música do Brasil, de Hermano e companhia. Ainda que haja algumas instituições que tenham se mobilizado nesse sentido mais tarde, como o Itaú Cultural, pelo país "adentro" o que reparo é que se há memória musical preservada é graças a pesquisadores apaixonados. O Siba aparece nesse contexto de maneira exemplar, prática, para mostrar que história se faz também de presente e futuro!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 15/7/2008 19:53
Bernadrdo,
Legais - o texto a iniciativa e a abordagem por sí só.
abraço
andre.
Pronto Bernardo, pela matéria já estou quase convencida da boa musicalidade... Digo "quase" porque, claro, vou atrás do disco agora! Abraço e obrigada pelo postado, divulgando gente de talento e música de elevada qualidade "nada comparável com a banalidade da MPB pseudo-chic que vigora por aí" .
JACK CORREIA · Crato, CE 16/7/2008 10:56
bernardo, teu texto é excelente. e concordo com a helena: a memória musical (e audiovisual, literária) depende, e muito, de pesquisadores apaixonados pelo que fazem. de certa maneira, a boa critica cultural também depende do trabalho voluntário e apaixonado de um punhado de pessoas dispostas a divulgar e refletir sobre a produção atual.
sobre o disco ser "dançante e bem humorado" eu assino em baixo. sempre que me aventuro a discotecar por ai toco pelo menos umas duas faixas.
já virou até cliche falar isso, mas a poesia desse tipo de canto se aproxima muito a lírica do rap.
por fim, o siba e sua fuloresta não me remetem a passado algum. é um disco contemporâneo, com um frescor de dar inveja a quem procura o "som do momento".
ps 1: a arte do disco é assinada pela super dupla de grafiteiros os gemeos.
ps 2: meu parceiro rodrigo brandão, mc do grupo mamelo sound system, já citou diversas vezes "toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar" como disco do ano.
para baixar
helena, jack e milu: obrigado. de fato, as iniciativas voluntárias de registro são imprescindíveis. mas quando o registro se converte em um artefato criativo, abre-se a possibilidade de sobrevida de determinados gêneros. o maculêle por exemplo, sumiu. ninguém compõe um maculêle. por que? pq nao compor maculêles, socas, bangras, côcos, etc? pq sempre hip hop, jazz, funk, rock e samba? penso que mais que o registro, importa tb o "registro" criativo, perspectivas criativas de registro.
xavi: ouvi teu ep e achei foda! parabéns!
mari: obrigado! rs
João, não acho que ele "não remeta a passado algum", como se falar em passado fosse algum pecado, hehe. Entendo essa preocupação de apontar pra frente, mas acho que o passado faz parte disso! Não separo muito os tempos, acho que estão embolados no presente! Concordo com o que você diz, Bernardo, sobre a idéia de criar além de registrar. O trabalho de pesquisa "convencional" é importantíssimo, deve continuar sempre, mas o trabalho de pesquisa "criativa", como o do Siba, está merecendo ser multiplicado.
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 16/7/2008 12:51Salve sempre meu amado nordeste!!, Salve siba que faz das nossas raízes uma obra de arte tão dinâmica como essa, fico feliz, minha alma fica feliz, parabéns SIBA.FÉ EM DEUS SEMPRE.
Fernando Oliveira · Rio de Janeiro, RJ 16/7/2008 13:04Helena, acho que aí nós entramos numa questão propriamente filosófica: passado, futuro... O passado, o que é se não o acúmulo de experiências, os fatos pregressos, a própria tradição, costumes, hábitos? E o futuro, pra usar uma expressão de Reinhart Koselleck, o que é se não um "horizonte de expectativas" sobre os quais projetamos os desejos, mas também nosso "passado"? Minha intuição diz que passado e o futuro são apenas convenções humanas; que o que vivemos, de fato, é o momento, o acontecimento. No caso das questões concernentes à cultura, estes problemas filosóficos são fundamentais, porque a maioria dos equívocos "essencialistas" decorrem da reificação do passado e do temor ao futuro. Quando o João afirma que o Siba "não remete a passado algum", ele talvez esteja querendo dizer que o disco não está comprometido com uma ideia estática de passado, nem com um protecionismo medroso que visa o futuro. Ao contrário, é a presença efetiva e vigorosa de certas práticas que fala pela boca de Siba e pelo disco da Fuloresta. E ai, concordo com vc: passado e futuro estão "embolados" na embolada...
Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 16/7/2008 13:17
Sim sim, meu comentário foi exatamente nesse espírito, acho que é por aí! Aliás, João, sempre que a gente conversa acabamos falando disso, né? :) Acho ótimo papo!
Aliás, achei esse texto aqui do Hermano sobre o primeiro disco do Fuloresta, tudo a ver com a discussão aqui. Abraços embolados
eu já conhecia o texto do hermano, um dos poucos escritos sobre o álbum (estranho, não?). recorri a ele como material de pesquisa quando cogitei escrever para camarilha.
e adorei esse "inventado" da apresentação!
Assisti no Unimúsica da Ufrgs, é um trabalho de arte maravilhoso.
Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 16/7/2008 14:53
helena, nem é uma preocupação pra apontar frente. mas sim de viver o agora. o disco é todo recheado de referências, mas é super contemporâneo (tenho medo dessa palavra!).
é bem isso que o bernardo falou no comentário dele.
até porque, no fim das contas, depois de jackson do pandeiro e james brown a gente pode desconfiar de qualquer coisa que se diga completamente nova.
Desde a época do Mestre Ambrósio que sou fã da criatividade de Siba. Antes de tudo um ótimo poeta! O seu mergulho na região da Zona da Mata foi profundo em todos os sentidos. O trabalho dele é o maior exemplo que a tradição se renova e por isso é tão forte e bela.
Também acho legal que apesar de beber em matizes sonoras da cultura popular é trabalhos como esse cd reafirmam que a autoria existe sim na cultura popular e o estilo de cada artista que toca com Siba é claro e forte... Biu Roque é um grande exemplo disso..
Muito bom a discussão e o exemplo do disco. Parabéns, cara! Reforço o que foi dito pelo amigo de João: "Toda a vez.." é para sem dúvida um dos melhores discos do ano.. Além do mais dançar ciranda e coco ao seu som é uma das melhores coisas que se tem para fazer..
No São João por aqui em Aracaju no Palco Alternativo Gerson Filho.. Siba & A Floresta fez a poeira subir... comentam até que foram mais de 30 sacos de cimento para "aprumar" o chão depois do show..
Abraço, bom texto, boa discussão, bom cd, votado!
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