Solto na Cidade entrevista Leno

Itaercio Porpino
1
Solto · Natal, RN
11/3/2009 · 132 · 4
 

A Jovem Guarda vai a forra
Sáb, 07 de Março de 2009 10:27 Solto na Cidade
POR CLEO LIMA, MARCELO PANELA E ITAÉRCIO PORPINO


É tarde da noite. Enquanto parte da vizinhança dorme e, na rua, as luzes dos carros borram o asfalto, na sacada do apartamento onde está morando desde o ano passado, no alto de um edifício em Petrópolis, um senhor de 60 anos, de ar jovial, nos entretém durante quase duas horas falando de música e política. Esse senhor tem muito a dizer. Coisas até que estavam engasgadas. Seu nome de cartório: Gileno Osório Wanderley de Azevedo, e o artístico, Leno. Sim, sim... É o do par Leno e Lilian da Jovem Guarda, que nos anos 60 fez grande sucesso com “Pobre menina” e “Devolva-me”. A nossa conversa é muito sobre aquele período – a rusga com o pessoal da MPB (“chato pra cacete!”, segundo Leno), mas também sobre o presente. Leno continua produzindo e tocando. Na noite deste sábado (7), aliás, ele vai estar fazendo show no Aprecie Pub, em Ponta Negra, para divulgar seu CD mais recente, “Idade Mídia”, de 2006. É seu primeiro trabalho com músicas inéditas depois de quase 40 anos (o obscuro “Vida e Obra de Johnny McCartney”, em parceria com Raul Seixas, foi gravado em 1971, mas acabou sendo censurado e só foi lançado em 1995). Leno também fala sobre isso nessa primeira parte da entrevista. Bom, vamos então a ela:

Solto: Fale um pouco de sua infância. Você nasceu em Natal, mas foi para o Rio ainda pequeno, não é isso?
Leno: O pessoal pensa que meu pai estava de passagem e que eu só nasci em Natal, mas eu tenho raízes fortes aqui. Meu pai era militar e serviu aqui na guerra, e minha mãe era de Natal, da família Wanderley. Fiquei aqui até 54, saí com 4, 5 anos. Depois disso fomos morar no Rio, em Copacabana, na velha Copacabana, gostosa, bucólica. Fui criado ali, na divisa entre Copacabana e Leblon, dos 5 aos 12 anos. Depois disso moramos no Pará, no Mato Grosso... Então voltamos pra Natal, ficamos na Ribeira, onde tinha um quartel do Exército. Ficamos lá durante 2 anos, e foi nessa época que surgiram os Beatles. Eu estudava no Marista e já conhecia rock, ouvia muito Elvis, Little Richard...

Solto: A ligação com a música e o rock começou cedo, então?
Leno: Sim, sim. Minha família, meus tios tinham muita relação com música. Era mais aquela coisa de violão, seresta... Mas, ao mesmo tempo, o pessoal da minha turma já ouvia o rock´n roll. Pra onde a gente se mudasse eu carregava meus discos embaixo do braço. Eles eram meus companheiros, Elvis e tal. Quando os Beatles estouraram, eu já tinha uma certa bagagem, ainda da época de Copacabana, aquela coisa da juventude transviada.

Solto: Foi também quando você passou a se aventurar a tocar e cantar?
Leno: A história de aprender música foi mais aqui em Natal mesmo, com meus 13, 14 anos, quando ganhei meu primeiro violão e formei a primeira banda de rock dessa cidade, o “The Shouters”. O nome era, claro, uma referência a “Twist and shout”, música que os Beatles gravaram no primeiro disco deles.

Solto: E como era a estrutura?
Leno: Isso tudo aconteceu no ano de 1964. A gente não tinha a menor estrutura, era tudo acústico... Três violões e uma bateria. Nesse tempo era muito difícil de se ver um baixo elétrico ou uma guitarra. A gente tocava na escola, devia ter umas 10 músicas no repertório. Era basicamente só Beatles. O primeiro show foi no ginásio do Atheneu. A banda ainda chegou a tocar na rádio Clube, na rádio Rural, que funcionava lá no antigo Cine Rex, na avenida Rio Branco. Eu lembro que tinha um auditório enorme, os programas eram ao vivo... Nessa época, eu ganhei o primeiro cachê da minha vida, tocando numa formatura da turma de direito de 1964.

Solto: De quanto foi o cachê?
Leno: O dinheiro deu pra comprar exatamente dois LP´s dos Beatles.

Solto: E quais foram?
Leno: Foram os únicos que tinham sido lançados por aqui até então. “Beatles Again” e “Beatlemania”. Eram como coletâneas com os maiores sucessos. Logo depois disso, quando eu voltei pro Rio, o pessoal da banda me deixou escolher um dos discos pra levar. Eu escolhi o “Beatles Again”, que tenho até hoje...

Solto: Como foi essa segunda ida para o Rio?
Leno: Eu estava prestes a fazer 16 anos e fui morar no mesmo prédio dos tempos de infância. Chegando lá, reencontrei minha amiguinha daquela época, das brincadeiras e tal. O nome dela era Lílian. Esse prédio que a gente morava era pertinho da TV Rio, então a principal emissora de lá. Já existia o programa do Carlos Imperial e também um programa chamado Hoje é dia de rock, que acontecia no sábado à tarde...

Solto: Era o embrião da Jovem Guarda?
Leno: Era a Jovem Guarda se formando, só que ainda sem o batismo. Eu me lembro do dia seguinte à minha chegada no Rio. Eu acordei e fui ver a Lílian. A gente começou a conversar e ela me contou que estava namorando o guitarrista de um conjunto... Era o Renato! O do Blue Caps! E a banda Renato e seus Blue Caps eu já conhecia aqui de Natal! Acho, inclusive, que aqui foi a primeira cidade fora do Rio onde eles se apresentaram. Nesse mesmo dia o Renato apareceu por lá e nós ficamos amigos, tocamos violão, essas coisas. É engraçado que com um tempo as pessoas pensavam que eu tinha algo com a Lílian...

Solto: E tinha?
Leno: Não, nós sempre fomos apenas amigos. O Renato também ficou muito meu amigo nessa época. Foi ele, inclusive, quem incentivou a gente a formar a dupla. Por esses tempos, o grupo do Renato se apresentava muito no programa do Carlos Imperial, que se chamava Brotos no 13 e ia ao ar de segunda a sexta às 17h. Quem também estava sempre por lá era o Roberto (Carlos), o Erasmo, Wanderléa, Golden Boys... todo mundo começando. Como a TV Rio era perto do prédio onde eu e a Lílian morávamos, lá acabou virando meio que um ponto de encontro dessa turma. Era quase como um camarim (risos).

Solto: Foi aí que nasceu a dupla Leno e Lilian?
Leno: Pouco depois disso, a CBS, que era a gravadora do Renato, convidou a mim e a Lílian para um teste, através do Evandro Ribeiro. O Evandro, que era o presidente da CBS, foi para a Jovem Guarda o que o George Martin foi para os Beatles. Nesse teste nós levamos três músicas: Pobre Menina, Devolva-me e Words of Love, essa última gravada pelos Beatles. O Evandro ficou alucinado pelo material e já agendou a gravação para a semana seguinte! Então nós gravamos o compacto com “Devolva-me” no lado A e “Pobre menina” no lado B.

Solto: Acabou sendo um compacto com “duplo lado A”...
Leno: Exato! As duas músicas estouraram. Esse compacto simples foi o que mais vendeu na história da música brasileira! Foi depois disso que nós assinamos contrato com a TV Record para participar do programa “Jovem Guarda”. Em 1966 nós gravamos o primeiro LP, que até hoje é considerado por muita gente como um dos melhores da história do rock brasileiro. Eu, na verdade, acho que poderia ter ficado melhor, sabe? Foi tudo gravado às pressas, com instrumentos precários...

Solto: Como o amadurecimento dos Beatles, no decorrer da década de 60, refletiu na Jovem Guarda e em você, particularmente?
Leno: Olha, foi uma coisa gradual, embora o Sgt. Pepper´s tenha sido realmente uma porrada. A gente já conhecia o Revolver, que, por sinal, eu acho mais legal que o Sgt. Pepper´s.

Solto: Mas dentro da Jovem Guarda houve algum tipo de resistência ao novo caminho que os Beatles optaram por trilhar?
Leno: Na verdade, a resistência foi mais do público que nossa. O Brasil talvez não estivesse preparado pra toda aquela inovação. Nós artistas achávamos ótimo, até pelo desafio de fazer coisas novas. Tanto que quando a dupla Leno e Lílian separou pela primeira vez, eu experimentei um pouco nessa área com o disco “Vida e obra de Johnny McCartney”, em parceria com o Raul Seixas.

Solto: Como foi esse processo de “separação musical” entre você e Lílian?
Leno: Aconteceu em 1967. O problema foi a diferença de temperamento mesmo. Lílian tinha uma visão muito romântica das coisas. Era um lance muito “conto de fadas”. Eu tinha uma visão mais profissional, queria ensaiar, compor. Pôxa, a gente nunca fez música junto e eu sentia falta disso. Então foi basicamente isso, diferença de pensamento mesmo. Quando esse desgaste começou a ser mais aparente a gravadora me convidou pra ser artista-solo. O estopim foi num dia que a Lílian faltou a um programa de televisão onde a gente ia receber um prêmio. Estávamos em primeiro lugar na parada da TV Rio e simplesmente a Lílian não me aparece! Acabou que quem me socorreu foi a Martinha, outra voz de muito sucesso na Jovem Guarda. Ficou um negócio mais ou menos assim: E em primeiro lugar, Leno e... Martinha!!! (Risos). Aí não tinha mais clima e o Evandro me convidou pra cantar sozinho.

Solto: O público reagiu bem à separação da dupla? Houve muita cobrança?
Leno: Por incrível que pareça, não. Eu até me surpreendi. O público foi muito receptivo comigo. Talvez até por pensar assim: “Ah, coitadinho do Leno... A Lílian abandonou ele pra ficar com o Márcio...” (risos). E ficou nessa, todo mundo no maior carinho comigo. Eu confesso que não achei ruim de jeito nenhum! (risos). Meu primeiro lançamento como artista solo foi “A pobreza”, que, inclusive, vendeu mais que “Pobre Menina”. Eu continuava escrevendo músicas mais inocentes e tal, como “A festa dos seus 15 anos”. Foi quando veio o AI-5... Então eu percebi que precisava passar algo mais com a minha música. Aliás, não só eu como toda a classe artística.

Solto: Falando nisso, a Jovem Guarda foi um movimento que se caracterizou por não ter engajamento político. Mesmo assim você se vê como uma pessoa politizada?
Leno: Totalmente!

Solto: E como funcionava isso de ser politizado e “pertencer” à Jovem Guarda? Existia algum tipo de pressão das gravadoras para que vocês não falassem de política?
Leno: Não, não. A Jovem Guarda era um movimento ao mesmo tempo romântico e questionador. A gente era cabeludo, as meninas usavam mini-saia. Teve também aquele lance do tabu com a virgindade das meninas, a Wanderléa, a própria Lílian. A gente mexeu muito mais com a cara do Brasil através desse romantismo, como os próprios Beatles fizeram na Beatlemania, do que tratando de política. Os próprios Beatles mudaram o mundo sem precisar falar de política naquela primeira fase. Claro que havia contestação, mas as coisas ficavam implícitas, seja através do visual ou do comportamento.

Solto: O problema, então, era porque vocês não falavam abertamente?
Leno: Era. E aí começou a acontecer uma cobrança. Mas, de qualquer maneira, assim como nós não gostávamos da ditadura, também não tínhamos nenhuma identificação com o que aquele pessoal chato pra cacete da MPB queria, que era o comunismo soviético. Eu lembro da época da TV Record... Eles apareciam lá, Elis Regina, Chico Buarque... Veja bem, o Chico é um compositor fantástico, mas era chato demais com essas coisas! Diziam que a gente tinha que se engajar do lado deles... Ora! O lado deles era Cuba, Fidel Castro, Stalin! Pôxa, o Stalin foi um dos maiores genocidas da história, quase um Hitler! A diferença é que era de esquerda, mas pra mim é tudo a mesma porcaria se é ditadura.

Solto: E tinha a história de que eles eram radicalmente contra o rock...
Leno: É, esse pessoal da MPB era totalmente intolerante conosco. Nós éramos chamados de alienados o tempo todo por essa MPB universitária dos festivais, que nem sequer nos dirigia a palavra. Naquela época guitarra elétrica era um tabu. Teve uma passeata, em 67, de artistas como Chico Buarque, Elis, contra a Jovem Guarda. Eles diziam que era contra a guitarra elétrica. Mas a guitarra elétrica quem usava era a gente. Era uma coisa intolerante. O Gilberto Gil estava na passeata. Aí veio a Tropicália usando guitarra elétrica...Esses dias eu vi uma entrevista da Beth Carvalho dizendo que a Jovem Guarda atrasou em dez anos a hegemonia do samba no Brasil. Pois eu acho é o seguinte: Se nós conseguimos atrasar em dez anos a chatice da Beth Carvalho, já valeu à pena! (risos). Digo isso por que ela esses dias tava lá cantando em homenagem ao Hugo Chávez. Isso é muito complicado.

Solto: O que acabou acontecendo é que, por causa disso, a Jovem Guarda ficou com uma imagem de conformismo.
Leno: Pois é! E o Roberto, nosso representante máximo, era muito sossegado. Nem se dava ao trabalho de responder esses questionamentos. E isso não era legal, talvez ele devesse se posicionar um pouco mais. O resto da turma também. Ninguém tava nem aí pra isso. Eu talvez fosse o único que se preocupasse, até pelo fato do meu pai ser militar. Então rolava, de minha parte, uma preocupação em entender o que estava acontecendo naquele período. Eu, por sinal, tive muita sorte, já que meu pai era um militar liberal, sempre me incentivou a cantar e nunca teve preconceito contra a classe artística de um modo geral.

Solto: Sua crítica é à postura política. E quanto à música, qual sua opinião?
Leno: Eu acho o trabalho do Chico Buarque lindíssimo, apesar de ele ter jogado as mulheres contra os homens... (risos) Também gosto muito da música mineira, o pessoal do Clube da Esquina. Eu ouvia muito Sá e Guarabyra, aquela geração dos anos 70 aqui no Nordeste, Elba, Zé Ramalho, Alceu Valença, Fagner, pessoal que eu ajudei a levar para a CBS.

Solto: Como foi?
Leno: Foi em uma época em que eu era produtor da gravadora CBS. Aí eu vinha aqui a Natal descobrir talentos e levar pra lá.

Solto: Como se deu a transição de “rock star” para produtor?
Leno: Na gravadora eu ficava assistindo a gravação do Roberto, Renato, Wanderléa, vendo o pessoal escolhendo o repertório. Eu sempre gostei desse lado do backstage. Nunca fui muito de botar a cara e aparecer demais não. Hoje eu até gosto, porque o artista tem que estar no palco para mostrar o seu trabalho. Eu não era um executivo de bater ponto, ficar lá o dia inteiro na gravadora. Ia quando eu queria, participava das coisas.

Solto: Pouca gente sabe que você tocou com Raul Seixas. Como conheceu ele?
Leno: Ele havia chegado ao Rio de Janeiro, vindo da Bahia, para acompanhar Jerry Adriani. Mas aí sua banda, Raulzito e os Panteras, acabou e ele terminou ficando no Rio. Eu fui o primeiro cara a gravar uma música dele, em 68. Raul só foi estourar em 73, com “Ouro de Tolo”. No Rio eu dei guarida pra ele, chamei ele pra tocar comigo, na minha banda. Foi aí que houve uma ruptura enorme na minha carreira. Eu vinha de um disco super romântico, “A Festa dos seus 15 anos” (1970), e em seguida fiz “Vida e Obra de Johnny McCartney” (1971), em que Raul entrou como parceiro nas letras. Aí a censura veio e prendeu oito faixas. A partir daí, Raul se empolgou para cantar.

Solto: O que esse disco continha?
Leno: As letras eram mais críticas, falavam de imposto de renda, de injustiça social, da falta de liberdade...

Solto: O que o levou a sair da linha romântica para uma mais contestadora? Na época você estava ouvindo algo que influenciou nesta decisão?
Leno: Foi uma inquietude da minha parte em relação com a falta de verdade no Brasil, mas também tinha muito a ver com o amadurecimento do rock lá fora. O rock no começo era uma coisa divertida, depois foi ficando cada vez mais importante na cultura mundial. Eu estava amadurecendo também. Era uma mudança cultural, existencial e refletiu na música. Quando o disco foi censurado, saí da gravadora e fui pra Philiphs. Depois a CBS me convidou pra voltar como produtor em 1972. Foi então que a gravadora sugeriu: “por que você não faz um retorno com Lilian?” Aí gravamos dois discos.

Solto: Teve muita pressão para a dupla voltar?
Leno: Não, não, eu queria fazer. Foi numa boa. Eu já tinha feito muito sucesso fora, já tinha me auto-afirmado como artista solo. Por não ser uma coisa obrigada, deu vontade de fazer.

Solto: Algumas críticas consideram o disco de 1972, que vocês gravaram juntos, como um dos precursores do que viria a ser o pop-rock brasileiro. Concorda?
Leno: Eu considero esse o melhor disco da minha vida. A gravadora me deu liberdade para escolher as músicas. Depois, em 74, parti pra carreira solto e ela também. Aí eu fiz uma música chamada “Flores mortas”, que falava de poluição, crescimento urbano. Foi a primeira música a tratar de ecologia no Brasil, ficando em primeiro lugar em São Paulo e no Rio. No final dos anos 70, fui morar em Los Angeles. Depois voltei pra o Brasil e recebi o convite pra ser produtor da RCA. Foi quando, em 81, vim pra Natal, e peguei músicos daqui.

Solto: Quais eram?

Leno: Tinha Babal, Enoch, Joca Costa, Mingo Araújo... Aí eu sugeri: vamos fazer uma banda com músicas originais? Nessa época, a música nordestina tava legal, estourando com vários artistas. Aí juntamos o pessoal e fizemos uma super banda, chamada “Flor de Cactus”, que tocou muito no Rio e São Paulo. Eu peguei músicas inéditas pra eles, de Zé Ramalho, de Dominguinhos, todo mundo me deu músicas boas. O primeiro disco deles foi o maior sucesso no Rio e São Paulo. Depois fizeram mais dois discos na gravadora (RCA) e se separaram. O que eu pude fazer para dar força à música potiguar eu fiz.

Solto: Como terminou esse ciclo de produtor?
Leno: As gravadoras pararam de ter cast de produtores. Começaram a usar mais produtores free lancer. A indústria começou devagarinho a definhar com a pirataria, que é uma coisa que me assusta muito. Porque se você for analisar bem, junto com a pirataria começou a cair a qualidade da música. Porque o artista sempre foi autônomo, ele nunca teve garantia, carteira assinada. A única coisa que ele tem é a obra dele, os famosos direitos autorais. Durante muito tempo, quando passavam as fases de altos e baixos, como tudo mundo tem, eu segurava minha barra com meus discos antigos.

Solto: E hoje, como está isso?
Leno: A venda de Cd, direitos autorais, seja como compositor ou intérprete, caiu 90%, 95%, pra todo mundo. Ninguém trabalha de graça, mas acha que só porque o camarada é artista ele tem que ficar feliz por ver sua música divulgada. Divulgação não paga aluguel, condomínio, IPTU, supermercado. Você fica até feliz quando vê que sua música teve mil e tantos downloads gratuitos na Internet... Por uma lado é gratificante saber que as pessoas gostam de ouvir você, mas você não ganha nada com aquilo. Eu não culpo quem faz download, eu também faço. Mas tem uma indústria que ganha dinheiro com isso, e disponibilizando o que é alheio.

Solto: Voltando à Jovem Guarda, como vocês lidaram com a questão das drogas, sempre muito associada à juventude da época?
Leno: Até 68, não se falava em droga, não rolava. Nem chegava às nossas festas. A gente nunca tinha visto. Mas a partir de 69, 70, com a contracultura, começou a rolar. No Rio, rolava muita maconha, mas cocaína nem se ouvia falar. A primeira vez que vi um baseado na minha frente estávamos eu, Raul e um primo dele que era surfista. Foi ele quem chamou a gente pra casa dele, em 1970. Aí a gente experimentou. Mas na época da Jovem Guarda, era um uisquinho, mais pra aquecer a voz. A gente gostava mesmo era de sexo. A droga da gente era sexo. A gente queria era transar.

CONTINUA... http://www.soltonacidade.com.br

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graça grauna
 

Parabens pela entrevista e por avivar com leveza a nossa memória. Bjos.

graça grauna · Recife, PE 9/3/2009 10:25
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graça grauna
 

Bjos e votos

graça grauna · Recife, PE 10/3/2009 09:01
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Ilhandarilha
 

Legal entrevistar esses ícones da Jovem Guarda. Acho que eles tiveram uma importância fundamental para a música popular brasileira, mas caíram totalmente no ostracismo de uns tempos pra cá.
abraços

Ilhandarilha · Vitória, ES 11/3/2009 20:10
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FILIPE MAMEDE
 

Cléo, meu filho, está por aqui agora? Gostei muito da entrevista. A Jovem-Guarda, apesar de ser questionada por alguns como sendo um movimento que não questionava, ficou marcado para todo mundo. Eu mesmo que nem vivi a época, sei de cór dezenas de músicas. Excelente entrevista. Uma abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 11/3/2009 21:35
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