Som na pista. Da rua ou de dança

Saulo Frauches
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Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ
27/7/2006 · 105 · 12
 

Sabe aquelas pessoas com uma história instigante, que você descobre sem querer? Tudo começou em mais um fim de noitada. Grogue de sono, resolvi me dar ao luxo pequeno-burguês de rachar um táxi com um amigo na volta para casa – estava sem forças para esperar o primeiro ônibus ao amanhecer. A maioria dos taxistas não queria nos levar porque propusemos um preço pré-acordado em vez do taxímetro convencional. Eis que aparece um cara por volta dos 30 anos, de papo bem-humorado, que topou fazer a corrida numa boa. Dentro do carro, certas idiossincrasias começam a saltar aos olhos. Ele aumentou o som (potente) do veículo. Começo a acordar. Pergunta se não tem problema, se a gente curtia. Dissemos que podia continuar.

- Olhe para trás! Olhe para trás! - pedia, com uma cara de felicidade daqueles que se sentem prestes a pregar uma peça.

Foi só virar a cara para o vidro traseiro e... FLASH. Fiquei cego. Havia duas fontes de luz estroboscópica coladas na altura do vidro. A luz começa a piscar no ritmo do som, que estava altíssimo; não teve jeito, o sono se dissipou. E 'ele' ganha nome, apresenta-se e começa a falar dos planos de tocar em uma boate carioca. Anderson Rodrigues, 30 anos, é DJ desde os 16 anos e há dez trabalha como motorista de táxi. Tudo conciliável.

Liguei depois desta noitada para Anderson, a idéia era combinarmos um bate-papo; feliz, ele aceitou na hora. Fomos para um posto de gasolina na Lagoa a pedido do DJ.

- Aqui é o meu 'point'. Onde lavo meu carro, tomo uma cerveja... - diz, ao comprovar a intimidade com as pessoas do pedaço cumprimentando os vendedores de salgadinhos chamando-os por um carinhoso ‘morcegos da noite’.

As pistas e o táxi parecem ter uma relação simbiótica na vida dele. Até o horário de ação das duas atividades é o mesmo: a noite, a madrugada, o clima anti-dia. Se o carro foi uma saída financeira para seguir em frente, a discotecagem também colaborou na época de vacas magras nas ruas do Rio.

- Em uma época de crise, com poucos clientes para o táxi, pensei em transformar o carro de forma bacana. Percebi que se fizesse no carro coisas que copiavam o clima de boate, o pessoal gostava. Os passageiros gostam de músicas legais – conclui.

E a proposta foi criar um carro que não deixe o pique da balada cair. A destreza com que Anderson fala de correntes elétricas e voltagens revela as noções básicas de eletrônica obtidas em um curso. Sabendo como mexer com fios e munido de idéias na cabeça, ele mesmo é o autor das intervenções feitas em seus veículos para transformá-los em boates móveis. No carro atual, prestes a fazer um ano, ainda falta uma turbinada na iluminação e colocar fumaça. Isso mesmo, fumaça. Projeto que ele mesmo bolou e executou no carro anterior. Um veículo com luzes estroboscópicas, tocando house e soltando fumaça com aroma de morango não se vê em qualquer lugar, admita.

- Eu que inventei a fumaça para botar no carro. Bom, pelo menos não conheço ninguém aqui no Rio que faça isso. E foi um sucesso total. Os gringos adoravam – lembra, orgulhoso.

Dá para dirigir com o carro todo esfumaçado?

- Não é muito funcional, mas dá. Você joga só um pouco de fumaça e deixa a galera curtir – conta, mostrando-se cauteloso ao voltante ao destacar que nunca deixava a fumaça ligada direto.

O carro atual é um Fiat Brava da cor vinho. Desta vez, ao contrário dos outros veículos que teve, Anderson abriu mão do amarelo tradicional dos táxis cariocas e preferiu trabalhar como 'car service', prestando serviços avulsos. Além do som calibrado e das luzes piscantes dos carros anteriores, o destaque do modelo atual são duas fontes de luzes coloridas piscantes, que simulam aqueles globos pretos que soltam diversos feixes de cores. A iluminação nababesca – que Anderson ainda pretende turbinar – só tem freios estéticos.

- Se colocar coisas demais vira árvore de Natal!

O DJ garante que não gastou mais de R$ 1 mil para equipar o carro. A receita é adotar soluções caseiras.

- As luzes coloridas são tiradas de lâmpadas de brinquedos japoneses. Você acha em camelô mesmo. Eu comprei em uma dessas ‘lojinhas de japonês’ que vendem essas coisinhas loucas que piscam para lá e para cá - diz para exemplificar que investimentos baixos podem causar boa impressão nos clientes.

Nas pistas

A carreira do DJ deu os primeiros passos na Zona Norte do Rio, no começo dos anos 90, quando Anderson tocava em discotecas improvisadas. Apresentação oficial em boate mesmo, foi em Duque de Caxias. E quase que sem querer, apesar de a paixão pela música ser coisa antiga.

- Tem uma boate em Caxias que se chamava Turnê Discoteca, que hoje ainda existe com o nome de Pirâmide. Lá tinha um clima a mais, eram cinco ambientes. Comecei a freqüentar a matinê para paquerar as meninas. Até que teve um concurso de DJ.

Eis então um dos episódios da própria vida que Anderson conta com indisfarçável orgulho.

- Na matinê do concurso o Memê (Marcelo Mansur) foi tocar. E ele elogiou o meu set, me indicou para seguir em frente na disputa - destaca, quando só pára a euforia para reclamar do final da história - Mas eu não ganhei, fiquei em segundo lugar - conta, intercalando um tom de voz entre o ‘puto da vida’ e a risada do tipo ‘deixa pra lá, agora já passou’.

Em Caxias o sonho de trabalhar como DJ deixa de ser uma realidade distante. Logo depois começa uma peregrinação por casas noturnas e festas cariocas. Anderson conta que já tocou em lugares como Melo Tênis Clube, Trigonometria - em Ramos - e na Meli Melo. No momento, o projeto que consome a maior parte das energias é uma festa para a boate Breeze, em Ipanema, onde o DJ afirma que será apresentação fixa da casa às quartas-feiras. A previsão é de que a festa estréie dia 2 de agosto.

Além de tocar em casas noturnas, o homem de mil e uma habilidades também está preparado para fazer festanças particulares. Para as empreitadas de produtor e dj de festas, ele conta com um sócio, Guilherme Von. Onde eles se conheceram? É claro, Anderson conheceu o parceiro nas pistas em um ponto de táxi.

- Ele tem um Santana equipado, como meu carro anterior.

Para as festas feitas a pedido de clientes, ele se orgulha da aparelhagem.

- Temos amplificadores, luz, tudo de primeira! Temos equipamento de som que dá conta de uma festa para 3 mil pessoas em lugar aberto e 5 mil para locais fechados - comemora, para em seguida contar que já tocou em festas de lançamentos de programas de televisão como a novela Kubanacan e a série A Casa das Sete Mulheres; ele só tem receio de divulgar as festas particulares de atores globais que já discotecou e expor momentos privados.

Fã? Anderson revela admirar duas figuras das pistas, os DJs Leo Janeiro e Memê - o que explica bem a empolgação dele ao contar da noite em que tocou na mesma boate que o ídolo. Na hora de fazer o próprio trabalho, revela que não gosta de usar o PC na música.

- Quando não dá para usar vinil, eu mesmo mixo o CD e levo para o lugar. Não tem graça com o PC fazendo tudo...

Nas ruas

Dez anos trabalhando como taxista - atualmente, para ser mais exato, como ‘car service’ - renderam histórias memoráveis. Anderson conta que curte dirigir pelas ruas, mas, se pudesse optar, o caminho seria outro. O carro é mais para segurar as contas no final do mês.

- Vou sentir saudades (se um dia parar de dirigir), mas meu negócio é night, pista, globo espelhado - ri.

Sob o volante, a fama com a música também surge quando menos se espera. Quando um turista grego chamou o então táxi do DJ, veio uma das melhores histórias.

- Teve uma festa na Rio Branco com vários DJs, e o cara chamou um táxi. Ele ouviu o som do meu carro, disse que era parecido com o que tinha na rua. Mostrei fotos de umas festas que fiz, aí ele me pediu uma foto autografada, quem nem artista. O Gringo queria falar que fez amizade com um DJ do Rio - lembra.

Passageiro que quis se matar por ter sido abandonado pela mulher, casal que decide se estapear e baixar barraco sem se importar com o motorista à frente. O portifólio de casos é vasto.

- Parei o carro e pedi para continuarem a porrada lá fora - recorda.

Evitar flagelações corporais não é o único motivo capaz de levar à expulsão de passageiros.

- Teve um casal que me pediu para dar uma volta, porque queria conhecer o Rio. Mas eles estavam quase transando no banco de trás!

Prejuízos também marcam presença. Um dos que Anderson mais lamenta foi o rádio/som que acabara de comprar - caríssimo - para um antigo táxi.

- A menina chamou o Raul dentro do carro. Parecia o filme do Exorcista, foi um jato de vômito que acertou exatamente o meu som. Sem contar que o carro ficou imundo, não pude trabalhar o resto da noite.

Se as histórias a serem conhecidas ficam restritas aos papos no carro, o som do DJ está em todas. Pode conhecê-lo dando uma voltinha pela cidade ou encarando a pista de dança. Ecletismo é a palavra principal para um cara que se vira jogando nas onze.

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Helena Aragão
 

Muito figura, hein! Ah se ele descobrir o Banco de Cultura do Overmundo... :)

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 26/7/2006 14:14
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Mariana Mansur
 

impressionante!

Mariana Mansur · Rio de Janeiro, RJ 27/7/2006 17:34
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Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

Hahahah! Genial, Saulo! Parabens! Essas figuras que a gente acha pela vida sao bizarras e acho muito bacana de vc ter tido a paciencia de escrever e de entrevistar a figura para dividir isso com todo mundo! Arrebentou!

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 27/7/2006 18:29
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Karin Diniz
 

Ótima sacada e ótimo estilo de escrita, agora só falta mesmo conseguir achar esse taxista no Rio de Janeiro para dar uma voltinha... adorei!

Karin Diniz · Niterói, RJ 28/7/2006 10:47
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Balbino
 

êeee matéria boa sô, uma maravilha, parabéns!!!!! que encontro ein? muita luz num fim de noite...........

Balbino · Cuiabá, MT 28/7/2006 11:18
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José Marcelo Zacchi
 

muito bom. ô, Saulo, coloca a dica e o contato dele no Guia pra Karin poder chamar um táxi no Rio dia desses...

José Marcelo Zacchi · Rio de Janeiro, RJ 28/7/2006 11:36
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Natacha Maranhão
 

Adorei Saulo!!
Teu texto tá uma delícia de ler e a história é óóótema!
:-)

Natacha Maranhão · Teresina, PI 28/7/2006 13:13
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Saulo Frauches
 

Poxa, valeu mesmo pelo incentivo de todos vocês. Além de agradecer, vim falar mais duas coisas sobre o DJ:

Postei uma nota no guia , com telefonde dele, para quem quiser andar no carro.

Na agenda, detalhes sobre a festa que o DJ Anderson vai comandar em agosto.

Como as notas estão na fila de edição, os links são provisórios. Depois volto aqui e coloco os definitivos.

É isso, abração!

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 28/7/2006 15:37
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Gilvan Costa
 

Pow Saulo, que massa. Essa figuras do nosso cotidiano às vezes a gente n-em vê direito. Que bom que você percebeu tudo isso e diidiu com a gente. Aqui em Boa Vista tem um taxista que enfeitou o carro dele internamente todo com sapatinhos de bebê. Tem gente pra tudo. Parabéns pela matéria. bela sacada sua. E do taxista também.

Gilvan Costa · Boa Vista, RR 29/7/2006 23:16
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Saulo Frauches
 

Eis os links definitivos.

Festa do DJ anderson na agenda.

Carro-boate do DJ no guia.

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 3/8/2006 17:11
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Ana Murta
 

Que figura esse Driver-DJ.
E Saulo véio, tô fã sua. Admiro tua curiosidade, ponto de vista e o peculiar humor dos teus textos.
Continua escrevendo que eu continuo lendo.

Ana Murta · Vitória, ES 29/8/2006 15:49
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DJ Anderson
 

Aí galera ! Meu novo telefone é (21) 9467-5897.

DJ Anderson · Rio de Janeiro, RJ 9/8/2008 21:33
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