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Sou Brasileiro e não me orgulho nunca - parte XIII

1
Mão Branca · Brasília, DF
4/4/2007 · 27 · 5
 

Hospitais

Estourei o pé numa pelada. Fui ao hospital mas não tinha médico, nem remédio, nem nada. Estava aberto apenas por causa da porta quebrada.
- Vou ter que apelar. - Pensei com o botão das minhas calças.
Liguei prum amigo dum amigo que trabalha num tribunal, desses de 6 horas diárias e recesso de 60 dias por ano, além das férias.
- Não se preocupe. - Disse o sujeito. - Vá fazer uma consulta no hospital do exército.
Lá quase não me deixaram entrar.
- Mas, seu guarda, tô de bermuda pois o pé inchado não passa pela calça.
- Não importa! - Disse o moço da PE, uns dezoito anos e a cara com espinhas arrebentada pelas barbeadas obrigatórias. - Lei é lei.
- Mas ... - Redargúi num rompante. - e as leis de deus?
Ele fez uma expressão paquidérmica.
- Tá. Pode passar.
Minha mulher esperou entramos para perguntar com os olhos: "que leis de deus, seu ateu maluco?"
- Oras, um argumento idiota merece uma asserção ignorante.
Cheguei-me à moça do balcão de atendimento.
- Estou com o pé machucado. - Sorri com todo o meu charme. - Preciso de um pé-diatra.
Ela me olhou entediada. Chamou o oficial do dia.
- Aqui não é lugar para brincadeiras. - Ameaçou-me o fardado. - E não pode entrar de bermuda.
Suspirei. E apontei uma dondoca que rebolava numa minissaia safada.
- Mas ela pode passear quase nua? - Tentei segurar a língua, mas não deu. - Né, seu taradão?!
O homem chamou o superior que telefonou ao oficial que bipou ao comandante. Em três minutos ele tava lá. Será que o exército brasileiro não tem o que fazer?
- O que tá acontecendo aqui?
Após os relatórios dos inferiores, pedi ao chefe para ser atendido pelo médico que cuidava de pés torcidos.
- É que não sou doutor e não sei a nomenclatura. - Fiz cara de coitado e olhei para moça do balcão. Ela continuou com a arrogância que todo incompetente usa para se proteger.
O comandante conferiu-me na ficha.
- Não vai entrar. - Decidiu.
Fiquei surpreso com a rigidez autoritária. Logo ele completou.
- O hospital está sem ortopedista. - Olhou para cima. - Nem cardiologista, dermatologista, oncologista..Só funciona a urologia pois tem muita...necessidade.
Pensei nos recrutas que, às dezenas, fazem ponto na praça da alimentação do Conjunto Nacional. Uns putos de todos os estados que enchem o rabo de dinheiro trepando com os políticos e empresários enrustidos que vêem à Brasília buscar dinheiro sujo e sexo fácil, não nessa ordem. Percebi que qualquer chiste me arriscaria a uns dias de cana. Prisão e pé torcido não estavam nos meus planos.
Liguei mais uma vez ao cara do tribunal. Relatei a falta de condições do hospital do exército.
- Vou te encaixar aqui pelo tribunal. - Deu-me o endereço de um hospital. - Depois você me dá uma cervejinha de gorjeta. - Também passou o número da conta bancária. Ao menos deixou ao meu critério o valor da propina.
Fui atendido por um ótimo médico, radiografado, analisado, medicado e instruído:"gelo e repouso". Saí satisfeito pelo bom atendimento. Parece que a mão branca do médico já ajuda a curar. Se não fossem tão corporativistas com seus colegas que cometem erros, protegendo crápulas e escroques, acharia-os uma categoria respeitável. Por enquanto ainda são uns pernósticos.
Voltei para casa com a certeza de que o modelo de Estado em que vivemos não funciona, é insuficiente às classes menos privilegiadas. Os ricos sempre compraram seus confortos, porém a definitiva separação social entre Patrões e Miseráveis dá-se agora nesta estrutura do país. A incapacidade de suprir os menos favorecidos é demonstrada na saúde e previdência aprimoradas aos servidores de carreiras privilegiadas. Ou seja, fica claro que o sistema está pouco se importando com os pobres ao dar aos juízes e empregados dos tribunais, preciosos à sociedade, uma qualidade de vida superior, majestosa em comparação ao resto da plebe.
É claro que todos as agremiações desejam o melhor para si, porém tais benefícios devem ser financiados pelos próprios associados, como em qualquer entidade de classe. Quando o Estado paga as vantagens dos tribunais e, quiçá, do legislativo, em outras palavras avisa ao povo que está protegendo "as pessoas mais importantes do Brasil" e continuará abandonando a população à própria sorte, que quer dizer ao SUS.
- Gritam aos ventos que os hospitais do povo são uma porcaria. - Resmunguei.
- Quem? - Perguntou a patroa.
- As vantagens dos servidores do judiciário e do legislativo. - Mastiguei as palavras. - Enquanto nossos dirigentes, este aglomerado de desonestos, não sentirem na pele o infortúnio que é ser brasileiro e ter que conviver com a opulência em meio à nossa miséria, nada será corrigido. Só quando correr o sangue azul das oligarquias dominantes o Brasil se livrará das verdadeiras amarras da sociedade. - Meu dedo em riste cortava o ar.
- Bebeu? - Ela me olhou. - Tá anarquizando de novo?
Deve ser o remédio, pensei.

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A série Sou Brasileiro e Não Me Orgulho Nunca pode ser encontrada nas Crônicas do sítio A literatura obscura de Mão Branca

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Egeu Laus
 

Mão Branca,
Estou meio em dúvida achando que talvez essa contribuição fique melhor no Banco de Cultura...
O que a comunidade acha?

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 4/4/2007 00:46
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Mão Branca
 

Cara, até hoje não entendo esse sistema. mas acho que tá no lugar certo.

Mão Branca · Brasília, DF 4/4/2007 09:27
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Helena Aragão
 

Para entender o sistema, dá uma olhada aqui: http://www.overmundo.com.br/estaticas/participe.php. Como está mais para ficção - apesar de ser um texto de crítica social -, também acho que seria mais pro Banco de Cultura. Como já está na votação, vamos ver o que a comunidade interpreta (via voto). Abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 4/4/2007 19:30
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Me Morte
 

Parabéns Mão. Teu texto é atual e trata com muito jogo de cintura um problema que leva o Brasil para o buraco, a Saúde. Verídico e constestador. Beijos

Me Morte · Pouso Alegre, MG 5/4/2007 14:57
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jjLeandro
 

Olá, Mão!
Prazer em vê-lo por aqui. Muito bom o texto, com humor. E tratando de assuntos que nos escandalizam no cotidiano, mas que mesmo sendo parte de nossa tragédia permite humor.

Disse que até hoje não entende o sistema, mas aqui vai uma dica: no overblog postam-se reportagens, críticas e outros textos abordando o assunto literatura. No banco de cultura a produção literária em si: contos, romances, crônicas, poesias etc.

um abração e sucesso.
.

jjLeandro

.

jjLeandro · Araguaína, TO 5/4/2007 17:02
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