Não é muito fácil chegar à conclusão de que não é mais possível ser "autêntico". Palavra batida essa (autêntico), já depois de tantas ilusões filosóficas, psicológicas e libertárias a respeito, mas que de momento me serve para desconstruir-me na presença de vocês.
Já há alguns anos acordo pela manhã, quase sempre mal-humorado (por ter que levantar e ir trabalhar em um país em que o trabalho inútil é por pouco dinheiro e com muita encheção de saco), e sei que vou ter logo em seguida que bancar um dos personagens que agrade aos meus ouvintes do dia-a-dia e, conseqüentemente, me traga a possibilidade de uma sobrevivência cotidiana facilitada.
Ou, simplificando: ao acordar sei que terei que fingir ser quem não sou até o ponto de tornar-me, por horas, verdadeiramente este outro, para ter das pessoas o que preciso. E neste precisar está incluído tudo.
Sempre foi assim, e sei que quase todos me dirão o mesmo: é o nosso teatro social e inevitável, day by day. Bem, mas vejamos antes a rotina de um típico brasileiro de classe média, que tem que se adaptar às demandas das pessoas ao seu redor para não se tornar 100% em escroto (para quem não entendeu bem, tornar-se um filho da puta, um destes a que todos têm raiva ou querem distância).
Em primeiro lugar, felizmente, muito felizmente, trago muitos resquícios, em meus modos espontâneos de comportamento e expressões, de quando eu era um garotinho e adolescente razoavelmente dócil, cordial, amistoso, realmente simpático, que cativava as pessoas que gostavam de alguém bonzinho; principalmente as mulheres. Hoje, com as mulheres que gostam de homens sensíveis, ternos, tentar manter por algumas horas este personagem cativante é algo de grande funcionalidade e prazer. Até certo ponto.
Parecido com este aí, e também vindo de uma infância familiar, interiorana e cristã, também preciso manter (raras vezes ainda espontaneamente, a maior parte do tempo sabendo que estou fingindo) uma teatralização de bondade e preocupação solidária com meu semelhante. Caras e bocas de preocupação com o seu bem-estar, com as infinitas mazelas sociais que o afligem, com o fato de não querer humilhá-lo nem tratá-lo mal em encontros fortuitos em supermercados, farmácias (o brasileiro adora uma farmácia), ou em qualquer lugar.
Para sobreviver financeiramente, não tenho dúvida: este lado de uma bondade cristã que ainda reluz em meu brilho dos olhos é realmente útil. Espero que dure muito ainda, embora eu já tenha sérias dúvidas se este personagem vai longe. Essencialmente eu sei que ele não faz mais parte de mim. Às vezes rio cinicamente por dentro enquanto meu ar de bondade cativa aqueles que só conseguem ver em mim o que querem ou que conseguem. Rio principalmente das pessoas humanistas mais ingênuas e prepotentes, que acham que conseguem sentir a "essência" dos outros ao olhá-los nos olhos, para saber se é realmente "do bem". Só mesmo rindo! Chega a ser triste agora que penso a respeito, mas é assim que acontece. O cinismo está no ar e tem dado a tônica da vida pública brasileira. Nem o condeno mais...
Quando tenho que conviver com meus pares de classe média, meus personagens são outros. Se são mulheres, um pouco do sensível é requerido, por elas, principalmente, mas também por mim: quando vejo já estou eu sendo o sensível que já não sou, principalmente se estou verdadeiramente na carência de um romance terno ou de uma companheira dedicada e amorosa; ou às vezes se preciso de algum favor, algum favorecimento na vida burocrática ou profissional. Está cada vez mais cheio de mulheres nos governos, empresas, escolas, hospitais, em todo lugar em que se faz necessário uma CDF, uma caxias, pra fazer tudo como se deve, mesmo que inutilmente.
Já um outro modo de atrair mulheres é ser arrogante. Pode ser qualquer tipo de arrogância. Boa parte das mulheres brasileiras de classe média, e gradualmente também as demais, adoram um sujeito metido. Muitas se dão mal ao se deixarem levar só por isso, já que a maioria dos "fodões" são apenas casca, não tendo poder real sobre nada. Um típico destes que encontro com freqüência por aí são os que foram apelidados de PIMBAS (pseudo intelectuais metidos a besta e associados), geralmente intelectualóides que se mostram entendidos em algum assunto, ou vários, que conversam citando livros, autores, diretores de cinema e tentam usar palavras que pareçam trazer algum saber novo (seduzir trazendo "novidades" ainda é muito fácil no Brasil).
Já para as brasileiras mais ordinárias, um carro importado poderoso, um alto-falante estremecendo, um escapamento de moto enchendo o saco, uma pistola na cintura, um pacote de coca ou de bolinhas no bolso, e uma cara de "eu sou foda" já são o suficiente. Alguns desses "fodões", coitados, acabam se dando muito mal, por não conseguirem perceber que seu estereótipo de poder é apenas estampa. Não conseguem botar um freio entre a demanda social e sexual de poder pessoal e o que realmente são e podem fazer. Acabam tentando fazer este personagem durar no tempo, logo se fodendo de verdade na tentativa dos outros de serem os "tais" ou apenas de sobreviverem.
Já eu tento não voltar a ter qualquer coisa que pareça alguma essência com obrigação de durar no tempo. Já tentei várias vezes, e tudo que encontrei ao final de meses ou anos foi ver-me tentando ser o que não sou. Acho que sou mesmo um brasileiro essencialmente nada. O típico brasileiro, pra quem ainda vive no mundo das fantasias ufanistas a respeito dessa merda, é fruto de uma reunião de culturas que se digladiaram durante alguns séculos até resultar no que sobrou: esse povo-nada, que se auto-destrói lentamente à medida que continua a ser sugado pelas demais culturas canibais do mundo.
Àquelas pessoas por quem tenho consideração e respeito (ainda existem umas poucas) eu sempre tento fazer com que respeitem minha solidão a maior parte do tempo, e peço para que não ficem desejando demais que eu seja sempre o mesmo. Se não suportam a incoerência de meus personagens que se sucedem ao longo do dia, que se afastem um pouco (ou muito), pois minha essência são todos estes personagens pouco duráveis e ao mesmo tempo o fato de nenhum deles ser realmente eu. Talvez apenas aí eu seja alguém: apenas um brasileiro típico, de decadente início de século; um humano típico, vazio de alma, de espírito, de essência, de coerência. Apenas sigo adiante, por vontades e desejos que não compreendo e dos quais sou apenas um servo. Por mim mesmo eu parava e ficava só olhando esse caótico caldeirão de ilusões. Mas infelizmente faço parte dele, e preciso fingir dentro das ilusões alheias e também dentro das minhas.
Tomazio, minha opinião sobre isso é que essa questão não é especificamente brasileira, e sim uma luta do homem de hoje. Me vejo - e muito - nas questões que vc expõe aqui, mas talvez tente lidar com elas da melhor forma. Acho realmente filosófico e profundo pensar que somos tantos mas temos que representar um só. Às vezes, gosto de pensar que isso é o que existe de mais democrático: a possibilidade de ser muitos. Às vezes, é horrível não se saber quem é. Mas tá todo mundo nesse barco, eu acho, então o pessimismo se dilui, a raiva do Brasil (porque não é culpa do Brasil!) se dilui, e se acaba tentando lidar com uma condição que, na verdade, é humana. Filosofamos... : ) Abraço!!
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 14/10/2006 13:57Concordo com vc, Thiago. Não é uma questão apenas brasileira, mas é uma questão que tem particularidades no Brasil, e essas particularidades não são das mais otimistas em relação à brasilidade. E este é o sentido do texto: não continuar tratando a brasilidade apenas de maneiras ufanistas ou utópicas. Abraço pra vc tanbém!
Tomazio Aguirre · Santo André, SP 14/10/2006 14:41
O que arde na garganta não é o grito, mas o silêncio do choro..
E o que há pra chorar?
O nada? A iniquidade, a sordidez?
A revolta já faz parte de quem perdeu....
http://www.overmundo.com.br/banco/sala_edicao.php?em_edicao=7086#c31245
acho que essa menina está quase chegando às mesmas conclusões que vc.
Existem algumas pessoas que não se sentem bem com as máscaras que precisam usar no dia a dia para conseguir se relacionar bem com as outras pessoas.
Não é mais inteligente da nossa parte ser contestador demais. Chega um ponto da vida que nos cansamos de contestar e pra ter um descanso justo de tudo isso, nos entregamos a elas: as mascaras.
Não há como essa revolta que se esconde em nós não tomar voz um belo dia desses.
Uma hora cansa.
Parece que muitas pessoas sentem exatamente como vc, eu sou uma delas.
Obrigada por colocar palavras em meus sentimentos. Adorei.
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