Sr. Brasil

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Henry Burnett · São José dos Campos, SP
26/1/2007 · 262 · 17
 

Mudei para São Paulo há pouco mais de uma semana. Cidade que eu temia e que hoje me acolhe em silêncio, com uma promessa de permanência que deve me manter aqui por muitos anos. Em meio às descobertas iniciais, algumas caminhadas a esmo pelas ruas do bairro, novos sotaques, novas comidas, reencontro, num programa da TV Cultura, um artista chamado Rolando Boldrin. Reencontro porque é uma figura que eu não via desde criança, em Belém.

Muito antes de descobrir o violão, naquela época, década de 70, talvez início dos 80, eu acordava domingo de manhã para assistir a um programa que nunca esqueci, o Som Brasil. Quando o vi agora, seu sorriso doce e seu talento trouxeram de volta imagens e sons do programa e da época de infância. A música que eu ouvia era uma representação de uma Brasil diferente, desconhecido.

Foi nessa época que me tornei admirador de artistas como Renato Teixeira, Almir Sater, Luiz Gonzaga, Pena Branca e Xavantinho, o próprio Boldrin e tantos outros. Não tenho nenhuma dúvida quanto ao papel que esses artistas exerceram em minhas predileções musicais até hoje e, da mesma forma, percebo com alegria como algumas das minhas canções se apropriaram de elementos, por assim dizer, caipiras.

Nesse momento em que o "Não para magoar" - título do meu último CD que pode ser baixado aqui - começa a trilhar seu caminho, é importante pra mim notar que uma canção como "Noite úmida" contém muito de Renato Teixeira e de Rolando Boldrin, talvez não na forma ou no conteúdo textual, nem na riqueza, mas na simplicidade extrema. É motivo de orgulho mesmo, porque são artistas de muita integridade e de um talento sem igual para revelar o Brasil ao brasil. Como disse Maria Bethânia, na entrevista que deu à revista Bravo deste mês, o brasil quer deixar de ser o Brasil.

Ontem foi ao programa "Sr. Brasil" Jards Macalé. A aparente estranheza de ver Macalé num programa dedicado à música do interior - nem de longe o programa é só isso - logo deu lugar a uma intimidade total entre eles. Na verdade Boldrin já esteve muito próximo desses cânones da MPB que até hoje produzem sem perder o viço. Seu ótimo site contém informações preciosas sobre sua vida para quem não faz idéia de quem eu estou falando.

No programa anterior vi um sambista carioca que não me recordo o nome. Depois de cinco anos morando no Rio, tive uma sensação diferente vendo-o. No Rio, existe hoje uma grande onda de sambistas jovens e um retorno à cena de outros tantos nomes que ficaram obscurecidos nos últimos anos. Mas uma coisa é muito nítida para mim: todos procuram, a seu modo, se apropriar do gênero, num movimento até certo ponto compreensível de defesa, como se dissessem que não querem ver o samba novamente apagado.

Mas isso tem muito de carioquice, e de uma certa arrogância que vem a reboque. Ouvi, por exemplo, que não poderia compor sambas porque não nasci no Rio de Janeiro; em outro momento, depois de ter dado uma canja numa roda de samba, ouvi de um carioca muito elegante a seguinte frase: "que país maravilhoso é o nosso; você [eu] vem lá da PQP [Belém] e consegue tocar IGUAL A NÓS". Eu já morava há 4 anos no Rio e, bem, achei melhor levar "na boa".

Mas quando assisti ao sambista no programa do Boldrin, vi pela primeira vez o samba "dessacralizado", ou seja, fora do contexto "original". Quando Boldrin cantava junto então eu notava o quanto de admiração ele tem pelo gênero e como mesmo na música popular coisas estranhas podem acontecer, como essa aura com a qual as pessoas revestem o samba e acabam por aprisioná-lo.

O programa sempre começa com Boldrin em close, recitando um poema popular. Suas rugas e seu cabelo branco realisticamente enquadrados são uma afronta aos imbecis padrões da TV brasileira nesse momento, onde a juventude aparece sempre linda e fútil. Em seu rosto a marca do tempo, do acúmulo de saber, da liberdade de pensamento. Sua presença deixa uma esperança de que um dia esse país se reconheça. Viva Rolando Boldrin.

P.S. de Manuel Bandeira - ao descobrir que um samba que ele ouvira cantado pelo próprio Sinhô (dizendo que havia composto na noite anterior) era na verdade de um compositor chamado seu Candu:

"Isso tudo me fez refletir como é difícil apurar afinal de contas a autoria desses sambas cariocas que brotam não se sabe donde. Muitas vezes a gente está certo que vem de um Sinhô, que é majestade, mas a verdade é que o autor é seu Candu, que ninguém conhece.

E afinal quem sabe lá se é mesmo de seu Candu? Possivelmente atrás de seu Candu estará o que não deixou vestígio de nome no samba que toda a cidade vai cantar. E o mais acertado é dizer que quem fez estes choros tão gostosos não é A nem B, nem Sinhô nem Donga: é o carioca, isto é, um sujeito nascido no Espírito Santo ou em Belém do Pará".


(Manuel Bandeira. "Sambistas", in Crônicas da província do Brasil, São Paulo, Cosac Naify, 2006).

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Thiago Camelo
 

Viva Rolando Boldrin!! Adoro o programa dele também, Henry! O cara é de uma gentileza e doçura com os entrevistados incrível. Uma dica, ok? Colocar as tags (palavras-chave) no seu texto. Ajuda muito os outros usuários em pesquisas futuras pelo site. Parabéns, mais uma vez, pela colaboração. Abraços!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 25/1/2007 17:22
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Henry Burnett
 

Obrigado Thiago, e obrigado pela dica, já adicionei os tags. Abraço!

Henry Burnett · São José dos Campos, SP 25/1/2007 18:40
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Higor Assis
 

Caro Henry.

Não é de hoje que este programa do Rolando ganha prêmiso atrás de prêmios. Este programa que você citou do Sambista, foi muito bom mesmo com trechos muito interessantes. O legal foi aquele dueto que eles fizeram no final da apresentação do artista carioca.

Higor Assis · São Paulo, SP 26/1/2007 08:54
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Ariel Lacruz
 

Adorei o texto, parabéns! Lembei com carinho da época em que meu pai não se continha de entusiasmo e me acordava, a mim e meus quatro irmãos, para ver na tv o "amanheceu, peguei a viola..."

Ariel Lacruz · Vila Velha, ES 26/1/2007 21:01
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Henry Burnett
 

Muito bom saber que aquelas manhãs de domingo no Som Brasil tinham muito mais cúmplices pelo Brasil. Abraço a todos.

Henry Burnett · São José dos Campos, SP 26/1/2007 21:10
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Rafael Campos
 

Muito bacana o texto, Henry! Não há como não lembrar dessas manhãs, embora muito jovem, não tinha muito interesse em assistir. Mas hoje, um pouco mais velho, posso admitir que respeito o Boldrin, e todos os geniais artistas deste país que emprestaram sua criatividade e contribuíram de alguma forma para cena cultural brasileira, o que infelizmente está em falta (com raríssimas exceções) atualmente!
Um abraço!

Rafael Campos · Belo Horizonte, MG 27/1/2007 15:21
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Marcos Valério de Azevedo Maia
 

Gostei muito do texto, Henry. Concordo com você quando fala da "aura com a qual as pessoas revestem o samba e acabam por aprisioná-lo" Sabemos que o samba é simplicidade e a autenticidade dele não tem carimbo, simplesmente existe e está livre por ai para ser vivida. A postura dos puristas de hoje em dia, lembra a dos folcloristas que também se apropriavam, a seu modo, da chamada "cultura popular" Parece que eles ainda estão por ai... mas têm sua utilidade (rss).
Quanto ao carioca "elegante" que soltou o tradiciona "puta-que-pariu" em cima de você, ele poderia se informar melhor e saberia que o rádio - e outros meios - divulgou o samba para os quatro cantos do país na primeira metade do século passado. Tempo em que nossos bis/avós se apropriavam do que ouviam e viviam e repassavam tradições para nossos pais em todos os sotaques. Assim como Boldrin repassou ( e repassa até hoje ) vários gêneros pela TV nas décadas de 70 e 80, como vc rememorou no seu texto.
Pra finalizar, essa o seu companheiro de roda de samba citado não deve saber mesmo: Belém foi uma das primeiras capitais do país a ter uma emissora de rádio ( a Rádio Clube ). Permitam esse leve bairrismo de um belenense que sou - além de ser filho de amazonense, neto de nordestino, irmão de carioca e pai de mineiro.
Muito boa sorte pra ti ai em Sampa, meu caro! E vamu que vamu por esse Brasilzão sem porteira, sô!

Marcos Valério de Azevedo Maia · Belo Horizonte, MG 27/1/2007 18:25
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Marcelo Torca
 

Alô Henry Burnett! Parabéns pela matéria. Gostaria apenas de fazer uma correção, o programa do Sr. Brasil é um programa de música Caipira e não do interior. A Música Caipira é um gênero, assim como o Samba, Rock, e está em todo país.
Abraços.

Marcelo Torca · Paulicéia, SP 27/1/2007 18:30
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Rica P
 

Pô, demais...passei por essa mesma re-descoberta há bem pouco tempo, fiquei feliz. E o texto tá ótimo. E se todo mundo fosse 'purista' desse jeito radical muita coisa nem existia, afinal não somos a pátria das misturas? Não é esse nosso orgulho? Então...

Rica P · São Paulo, SP 27/1/2007 18:47
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ieda.bis
 

Parabéns Burnett. Gostei muito do texto.
Alguém saberia dizer se a Globo disponibiliza as gravações passadas do programa pra quem quiser comprar?
Ou será que estamos nas mãos da boa vontade do departamento comercial da "Vênus Platinada" outra vez?

ieda.bis · Londrina, PR 27/1/2007 18:56
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Rodrigo Teixeira
 

Muito boa reflexão! E o texto excelente. Com certeza, esta turma citada, Almir Sater, Renato Teixeira, Rolando Boldrin, faz uma música q é adorada pelo público em muitos estados do Brasil, mas na mídia não tem espaço nenhum. EXISTIA SIMMMMM UMA MÁ VONTADE COM ESTA MÚSICA. O Almir por exemplo acaba de lançar um disco (7 Sinais) após 8 anos sem gravar nada. Não vi nenhuma repercussão nenhuma na mídia. É engraçado, por exemplo, o Renato Teixeira, que é inegavelmente uma grande compositor, e um dos poucos da geração dos 'baianos' que olhava para o Brasil caipira e jamais ganhou os louros (da mídia e dos próprios medalhões da MPB) ou o reconhecimento justo. Outra coisa é q vivi 7 anos no Rio. Tenho uma filha carioca e vários amigos. Amo o Rio. Mas que o carioca não conhece e não está nem aí para a diversidade cultural brasileiura é fato. Claro q não dá para generalizar, mas é isso mesmo. E muitos mal conhecem o próprio estado em que moram. Existe sim um preconceito com o caipira ae no Rio. E pensando na Globo, que já fez programas musicias de arrepiar, como Chico&Caetano e o próprio Som Brasil, hoje virou uma lástima, um verdadeiro deserviço para a cultura brasileira. Está entupida de lixo, está cheia de imbecilidades na telinha, não existe (na área da cultura veja bem) a mínima responsabilidade em passar algo construtivo, em dar espaço para o artista, para a arte e não para celebridades que não sabem o que é a diversidade brasileira. Neste sentido Rolando Boldrin é um Dom Quixote! Vida longa ao Menestrel Boldrin Brasileiro!

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 28/1/2007 01:03
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Henry Burnett
 

Caros cúmplices, estou muito orgulhoso com esse texto e com as sensações que ele despertou, é o que eu gostaria de manifestar a todos sinceramente. Muito obrigado.

Henry Burnett · São José dos Campos, SP 28/1/2007 01:19
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Pedro Monteiro
 

Olá, Henry Burnett, Gostei muito do que escreveste sobre tua redescoberta do ícone Rolando Boldrin, e ainda de quebra o exemplar Mamoel Bandeira, demonstras ter bom gosto, uma raridade nos dias de hoje,parabéns. Pedro Monteiro

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 28/1/2007 21:07
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Cida Almeida
 

O Sr. Brasil é um grande e genuíno artista, desses que possuem uma prosa difícil da gente esquecer. Boldrin faz parte da minha memória emotiva. É um artista completo: bom ator, excelente cantor e contador de causos. Lembro de uma novela que ele protagonizou na TV Tupi, em que contracenava com a também grande Cleide Yaconis. E a música tema tinha assinatura e voz de Boldrin: Tema pra Juliana. "O amor é meu/O coração é meu/De mão beijada entrego a quem quiser (...)".

Cida Almeida · Goiânia, GO 29/1/2007 13:54
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Pedro Monteiro
 

Olá cida, seu comentário é valiosissimo, sobretudo nos dias de hoje, em que os desapegados ao bom gosto, babam com vulgaridades e os blilhantes artistas ficam muitas vezes afuscados na miopia contagiosa do modismo. Pedro Monteiro

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 31/1/2007 00:36
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Marcelo V.
 

Cresci vendo o "Som Brasil", adorava o Ranchinho. Foi neste programa que, pela primeira vez, ouvi falar em Guimarães Rosa. Hoje, nas manhãs de domingo da Globo (há 20 anos dedicadas à arte e à ciência _passavam "Cosmos" do Carl Sagan, e "Mundo Animal", programas educativos!), só temos esporte...

Marcelo V. · São Paulo, SP 30/3/2007 16:19
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Pedro Monteiro
 

Sim Marcelo, e que saudosa lembrança! que tempos hein? Porém para não exagerar no saudosismo de uma televisão voltada para uma melhor interação cultural, o que fica é o consolo do computador e da internet.....

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 30/3/2007 20:54
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