T de Treme-Terra

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Vladimir Cunha · Belém, PA
4/5/2006 · 76 · 5
 

A bossa nova é a negação do pop. Tudo o que pode ser simples,
divertido e popular ela torna tedioso e elitista. É o falso absoluto,
uma luta constante para complicar e sofisticar harmonias simplórias e letras pueris. Quanto mais estéril e mais envernizada pelas tintas da grande arte, mais preciosa ela se torna para os seus defensores. E mais insuportável ela fica para quem manja quais são as regras do
jogo.

Como tantos outros grupos criados após a explosão do drum'n'bass
brasileiro no final dos anos 90, o Bossacucanova ainda acha que
a desgastada mistura do estilo com a MPB é o futuro da música. Estão lá os sopros anódinos, a percussão estilizada e as camadas de teclados e efeitos. Juntamente com uma cantora de voz correta e um repertório de standarts da música brasileira. Tudo isso costurado pela batida reta do drum'n'bass que fez a fama de DJs como Marky, Xerxes e Patife no apagar das luzes da última década.

Mas, a essa altura do campeonato, quem ainda quer saber de
drum'n'bass? Em todo o planeta, as massas dançam ao som do grime, do reggaeton e (porque não?) do tecnobrega no grande baile da guerrilha cyberpunk em que se transformou a produção musical periférica dos anos dois mil. Quando surgiu no começo dos anos 90 o jungle, antes de se transformar em drum'n'bass, era a junção perigosa do reggae com as batidas quebradas dos guetos londrinos, turbinada por MCs de rimas tortas e moral duvidosa. Cavou uma trincheira dentro da música pop e apontou caminhos ao flertar com o dub, com rap, com o jazz, com o rock e com a MPB até morrer de inanição por não saber mais onde queimar a sua energia criativa.

E aí vem o Bossacucanova na etapa paraense do Circuito Cultural Banco do Brasil assinar o atestado de óbito do estilo. Em cima do palco, a banda nada mais faz do que desfilar uma modernidade
estéril e tediosa ao recorrer a clichês da eletrônica para embalar hits manjados da música brasileira. Apesar de um ou outro momento mais animado, o show se arrasta naquele clima de festa de novela, mantendo sempre o mesmo pique morno e supostamente cool que o grupo, querendo ou não, imprime ao seu trabalho.

Na verdade o Bossacucanova se localiza no mesmo patamar de coisas como Os Normais, o programa do Jô e o seriado Avassaladoras: são produtos cuja única utilidade é fazer classe média se sentir inteligente. Parece sofisticado, mas não é. Se faz passar por inteligente, mas é simples e feito para agradar. Parece genuinamente brasileiro, mas carece da credibilidade de rua do
samba ou mesmo do funk carioca. No entanto, é consumido como um produto nobre com a mesma ilusão de refinamento atribuída às canções de Frank Sinatra ou aos discos de Marisa Monte, por exemplo. É o som para "tomar whiskinho" ou impressionar namorada no primeiro encontro, quando você esquenta no microondas aquele macarrão com creme de leite que aprendeu a fazer colando a receita da internet, se exibe com os móveis de sala escolhidos pelo decorador e se desmancha em poses ao abrir uma garrafa de vinho de 50 dólares.

O pouco de paciência que ainda tenho nesta sexta-feira chuvosa se acaba quando o Bossacucanova inicia uma versão para Águas de Março, que eu ainda aturo no comercial ultra-pirado da animação Sealab, do Cartoon Network. É o tempo de pegar um táxi e encontrar com Patrícia e Karen, colegas na produção do programa Central da Periferia, e se mandar para o outro lado da cidade para testemunhar a primeira apresentação da aparelhagem Treme-Terra
Tupinambá no salão nobre da Assembléia Paraense.

De todos os clubes de Belém, a Assembléia Paraense é o mais
tradicional, o mais elitista e o mais bem-aparelhado da cidade. Daí a
minha curiosidade em saber como a juventude dourada local reagiria à presença de DJ Dinho e seu soundsystem despejando toneladas de tecnobrega nos presentes. Dada a condição social dos freqüentadores do clube, a apresentação poderia ser tanto um sucesso quanto um fracasso sem tamanho se o show fosse encarado como um espetáculo trash ou se o público não aceitasse bem o som que faz a cabeça dos jovens pobres da
periferia da capital paraense.

A minha apreensão de estar no lugar errado na hora errada só fez
aumentar quando, ao chegarmos no portão lateral que dá acesso ao
clube, vimos um dos encarregados da vigilância humilhar dois jovens
que aparentavam ser de origem humilde. Acontece que os garotos
alegavam ser da equipe do Tupinambá, mas não estavam com o nome na lista. Bastante irritado, o porteiro gritava e intimidava os dois enquanto dava umas lições de moral meio idiotas e se negava a falar com o encarregado da festa para checar se a dupla era ou não
funcionária da aparelhagem. Após uma longa espera, restou aos dois
garotos voltarem para casa. Quanto a nós, continuávamos à espera do DJ Beto Metralha e os passes salvadores para a área VIP do salão do clube.

Finalmente Beto aparece com nossas entradas. Vamos caminhando por dentro da Assembléia Paraense e me pego observando quem vai ser o público do Tupinambá nesta noite. Meninos e meninas bem-vestidos passam apressados por mim, naquele vai e vem típico da adolescência. De vez em quando vejo algums segurando garrafas de Johnny Walker Red Label ou de vodka Smirnoff debaixo do braço. Talvez para estes garotos este seja um grande momento de libertação. Assim como a juventude classe média carioca descobriu o funk quando ele saiu da favela, esta é a oportunidade para os filhos da elite paraense assimilarem a trilha sonora da periferia num ambiente seguro e familiar, longe dos subúrbios violentos, da intimidação das gangues de rua e dos barracões cheirando a suor, urina e cerveja. Se tudo der certo, pode ser o derradeiro rito de passagem do tecnobrega para o primeiro time da música pop. Pelo menos em nível local.

Dinho, possivelmente temeroso de não ser bem-recebido pela multidão que ocupa todos os espaços do salão nobre do clube, desvela um a um todos os truques que aprendeu em quase 20 anos de discotecagem pelas quebradas de Belém. Ora chama pela torcida do Clube do Remo, ora pela torcida do Paysandu (dois rivais históricos do futebol paraense). Ou então ordena à massa
que faça com os braços o "T" que é o símbolo da aparelhagem. Só para em seguida mandar uns raps meio desengonçados costurados pelas maiores malandragens da música pop: o house fuleiro do Melô do Sapinho, o psy trance desembestado do grupo israelense Skazi, o funk carioca de MC Marcinho e o tecnobrega de Gabi Amarantos, autora do hino não-oficial do Tupinambá.

Vista de cima a cena é uma catarse pop irresistível. A multidão pula e dança ao comando de Dinho e canta as letras de todos os sucessos do tecnobrega. Sem o som que sai das paredes de alto-falantes do Tupinambá, poderia ser muito bem uma rave ou mesmo um festival de rock. Mas, para o alívio do DJ e de sua equipe, eram os sócios do maior clube da capital paraense se rendendo ao som da periferia, gravado em estúdios de fundo de quintal e comercializado nas bancas de camelô do centro da cidade.

Mas Dinho, o orgulhoso calouro do curso de Jornalismo de uma faculdade particular de Belém, me lembra de onde estou quando pede que os universitários levantem a mão. É quando vejo 90% dos presentes com os braços para cima numa quantidade proporcionalmente inversa à das festas de aparelhagem nos subúrbios da cidade. Como todo estilo pop nascido e criado no underground, o tecnobrega experimenta a sua fase de transição, onde pode se tornar um produto rentável dentro de um
segmento de mercado receptivo à novidade e economicamente ativo, disposto a pagar até 40 reais por uma entrada para a festa de hoje. Dinho sabe o alcance de seu carisma e do espetáculo sensorial proporcionado pelo seu "altar sonoro", numa denominação criada por ele para definir essa mistura atabalhoada de música e performance multimídia que são as festas de aparelhagem. Os filhos da classe média alta aprovam e pedem por mais. E nos camarotes do salão nobre, ainda que de maneira tímida, o resto do público sacode as jóias. Se eles dançam, todo mundo dança.

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Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

Salve Vladimir,
Rapaz, leio seus textos aqui no Overmundo desde o início. Sempre gostei muito da sua escrita, da sua percepção estética e do seu olhar sobre os objetos culturais. Mas dessa vez, você derrapou bonito. Pista molhada, neblina, sem acostamento ou iluminação, barranco abaixo.

Como admirador da bossa-nova da tríade João Gilberto-Tom-Vinícius - o resto até entendo quaisquer questionamentos - achei um monte de bobagens o que você escreveu sobre o gênero. Mas não vou simplesmente tomar partido do meu gosto, pois isso cada um tem o seu, certo? O que me surpreendeu é que você jogou um olhar cético e presunçoso sobre bossa-nova, da mesma forma que o fez com o som do Frank Aguiar. Um ataque que sugere que você tenha um refinamento musical tão grande que te permita olhar tudo isso de cima e achar uma merda e, no final, ainda colocar as contas sobre as costas da classe média brasileira.

Acho que esta classe média pequeno-burguesa é muito boa de se criticar, mas você o fez simplesmente por fazer. "produtos cuja única utilidade é fazer classe média se sentir inteligente", qué isso, rapaz?! Quem é inteligente, então? Só você, que é tão inteligente, mas tão inteligente, que é capaz de ver que isso não é inteligente, feito por gente pretenso-inteligente, para um público idem?
Pode até ser que sim, mas o seu discurso, pra mim, é igualzinho ao dos 'pseudos-pretenso-inteligentes'.. Tão vazio quanto. Uma disputa boba... E tudo fica ainda mais estéril quando se vê (continua)

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 4/5/2006 12:54
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Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

quando se vê que você tinha um objeto interessante para falar e que se perde quando você desvaloriza o ambiente ao redor dele. Desse seu jeito, parece aquele adolescente que gosta de banda underground e depois que uma música do grupo estoura nacionalmente, passa a achar uma merda. O tecnobrega só é bacana com cheiro de mijo em volta? A classe média que resolve consumir o produto da periferia é babaca por isso? O que ela deveria fazer? Fechar os olhos? O único movimento cultural legítimo é o que vem do gueto? A sofisticação e Ipanema não podem gerar arte? Uma arte é melhor que a outra?

Sei lá, achei que o texto veio carregado de questões bobas, velhas e estéreis. Não teria sido mais legal ter chegado junto dos 'riquinhos' e ter questionado quando o tecnobrega passou a fazer sentido na vida dele? Quando ele começou a gostar? Não seria bacana tentar entender o processo que a arte faz ao se desvincular do seu público original e começar a atingir outros grupos? Porque que quando a música clássica, erudita, chega na favela é bacana e quando a música da favela chega no asfalto é cinismo, babaquice?

Não gosto do Bossacucanova. Acho a bossa nova uma manifestação artística legítima e de grande valor e torço para o crescimento do tecnobrega, apesar de ser da classe média carioca e de nunca tê-lo ouvido.

Espero que entenda que nisso tudo não vão agressões e, sim, questionamentos estéticos e de pensamento. Gostei do seu texto, pois ele permite a discussão e a dialética. abs!
BM

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 4/5/2006 13:03
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Vladimir Cunha
 

caro bruno,
sustento a minha opiniao sobre a bossa nova e sobre o show do bcn. acho realmente uma manifestacao esteril e esnobe, que reveste o que poderia ser simples e pop de uma pseudo-sofisticacao para a classe media se sentir chique.
qto ao show do tupinamba na assembleia em momento algum eu tratei isso com algo ruim. pelo contrario, eu apenas constatei o momento de transicao de um estilo underground para o mainstream. as condicoes no qual isso ocorreu, o fato de ser um clube chique com um salao nobre com ar condicionado, sao apenas caracteristicas inerentes ao fenomeno analisado. acho q os garotos ricos tem todo o direito de curtir o tecnobrega no conforto do seu clube e com os luxos que ele proporciona aos associados. se eles nao estao dispostos a ir a periferia, paciencia.

Vladimir Cunha · Belém, PA 4/5/2006 17:45
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Tati Magalhães
 

Sem entrar em questões relativas ao conteúdo, acho que ficou faltando um foto. Ficou faltando muito uma foto, por mais que o texto tenha momentos bem descritivos...

Tati Magalhães · Maceió, AL 7/6/2006 09:19
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Pedro Vianna
 

Vladimir, com todo o respeito, essa foi foda!!! Nem vou entrar na questão do gosto, já que o mesmo é como cú: cada um tem o seu e o dos outros fede. Mas reduzir uma de nossas mais representativas expressões musicais à "uma manifestacao esteril e esnobe"? Aí foi demais! Sei que essa é uma atitude bem clichê de crítico de fanzine de rock, e até compreenderia se tivesses puxado a espada para defender alguma bandinha de rock plagiarista do suburbio belemense; mas fazer apologia ao tecnobrega? Com todo o respeito... já tiraste a temperatura hoje? É que teu texto me parece meio delirante. Principalmente ao classificar uma das mais massivas manifestações populares de nosso estado como underground. Tecnobrega é underground? E não para por aí... rezaste uma verdadeira oração anti-burguês, para depois adimitir, sem pudor algum, que consideras a Assembléia Paraense, o clube mais elitista da cidade, "mainstream". Olha eu também detesto o Bossa Cuca Nova, mas talvez você esteja é precisando de uma nova cuca pra entender a bossa.

Pedro Vianna · Belém, PA 19/2/2007 11:10
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