"Tangolomango da Massa" - Aléxia Linke e Tana Halú

Marcelo Perez
Aléxia Linke e sua linda filha Raquel...
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Marcelo Perez · Boa Vista, RR
12/6/2007 · 199 · 4
 

Outro dia, pesquisando um assunto qualquer na biblioteca da UFRR (Universidade Federal de Roraima) acabei por me encontrar na seção de literatura infantil e curioso como sou, dentre os livros que passaram em minhas mãos, tive o privilégio de folhear “A Flor do Tepui”, de Aléxia Linke, referência em literatura infantil no estado de Roraima.

Diferente dos demais, me chamou a atenção o fato da história não apresentar aquela didática gratuita, muito comum em literatura infantil. A moral estava lá, diluída na fantasia, permitindo que eu imaginasse cada quadro. Um livro recheado de personagens do folclore local. As ilustrações vivas de Tana Halú contribuíram bastante para que eu me esquecesse do real motivo de ter entrado na biblioteca. Apanhei um banquinho e sem me preocupar com o tempo, sentei-me e li o livro todo.

Em um país em que a literatura infantil só chegou no final do século XIX e que as imagens tecnológicas nos transmitem muita informação sem precisarmos, muitas vezes, ler, incentivar o hábito da leitura ainda é uma tarefa que profissionais como Aléxia Linke e Tana Halú não desistiram de perseguir.

Algumas escolas utilizam o livro pedagogicamente, da mesma forma como ele foi utilizado no início, quando chegou no Brasil. Durante muito tempo a literatura infantil era produzida somente por professores e pedagogos, mas nem sempre a utilização da mesma vem como incentivo do hábito da leitura, ou seja, o aluno muitas vez lê por obrigação escolar.

Há outras escolas que criam bibliotecas particulares, motivam visitas às bibliotecas do seu estado, criam concursos de redação (produção de textos), círculos de leitura, enfim, procuram incentivar a leitura, por acreditarem na importância do processo de formação do indivíduo. É sabido que o aluno que tem contato desde cedo com a literatura consegue obter um desempenho melhor na sua trajetória como estudante. E Aléxia Linke e Tana Halú estão contribuindo com esse papel aqui no nosso estado.

Aléxia Linke teve sua primeira experiência com literatura infantil como leitora. Natural de Minas Gerais, costumava ler Monteiro Lobato na tranqüilidade do alto de uma árvore. Na segunda série ajudou a criar uma biblioteca na sua escola, com livros doados pela comunidade. “Naquele tempo não existia muito bibliotecas particulares nas salas de escola estadual”, disse Aléxia.

Em 91, chegou à Boa Vista e formada em Arquitetura foi trabalhar como professora de educação artística. Logo estava tomando o rumo da sala de leitura e participou de atividades como contação de histórias. E comum a todos os escritores, sempre gostou de escrever. “Tinha cadernos e cadernos de coisas escritas e resolvi começar a polarizar isso naquele universo infantil que eu tava trabalhando. O primeiro livro que eu fiz foi “O Arco- Íris Coloriu”, nessa ligação das cores e tudo não achava, nem o livro do Ziraldo eu não achava que dizia das cores como eu achava que elas deviam de ser ditas” . O livro contou com belíssimas ilustrações do músico e artista plástico Renato Costa, todo em aquarelas.

Depois disso, continuou contando essa e outras histórias nas escolas. Fez apresentações do livro em Manaus, viajou pelo interior de Minas, e em São João Del Rey visitou várias escolas. “E aí, você vai pegando o gosto e de repente o livro acaba. E você fala: - ôpa, tá na hora de produzir mais um, vamos fazer mais porque é tão bom ir à escola visitar e você tem que ir com material. Pra ficar na escola”.

O segundo livro, “A Flor do Tepui”, Aléxia contou com a parceria de Tana Halú nas ilustrações, que também desenvolve trabalho com massinhas de modelar. E fizeram um livro com características regionais. A necessidade de falar sobre a cultura local é o que motivou a autora. “Eu sinto um compromisso com o folclore, com a cultura popular. Eu acho que tudo é uma manifestação de sabedoria que aquele povo já tem, aquilo é que fala forte para aquele povo. Eu achava que tinha que usar essa linguagem...”.

E a parceria com Tana Halú só podia ser um sucesso. Tana que é índio Macuxi, sempre teve interesse por organização, estruturação, mudança das coisas, diz que demorou para perceber que isso era arte. “A estética sempre me atraiu, e o desenho... modelagem desde criança me atraiu muito, a habilidade manual sempre tive facilidade”, conclui Tana.

Em 94 e 95 ele teve a oportunidade de conhecer o Marcelo Xavier, que trabalha com modelagem, e foi trazido pelo SESC para a feira do livro. “Pela primeira vez pude ver o uso da massa de modelar de forma profissional nas ilustrações”, disse Tana. Esse encontro foi tão importante que ele acabou indo para Minas Gerais estagiar com Marcelo Xavier, em 2003. Quando voltou se encontrou com Aléxia e juntos resolveram dar início ao projeto “A Flor do Tepui”, e desde então não pararam mais.

As ilustrações com massa de modelar só vieram no terceiro livro, mais uma vez independente, e a busca de parceiros e patrocinadores era fundamental para a realização do projeto. “Estávamos atrás de patrocinador para editar... as ilustrações, fotografias da massa de modelar, as cenas em massa de modelar e o texto em cordel e no meio desse processo, surgiu um patrocínio menor e fizemos um livro menor e aí recorremos a uma cantiga popular que eu fiz uma releitura, e esse foi o último livro que publicamos, “Tangolomango da Massa”, diz Aléxia.

A dificuldade de produzir e distribuir não desanima esses artistas. Essa é uma dificuldade em todo o país, mas se agrava mais nesse estado devido à distância. Roraima não conta com um parque gráfico. O mais próximo, que é Manaus, não tem tanta rotatividade. O custo para se produzir por esses lados é muito alto, por isso eles recorrem à Belo Horizonte. Fizeram um orçamento para a produção de seu próximo livro e não tiveram dúvidas quanto a escolha do local de edição. “O livro que a gente queria fazer aqui, custava R$ 23.000,00 pra produzir 1000 exemplares, em Manaus custava R$ 17.000,00, lá em Belo Horizonte a gente conseguiu por R$ 6.000,00”, conclui Aléxia.

Mas se para produzir um livro o custo é elevado, mais alto ainda é a frustração de não produzir. O prazer de visitar diversas escolas e ajudar a desenvolver a imaginação dessas crianças é motivo de sobra para se continuar investindo em um próximo livro.

Hoje, eles são reconhecidos em outros estados, principalmente em Minas Gerais. São mais valorizados fora do estado. “Virei atração central do salão de livros de Minas como contador de história e como ilustrador e hoje tenho até fã clube. E o engraçado é que só tem gente de Minas Gerais e São Paulo. E eu moro aqui, vivo aqui. Eu fiquei agora quase 30 dias em Belo Horizonte e atendi cerca de 700 crianças. Eles pagam uma taxa para a oficina e compram o livro e às vezes aqui, eu em um ano vou à uma ou duas escolas e não é falta da gente procurar, é falta de interesse mesmo deles, de acreditarem na gente. Me entristece o fato de não ser valorizado aqui no estado”, disse Tana Halú.

É incrível imaginar que as escolas particulares se negam a investir em um trabalho como esse, que acaba sendo patrocinado e apoiado por uma loja de carnes, uma padaria, uma construtora e muitos outros segmentos que não estão ligados diretos à educação. Por outro lado, é ótimo saber que ainda tem gente interessada em investir em literatura, em cultura, em ter seu nome, sua marca associada a um ótimo produto literário.

“A gente faz porque precisa. O artista precisa de produzir. Você já fica aqui parado pensando numa nova história, sabendo que aquilo vai me dar um trabalho, mas tudo bem, eu quero porque quero um pretexto pra visitar as escolas e cantar com meninos e fazer festa. Eu e o Tana, a gente se diverte... por isso que a gente gosta”, finaliza Aléxia.

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Andre Pessego
 

Voto no seu interessante texto e voto na Raquel, na Alexia, vou ver se acho o livro por aqui, tenho uma filha de 7 anos. andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 10/6/2007 22:42
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Spírito Santo
 

Beleza de matéria, Marcelo. Eu mesmo, que fui, por um curto tempo da vida, ilustrador de livros infantis, morri de saudade lendo sua matéria. A literatura infantil no Brasil, apesar de sua essencialidade é, na maioria das vezes, fruto do esforço heróico e abnegado de pessoas como a ALéxia e a Tana. Não se ganha muito com isto e é por idealismo puro que temos hoje uma das melhores literaturas infantis do mundo.
Longa vida para o trabalho delas (e para o seu também, por aqui)

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 14/6/2007 07:00
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Paulo Bi
 

Olá Marcelo
Muito bom o texto e a possibilidade de tornar acessível o maravilhoso trabalho que a Aléxia realiza.
Vou postar algo no meu blog infantil www.paulobi.com/papocurumim
Apareça por lá para conhecer um pouco do trabalho que realizo para crianças.
Abs
Paulo Bi

Paulo Bi · Rio de Janeiro, RJ 14/6/2007 10:14
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André Dib
 

Muito boa a matéria. E ótimo receber notícias de Roraima!

André Dib · Recife, PE 14/6/2007 13:41
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