Alguma coisa incomoda quando eu vejo essa moda-mania de tatuagens e piercings. Vejo pessoas que buscam certa dose de afirmação com essas manchas corpóreas e o rito da perfuração. Muito mais que um sÃmbolo isso me parece muito mais com a necessidade de ter algo a dizer, a mostrar, que logo desanda e se torna comum, banal e por isso mesmo, necessário de uma atualização, como uma nova versão de um programa ou uma refilmagem cinematográfica.
Antigamente as tatuagens serviam como marcas da história social da pessoa, contabilizavam as passagens e momentos memoráveis de uma história pessoal. Assim como cicatrizes de batalhas, indÃcios que aquela pessoa fora para algum lugar indigesto e voltara sã e salva. Às vezes nem sã. Mas a marca corpórea era parte integrante de sua história, de seus ritos. Mesmo que fosse como ornamento, essa ação de modificação corporal se inseria intrinsecamente na rotina em que a pessoa estava inserida.
Percebo, e aqui deixo minha indizÃvel pequenez para opinar em tal assunto, nas pessoas que se prestam a tal papel hoje, que não há um sentido mÃnimo a não ser o mais visÃvel, é algo que pode ser comprado. Sendo essa a única explicação para as explicações mais corriqueiras, “eu gosto de tatuagensâ€, “é meu estiloâ€, “achei bonitoâ€, “fiz pra dizer o quanto gosto disso ou daquilo...â€. São realmente explicações que bastam em si mesmas, mas não convencem.
Sabemos que quem quer ter uma tatuagem ou um piercing não precisa convencer a ninguém de nada, se tem o direito, o dinheiro e a independência necessária, vai e faz uma tatoo ou põe um piercing por iniciativa própria. Mas o que isso revela é a total falta de sentido lato, uma falta de comprometimento com alguma outra coisa que não o simples ato de comprar uma. Quando vemos uma tatuagem grande, logo cai-se no pragmático papo de quanto aquele desenho epidérmico custou.
Há uma falta de coisas a se dizer ou mostrar. Há, atualmente, em nossa juventude um profundo incomodo com o marasmo de nossas sociedades, pelo menos no circulo econômico em que vivo. E por essas deturpações ideológicas essa lacuna tem que ser preenchida com alguma coisa. Um indicativo que se é uma pessoa. Mesmo que sua tatuagem seja única, um desenho exclusivo, a única coisa que ela remete é seu poder de colocá-la em seu corpo, só.
Chega-se contente para os conhecidos e diz-se “fiz uma tatuagemâ€. Mostrando a “façanha†como forma de individualidade, corriqueira, pois comum, e se na hora não percebe-se aquele vazio por trás daquela ostentação permanente, o tempo vem desmantelando o que outrora foi uma opção de compra, agora aquele desenho caiu em desuso prático (contar, mostrar, ser) e fica como algo que se fez, por fazer, por escolha, não contribuindo muito para nada em especial.
Dirão que sou muito crÃtico e ranzinza, mas salta aos olhos essa perceptÃvel falta de sentido. Um modismo que veio para girar a economia dos “artistas†tatuadores ou dos técnicos colocadores de piercings. Coisa que pode ser ressaltada pelo próprio ato de muitas das pessoas não se reduzirem a somente uma tatuagem ou um piercing. Amontoando muitos desses ornamentos indiscriminadamente.
Assim como um adolescente conta aos amigos que chegou ao final de um jogo, logo caindo no esquecimento, assim conta-se que fez uma tatuagem, uma novidade, uma excentricidade cada vez mais partilhada por outros e coisa que se tornou comum atualmente. Mexer no corpo se tornou o status quo. Por mais volúvel que seja essa vontade, ela permanece depois que envelhece. Pois nos tornamos outros, nunca permanecemos nós mesmos. Assim como aquelas mulheres que vão envelhecendo e buscando a juventude em academias, quais quando olhamos vemos que por mais que mantenham a sua forma fÃsica, há algo de anacrônico, um tempo perdido que não vai mais retornar, uma busca a um estado estável em um corpo mutante e orgânico que envelhece e morre.
Nossa onda de tatuagens e piercings, chegou ao nÃvel do mero produto, basta ter dinheiro para comprar uma marca histórica, que não tem história a não ser a dos detalhes da feitura da mesma, sem que extravase nenhum outro fato digno de nota, e no fim fica-se com uma mancha para ostentação que logo cai no normal, no usual e é esquecida. Uma moda que fica, pela parte deformada das partes dos corpos de nossa geração que vai buscando freneticamente um diferencial, que no fim nunca vai existir, pois sem parte de uma ideologia, um ritual social, nem parte de uma significação maior, cai apenas no produto, e como nossas televisões a cada 2 anos elas entram no rol das televisões normais, que não merecem mais nota, já que outras tomaram o lugar com novos apetrechos e novas qualidades, deixando claro, na televisão que produto é seco e oco, sabendo enxergar direito vemos, também, que essas tatuagens e esses piercings são produtos, mas aqueles que não podem ser jogados fora, como lixo radioativo, que permanece durante muitos anos dizendo que já foi útil, hoje é apenas uma lembrança de sua função momentânea, e o resto, só incomoda.
Cara, estou pasmo: ainda há vida inteligente na Terra e vindo do Rio de Janeiro, ParaÃso Tropical.
Endosso seu pensamento em gênero grau e número, enfatizando ainda certos aspectos não comentados por vocÊ, veja se faz algum sentido:
Poderia se um advogado do Diabo e dizer que todos têm livre arbÃtrio para fazer o que quiserem, mas veja só a quantidade de modelos, jogadores de futebol, atores e atrizes, que infelizmente arregimentam milhões de adolescentes em fase de afirmação a tatuarem o nome de suas paixões, que depois de um certo tempo não permanecem tão indeléveis como as tatuagens...
é um tal de fazer um dragão pra encobrir uma letra ou transformar num Ãcone chinês só pra aproveitar o desenho, ou seja, na vida as coisas não são tão definitivas como a tatuagem é.
Nem mesmo vivemos mil anos, apenas uns oitenta, noventa, talvez e nosso tônus, que causa impacto aos trinta certamente não é o mesmo aos setenta, só que a tatuagem está lá, anacrônica, a nos cobrar essa sandice de nossa juventude.
Parabenizo-o pela coragem de abordar um assunto, que certamente lhe fecha muitas portas, mas creia, meu amigo, lhe abrirá outras, talvez de uma gatinha ou um gatão que prefira utilizar a grana que iria gastar numa tatuagem pra, sem demagogia, cara, não sou candidato a nada, pagar um lanche prum coitadinho que tá vendendo balinha num semáforo, sinal, farol, sei lá como se fala aà no Rio, sou de Sampa, lembra, aquela cidade que sempre foi famosa por odiar os cariocas, tudo merdinha, cara, tem espaço pra todo mundo nessa terra !
Usem esse dinheiro pra comprar um dvd do Patch Adams, o amor contagia, um puta cd do beto guedes, milton nascimento.
cara, tenho 46 anos, prazer em te conhecer. se quiser ler meus poemas, meu arquivo está À sua disposição no banco de cultura, cuidado com a minha bibliotecária que ele não gosta de carica é capaz de dizer que eu não estou, me mande um recado, gostei do teu estilo, cara, mas como eu ia dizendo, pra fechar, que eu não quero monopolizar teu espaço, quando eu era jovem usava meu dinheiro pra comprar discos de vinil, gibis, revistas, cultura, cara, nada de drogas, tatoos, hoje lhe asseguro que sou feliz pra caralho, faço minhas loucuras, não sou santo, tudo faz parte, irmão!
Firmeza, gostei de ti, desculpe qualquer coisa, tamos aÃ, até a próxima,
prazer, Alcanu
caro alcanu, é exatamente isso. o poder de compra em espapes que fazem as pessoas direcionarem dinheiro à s tatuagens, assim como demais inutilidades, só que as tatuagens ficam, para contar a derrota de uma causa que não tem sentido, eterno, só um sentido ordinário e passageiro. com certeza lerei seus poemas e sem preconceitos não discrimino ninguém de nenhuma parte do paÃs, sou do tipo que gosto de coisas inteligentes, boas e instrutivas sejam elas filmes blockbusters, livros clássicos ou dançar um hiphop com a galera que eu gosto! Abração
leandroDiniz · Niterói, RJ 19/1/2008 17:52
Leandro, você escreveu "...algo que se fez, por fazer, por escolha, não contribuindo muito para nada em especial."
Pois é, não leva a mal não mas eu diria isso do seu texto.
Você não gosta de tatuagens?
E...?
Tatuagens são produtos que custam dinheiro e geram renda para artistas?
E...? Bom não? Para os artistas?
Só mais uma coisa, não entendi as aspas em "artistas", poderia explicar?
Obrigado, abraço
Caro Leandro, embora não tenha interesse em tatuagens, naõ vejo sentido no seu texto quando tenta vincular desqualificar a tatuagem por ser um produto da sociedade de consumo. Ora, nossas escolhas tem mesmo estão inseridas dentro da sociedade de consumo. Até as estéticas, até as amorosas.
Há poucas décadas atrás, um homem gordinho, uma mulher gordinha, eram sinônimos de beleza, por exemplo. Hoje, os magros é que são um referencial estético. Embora isso me atinja negativamente - afinal, sou um homem obeso - é natural que esses referenciais estéticos mudem com o tempo. É fato concreto.
Essa questão ideológica é muito complicada... ou você duvida que Che Guevara ou Jesus Cristo não são cultuados por segmentos da sociedade de consumo?
Abraços
Marcelo, primeiramente obrigado pelo comentário, ele pode esclarecer uns pontos que não ficaram claros no meu texto, por pretende-lo mais enxuto.
Não disse que eu não gosto de tatuagens, só que vejo essa onda de tatuagens em corpos como algo que incomoda. Algumas pessoas possuem estilos de vida, filosofias e condutas que se integram perfeitamente com essa forma de transformar o corpo, já outras pessoas só o fazem, pois é algo da moda, um produto que pode ser consumido, e o problema, como pretendi mostrar em meu texto é que com o passar dos anos essas tatuagens se perdem em um mar sem sentido, nem mesmo da pessoa que a possui, pois mudou e vislumbrou essa outra realidade, qual não pertence mais. Como produto, a tatuagem mostra como a juventude é movida por essa ânsia de obter os produtos que mais vão influenciar no seu status.
Quanto ao "artista", coloco entre aspas, pois há uma clara diferença dentro dos estudos estéticos entre artista e artesão, esse que mais se encaixa no ramo de atividade do tatuador. Pois ele aplica técnica que possui para colocar um desenho de fora dentro do corpo.
Abraços!
Hugo, caro amigo do overmundo, aprecio seu comentário, mas acho que foi feita uma confusão em relação a pretensão do texto, não discorri em hora alguma sobre as qualidades gráficas e estéticas da tatuagem, apenas um texto de cunho observador de costumes e, comentando sobre isso, seu sentido, ou falta de. Então não discorro sobre a estética, nem demais assuntos imagéticos. Grato pelo comentário.
leandroDiniz · Niterói, RJ 20/1/2008 22:49
Leandro, sei que a proposta do seu texto não é referente a um julgamento estético da tatuagem. O meu comentário fala, ao contrário, do tema que você abordou: a questão da sociedade de consumo.
No comentário, eu defendo a sociedade de consumo, embora reconheça que ela atinja as relações humanas como um todo.
Há que se observar que mesmo as sociedades mais rudimentares apresentam elementos de consumo, ainda que não esteja envolvida a questão do dinheiro.
Mesmo em culturas tribais, um homem ou uma mulher são considerados bons ou maus se atendem a determinados requisitos, se se apresentam esteticamente de uma forma. Porém, como esse tipo de sociedade é eminentemente coletiva, a tradição suplanta as escolhas individuais. A tradição, nas sociedades mais rudimentares, equivale à junção entre mÃdia e poder, percebe?
Por isso, discordo da "demonização" do consumo. Claro que o dinheiro, a mÃdia e o poder tem que ter um freio. Mas esses limites não são fáceis, não são exatos.
Abraços
Caro hugo, acho que o texto ainda foi mal entendido. Não sou contra o consumo. Posso até ser contra o consumismo. Mas de maneira alguma contra o consumo ou contra o capitalismo. O capitalismo é o sistema econômico que mais agrada a esse que vos escreve. O que ponho em meu texto é justamente o seguinte. O capitalismo é um sistema econômico, não pode ser bom ou ruim, já que é oco e uma máquina. Nós que vivemos dele, o usamos como queremos para fins que nós mesmos determinamos. E se a vida de alguém é sem sentido, não há uma razão de ser, tudo o que essa pessoa fizer parecerá sem sentido, assim como as tatuagens de muitos jovens que não tem uma razão de ser, a não ser comprar uma tatuagem para se enquadrar na moda. Abraços
leandroDiniz · Niterói, RJ 21/1/2008 07:53Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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