Teatral Grupo de Risco: resistência

Foto: Rodrigo Teixeira
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Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS
6/3/2006 · 149 · 3
 

Fazer teatro não é tarefa fácil. Em Mato Grosso do Sul é mais difícil ainda. O Estado está longe de ter um circuito interno de apresentações, as peças mais vistas são os caça-níqueis com astros globais e cursos com qualidade para a formação de atores começam a pipocar só agora nas universidades. O intercâmbio com grupos de fora do estado fica restrito aos projetos da Secretaria e Fundação de Cultura de MS e os festivais América do Sul, em Corumbá, e de Inverno de Bonito. Um dos grupos de Campo Grande que luta para criar um mercado interno no Estado e sente este isolamento regional é o Teatral Grupo de Risco. É um dos mais antigos da cidade e tem no currículo apresentações em assentamentos, postos de saúde e escolas municipais. Fundado em 1988, funciona como uma cooperativa de pessoas que atuam em diversas áreas. Muitas vezes os projetos dos participantes são individuais e mesmo assim levam a assinatura do grupo. "Depende do volume de trabalho. Tem ano, como o de 2005, que não tem como sustentar 15 pessoas com projetos coletivos", explica Lu Bigattão, fundadora do Teatral.

Um exemplo destes vôos solos é o documentário Caá - A Força da Erva desenvolvido principalmente sob o comando de Lu. O documentário de 60 minutos mostra a cultura da erva-mate e o cotidiano da Companhia Mate Laranjeira, a principal na época e vital para a saúde econômica da fronteira do estado. Caá é um desdobramento da peça Mbureo - A Saga dos Ervais. Para montar a peça o grupo levou dois anos de pesquisa e sobrou tanto material que a realização do documentário foi natural. "Em 2006 quero que este documentário circule. Vou distribuir DVDs para as escolas da fronteira e promover debates nas universidades após a exibição", anima-se.

A história do Teatral Grupo de Risco começou com a peça infantil A Lenda do Vale da Lua, um texto de João das Neves. "Tinha música ao vivo. Ficamos alguns anos em cartaz com casa lotada", lembra. O grupo começou a trabalhar seriamente com bonecos com a peça Coragem moçada, que ficou cinco anos em cartaz. Era final da década de 80 e outra realidade. "Fazíamos de três a quatro apresentações por dia. Em 1989 foram 400 apresentações", contabiliza. O trabalho com os bonecos feito por Lu com Wilson Motta gerou o programa infantil Corixos e Coxixos, exibido atualmente pela TVE Regional. Outra peça importante do grupo foi Quem Matou Zefinha?, montada por Leandro Melo. "Nesta peça as pessoas aprenderam a tocar instrumentos, cantar... O grupo foi ao Chile e passou por vários estados brasileiros", conta.

O Teatral Grupo de Risco se destaca bastante no chamado teatro educativo. Com o apoio do Ministério da Saúde realiza há cinco anos duas peças: João Cuiúdo e Mulheres em Cena. Ambas falam de prevenção. São muitos os pedidos para peças do gênero não só enfocando a saúde, mas o meio ambiente, o trânsito, a educação fiscal... "Em 1998 fizemos 50 apresentações em Ribas do Rio Pardo, Água Clara e Nova Andradina com uma peça que falava sobre a situação dos trabalhadores carvoeiros", conta.

Lu reconhece que a verdadeira vocação do teatro não é bem esta, mas não tem muita saída. "Fazemos teatro educativo com muita qualidade. Mas mesmo assim chegou uma hora que não agüentava mais fazer teatro com o objetivo explícito de ensinar. Por isso montei a peça da saga dos ervais. Sentia falta de algo mais lúdico", argumenta. Ela reconhece que, com a chegada das leis fiscais, a classe teatral ficou mais profissional e teve de aprender a mexer com dinheiro. Sente certa melancolia quando pensa no seu retorno de Sampa com o curso de Artes Cênicas da USP na mão e muitas idéias na cabeça e o clima de batalha que havia quando montaram o Teatral. "A gente fazia um sopão e ia criar. Dinheiro não era tão importante", recorda.

Confira abaixo a entrevista com Lu Bigattão:

Manter o grupo com o perfil mais cooperativista é conseqüência do número reduzido de apresentações ou tem a ver com o próprio perfil dos integrantes do Teatral?


As duas coisas. Todo mundo tem vontade de ter algo próprio. Uns mexem com dança, site de cultura... Não dá para ficar exclusivo do grupo. Só se o ano estiver bastante 'trampo' é possível que as pessoas se sustentem das performances coletivas. Montamos a peça dos ervais em 2004 e circulamos 2005 pela Funarte para Cuiabá e Dourados. Pouco trabalho para o grupo coletivamente. O ano passado foi superfraco. Não deu para manter 15 pessoas.

Por isso não dá para fugir muito do teatro dito educativo?

Mas o teatro educativo caracteriza muito o Teatral. Porque as pessoas pensam em teatrinho de escola quando ouvem falar em teatro educativo. Nós conseguimos fazer sem perder a qualidade. João Cuiudo é uma peça linda. Usamos perna-de-pau, máscaras, maquiagem, os atores tocam... Mulheres em Cena é um teatro popular e as pessoas se apaixonam pela peça. O resultado do teatro educativo depende de como ele é feito. Se for bem feito, sem perder a questão da arte... Mas chega uma hora que enjoa. Eu mesmo pensei: 'não agüento mais fazer teatro educativo'. Aí fui montar a peça da saga dos ervais. Queria fazer uma coisa que não tivesse que ensinar nada. Acho que esta peça foi muito pouco apresentada e deveria voltar com força este ano.

O sul-mato-grossense está preparado para encarar a realidade ou idealiza muito ainda esta relação entre os povos da fronteira?


Acho que isto não tem a ver apenas com a fronteira, mas com o processo de colonização em si. A Maristela Yule, por exemplo, acabou de lançar o documentário Arigatô – Um Olhar Sobre a Imigração Japonesa em Campo Grande. Fica claro também que a colonização foi feita com a exploração do homem pelo homem. Antes não tinha nada e tiveram de construir com trabalho pesado estradas, ferrovias, pontes... A América do Sul inteira foi construída assim, com o colonizador escravizando. A peça mostra como se deu a colonização. Foi uma coisa violenta? Foi. Mas foi com outros também. Japoneses, italianos...

Você sente que o sul-mato-grossense entende do que o documentário trata ou, apesar da proximidade, desconhece totalmente a nossa história com os países da América Latina?


Damos as costas para a América Latina, sim. Não sabemos nada do que acontece no Paraguai. Quem é o artista da Bolívia? O que rola no Chile e Venezuela? Sou doida para ir a Machu Picchu, mas é muito mais fácil viajar para Miami com os pacotes econômicos. De Machu Picchu ninguém sabe nada. Mas sabemos tudo sobre os EUA e Europa. Porque a Globo mantém correspondentes lá. Não interessa ter uma rede latino-americana de notícias, porque não é divulgado. Existe o medo de ser assaltada no Paraguai, por exemplo. É um preconceito incrustado.

Como é ser ator de teatro de Mato Grosso do Sul? Existe conexão com outros grupos, por exemplo?


Muito pouco. O Festival de Inverno de Bonito (www.festinbonito.com.br ) e o Festival América do Sul (www.festivalamericadosul.com.br) trazem grupos de fora, como o Galpão. Teve o Festival de Bonecos do Sesi em que conhecemos grupos do país inteiro. As trocas são nestes festivais e eventos ou projetos da Fundação de Cultura de MS ( www.fundacaodecultura.ms.gov.br). A gente vive muito isolado mesmo. Não se tem a capacidade de estar circulando. O Ministério da Cultura tem aberto alguns editais e tem sido importante. Vamos fazer um documentário, fomos para Cuiabá... Mas ainda é um suspirinho. Falta esta troca, esta circulação. A gente tem muito pouco acesso. O teatro é uma arte difícil e artesanal. Mesmo lotando um teatro, se não tiver patrocínio tem-se prejuízo. O teatro precisa da proteção dos órgãos públicos ou ele não sobrevive.

Como você analisaria o teatro produzido em MS?



Tem bons trabalhos pontuais e interessantes. Mas se faz muita coisa ruim. Desde que voltei em 1988, tem coisas que mudaram para melhor e outras para pior. Eu era jovem naquela época e havia muita garra. Mesmo sem patrocínio montávamos as peças. Na coletividade. A gente fazia um sopão para comer e ia criar, fazer as máscaras... Pedia pano para um, tecido para outro, uns iam costurar. As coisas tinham vigor e a concorrência era menor. Lembro que ia a dez escolas e nove compravam meu trabalho. Aí começaram as leis de incentivo, com dinheiro rolando. Por um lado amadureceu o trabalho e profissionalizou. Por outro, tirou este tesão que tinha. Mas é claro que era uma época em que o dinheiro não era tão importante, nós não tínhamos filhos... Éramos da contravenção e a energia saía dali. Hoje temos filho na escola, contas e estamos em outro pique. O ator quer saber quanto vai ganhar e a coisa é mais econômica mesmo. Então a arte está muito institucionalizada. Em todos os campos a arte perdeu um pouco o tom de contravenção e a crítica ao sistema.


O Teatral Grupo de Risco é formado por Lu Bigattão, Leandro Melo, André Furquim, Roma Román, Wilson Motta, Márcia Gomes, Rane Abreu, Isac Zampieri, Fernanda Kunzler, Emmanuel Mayer, Arce Correa, Aline Duenha e Paulo Matozzo.

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nutri
 

Olá!gostaria de saber como posso ter acesso ao documentário de Maristela Yule!

nutri · Campo Grande, MS 31/8/2007 15:38
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 Profeta  Teatro
 

Lú,é uma pena que quase ninguém teve acesso....

Bjs e Bjs

Profeta Teatro · Campo Grande, MS 11/11/2007 23:30
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Defletas
 

[b]Haverá Banca de Capacitação Profissional (IN nº 004/99) em Cuiabá/MT no dia 13 de julho de 2008.

Seja Profissional de fato e de direito tenha DRT!

Banca de Capacitação Profissional para o Candidato em se Habilitar (DRT) ao Exercício Profissional na Categoria Regulamentada pela Lei Federal nº 6.533/78 e Decreto nº 82.385/78, que abrangem os Trabalhadores nas seguintes áreas:
I – Artes Cênicas (Circo, Teatro, Dança, Moda, Opera, Produção e Shows de Variedades...);
II – Cinema;
III – Fotonovela;
IV – Radiodifusão.

Contato SATED/MT:
(65) 3321-8095 / 8415-3992 / 9212-7575
E/mail: satedmt@hotmail.com

Sede: Rua Sete de Setembro (próximo ao MISC e ao IPHAN), nº 427, Centro (Histórico), Cuiabá/MT

Saudações culturais;

Nestor Defletas
Pres. do SATED/MT

Defletas · Cuiabá, MT 22/6/2008 14:52
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