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Teatro Carioca Maio 2006 - Parte 1 (Autor)

Bruno Maia
1
Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ
26/5/2006 · 112 · 9
 

Esta é a primeira de uma série de quatro artigos
sobre o novo teatro carioca. Arquitetada sobre quatro
pernas – autor, ator, produtor e espaços – essa série
se dispõe a tentar fotografar, com olhos leigos, o que
acontece nesse campo em maio de 2006.

Apesar de eu ter uma atenção maior com o universo
musical – e sobre esse tema desenvolver a maior parte
dos meus trabalhos –, o Hermano Vianna optou por me
convidar para ir além. Talvez esta falta de referências
específicas tenha sido a minha grande riqueza aos
olhos dele e essa aposta me empolgou. O Hermano
nunca soube disso - aliás ele nem sabe quem eu sou
pessoalmente, mas gosto de encarar o jornalismo e
a arte de uma forma pessoal. E mais: acho que arte
só é pessoal, feita de um pra um – conseqüentemente
se torna coletiva, afinal essa coletividade é composta
de vários “uns”. A arte é, primeiramente, um ‘gostei’
ou ‘não gostei’, sim. A primeira sensação é a alma de
qualquer arte. Ela não é limitadora, mas é vital. O
aprofundamento, o levantamento de questões, a análise
crítica, o discurso, a estética, a retórica, a farsa
e a verdade também são importantes e não prego
deixá-las de lado. Mas acredito que o primeiro toque
é o que marca.

Não se vê “O grito”, de Edvard Munch impunemente.
Gosta-se ou não. Pode-se até aprofundar aspectos
como os citados acima, e é importante que se faça
isso. Inclusive, eles podem influenciar a posteriori
na valorização que se dá a uma obra. Também acho
que a relação duradoura e repetitiva, de ir permitindo
que a arte quebre gradativamente barreiras pessoais e
vá chegando mais fundo no sentimento, também é
bacana. Com o álbum Pet Sounds, dos Beach Boys, por
exemplo, minha relação foi assim, lenta e cada vez mais
profunda. Mas acredito que nada seja mais importante
do que o primeiro olhar e a sensibilização causada ou
não pela obra. E foi por isso que a aposta que o Hermano
fez ao me confiar tal missão me empolgou. É com o
estímulo do olhar cru que esta série se seguirá. E é
nele que eu confio.



Pedro Brício: contradição e paixão movendo a criação

Apresentação (por Bruno Maia):
Pedro Brício abre a porta de seu apartamento. Seu rosto é conhecido e isso aplaca a dúvida que me instigava no carro, a caminho do encontro. Pedro Brício é um cara simpático e acessível. No início, um pouco desconfiado. No final, já está dando indicação de fontes para uma outra pesquisa do repórter. Isso é legal. Pesquisas de pré-produção indicam que ele tem 33 anos, mora no Rio de Janeiro – sua cidade natal –, é formado em Comunicação Social-Cinema pela Universidade Federal Fluminense e Mestre em Teatro pela Universidade do Rio de Janeiro. Ainda segundo as pesquisas, participou como ator de algumas produções globais, como a novela Quem é você? e a minissérie Hilda Furacão e venceu o Prêmio Shell de melhor autor em 2006, pela peça A incrível confeitaria do Sr. Pellica.

Apresentação feita pelo próprio:
“Deixa eu ver... Meu nome é Pedro Brício, sou ator, diretor, dramaturgo, é..., carioca, flamenguista, mas ao mesmo tempo acho que sou um cara do mundo, né... Faço parte de uma geração na qual é difícil se definir o quanto você é brasileiro e o quanto você é parte de uma cultura globalizada”.

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O teatro, aos olhos de um leigo, depende de um texto sob o qual os atores vão desempenhar suas funções. O texto é a matéria-prima e por isso a série de reportagens sobre o novo teatro carioca se inicia abordando este aspecto da renovação. Ao receber o Prêmio Shell de melhor autor, Pedro Brício não se furtou a dizer que, no Rio de Janeiro, não há respeito pelos jovens autores e que, no país, ainda se vive um sentimento de valorização do texto estrangeiro. Bradou ainda contra o ranço que a expressão ‘teatro alternativo’ carrega consigo.

Ciente de que a conversa se daria com um leigo em teatro, Pedro topou conversar sobre sua arte de uma forma mais ampla, com um olhar de fora pra dentro. Quando na faculdade, pensava em ser diretor: “Eu achava que ser ator era uma coisa menor, tinha o desejo de criar sentido e o ator é um portador, um intérprete. Eu tinha uma visão meio Hitchcock de que o ator era como gado, mas ao mesmo tempo sentia uma coisa quando via os caras na frente da câmera, sentia que as pessoas faziam errado e eu queria fazer diferente, melhor. Por isso resolvi retomar minhas aulas de teatro e voltar a atuar”.

E o autor Pedro Brício?

“Eu fiz muita coisa ruim em TV. Os atores têm a característica de brigar com a obra; de, às vezes, ter que fazer pela grana e esteticamente achar uma merda... E eu passei a sentir a necessidade de ter um domínio mais autoral do meu trabalho”.

O autor veio da frustração do ator que veio da frustração do diretor. A inquietação que marca as mudanças de papel na carreira de Pedro Brício também o impulsiona esteticamente. Ele afirma que o olhar que sua geração propõe é o de uma percepção da realidade ‘esperta e crítica, sem cair no cinismo’. Autocrítico, aponta o caos contemporâneo e a percepção do absurdo da realidade como temas freqüentes. Reconhece a metalinguagem como um formato presente em sua obra. “Tem um trecho de uma das peças em que se o personagem questiona: ‘o que é o real? O objeto dos nossos sentidos? Uma parte do possível?’ É um questionamento filosófico, quase metafísico dos sentidos, que fala dessa contemporaneidade, desde Matrix a Quero ser John Malkovich... A gente vive num mundo onde o absurdo é tão grande que, às vezes, o absurdo é o real”.

A divagação que flanava para a compreensão da função da arte volta a encostar os pés no chão com o questionamento de como ele se enxerga numa nova dramaturgia carioca, em maio de 2006. “Minhas duas peças são meio fábulas, mas a primeira (O homem que era sábado, 2003) se passava em um apartamento de uma grande metrópole, que podia ser o Rio, podia ser Buenos Aires, mas trazia esse clima de decadência, e do lado de fora do apartamento tinha uma guerra, um caos, que era o caos do Rio. Na segunda peça (A incrível confeitaria do Sr. Pellica, 2005), os personagens estão dentro de uma confeitaria num país em guerra e a premissa que me levou a escrevê-la é justamente como se fazer arte em um país em guerra. E essa guerra é a que a gente vive, a guerra social, do tráfico, da violência urbana e isso é um tema recorrente. Essa sobrevivência é um tema recorrente dessa geração”.

A contradição é outro aspecto reiteradamente visto no discurso do autor. Pedro questiona a importância dada ou reclamada pelo novo, ao mesmo tempo em que o aponta como alternativa estética. “Eu não acho que haja um valor na vanguarda em si. Na minha peça do ‘Senhor Pellica’, eu quis usar uma estrutura totalmente clássica e fazer uma brincadeira de distância e aproximação. Como os temas que no século XVIII eram importantes estão aí; a crise da fé, a valorização da lógica... o amor romântico do Molière é igual ao da novela das seis. É igual! Mas coloquei isso dentro de uma estrutura clássica. Aí quando o Chico Buarque vem e diz que a canção está acabando, eu penso que a gente tem que dialogar com a tradição, que eu tenho que saber escrever uma boa peça até para saber desconstrui-la. Mas aí, você chega a que tudo já foi desconstruído, então acho que está na hora de construir um pouco, ou não...”

Ou reformar? – pergunto.

“É, ou reformar... Fazer um puxadinho. Acho que a gente faz muitos puxadinhos nas peças, porque tudo já foi desconstruído. Mas essa busca do novo não é um valor em si. Se você for verdadeiro e autêntico já é original”.

Você não acha tudo isso contraditório?

“É... talvez... um pouco. Contradição, é... Eu acho que... Eu acho que o novo não pode vir antes. Tem que se falar das coisas que te movem em primeira instância. Eu acho ruim querer fazer algo muito novo, que vai renegar tudo. Acho que vale aquela coisa de falar com a sua aldeia”.

“Com a música é um pouco diferente do teatro porque...”, abordando a forma de sobrevivência e de estruturação de uma carreira, Pedro ia tentando criar paralelos entre o seu universo e o do interlocutor, que no caso, era eu. Mas o interrompi pra dizer que não achava a música tão diferente assim, não. Na verdade, eu acho muito parecido porque as questões são parecidas, desde a criação como uma urgência pessoal até o cenário e as necessidades dos artistas. A grande diferença é que a tecnologia já alterou muito mais a rotina de quem lida com música do que de quem trabalha num palco. Para o bem e para o mal. Recuperei o próprio Chico Buarque, que ele havia citado. O questionamento diante da afirmação de Chico sobre o possível fim da canção - que tornaria este formato de música uma característica do século XX e que seria superada nos próximos anos - é, de certa forma, perturbador para quem cria a música e quer fazer o novo dialogando com as tradições. A estagnação diante da dúvida entre a desconstrução dos velhos paradigmas e a criação de novos é inerente a qualquer arte, principalmente em tempos de mudanças sociais e de costumes tão grandes como esses. Os artistas estão esperando o novo mundo se desenhar para poder representá-los em seus trabalhos. E o mundo ainda não está pronto.

E pra quem a arte fala neste mundo que gira ao redor de nós em maio de 2006? Cabe ao artista calcular, direcionar o seu texto para um target? Não e sim. É inexorável jogar a lógica da cultura de massa, do consumo cultural sobre a produção artística numa sociedade capitalista. Pedro me encontra neste aspecto: “Tem que pensar que você não vai falar pra todo mundo mesmo. E você não tem como saber pra quem você fala. Aí entra o nosso preconceito. Eu fiz essa peça nas lonas culturais e nos SESCs de São Paulo e, às vezes, você sente que esse cara entende melhor a sua peça do que o estudante da PUC, que freqüenta teatro”, observa. E qual é o papel do artista nesta história? O que é ser artista quando o ofício do seu trabalho passa a incluir matérias que não são vinculadas à criação artística diretamente? Como a arte sobrevive em um autor que é diretor e produtor ao mesmo tempo? Questões que surgem e, docemente, ficam sem resposta na sala da casa de Pedro Brício. São elas que movem a arte.

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Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

Obrigado a quem votou na matéria.. mas e cometário? nao vai rolar nenhum? hahahaha

abs!

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 26/5/2006 17:12
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Gabi Almeida
 

Pedro, acho que o seu texto funciona como um auto-falante, reverberando dúvidas que ressoam nas mentes de quem produz e consome cultura, individualmente. Ao invés de comentar, envio mais dúvidas (ou serão as mesmas, ditas de outra forma?): qual o limite entre o que é comercialmente viável e artisticamente qualificado? Sim, porque é preciso que seja viável. Senão, não se constitui em uma atividade econômica, na qual haja profissionalização, com pessoas vivendo disso. E não há pecado em unir arte a dinheiro, desde que dentro de parâmetros de ética e bom senso. Outro ponto: numa cultura contemporânea tão fragmentada, com as famosas tribos, aldeias e guetos, em contraposição a uma estética globalizada predominante, como produzir arte que agrade a um grupo determinado, tenha qualidade e possa se sustentar? Concordo, por fim, com o entrevistado quanto à 'tirania do novo' - o que existe é um "museu de grandes novidades" (salve, mestre Cazuza!), esse é o material de trabalho criativo real. Viajei muito? Abraço, Gabriela

Gabi Almeida · Rio de Janeiro, RJ 26/5/2006 18:00
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

Acho que nao viajou muito nao.. só viajou no meu nome, hehehe.. sou Bruno. Pedro é o personagem da matéria. E meu irmao tb se chama Pedro...

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 26/5/2006 18:02
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Gabi Almeida
 

Pra vc ver como sou intuitiva...

Gabi Almeida · Rio de Janeiro, RJ 27/5/2006 22:54
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Maria Maria
 

Pedro, a propósito do seu comentário: "Não se vê “O grito”, de Edvard Munch impunemente.
Gosta-se ou não." E por curiosidade minha também: Vc gosta d"O Grito" ou não?

Maria Maria · Rio de Janeiro, RJ 28/5/2006 14:56
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

Bem, tenho certeza de que fiz algo errado, já que você, Maria, é a segunda pessoa a me chamar de Pedro. Meu nome é Bruno.
Talvez você tenha querido saber a opinião do Pedro Brício, o personagem da matéria, e isso só ele pode responder...
Quanto a mim, eu gosto demais desse quadro, sim. Me assusta, me conforta, me representa, me vejo, etc...

bjs,
BM

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 28/5/2006 18:27
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Charlot
 

É! Dizeram que arte é mentira, invenção mais discordo.Li seu testo e aos poucos fui me convencendo desta opinião.Não se pode criar seja interpretando um personegem ou uma canção do nada. Se parte de um início que etamaos sendo sinceros quando expressamos nossa idéia ou sentimento sem se preocupar com quem estar no outro lado. Portanto se somos verdadeiros a arte não é mentira mais o que somos ou o que podemos ser.

Charlot · Recife, PE 28/5/2006 18:49
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Maria Maria
 

Desculpa, Bruno. Foi mal. Eu fiz confusão. Eu também adoro "O Grito", por isso comentei. Pra mim vai sempre ser "o grito do silêncio". E o silêncio de cada um, é uma sinfonia, né? Parabéns pela materia! Bjs.

Maria Maria · Rio de Janeiro, RJ 30/5/2006 10:42
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Sabina
 

gostei da matéria, principalmente porque como leiga também em teatro, fluiu bem as idéias que Pedro Brício explainou...

Sabina · Rifaina, SP 7/4/2007 00:35
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