“Tenho enorme receio quanto a essa patrulha do ‘bom gosto’ envolvendo músicaâ€. Com estas palavras, em seu twitter, o talentoso músico e produtor paulistano Daniel Ganjaman, do núcleo de produção musical INSTITUTO, disse exatamente o que eu estava pensando naquele momento. Nem sei sobre o que exatamente Ganjaman estava falando, mas mandei retweet na hora, dado a alvoroço sobre a “polêmica†manchete de capa da revista Época, que vendia Michel Teló como queridinho da classe média brasileira, o que parece ter ofendido a parcela que se considera mais “pensante†deste mesmo segmento.
Cara, você não gosta da música do Michel Teló? Grande coisa, também não gosto, então, desliga o rádio, muda a estação ou coloca aquele mp3 do Chico Buarque pra tocar no teu som! Não gosta de BBB? Então, Caramba! Muda de canal, e não enche!
Ao bem da verdade, como muita gente que não acompanha este gênero de música, eu também soube de Michel Teló quando vi o garoto estampado na capa da Época, enquanto procurava minha edição mensal da revista Vertigo. Só fui escutar, de verdade, a tal música, muito depois de escutar as indignadas reclamações sobre a canção do rapaz. Coisas incrÃveis como “isto devia ser proibidoâ€, ou “onde este paÃs vai parar?†e um sem número de posturas deste tipo. A meu ver: Elitistas e preconceituosas, por mais eu que defenda o direito das pessoas manifestarem suas opiniões democraticamente e tal. Afinal, estou fazendo isto agora.
Quanto à música em si, pensei que encontraria uma verdadeira ode ofensiva contra a moral, os bons costumes, e a civilização ocidental como um todo... já estava quase gostando do sujeito. Imagine minha decepção ao encontrar uma dessas canções facinhas e inofensivas, projetadas pra dar certo e colar como chiclete na cabeça e nos quadris do belo povo brasileiro. Super pop. Sucesso total. Qual a surpresa nisso?
Fico pensando que muita gente desta suposta “elite intelectual†poderia colocar suas brilhantes cacholas para pensar coisas mais importantes, em construir soluções para problemas mais relevantes, se é que Teló é problema, eu não acho. Só o setor cultural mesmo, por exemplo, tem várias questões práticas para serem pensadas hoje no paÃs e regionalmente. Muitas das pessoas da “patrulha do bom gosto†reclamam de pagar 20 ou 30 reais para assistir espetáculos de artistas e autores locais, que eles consideram “de qualidadeâ€, em suas cidades, mas estão preocupadas com o que o pessoal escuta no rádio ou assiste na TV.
O mal televisivo do século
Sobre o Big Brother Brasil, mal começou a edição deste ano, já começa a chover emails na minha caixa de entrada. De “intelectuais†indignados com a pobreza de conteúdo, da baixaria, da banalização disso e daquilo, blá, blá, blá.
Pessoal. O BBB esta em sua DÉCIMA SEGUNDA EDIÇÃO (12ª) no Brasil. De novo a pergunta: Qual é a surpresa?
É um formato que vingou totalmente na televisão mundial do reality show. A idéia de colocar alguns humanos como ratos de laboratório em um daqueles pequenos labirintos de vidro funcionou. Os outros formatos televisivos passavam por certo desgaste, etc e tal. Alguém surgiu com este formato. Deu certo. Pimba! Enquanto o povo gostar, o pessoal da TV ganha sua grana, os anunciantes vendem seus produtos, quem gosta de assistir tem sua diversão, e todo mundo fica feliz. Fim da história. A mesma coisa com o Michel Teló, o menino tem uma super produção, esquemão profissional, deve estar empregando um monte de gente, de roadie a técnico de som, ao ambulante que vende um rango de rua na saÃda do show dele. Enfim, deixem o menino ganhar seu dinheiro em paz!
Resumindo então. Meu recado pra “patrulha do bom gosto†é viva e deixe viver meu caro. Escute e assista o que quiser, o controle remoto é sua maior arma, mas não seja o ditador do gosto dos outros. Ou como dizia o poeta, “cada um no seu quadradoâ€. Se quiser chorar as pitangas do mau gosto nacional, faça isso entre os seus, durante o chá das 17:00h, mas não fica entupindo as redes sociais e indefesas caixas de emails da gente humilde e trabalhadora como eu, de “menas leitxuraâ€, que, certamente, não precisa de sua ação vigilante para nos defender dos males da cultura de massa contemporânea.
O caso VerÃssimo
Este, pra mim, foi o cúmulo do patrulhamento. Vejam só. Os patrulheiros chegaram ao ponto de criar textos e perfis fake de personalidades para dar credibilidade a sua propaganda anti-mau-gosto e anti-BBB. O LuÃs Fernando VerÃssimo, conta, via Blog do Noblat, sobre o tal texto atribuÃdo a ele, que não é de sua autoria, mas assinado como sendo dele e que circula na rede, criticando o BBB. No blog, ele diz que as pessoas não se conformam quando ele esclarece que não escreveu aquilo. Muito engraçado. Vale à pena conferir aqui.
Quando digitei o nome do escritor VerÃssimo e do popular programa televisivo na busca do Google, o resultado mostrou o texto falso atribuÃdo a VerÃssimo, que desce a marreta no BBB, postado e re-postado com orgulho paladino em diversos sites, na sua maioria, religiosos. Parece que finalmente, “intelectuais†e religiosos encontraram uma luta em comum para partilhar. Que Deus tenha piedade de nós.
(publicado originalmente, em versão mais desbocada e sem cortes, no Blog Da Vida e do Mundo).
oi Marcelo: minha contribuição sobre outro aspecto do "caso Teló" neste link - grande abraço!
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 22/1/2012 18:38Olá Hermano. Muito bom. Vou compartilhar com os amigos. Esta prosa rende. Aqui em Alagoas a banda Borachos Enamorados protagonizou um desses casos que você cita, com a versão "vou sim, posso sim". Ah! Gostei muito do texto sobre o Grant Morrison também. Abração meu caro!
Marcelo Cabral · Maceió, AL 23/1/2012 12:15
Oi, Gente,
Muito bom os dois comentários/posts. :)
Marcelo, o que mais me impressiona nessa "patrulha do bom gosto" de que você fala é que as pessoas que reclamam da música-chiclete do Teló descrevem o hit como uma depreciação da música brasileira para exportação. Queria muito ouvir um americano reclamar nesse tom: acabem com o Justin Bieber, a Britney e a Lady Gaga, antes que pensem que esta é a boa música americana! Será que há? :)
Hermano, ótimo o texto da tua coluna, que só li agora. Muito curioso saber que a Dança do Quadrado e o Ai se eu te pego têm uma origem comum...
Razão CÃnica Rules! :P
Sinto muito, não estou em plenas condições para criticar, mas superficialmente preciso desabafar: para mim os intelectuais estão numa de avacalhar. Nessas horas, sinto muita falta do "mal gosto" dos marginais do cinema, esses que faziam o ready-made há eras (o que hoje tem o nome glamourizado de 'remix'). Ok, continuando o desabafo, para encerrar por aqui, lembro daquele personagem do Sganzerla, quando fala o aspirante a candidato polÃtico em entrevista. O repórter pergunta:
"Mas deputado [era só um secretário], o que o senhor pensa da pobreza?"
"Que pobreza, rapaz?! Um paÃs sem pobreza é um paÃs sem folclore. E se não tem folclore, o que é que nós vamos mostrar pros turistas?"
(Bandido da Luz Vermelha)
Muito bom Marcelo,
Vamos publica-lo em nosso blog também, no www.mucurycultural.org.
Grande abraço.
Meus caros, a patrulha do bom gosto existirá sempre. Existiu contra o chamado samba quadrado, o samba-canção, o bolero e até o baião de Luiz Gonzaga, que era folclórico, porém chegou aos grandes centros urbanos e imperou por uma década: de 1947 a 1957.
Eu não ouço o Michel Teló até porque sou surdo do ouvido esquerdo e no ouvido bom, o som dele não é bem recebido. E olhem que ele não recusa nem "tô ficando atoladinha"!
Que o Michel Teló faça muito sucesso! Que ele enriqueça seus produtores musicais e empresários de shows, só não me peçam para aceitar o que afirmou a revista Época em manchete de capa: “Com o sucesso ‘Ai se eu te pego’ o cantor paranaense Michel Teló traduz os valores da cultura popular para os brasileiros de todas as classes".
Isso aà não pode. Eu tenho o meu direito de ser preconceituso! Sim, porque agora a questão é colocada desta forma: se eu não aceito que essa música tenha algo a ver com cultura popular, só posso ser do contra por puro preconceito.
Um axé para todos!
Sou ignorante pra caralho !
Viva a Curtura !
Um beijo !
Marcelo,
Concordo com você quanto a critica aos criticos do Michel Telô, mas com relação ao BBB, considero que, do jeito que as coisas vão, não me admira de um reality show "resgatando" a luta dos gladiadores romanos.
Deixo um texto critico sobre BBB e melhor do que o supostamente atribuÃdo ao Verissimo.
Aqui
Estuprou e nem matou, arrá!
Sinal que a pesquisa qualitativa acertou.
Até no Overmundo tem gente inteligente falando da cultura sem midia da Rede dos Bobos.
Vai aumentar o Ãndice de audiência da Vênus Estruprada.
Tela de Miró, também gosto di bolão.
Prefiro queijo a roer sabão.
Amei aprender mais sobre a visão de mercado do Chimbinha. Isso é pertinácia, \"manu\".
Sinto muito, mas terei que discordar talvez ate por completo!
O autor parece trabalhar numa filosofia onde tomamos tudo numa racionalidade excessiva. O homem é mais intuitivo que parece! E nos temos que tomar consciência disso! Pois se não seguiremos os mesmos erros que nossa ciência erudita vem produzindo. Temos que ter um olhar mais "cruel" e mais subjetivo sobre o homem!
Mais Nietzsche e menos Platão!
Em pleno século XXI nos deparamos com um programa onde vale tudo em nome do destaque, do acesso e do ibope que deve ser sempre crescente.
O BBB é uma das produções televisivas de maior sucesso da história da televisão brasileira, no entanto é um espaço onde culturalmente nada nos oferece além de baixaria, guerra de egos e a exposição banal do corpo.
O programa se idealiza dentro de um contexto que se estrutura uma linguagem totalmente fora dos padrões que a nossa sociedade idealizou ao longo dos séculos.
Os telespectadores se deparam com uma banalidade da vida em comunidade, onde ocorre o uso exacerbado do erotismo, a banalidade da relação entre indivÃduos, algo que parte da particularidade, em direção ao público de forma alienante.
É triste pensar na nossa realidade televisiva, que baixamente perde o seu caráter em nome da mÃdia.
O BBB é um dos programas que envergonha a classe de profissionais que trabalham para promover o desenvolvimento de uma programação televisiva, mais democrática e aberta para os mais diferentes tipos de classes de telespectadores.
Não sou telespectador deste programa que ridiculamente faz parte do grupo seleto de programas que compõe a programação da alienante rede globo, mas nos intervalos de um programa para o outro passo rapidamente pelo canal, além de encontrar um montante de lixo virtual e impresso que é obrigatoriamente jogado ao público de forma abusiva; voltando ao contexto do mesmo digo que o programa é algo inóspito, totalmente desclassificado para ser apresentado ao público brasileiro.
O programa nada nos oferece de cultura, cidadania, ética ou entretenimento, entretanto o mesmo é recheado de intolerância um verdadeiro “lixo†que de forma negativa representa o cotidiano social vivido por um grupo de verdadeiros “canibais irracionais†do mundo capitalista.
Boninho o diretor do programa trabalha claramente com uma linguagem anticultural; o mesmo durante vários anos promove uma seletiva para resgatar entre os cidadãos, os piores “elementosâ€, aqueles considerados a parte podre da sociedade; pessoas que fazem “tudo†em nome do dinheiro; uma verdadeira jaula habitada por seres “alienados†que são direcionados por Boninho (um profissional que ao se deparar com uma cena de molestamento afirma: “... deixa para ver onde vai chegar...â€).
De forma simples venho registrar a minha indignação e evidenciar o que já foi apontado por inúmeros meios de comunicação. A marca BBB nunca foi vista com bons olhos e hoje a realidade da mesma é ainda mais conflitante.
Como ser humano e profissional da área do saber, declaro que ser um BBB (grande irmão brasileiro) é um adjetivo de poucos. Pois a grandeza está presente na arte de fazer a diferença e de trazer novas abordagens.
Um grande irmão é aquele que leva a diferença por onde passa; transformando e renova o meio a sua volta; se tornando um exemplo a seguir.
Nascer no Brasil é um sonho de muitos e uma realização de poucos. Mas onde estão os que desafiam o peito a própria morte em nome da nação?
Construir o conceito de grande é algo invariável, pois cada um de nós desenvolve papeis diferenciados. No entanto somos todos brasileiros.
Um verdadeiro irmão brasileiro tem a compreensão de ouvir a voz dos bestializados; lutando pelo bem do outro, praticando uma atitude revolucionará em nome da nossa América.
Grandiosidade é o conceito de amor entre irmãos que vivenciam a plenitude da união de uma grande nação que prega “ordem e progressoâ€.
Um grande irmão, busca a ordem e progresso de seu povo se tornando um verdadeiro herói nacional.
Afinal, está longe do BBB, ser um dos programas que de forma ricamente falando contribuà positivamente para o desenvolvimento intelectual da sociedade brasileira; assim deixo claro para todos os brasileiros que este famoso programa que há doze anos faz parte da programação da “alienante†rede globo nunca nos apresentou aquilo que o nome do mesmo anuncia: um grande irmão brasileiro.
É meus caros...
Telós e BBB a parte , a grande verdade é que a vaca foi pro brejo a muito tempo. E essa condição bbb-teloresca que varre o Brasil bem antes da filosofia do tchan ja é algo inserido na cultura(sic) da nação. Porém, o que seria do verde se nao existisse o amarelo??
Continuo na minha varanda ventilada ouvindo o que acho bom e consigo achar até graça quando vejo a felicidade milionaira do moço que repete sorrindo: Ai se eu te pego..ai ai se eu te pego...
Pois é Viktor, também fiquei surpreso com esta origem em comum dos dois hits. O teu questionamento sobre os americanos se ofenderem com Britney e companhia também é muito pertinente. O X da questão, na verdade. Obrigado a todos pelos comentários, e viva o livre pensamento, a liberdade de expressão e opinião, e o debate democrático. A quem interessar possa, não assisti nenhum episódio do BBB 12, não tenho Rede Globo em casa, não por opção, gosto de ver Bob Esponja de manhã e A Grande FamÃlia de vez em quando, é que meu plano de TV não contempla a Globo. E como não assisto Globo nem escuto FM que toca Teló, o que me espanta é justamente ficar ouvindo falar disso o tempo todo pelos patrulheiros de plantão. Ou seja, o pessoal que é tão "do contra" com estes produtos dão mais audiência que as divulgações oficiais do próprio programa ou do cantor em questão. É o famoso "falem mal, mas falem de mim". Abraços!
Marcelo Cabral · Maceió, AL 1/2/2012 10:10
Todo perÃodo histórico define os seus hits,os seus Ãdolos que irão vingar de verdade.O mercado musical ou televisivo consumista leva a Telôs,a BBB's que por sua vez divertem aos montes de fãs pelo paÃs afora.
Sobre o texto dito de VerÃssimo rebati logo pois sabia que não era o escritor gaúcho.
Ah,na década de sessenta os patrulheiros também apareciam dizendo sobre a Jovem Guarda e outros movimentos que não fossem tropicália ou MPB.É assim,natural no ser humano.
MIchel Telô e a greve em Portugal. IMPERDIVEL!!
AQUI.
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