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Tempos Modernos - O jornalista e a Internet

arte:Gilmar R. Silva sobre imagem de fasticon.com
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Gilmar_ · Campos do Jordão, SP
6/12/2009 · 28 · 6
 

Um dos mais prestigiados jornais do mundo, o norte-americano New York Times, publicou, em setembro, uma nota na internet, na qual informava que, a partir de então, passaria a se identificar como uma empresa de informação, não mais um jornal impresso. A nota causou furor em redações de todo o planeta, pois, enquanto outros tradicionais jornais da terra do Tio Sam vem falindo ano após ano, agarrados à arcaicos modelos comerciais, o jornalão mais famoso seguiu o espírito de vanguarda que lhe deu fama e lançou-se a procura do leitor perdido. A questão é, em que diabos de lugar se esconderam os leitores?. A resposta para muitos especialistas é categórica, o leitor está na internet. E é para esta que o NYT concentra sua munição agora.
No entanto é deste ponto que este ensaio se desenrola, quer dizer então que o povo da internet lê? Respondo, não só lê, como vê fotos, assiste à videos, paga contas, faz compras, vota no próximo eliminado do big brother e faz fofoca.Tudo isso as vezes no meio tempo de um download de música.
A palavra chave é multimídia, mas não é só o meio( o computador) que carrega essa pecha, seus usuários também. As pessoas postam fotos, vídeos, recados, mantém um blog, fazem debates, propaganda, desenham, jogam, conversam, se olham. As vezes sem precisar sair de uma única tela, vide o site de relacionamentos Facebook.
O internauta também produz conteúdo, essa é a chamada web 2.0, e não precisa ser nenhum especialista para isso. Os internautas criticam jornalistas, descem a lenha em matérias, idolatram novos ídolos, conhecem discos e filmes sem sequer ter que abrir um jornal ou revista. Os jornalões norte-americanos que faliram, se incomodavam com isso, julgavam-se os detentores da informação, quando na verdade esta última é livre. E se existe uma idéia digna de propaganda nestes tempos de internet é essa, a informação é de todos. Desde que, claro, estes tenham acesso a um computador.
Mas e os jornalistas e jornais que não se assustam com esta posição horizontal do leitor o que tem feito para agradá-lo? Como agradar a uma massa cada vez mais disforme?
Chris Anderson, pesquisador e editor da revista Wired, em sua teoria da cauda longa defende que sobreviverão os que atenderem a nichos específicos da sociedade. O New York Times tem seguido essa linha, os internautas que visitam o site podem optar por comprar os cadernos do jornal separados, por exemplo, um torcedor do Chicago Bulls pode comprar o caderno de esportes com o balanço da rodada da NBA sem ter que levar os cadernos de economia, política, cultura e cidades juntos.Não bastasse, este ainda pode se inscrever e personalizar sua própria página no site de uma maneira que esta só traga matérias de seu interesse.
Jornal com a cara do leitor, porque a capa como a conhecemos, na internet não tem sentido.O pesquisador Richard Gingras é o nome por trás dessa máxima e dá a dica, pra ele o leitor quando busca na internet uma matéria sobre um escândalo qualquer, quer mais, quer o que oferece por exemplo a Wikipedia , um recorte substancial, de preferência com links que o levem a perfis e histórico de todos envolvidos.Para após isso não só tirar suas conclusões como opinar, seja no seu próprio blog ou no blog do jornal.
E é neste ponto que entra a figura do novo jornalista, o jornalista em tempos de internet. As características desse profissional não difere da essência do bom jornalista das antigas.Ética, curiosidade e saber ouvir versões distintas de um mesmo fato continuam dando a tônica da profissão. Mas, o novo jornalista deve ter na cabeça uma coisa, não basta só escrever, fotografar, pesquisar,entrevistar, diagramar ou filmar.Ele precisa dominar todas estas técnicas juntas, porque o seu leitor na internet domina e vai cobrar. Web 2.0 lembra?Já era a figura do leitor passivo. O novo jornalista deve saber que o seu texto na internet não termina no ponto final, ele se desdobra na caixa de comentários.E nesta surgem discussões entre jornalista x leitor, leitor x leitor, que levantam novas pautas para o primeiro trabalhar. O leitor não da pitaco, colabora.
O leitor colabora? Isso mesmo, menosprezar a inteligência do leitor em tempos de internet é atestar a própria burrice. Exemplos recentes de empreendedorismo jornalístico, na rede, não carregam a assinatura de um grande jornalista ou de um grande grupo de comunicação.Sites como o Oh My News da Coréia do Sul, Overmundo do Brasil, e o Pirate Bureau da Suécia, tem em comum que foram construídos de maneira colaborativa.O primeiro reúne jornalistas e não jornalistas, freelancers e desempregados, que em tempos de crise se juntaram e hoje detêm o site informativo mais influente da Coréia do Sul.O exemplo brasileiro age na mesma linha, as pessoas colaboram entre si, uns enviam textos, uns diagramam, outros tiram fotos, cuidam da tecnologia de informação, da edição dos posts. As pessoas, mais uma vez jornalistas e não jornalistas tocam o barco.E já que falamos de barco eis o Pirate Bureau, um grupo de amigos suecos que no inicio dos anos 2000 se juntou a fim de defender a bandeira da cultura livre.O grupo hoje conta com o site Pirate Bay, um dos sites mais acessados do mundo, e deu origem ao Partido Político Pirate, que elegeu, no último pleito sueco, um deputado que defende a causa da cultura e informação livre.
Ta bom e estes sites sobrevivem do que? Pergunta o leitor com as sobrancelhas de prontidão. A resposta é, daquilo que banca o jornalismo desde os primórdios do último século, a publicidade.
Mas pra isso é preciso alguém pra gerenciar, alfineta, com toda a razão ,o mesmo leitor das sobrancelhas levantadas. Isso porque o fato do site, jornal, ou revista eletrônica surgir de maneira colaborativa não implica que ele não tenha cabeças que o idealizaram, e que queiram levá-lo a outros patamares. E quanto mais visitado, mais atrativo para o mercado publicitário se torna o site em questão.
É preciso ter em mente que a informação é livre, mas o trabalho para se apurar bem uma matéria custa dinheiro, assim como manter um site no ar. Cabe aqui o comentário do jornalista Pedro Dória do jornal o Estado de S. Paulo, “Quem apostar contra os grandes veículos vai perder”. Grandes grupos como Abril, Uol e Globo, detêm capital, tanto para investir em novas apostas, de modelos jornalísticos, como para melar iniciativas. Cabe ao jornalista empreendedor escolher, quando bem sucedido, manter-se alternativo, atendendo a um único nicho, ou lançar-se no desafio da multidão disforme, sendo cooptado por uma Globo ou Abril. A última opção traz um número maior de verdinhas como recompensa.
O New York Times citado no início do ensaio tem levado esse estilo de cooptação a sério, na sua página na internet abriga blogueiros famosos, que ganham salários de estrelas e mesmo que falem para nichos específicos, estes tem a visibilidade de um veículo centenário, a marca de um grande grupo faz a diferença, o que acaba satisfazendo-os. O jornalista assim como o escritor quer, sobretudo, ser lido. O jornalista em tempos de internet quer a caixa de comentários cheia. Não bastasse, me parece ser da profissão, esta além do lado egocêntrico, apresenta um lado sadomasoquista, o jornalista em tempos de Internet. me parece estar sempre a espera de um rival na caixa de comentários, que o desafie para um duelo, insultando-o pelo comentário do último post.
Porque o leitor , sim, ainda lê. Uns lêem só imagens, fotos, vídeos, o que não é ruim, porque estas também são tipos de leitura.E existem os que lêem só 140 caracteres, só o lead, só a capa do site, mas calma, também existem os que lêem análises de política internacional, resenhas literárias e mesmo grandes reportagens na tela do computador.
O Jornalismo está passando por transformações, saindo de uma zona de conforto secular, e o grande barato é que não da pra apontar os coreanos do Oh My News e dizer que eles estão no caminho certo, ou então, dizer que o New York Times está dando uma lição de como se reinventar. Isso porque todo o jornalismo está se reinventando, seja ele de rádio, TV, impresso ou internet. Certo é que uma pluralidade de formatos e questões tem sido debatidas. E em todas elas me parece haver um consenso, a informação é livre, mas continua tão valiosa quanto nunca. Ganha o leitor.
É... Jornalismo, New York Times, internet, nichos, jornalistas blogueiros, crowdsourcing, leitores enquanto atores ativos na construção e repercussão das notícias, twitter, home-job, multimídia, download, upload, streaming ao vivo, ufa...

“Instigante, apaixonante, nem precisa ter diploma.”

*Gilmar R. Silva é blogueiro e leitor, vai se formar jornalista.

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Andre Pessego
 

Há um cem numero de atitudes que o leitor toma na internet que não pode tomar no jornal escrito, isto é verdade. Como dizem os especialistas, há uma interação.
Mas lhe perguntaria - O volume de informação, passado, trocado, visto, visualisado produz os resultados "formativos" ?
abraço
andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 7/12/2009 18:50
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Alê Barreto
 

Boa pergunta André.

Gilmar, outra pergunta:

se a comunicação (pelo menos dos grandes veículos) é baseada no interesse do leitor, então temos este ciclo: se escreve algo, as pessoas demonstram interesse e volta-se a escrever mais sobre este algo, para continuar retendo a atenção do leitor. Como explorar novos conteúdos dentro deste contexto?

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 9/12/2009 11:50
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Srta T.
 

Sr André, o que seriam resultados "formativos"? Mesmo não gostando muito do termo, que por vezes soa ligado a uma teia de informações pré-definidas, o que sim, estaria associado ao poder dos grandes veículos - agora posto lado a lado com a massa "disforme" e globalizada. Nesse ponto, creio na especificidade do leitor e suas cadeias de compreensão. Não há como prever os resultados, e prever isso seria manipulação. Seria isso que eles (grandes detentores dos meios) fazem ou tentam fazer?
Sr Gilmar, a comunicação (pelo menos nos grandes veículos) é sim (pautada) pelo interesse do leitor, mas não somente. É sempre bom lembrar quem são os donos da boiada. Prolongar um assunto, e até mesmo esgotá-lo - se é que isso é possível - é uma grande avanço para abertura de horizontes possíveis. O que, talvez, não aconteceria em um jornal caso o assunto do interesse do leitor for, por exemplo, continuar as investigações, ir até o fim, se fazer esgotar até que o último dos boiadeiros volte-se aos bois. E seja punido como um homem qualquer, e não aquele que é o "dono" do que supostamente é o "interesse do povo", ou seriam dos veículos, dos bois, da propaganda, do próprio bolso?

Belo artigo. Informação é vírus.

Srta T. · Brasília, DF 9/12/2009 13:31
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Gilmar_
 

opa, opa caros, eis que o ensaio continua no box dos comentários.Então, bora lá. Primeiramente tomo emprestada a máxima "O ensaísta sabe onde começar, mas nunca sabe onde acabar."

André, resultados "formativos" enquanto a fomação do leitor? compreensão de um determinado assunto? Isso mesmo? Se sim,segue. Bem, tbm sou educador e enxergo os leitores como enxergo meus alunos.Enquanto professor procuro sempre ser, tal qual um agricultor, com as mãos cheias de sementes.Lanço as sementes no terreno(alunos). Umas vingam, outras não.Sempre tenho o cuidado de escolher as melhores sementes, mas não depende só do agricultor(professor), existem as intempéries. Chuvas(problemas pessoais), vendavais( problemas emocionais),e por consequência, terrenos acidentados (contexto socio-econômico).Tais intempéries estão diretamente ligadas a potencialidade e vontade dos alunos de, se desenvolverem ou não.O aprendizado, a formação, vai além da boa semente, vai do ambiente onde este está inserido e das possibilidades de acesso à fontes adequadas de desenvolvimento(acesso a outras sementes/fontes de saber), como, água na quantidade certa, sol e temperatura.
Cabe ao professor semear, mas depende do aluno(terreno) em seu ambiente tirar o máximo da semente, aproveitar esta da melhor maneira, para junto de outras sementes recebidas(bagagem cultural) se desenvolver plenamente.

André troque o professor pela figura do jornalista e o aluno pelo leitor e você tem o que eu acho de resultados formativos.

Lembre-se pluralidade de informação.A obrigação do jornalista é desenvolver uma boa semente(apuração e texto).Cabe ao leitor ser um bom terreno (estar bem preparado, ter bagagem cultural para entender ou não uma informação) , para dar continuidade a repercussão dessa semente.

um abraço

Gilmar_ · Campos do Jordão, SP 9/12/2009 18:58
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Gilmar_
 

Caro Alê, let´s vamos

"ciclo: se escreve algo, as pessoas demonstram interesse e volta-se a escrever mais sobre este algo, para continuar retendo a atenção do leitor. Como explorar novos conteúdos dentro deste contexto?"

Conhece o SESC ? espero que sim. No último mês Danilo Santos Miranda, diretor do SESCSP recebeu o prêmio de Personalidade Cultural da revista Bravo. Uma das bandeiras defendidas por ele é a seguinte: a programação oferecida pelo SESC não deve ser pautado exclusivamente na procura do público.

Imaginemos um SESC no qual o público (que é formado principalmente por comerciários) ditasse a programação. Cláudinha Leite se apresentado no Pompéia, Ivete Sangalo no Pinheiros, Jota Quest no interlagos. Parece o Faustão ne?? Mais uma rádio FM??

Explorar novos conteúdos é bom, mais que isso, é saudável a linha de pensamento do diretor do SESC. Trago a mesma idéia para o jornalismo.Mesmo que sejamos apontados como mesquinhos ou esnobes , vez ou outra, por lançarmos mão de uma citação ou frase de efeito mais complexa, é bom trazer o novo para as páginas de sites, revistas e jornais.Esse choque do "vende menos"(ex: artigo sobre Oiticica) com o "vende mais" (ex: enchente em São Paulo) evidencia as várias facetas do mundo no qual vivemos. Cabe a nós, jornalistas trazer a tona, por na vitrine o novo, compará-lo com o antigo e buscar ligações deste com o popular.Jornalista que é jornalista, pra mim pesquisa, gosta de sebo e de inferninhos àla rua augusta.Vai do alternativo ao caldeirão do Huck sem se afetar.Encontra o novo, redescobre o antigo.Jornalista que é jornalista é antes de tudo curioso e um agente provocador, não só no sentido de espreitar o entrevistado, mas também no sentido de provocar o leitor, apresentando-o ao novo.

é isso

um abraço

Gilmar_ · Campos do Jordão, SP 9/12/2009 19:55
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Gilmar_
 

Olá srta T,

Interesses do leitor.Sem dúvida os grandes jornais, assim como as revistas de grandes tiragens e capas de grandes sites procuram evidenciar o que os leitores estão familiarizados e predispostos a ler. Fato também é que os assuntos não variam muito entre si.Polêmicas envolvendo celebridades e políticos, agenda setting( natal, páscoa...), mundo cão (enchentes, isabelas nardoni, suzanes Hichtofen) serviços ( campanhas de vacinação) e entretenimento (novelas, futebol) ainda são os ingredientes que engrossam o caldo das matérias que mais vendem. Parece que caímos na mesmice, abra agora o seu portal favorito na internet e veja as notícias mais lidas, a maioria não fugirá dos temas citados acima. Fato é que jornais, revistas, sites, trabalham com o mesmo produto, informação.Vendemos informação. Os assuntos do cotidiano, citados acima, só pra citar o campo mais uma vez, estão sempre no período de colheita.A procura dos consumidores(leitores) por estes é certa. Nossos fomentadores, o publicitários querem estes últimos(leitores). Agora as matérias "de sempre" atendem não só ao leitor( pois este está aberto a conhecer coisas novas, desde que lhe chamem a atenção), mas sobretudo, a demanda de leitores que o anúncio publicitário almeja atingir. C'est La Vie. Somos escravos das agências e seus produtos.Mas em tempo, temos sempre a chance e porquê não, obrigação de brigarmos por um espaço para inserir novos olhares e considerações sobre o convencional.Como lidar?? Criatividade oras, quem foi que disse que só publicitário deve ser criativo.

bem é isso, ou quase...

Agora ,alguém com exemplos de criatividade no jornalismo, poderia se manifestar. Que tal??contem suas histórias.

um abraço

Gilmar_ · Campos do Jordão, SP 9/12/2009 20:55
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