Ter um produtor cultural ou não ter, eis a questão

Domínio público
Conhecimento sobre Produção Cultural precisa ser estruturado no Brasil
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Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ
4/4/2008 · 133 · 7
 

Será que quem está buscando “ter um produtor” sabe realmente o que está procurando?

A palavra “produtor”

Na prática, não do ponto de vista acadêmico ou da pouca legislação que regula assuntos de ordem cultural no Brasil, a palavra “produtor” é empregada para denominar as pessoas que desenvolvem, de forma amadora ou profissional, uma atividade ou um conjunto de atividades de suporte para realização de uma ação cultural. Trocando em miúdos, a pessoa que trabalha preparando um programa de rádio é chamada de produtor; a pessoa que trabalha preparando um programa de TV é chamada de produtor; a pessoa que organiza a gravação de um CD é chamada de produtor; a pessoa que organiza um evento cultural é chamada de produtor; e por aí vai.

Na música, os mais comuns empregos da palavra “produtor” são para designar:

- a pessoa responsável pelo projeto de produtos e serviços culturais (produtor cultural proponente de um projeto de gravação e show de lançamento de CD);
- a pessoa responsável pelo conceito artístico (produtor musical);
- a pessoa responsável pelo registro da propriedade intelectual dos fonogramas (produtor fonográfico);
- a pessoa responsável pelo suporte administrativo nas atividades de produção de CD e organização de shows (produtor executivo).

É comum também se utilizar a palavra “produtor”, no meu ponto de vista de forma equivocada, para se referir a pessoas que fazem divulgação e assessoria de imprensa (profissionais da área de comunicação), agenciamento (profissionais da área comercial e de marketing) e gestão de carreira artística (empresário). Isso ocorre nas situações em que o produtor executivo acaba acumulando funções que são exercidas por estes outros profissionais.

Com tantas variações para os significados da palavra produtor, mais importante que querer ter um produtor é saber qual tipo de produtor se está procurando.


Avaliar as necessidades

Para que um músico saiba que tipos de produtores poderão ser importantes no desenvolvimento do seu trabalho, é importante aprender a avaliar suas próprias necessidades.

Muitas vezes se pensa que a necessidade é ter um empresário quando na verdade a real necessidade é aprender a cantar. Muitas vezes se pensa que a necessidade é gravar um CD quando a real necessidade é aprender a compor e fazer arranjos. Muitas vezes se pensa que a necessidade é vender shows quando a real necessidade é aprender a ter uma postura profissional. Muitas vezes se pensa que a necessidade é conseguir uma gravadora que invista dinheiro para veicular sua música quando a real necessidade é investir na construção de formação de platéia através de um site na internet.

A visualização da carreira artística do ponto de vista de sua inserção na cadeia produtiva da economia da cultura (produção, distribuição, comercialização e consumo) irá fornecer boas pistas sobre que profissionais poderão agregar valor ao trabalho do músico.


Os formatos de trabalho

Definidas as necessidades e que produtores poderão atendê-las, é hora de se pensar em qual formato se quer trabalhar.

É o artista que contrata o produtor ou o produtor que contrata o artista? Não há regra para isso. Há situações em que o músico contrata os produtores que necessita e há situações em que os produtores contratam os músicos que estão procurando. O importante é que a relação seja profissional e haja um contrato onde estejam definidas claramente as responsabilidades de cada um e as formas de pagamento.


Abordagem e apresentação

Utilize recursos como e-mail, orkut, sites, etc para se apresentar brevemente e solicitar os procedimentos necessários para apresentar seu trabalho.


Expectativas

Muita gente procura produtores que estejam dispostos a investir em seu trabalho. Isso está cada vez mais raro, fato que leva a muitos artistas a aprenderem a ser seus próprios produtores.

Há também os que se preocupam excessivamente se o produtor que irá trabalhar com eles fará tão bem o trabalho quanto eles próprios fazem. Excesso de perfeccionismo pode afastar bons profissionais.

O que realmente pode se esperar do trabalho de um produtor? Tudo o que for combinado. Para isso, é fundamental ter um contrato.


Então...

... mais importante que querer “ter um produtor” exclusivo é poder “contar com serviços de um produtor” para realização de atividades onde um olhar diferenciado, trajetória profissional e formação possam contribuir com o desenvolvimento da sua carreira artística.

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clara arruda
 

Deixo o voto e a certeza de esse blog ira para o banco

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 4/4/2008 13:46
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sandra vi
 

assunto bom e pra muito pano pra mangas e adereços e cenários e tais

sandra vi · Petrópolis, RJ 4/4/2008 16:01
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Alê Barreto
 

Clara e Sandra, obrigado.
O que me motivou a escrever este artigo é durante os meus cinco anos como produtor cultural ter percebido que esta é uma questão recorrente no meio artístico. Então, pensei que ela pode ser visualizada sob uma outra perspectiva. A questão não é "ter o produtor". A questão é saber o que se está buscando e que parceiros podem contribuir para isso.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 4/4/2008 16:21
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Téo Ruiz
 

Pois é Alê, muito complicada esta questão mesmo. Eu faço parte de um movimento chamado Contra-Indústria, que o título do livro que publicamos em 2006, que tem inclusive um artigo aqui no overmundo. Nele, entre outras coisas, questionamos o termo independente tanto para o lado dos que posam de independente para também atingir esse mercado e são "grandes", digamos assim, quanto para o lado dos amadores que, na realidade, não têm pretensões arftísticas profissionais mas que são incluídos juntos nesse balaio do independente. Pois bem. Dentre os artistas profissionais existem vários que têm produtores e se dão muito bem com eles, e conseguem desenvolver seu trabalho muito bem. Mas tem também os auto-produtores, nos quais me incluo, que participam de todas as etapas. Isso é muito desgastante, com certeza. Mas mesmo os que tem um produtor, hoje em dia participam muito mais das etapas de seus trabalhos do que os artistas das gravadoras. Acho que essa é a tendência mesmo. Eu gostaria de ter um produtor pra agenciar shows e várias coisas práticas que realmente tomam muito tempo. Porém, o duro é achar alguém que você confie e faça as coisas do jeito que você quer. Alguns tiveram essa sorte, nós ainda não! Por isso é complicado mesmo esta questão. Como nós já trabalhamos há um tempo com música independente, fica cada vez mais difícil achar alguém agora. Não existe receita de como se trabalhar com música hoje, cada um acha a sua forma e acho que é isso aí mesmo. Mas hoje minhas expectativas são muitas com um produtor, esse é o problema. E talvez chegue um momento que realmente vamos precisar de alguém trabalhando mais junto conosco. Tem uma pessoa que acho que eu confiaria pra trabalhar conosco, mas ele mora em São Paulo e já tem outros artistas com eles, fantásticos diga-se de passagem.

É isso, votado! Abraços!

Téo Ruiz · Curitiba, PR 4/4/2008 20:03
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Adroaldo Bauer
 

Sempre bom e grande serviço, Alê.
Tem também gente que pensa ser o produtor o cara que vai subir no poste para ligar a energia, quando a produção esqueceu de contratar a carga extra para aquele palcão de 12 metros de boca, camarins requeridos, 120.000 watts de luz e 50.000 de sonorização.
Até se sobe pra fazer o gato.
Sem contrato de carga extra, o risco de derrubar a rede é 100%.
Produtor e artista devem pensar junto e profissionalmente o que vão fazer para providenciar em harmonia técnica e arte. Mesmo para planejar uma carreira, não só um programa ou produto.
Uma vez um músico cobrava do sonorizador mais volume no PA e no retorno, e fazia isso de modo insistente, provocativo até, no microfone, exasperando os técnicos e deixando o público animoso contra a produção, que era pública e gratuita (embora já paga por impostos, que financiavam a ação).
Com a paciência requerida para a urgência que se instalava entre milhares de pessoas na platéia, ralos apoiadores para uma eventual segurança do palco, fez-se ver, percebam o detalhe, que os captadores do instrumento elétrico do artista estavam pifados.
É mesmo um aprendizado difícil, mas essencialmente necessário o de respeitar-se uns os trabalhos do outros, base primeira da boa produção para a expressão artístico-cultural.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 5/4/2008 11:17
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Alê Barreto
 

Oi Téo,

o desgaste que você menciona, gerado pela atividade, também e percebido e sentido por quem escolheu ser produtor. Daí a necessidade de se ter clareza nas parcerias a serem estabelecidas, tolerância com as diferenças e disponibilidade ao aprendizado.

Adroaldo,
concordo contigo. Respeito é fundamental no trabalho de todos: produtores e artistas.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 6/4/2008 07:55
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Dineia Pedroso Papa
 

Olá Alê,

Gostaria de participar de um curso ou workshop com vc.

Moro em Floripa. vc faz algum trabalho nesse sentido?

abraços,

Dineia Pedroso Papa · Florianópolis, SC 29/12/2010 10:52
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