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TERRA BOA

Complexo da Maré
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Josinaldo Medeiros · Rio de Janeiro, RJ
13/8/2009 · 21 · 7
 

Eu sou da Maré. Nascido na Maré. Sou ponto turístico. Eu não falo o português correto, meus amigos são a corja da sociedade e nenhum deles possui peito de aço. Embora alguns deles tenham armas calibre 88 prontos pra morrer e estejam participando de uma guerra que já dura dois meses.

Eu tenho pés, pernas, braços, peito e coração. E ainda tenho que sorrir quando enfrento a multidão. Também sinto saudades, tais como da Joana que morreu após um tiro matar sua única filha chamada Esperança.

Vento e poeira, modo reflexivo. A favela não dorme, é calada, sufocada. Faroeste dos aflitos, veste a farda e tira a fralda, sem querer fui engajado, sem querer me humilharam. E ninguém sabe, e ninguém viu. É o preço que se paga pra não matarem a puta que me pariu.

Todos de preto, usam gandola, burucutu, faca na boca, revolver 38, coturno, algemas descartáveis, munições especiais e 6 carregadores de pistolas, fuzil 7,62 mm, coldres táticos, um bastão retrátil e estão prontos pra guerrear… Pássaro blindado. Dinossauros do futuro. Mosca morta sem pensar.

Ouço tudo pelo telefone celular e a midiahipocrisia insiste em enfatizar que a favela é violenta, foda-se quem mora lá. Me dá um ódio. Me dê um ópio!

Fundo do poço. Quase morro. Comercial.

Tum-tum-tum! Pá! Pum! Pá! Pum! Bláaaa! Bláaaa!

Modo observacional. Os números me revoltam: 27 mortos, 6 presos, muitos foragidos e eu sem ver minha família a 1 mês.

Enquanto isso, o Santa Marta vira alvo da especulação imobiliária e os moradores começam a sentir o efeito da ocupação militar no bolso.

“Eles (moradores) olhavam assustados para aquelas pessoas, que nunca estiveram ali, mas logo entenderam que estavam ali para conhecer o êxito do projeto que pacificou uma comunidade que era dominada pela violência do tráfico. Foi mais uma demonstração de atenção. Ficaram felizes, já que não são mais tratados como bichos ou pessoas à margem da sociedade”, explica a capitã Pricilla de Oliveira, comandante da Companhia de Policiamento Comunitário do Santa Marta.

Mal sabem eles que os traficantes dessas regiões ocupadas não foram arrebatados por Deus. Estão fortalecendo outras favelas e tocando o terror em outros pontos da cidade.

Denunciar? Nem pensar, isso é cultura popular. Então deixa os hômi entrar, pacificar, esculachar e depois virar heróri?! Melhor se demitir, aqui bandido somos nós.

Gentes do morro, tudo enlatado. Nome vulgo, raça do caralho. Os ditos massa. Guerra covarde, terceiro mundo e ainda dizem que é evolução. Tudo é questão de pá e enxada.

Nem Fome Zero, nem Bolsa Família o que me deram foi meia dúzia de balas perdidas. Meu santo forte é de madeira, nem se mexe pra não dar bandeira. Dinheiro curto, trabalho incerto.

E o povo grita, suplica, tenta se organizar. A repressão bate na porta. Mas prometemos que não vamos recuar. Resistiremos. Tipo Romênia. Tipo Colômbia. E que caiam por terra todos os dominadores deste tempo! Por um complexo da Maré livre!

Tum-tum-tum! Pá! Pum! Pá! Pum! Bláaaa! Bláaaa!

Porque a guerra é armada, a luta conceitual e a batalha não está perdida!

Chega de guerra na Maré quero voltar pro Cabaré!

Mas quem vai me ouvir? Digam ai.

E ó, avisa pra geral aqui é o cria do Pinheiro!

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Viktor Chagas
 

Opa, Josinaldo.
Bom o teu relato. Sempre bom acompanharmos o outro lado do que se costuma noticiar. Mas curioso ver a tua análise desencantada quando, para mim, que tive na Maré um objeto de pesquisa (foi tema da minha dissertação), o local é um exemplo de resistência cultural tão forte e complexo. Sim, é verdade que a política de enfrentamento no Santa Marta acaba expulsando os bandidos para outras comunidades. Mas será que se a ação não fosse na Maré, o Santa Marta a esta altura não teria a mesma impressão de que saiu perdendo na história?
Me parece bacana o exemplo da resistência pela cultura na Maré. Os projetos sociais que alavancam o desenvolvimento da região, a partir de ongs com verba pública e também privada, para além de todos os problemas de entendimento entre uma comunidade e outra desse enorme "complexo", são algo de extraordinário. A Vila Olímpica, o Museu, as lanhouses, tanta coisa acontecendo e que tão pouco aparece na mídia...

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 15/8/2009 14:02
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igor barradas
 

Tão pouco?
uma exclusão total!
Estão criando um muro cada vez mais alto!
Uma irresponsabilidade total de nossos meios midiáticos!
Se não fosse o Josi, não teria idéia do que esta acontecendo na Maré!
Com embrulho no estomago, igor

igor barradas · Duque de Caxias, RJ 17/8/2009 17:43
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Katine Walmrath
 

impressionante como a realidade do outro nos foge.
e por mais que meu comentário possa até soar "ingênuo", não posso me furtar de fazê-lo.
impressionante como a "mídia" cada vez menos dá conta de traduzir essa realidade. chega a ser ridículo. correndo o risco aqui de ser obtusa demais.
relato apaixonado. de quem está provavelmente no "olho do furacão".
seria bom ouvir outras vozes. ter uma visão mais plural.
que é crudelíssima a realidade, não há dúvida.
mas não quero crer no apocalipse.
nem o josinaldo quer.
abraço.
katine

Katine Walmrath · Porto Alegre, RS 17/8/2009 21:05
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Andre Pessego
 

JOSINALDO, é muito bom a exposição por aquele que vive de perto, que está no meio, no seio, do fogo cruzado. Mas não basta. Vamos às origens do problema: A ESCRAVIDÃO DO INDIO.
A escravidão do negro foi exposta, posta, discutida (agora vem sendo jogada pra de baixo do tapete). A Escravidão do INDIO permanece debaixo do tapete.
Quando voce expõe apenas o seu ponto de vista, apenas o seu relato
fica-se com a impressão da chamada "ETERNA VITIMA", aquela vítima autoritária.
O que voce sa be da Escravidão do INDIO?
Enquanto não se discutir, se conhecer as origens reais da violência
estatal e da sociedade brasileira, possívelmente não se chegue a lugar algum.
Por ex. Onde está a origem do PROUNI? Está no entendimento, timido de sanar-se a escravidão do negro.
E os mestiços, e os metiços com o índio?
Como referencial tímido - O povo brasileiro do Darcy Ribeiro.
Abraço, mas valeu a tua postagem
andré

Andre Pessego · São Paulo, SP 18/8/2009 06:20
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Katine Walmrath
 

pois é, andre, penso que tuas colocações são de extrema importância.
e ao mesmo tempo me parece que a questão do índio não é exatamente o que o josinaldo esteja trazendo, pelo menos não em primeira instância, embora, é claro, as questões de exclusão se tangenciem crucialmente.
o que eu acredito é que a colocação do josivaldo, a tua, a minha, este espaço do overmundo é a possibilidade de dar voz aos sujeitos.
claro que o melhor é que dessa discussão surjam ações.
não sei muito como seria isso, mas é o que sinceramente "realizo" no meu pensamento.
e vai-se realizando nesta troca e inclusão de vozes.
eu penso muito esta questão dos índios.
acompanho como posso aqui em porto alegre.
e vou ver se procuro o livro que tu sugeriu.
abraço,
katine

Katine Walmrath · Porto Alegre, RS 18/8/2009 12:57
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Andre Pessego
 

Katine, é verdade, julgamos todos e cada um estarmos fazendo o melhor que podemos.
A raiz da matança está exatamente na herança como foi iniciada a formação da sociedade brasileira. A índigena foi feita matriz para produzir pessoas para a guerra. (Assim, com o mameluco, foi neutralizado o avanço, o encorajamento da Holanda). Concluída aquela tarefa era preciso matar "o bastardo". Aqueles nascimentos
se davam com dois objetivos - a guerra e a caça à propria mãe e sua familia. E sempre foi permitido matar.
Assim se formou um agrupamento a que Darcy Ribeiro denominou
de NINGUÉM-DADE".
E não mudou, a facilidade com que os governos matam e contam
quantos mataram não difere da matança ao MAMELUCO.
O próprio nome, MAMELUCO, não foi dado por acaso, se refere a um agrupamento feito escravo no Oriente, etc. etc.
Quais são os que morrem, são assassinados nas favelas do Brasil?
- ou negros ou mamelucos.
Ainda é terrível o ódio institucional do Poder de Estado ao mameluco.
Mesmo o Josinaldo, não o conheço, não será ele mameluco? -
Ainda na década de 1980 assistimos nova campanha contra o MAMELUCO (e o indigena mesmo), sob a instigação do CARVOEIRO.
sabe pra que? - Tomar as terras dos serrados para dar ao imigrante Japonês. Outro crime na História do Brasil.

Bastardo sempre foi designado como filho da índigena.
O negro, conseguiu o PROUNI, um quase nada, mas.......
vamos em frente.
Desculpa, não tenho a intenção de ministrar nada, é como voce disse, apenas nosso esforço para dar o que podemos a esta Terra.
abraço

Andre Pessego · São Paulo, SP 18/8/2009 18:19
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Katine Walmrath
 

desculpe, josinaldo e não josivaldo.
e além disso quero ressaltar a triste beleza da tua criação.
como se consegue fazer arte de tanta dor?
e obrigada, andre.
sigamos aprendendo e trocando.
:-)

Katine Walmrath · Porto Alegre, RS 18/8/2009 19:52
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