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Ricardo Sabóia · Fortaleza (CE) · 29/4/2006 15:38 · 125 votos · 6 comentários ·  
 
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Ricardo Sabóia

Grupos juvenis organizam mostras e difundem a cultura de animes e mangás no Ceará

Otakus, AVMs, OVAs e fansubbers. Vocabulário estranho para quem não tem familiaridade com a cultura dos animes (desenhos animados) e mangás (quadrinhos) japoneses. Cada vez mais corriqueiro, porém, para uma parcela crescente de adolescentes do Ceará.

Nos últimos anos, dezenas de mostras voltadas para a cultura pop oriental despontaram em Fortaleza. Eventos como S.A.N.A., T.A.C., Mazé e Animelegion têm reunido milhares de jovens, saindo do esquema TV e vídeo (ou DVD) e ganhando algumas das principais salas de cinema da capital. Os animes e mangás já chegaram até ao Centro de Convenções Edson Queiroz, local que costuma receber eventos de porte no Estado.

O início - A atual movimentação tem origem em meados da década de 90, na Praça Portugal, bairro da Aldeota, reduto da classe média-alta de Fortaleza. Cercada de lojas de grife e shoppings, rotatória de convergência de duas movimentadas avenidas, a praça costuma ser mais lembrada na cidade pelo trânsito pesado em seu entorno. Jovens interessados por RPG e animes passaram a ocupar o local, transformando-o em ponto de encontro para discutir os lançamentos de novos desenhos e revistas, trocar cards, marcar sessões caseiras de animes e organizar as primeiras mostras.

Dessa movimentação surgiu o PERO, Primeiro Encontro Regional de Otakus (gíria para definir os fãs da cultura pop oriental), apontado por Bruno Cavalcante, 19 anos, membro do grupo TAC (Takano Dano Anime Club), como mostra de animes pioneira na cidade. O evento ocorreu na Escola de Saúde Pública, em março de 2001. Dois anos depois, Bruno fundou seu próprio grupo, hoje um dos mais atuantes na cena de animes em Fortaleza. “Houve algumas reuniões na minha casa e na casa do meu primo, aí decidimos montar o grupo, com pouca gente, seis pessoas.”

A primeira investida para a consolidação do TAC foi uma sessão organizada por Bruno em 2003 no colégio 7 de Setembro, onde estuda parte dos adolescentes da elite cearense. “A gente pediu autorização ao diretor. Reunimos 70 pessoas em uma sala, exibimos animes clássicos”. O primeiro contato dele com animações orientais ocorreu, como muitos outros fãs, com os desenhos transmitidos na TV aberta, como Cavaleiros do Zodíaco e Super Campeões, exibidos na extinta TV Manchete.

Em 2004, o TAC organizou a primeira mostra nas salas de cinema do Shopping Benfica. “Foi difícil fazer a primeira mostra. A gente panfletou muito, não sabia como ia ser. Deu umas 800 pessoas em dois dias de exibição. A gente ficou surpreso. Foi o estímulo necessário para continuar”, afirma.

O TAC possui atualmente 30 integrantes, que se reúnem regularmente na Praça Portugal, e já organizou cinco mostras, a última no Centro de Convenções, no mês passado. Seus eventos ilustram as estratégias traçadas pelos grupos de mostras de animes, que acompanham, essencialmente pela internet, o trabalho dos fansubbers, voluntários que legendam os desenhos não-licenciados. Os grupos também fazem o download pela rede mundial de computadores e depois viabilizam encontros para exibi-los, além de organizar todo o processo, da seleção dos desenhos e da divulgação através de cartazes e panfletos ao controle da bilheteria. Tudo dentro da filosofia que pontua a cena cultural dos fãs de animes, como esclarece Henrique Augusto, 20 anos, outro integrante do TAC: “A gente não faz a mostra só para o pessoal vir e gostar, não. É mais para divulgar os animes, para que eles cheguem à TV aberta. O trabalho é divulgar para que sejam licenciados. A lógica é abrir o mercado aqui para verem que tem futuro. É um modo de pressionar a TV.”

Bruno reitera o discurso do colega de grupo. “Não exibimos animes licenciados no Brasil, e sim os títulos que a gente quer que venham para cá e sejam exibidos na televisão. Não queremos lucrar em cima disso, investimos todo o lucro de um evento em outro seguinte, para trazer mais gente”.

O maior grupo em atividade atualmente em Fortaleza é o S.A.N.A. (Super Amostra Nacional de Animes), com 11 diretores e um total de 50 integrantes. Realiza mostras desde 2001, quando o primeiro evento levou ao auditório da Universidade de Fortaleza (Unifor) 240 fãs de Dragon Ball Z, Cavaleiros do Zodíaco e Vídeo Girl Ai. “O público, sempre surpreende, vem crescendo a cada ano, chegando a 12 mil em dois dias de evento no último S.A.N.A, realizado no Centro de Convenções”, diz Igor Lucena, 17 anos, diretor administrativo do grupo. A sexta edição, em julho, prevê a participação de dubladores, desenhistas e jornalistas especialistas em animação, além da realização de palestras, workshops, shows e concursos sobre cultura e animação japonesa.

Se a idéia é usar as mostras para convocar novos fãs e espalhar a cultura dos animes, pode-se dizer que o público juvenil tem comparecido em peso ao chamado. Mostras realizadas em salas de cinema de médio porte, como as do Shopping Benfica, reúnem mais de mil pessoas, geralmente em dois ou três dias de exibições. Os cinemas do Benfica, aliás, costumam sediar com regularidade as mostras: a região, central, facilita o acesso para quem vem de áreas mais distantes e concentra muitos colégios. As salas ficam com lotação esgotada e muitos fãs contentam-se em sentar nos corredores, próximos à porta de entrada das salas ou da tela.

Contratempos como esses não diminuem, contudo, a empolgação de alguns espectadores. Basta iniciar um anime ou surgir na tela algum personagem popular do público em um AVM (Anime Video Music, videoclipe criado de imagens retiradas de um anime) ou em um OVA (Original Video Anime, animação desenvolvida essencialmente para comercialização no formato de VHS ou DVD) que a aparição provoca gritos e aplausos. Os mais animados chegam a levantar das cadeiras e saudar euforicamente as imagens. Nos intervalos das exibições, o público divide-se em rodas de conversa, compra ou folheia mangás nos stands das lojas especializadas. Alguns preferem disputar torneios de fliperama. Em eventos maiores, há ainda workshops, palestras e concursos de cosplay (prática de se caracterizar, através de vestimentas e gestos, de personagens de animes ou mangás).

DVDs e Internet - Além da expansão da internet e das novas tecnologias, o barateamento dos aparelhos de DVDs é um dos fatores que impulsiona o consumo de animes pelos jovens em Fortaleza. Muitos têm o hábito de assisti-los em casa, em cópias que circulam entre amigos mais próximos, compradas em lojas especializadas ou “baixadas” da rede de computadores. Atualmente, o interesse vai além dos bairros da classe alta, alcançando um público significativo nas áreas mais afastadas do centro da capital. Felipe Carvalho, 18 anos, morador do Dias Macedo, é freqüentador habitual das mostras de animes. Ele compra mangás duas vezes por mês e assiste às séries em casa ou na residência de amigos. “A gente baixa os filmes da internet, pelo Mirc. Gosto de ir para as mostras porque é muito show, mostram animes inéditos, a galera fica brincando.”

Daphne Pontes, 16 anos, mora no bairro Henrique Jorge. Fã dos animes Getbackers e GTO, ela assiste aos desenhos em casa e em mostras como o S.A.N.A e costuma ir aos eventos com amigas. “Não sei dizer direito por que gosto de animes. Gosto dos traços, das estórias. É legal ver que os grupos que organizam mostras estão crescendo”, diz.

Mateus Mota, 10 anos, mora no Montese e é fã de Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball Z, animes de sucesso na TV aberta. Quando dá, vai a mostras levado pelo pai, Cláudio Mota, que não aprecia muito os desenhos e quadrinhos orientais. “O Mateus tem uns mangás. Eu acho meio esquisito. Esses desenhos são uma viagem meio doida”, confessa Mota, que chega a sussurrar no ouvido do filho legendas que este não consegue acompanhar na tela.

“Filme quase trash” - O sinal mais vigoroso – e criativo – da difusão dos animes e mangás nos bairros periféricos é a Mazé, Mostra de Animes do Zé Walter. O bairro Conjunto Prefeito José Walter, mais conhecido na cidade a partir do “folclore” de ostentar o título de “bairro dos cornos”, abrigou em 2004 sua primeira mostra voltada para os desenhos japoneses. Cerca de 300 pessoas conferiram o evento, segundo informa o organizador, Paulo Roberto, 22 anos. Ele dispara, bem-humorado: “As pessoas acham que Fortaleza acaba na [avenida] José Bastos. Na primeira mostra colocamos guias nos terminais de ônibus com a placa ‘sou do Zé Walter’ para orientar as pessoas. Nosso grupo busca interagir mais com o público e ser diferente.”

A mostra tornou-se nome de batismo do grupo, que além de exibir animes, atualmente tenta elaborar estórias de mangás com referências cearenses, encena performances de artes marciais nas mostras, e até já produziu um curta-metragem. “Mazé, o filme”, mostra a saga de um jovem que sai da Aldeota e vai a um evento de anime no José Walter. Escrito e filmado por Paulo Roberto, o curta de 18 minutos é definido por ele como um filme “quase trash, feito com uma câmera, coragem e cara-de-pau”. A produção reflete os caminhos traçados pelo anime em Fortaleza e é a arma de quem tem um olho no Ceará e outro no Japão: “A gente gosta da cultura japonesa e incorpora a cultura local”, diz. “Jipaia, o miserável ninja” e “A treinadora de digitroços” são os primeiros esboços de heróis que satirizam a série Kamen Rider.

Além da mostra no bairro, o Mazé também já organizou, em outubro de 2005, um evento no Shopping Benfica, “encarando” o Ceará Music, festival pop-rock comercial realizado em um hotel cinco estrelas e que atrai milhares de jovens de Fortaleza. Em setembro, o grupo planeja realizar uma grande mostra no José Walter.

Loja especializada - A expansão do mercado de animes e mangás no Ceará pode ser atestada ainda com a inauguração, há onze meses, da Tenshi Shop, loja voltada essencialmente para a comercialização dos desenhos e quadrinhos orientais. Localizada no centro da cidade, tornou-se uma opção frente à Revista e Cia e à Fanzine, lojas que já comercializavam revistas orientais em Fortaleza.

Além dos mangás, é possível encontrar na Tenshi animes gravados em DVDs, card games, camisetas e vestimentas de personagens das animações. Parte do material é trazido de São Paulo, como explica o proprietário, Vinícius Kendi: “Encomendo das editoras principais, como a Conrad, ou viajo e trago material da Liberdade [o bairro da comunidade oriental de São Paulo]. Revendo também material de fãs que precisam se desfazer das revistas. Em vez de ficar entulhados em casa e depois jogar fora, as revistas são passadas para a loja. Mas eles passam com o coração apertado, porque as mães exigem que se desfaçam, pela falta de espaço. Só ficam mais tranqüilos porque sabem que eu vou vender para pessoas que também gostam muito.”

Kendi é um jovem de 19 anos que encarna tanto a posição de proprietário da loja como o de fã incondicional dos animes e mangás. “Tenho uma relação de confiança com meus clientes. Eu não sou só dono, sou fã. E tenho que tratá-los como fãs, também”, diz. Descendente de japoneses, Kendi nasceu em São Paulo e mora há cinco anos em Fortaleza. Ele revela que começou a se interessar por quadrinhos ao conhecer X-Men, série da americana DC Comics. Em seguida, assistiu a Akira na TV aberta e, desde então, tornou-se colecionador. Freqüentou a Praça Portugal no final dos anos 90 e início desta década.

É possível comprovar a afirmação de Kendi não apenas pelo modo como ele encara e conduz sua loja, mas no discurso que gira em torno da exclusividade, tão presente nas falas de aficionados que testemunham a expansão de uma cena cultural específica. “Temo a banalização com tantos eventos constantes, subdivisões entre grupos e mesmo a perda de pureza do movimento da Praça”, lamenta.

A relação entre os fãs e o proprietário transformou a Tenshi em um ponto de encontro juvenil. Em média, 50 pessoas – a maioria, adolescentes – passam pelo local todos os dias. “O pessoal vem, fica conversando, pede para assistir a animes na televisão, ler mangás. A gente deixa, independente da intenção deles em comprar ou não. Alguns chegam, começam a ver uma série e voltam depois para continuar”, diz Arusha Wahlberg, vendedora da loja e “especialista em RPG”, como se define.

Interior - A cultura dos animes também rompeu os limites da capital. Em Sobral, cidade localizada a 235 quilômetros de Fortaleza, o GAMS (Grupo Anime/ Mangá de Sobral) realizou a sua primeira mostra, a MASA (Minimostra Sobralense de Animes) em outubro de 2004. Reuniu 250 pessoas na Casa de Cultura do município e é considerado o primeiro evento de animes do interior do Estado. A segunda mostra ocorreu em setembro de 2005, no auditório principal do Centro de Convenções local.

Por e-mail, o dirigente Zé Wellington, 21 anos, revela que o grupo surgiu oficialmente em 2003, mas os principais membros já se reuniam desde 1995. “Nosso primeiro contato com anime é similar ao da maioria dos otakus nacionais, com a estréia dos Cavaleiros do Zodíaco no Brasil. No início, éramos nove amigos; agora o grupo tem oito diretores e mais de 20 organizadores”. Assim como os grupos da capital, o GAMS quer sedimentar a cultura dos desenhos japoneses pelo interior do Ceará: “Temos uma parceria com o Sesc. Todo mês exibimos um anime longa-metragem, o que faz com que os fãs daqui tenham uma opção regular mensal. Estamos criando esta tradição ainda. Nossa intenção é dar continuidade ao MASA e a todos os eventos relacionados a ele”, diz Wellington.

Mesmo com o atual sucesso de público nas principais mostras, os jovens cearenses aficionados em animes e mangás querem ir além. “Em Fortaleza ainda há uma deficiência, não dão o interesse devido. É um evento cultural. A gente quer que muita gente daqui conheça isso”, diz Eduardo Barbosa, do TAC. Pelo que já conseguiram, melhor não duvidar.

S.A.N.A.: www.portalsana.com
Grupo TAC: www.grupotac.cjb.net
GAMS: http://www.animasa.com/
MAZÉ: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=7620791

tags: Fortaleza CE literatura anime manga fortaleza ceara


 
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Por aqui tem um movimento assim também, mas bem mais tímido. Eles fazem eventos pequenos periodicamente e vão fantasiados, fazem exibições de filmes, é um barato!
beijo, ricardo!
Natacha Maranhão · Teresina (PI) · 3/5/2006 13:32 
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Por aqui tem um movimento assim também, mas bem mais tímido. Eles fazem eventos pequenos periodicamente e vão fantasiados, fazem exibições de filmes, é um barato!
beijo, ricardo!
Natacha Maranhão · Teresina (PI) · 3/5/2006 13:32 
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caramba, quanto tempo pra fazer isso Ricardo? Muita informação.
Pedro Rocha - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza (CE) · 9/5/2006 13:05 
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Oi Pedro,
a idéia era cobrir uma única mostra, mas fiquei surpreso como essa cena é forte. Aí resolvi fazer uma reportagem mais longa.
Ricardo Sabóia · Fortaleza (CE) · 11/5/2006 21:00 
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maiara eu adorei essa reportagem esta muito legal.
Eu sou uma otaku comecei ver animes na manchete como a maioria. Assisti cvaleiros do zodiaco, super campeoes e yu yu hakusho.Nao so animes como tokusatsus tbm.
Mais isso ja faz muito tempo nem me lembro quantos nos eu tinha n epoca.
Hoje em dia tenhu quase 20 anos.Faço parte de 3 grupos de animes. Sempre que posso frequento a praça portugal e tenshi shop.Tambem faço parte de um site de cobertura de evento de animes.
Comecei a frequentar eventos em 2005 quando completei 18 anos e conseguir a minha liberdade condicional digamos assim.Devido a eu ser filha unica meu pai so me deixou sair quando fikei de maior.Alem do que eu nao moro na capital,moro no inteior a 60km de fortal.
Mais eu queria mto ir pra um evento que a primeira coisa que fiz quando completei 18 foi comprar as entradas do sana 5 que no caso foi o meu primeiro evento. Desde dai eu comecei a frequentar todos os eventos que eu ficava sabendo.Fui ate pro mana 1 la no ze walter, nem sabia aonde era fui com a cara e a coragem.
Era ate engraçado nocomeço qundo comecei pegar amizade do pessoal e eles perguntavm dequebairro eu era.Eu diziaa que era do interior de cascavel.
Todo evento eu ouvia a mesmacoisa so que de pessoas diferentes
todosdizi
cara vc e uma otaku pq vim de cascavel pra ca so pra um evento...Alem das piadinhas como Cascavel tem coca-cola? ou sempre que xegava na Tenxi o proprio tenxi dizia Como foi a viagem????
Mais foi legal apesar de tudo fiz amigos...
Comecei um curso de japones mais eu tive que parar...
adoro animes e mangas tenhu vaarios animes naum me canso de assitilos tbm naumme canso de ler os mesmos mangas.
tabem jogo RPG... nas horasvaga. E o meu vicio
enfim sou otaku
maiara · Cascavel (CE) · 4/5/2007 14:48 
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ficou show!!
John Bauer · Fortaleza (CE) · 17/5/2007 15:19 
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