"Terrorismo" na Música Independente.

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RafaelCastro · Lençóis Paulista, SP
23/4/2010 · 22 · 2
 

Matéria de Christian Camilo com colaboração de Rafael Castro publicada originalmente no site do Rock'n'Beats: http://bit.ly/byTUwr

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Existe algo pelo qual o artista e músico brasileiro ainda deva lutar? Onde está a música de protesto? Ela se tornou brega? Perdeu o sentido? Será que existe algum movimento musical no país?

Sim, existe um movimento musical no país. Mas não é um movimento que surgiu aqui. Ele nasceu nas ruas dos Estados Unidos, Do encontro dos negros que criaram o blues e o jazz, e do encontro destes talentos com empresários que criaram um movimento comercial e uma cultura social para a música do séc. XX , dos dedos e do capital norte-americano, do estado democrático dos Estados Unidos em que o artista é livre para tocar suas músicas na rua e garantir seu ganha pão com seu trabalho, suas canções e seus talentos.

Por aqui, em muitas cidades brasileiras (como a metropolitana Campinas), bandas, artistas e até casas de show, sofrem restrições com uma série de leis que parecem lutar para o fim do músico independente. Este deserto de apoio cultural passa a sensação de que, somos nós mesmos – povo brasileiro, que está mais interessado em importar artistas ‘gringos’ e valores culturais estrangeiros do que incentivar alternativas para o florescimento da música popular feita por aqui. Seria este contexto o resultado de uma conveniência governamental somada a uma ignorância cultural do que a música brasileira tem de novo para mostrar?

A adoção de um fomento de cultura musical gerenciado por gravadoras e mega-corporações multinacionais mantêm em uma inatividade conveniente, até agora duradoura, qualquer ação política governamental que possa realmente fomentar a música independente brasileira. Falta o básico – garantir um espaço popular e democrático em rádios, TVs e espaços públicos para artistas nacionais divulgarem seu trabalho, ganharem credibilidade, repercussão e se profissionalizarem. As opções práticas de divulgação, que existem hoje para a ‘quase’ sobrevivência de músicos e bandas brasileiras são soluções culturais inventadas pelo modelo americano de mercado: coloque sua música no Myspace, lute por um espacinho no jornal, toque em um programa de TV, faça um vídeoclipe, tenha um produtor…

Há por trás disso tudo um grande movimento de interesses difícil de se enfrentar: a comunicação e sua influência. Diferente de governos e políticas que a cada ciclo de 4 ou 5 anos passam por novas eleições ‘democráticas’, a influência da mídia é eterna e calcada numa credibilidade construída ao longo de muitos anos. Os canais de comunicação antecipam a pauta e determinam os assuntos que serão discutidos pela sociedade. É uma regra até natural: quem conhece mais pessoas e é comunicativo, influência mais gente e quem começa primeiro, saí na frente. Neste ritmo, o ‘eco’ da cultura norte-americana domina a periferia cultural de todo o mundo. Há um bombardeio de informações e valores. Inclusive, a própria representação simbólica do que é música brasileira foi moldada, em parte, por esta avalanche de informações que não é de nosso próprio país e sim de gravadoras multinacionais e canais de comunicação estrangeiros.

Averso e cansado desta manutenção do modelo econômico cultural do capital americano que acaba por contribuir com uma ausência de espaço para a democratização da música brasileira, Rafael Castro aderiu a uma ‘passeata’, um movimento em busca da conscientização do músico brasileiro. Tudo começou com a ideia de comprar um gerador de energia, para tomar de assalto as ruas com shows gratuitos. A primeira aparição deste ato ‘terrorista’ ocorreu no último dia 17 de abril, em Lençóis Paulista – cidade onde vive o compositor.

Entrevistei Rafael Castro para saber mais deste ’shows terroristas’ ao deserto cultural que nossas ruas sofrem. Ruas carentes de cultura e segurança para as pessoas compartilharem gratuitamente o que é belo e o que é música feita em nosso país.


1 – Com esta proposta carregada de um fundamento ideológico, você se sente de alguma maneira ‘contra uma cena musical’ ?

Rafael Castro: Existem alguns pontos incoerentes na cena atual. Muitas bandas e artistas direcionam seus trabalhos para um público elitizado que algum dia foi chamado de “formador de opinião” e que fazia parte de um sistema onde o trabalho artístico era inserido e posto pra funcionar mercadologicamente. Como se está vendo, hoje este sistema não funciona mais e esse mesmo público, além de não consumir o artista tornando o trabalho dele rentável, não o coloca na mesma circulação em que pudesse chegar a todas as classes (elitizadas ou não) porque aquele sistema foi afunilado pelo capital e fragmentado pelos formatos digitais, logo, este não existe mais na prática. Daí podemos dizer que sim, sou contra esse tipo de conduta que ainda tenta conseguir as coisas de forma “mágica”, tentando ganhar espaço entre pessoas e veículos que apenas usam o artista pra vender produtos, sem remunerá-lo: sites e serviços de internet, mídia em todo seu escopo, bares e casas de show. Todos esses lucram em cima do trabalho artístico, remuneram mal (quando remuneram) e geram um público que não reverte renda ao artista nem direta, nem indiretamente.

2 – Quando e como surgiu a ideia de comprar um gerador para levar seu show para lugares abertos?

Rafael Castro: Conforme fomos tomando consciência da cilada em que estávamos nos metendo usando a estratégia que tinha como objetivo entrar no “sistema elite” fomos obrigados a repensar a maneira que iríamos trabalhar daí pra frente uma vez que a decisão de viver exclusivamente de música já tinha sido tomada.

Nas conversas, revisamos o processo simplíssimo em que o mercado se dá, constituído de 3 etapas: Produção, Divulgação e Vendas. Já tínhamos a produção garantida com o meu estúdio em casa, onde não pago nada pra criar meus fonogramas, teríamos então que levar a praticidade e eficiência da primeira etapa pras outras duas. Pra vender teríamos que atingir um outro público, o “não-elitizado”, aquele que ainda compra um CD (até mesmo um pirata), uma camiseta e não se mete com casas de show que cobram caro na entrada, vendem uma cerveja a 6 reais e não remuneram sua atração. Pra atingir essas pessoas, a internet é a primeira peça que cai, seguido pelas mídias que não atingem esse público e por fim, utilizando ou criando novos espaços pra se apresentar.

A coisa que pareceu mais óbvia foi “Vamos tocar na rua pro trabalhador” – dessa forma estaríamos em contato com esse público que muitas vezes precisa de alguma coisa nova pra consumir, mas essa coisa está muito escondida no meio dum jornal ou dum clubinho escuro e caro.

3 – Este movimento que você pretende iniciar, começou com um show seu em Lençóis Paulista. Você pretende levar esta ação pra outras cidades? Existem outras bandas que confirmaram sua participação oficialmente nestes ‘atos públicos’?

Rafael Castro: Sábado, 17/04, fizemos nosso primeiro show aberto em Lençóis. Foi sem autorização, de madrugada, num loteamento onde as casas ainda estão sendo construídas e a moçada costuma frequentar pra tomar sua bebida e ouvir sua música sem incomodar ninguém. Existem muitos lugares como esse no interior paulista e certamente exploraremos mais cidades por aqui. Já foi conversado com outras bandas da região sobre elas tocarem no mesmo show quando levarmos o aparato pras suas cidades, cidades essas onde ocorre o mesmo problema daqui: lugar nenhum pra tocar, nada pra fazer, logo, pra população, o esquema é bem-vindo.

Quando tivemos a ideia de tocar ao ar livre, o destino era a capital paulista e queríamos inicialmente atingir um público diurno, com outras propostas e outras estratégias de formação de público. Infelizmente não conseguimos nos mudar pra São Paulo, daí estamos fazendo por aqui com essa proposta de entretenimento noturno alternativo clandestino até que possamos executar o plano metropolitano. Em junho estaremos em São Paulo pra uma temporada de shows em clubinhos e muito provavelmente daremos início a essa parte da ação nos dias livres.

4 – Não tem medo de represália? De polícia chegar tirando tudo e impedindo que vocês toquem? Ou esta possibilidade faz parte ‘do show’ de horrores que vocês querem de certa maneira criticar?

Rafael Castro: Não estamos amparados pela lei. De dia ou de noite existe a possibilidade de uma ação grosseira da segurança pública e estamos nos sujeitando a isso pela defesa de valores importantes tanto para o trabalhador da arte quanto do seu público que tanto sofreu com a alienação da indústria. Precisamos nos expor e nos comunicar, mas não podemos depender daqueles estabelecimentos e nem de eventos programados pelos órgãos governamentais pois a esporadicidade e a escassez é tremenda, além de nos privar de grande parcela da sociedade. Por isso tocar ao ar livre é defender o uso do espaço público e o direito de expressão de todos os cidadãos e, se por ventura ocorrer num dia uma intervenção mais severa da polícia, isso estará sendo – assim como o show – publicamente exposto, certamente causando indignação e servindo para propôr uma reflexão mais aprofundada sobre as condições do trabalhador da arte e da liberdade dos cidadãos.

5 – E sua música? Você a estará usando como ferramenta de uma campanha política. Qual a fronteira, ou os limites de sua intenção em se envolver diretamente com problemas sociais? Existe uma chance de você virar um importante símbolo político da luta pela democratização do espaço público para a música de todos. E então? Se isso acontecer, não cederá a vontade de uma carreira política pró bandas e músicos?

Rafael Castro: A política deve ser um interesse de todos os artistas através de suas ações. O artista, que sempre foi ouvido, muitas vezes foi seguido e às vezes até imitado pelo seu público, este deve servir de inspiração para toda a luta de classes; do jeito que está, ele se tornou uma péssima inspiração.

O pequeno empreendedor da arte (o independente) necessita proteger o espaço que lhe foi tomado pelo capital e pelas grandes corporações da música e o simples fato de lutar por esse espaço e melhores condições de trabalho é pura política. Se a discussão política pode tomar a energia da produção artística em si eu não sei. Pra mim, na verdade, dá mais força pra continuar produzindo por imaginar que cada ação dessas, daqui pra frente, pode ser importante pra dar sentido e proporcionar condição ao que fazemos.

É importantíssimo que exista uma conscientização ampla e que essa briga pelo espaço e pelo público que nos foi tomado parta do maior número de artistas possível. Estou fazendo um convite.

6 – Sua briga é contra a mídia?

Rafael Castro: É uma briga contra as grandes corporações de música, contra a mídia, contra as condutas dos bares, casas de show, do próprio governo e contra a postura atual do trabalhador da arte.

...

Em breve Rafael Castro levará estes ‘atentados’ até a capital paulista. O casamento da força do compositor, aliada a força elétrica do pequeno gerador de energia promete bons momentos e novos capítulos da luta dos artistas brasileiros pela conscietização de seu espaço dentro da cultura nacional.

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Viktor Chagas
 

Muito interessante a discussão proposta pelo Rafael. Mas fiquei me perguntando se o combate à hegemonia através do terrorismo não é também, por si só, um fenômeno que só existe no universo típico estadunidense? :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 24/4/2010 12:39
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Rangel Jr
 

Já pensei mil vezes em fazer algo parecido e alguns amigos até comungaram com as idéias. Vendo isto fico com vontade de retomar com toda força.
É preciso entender que, pelas estruturas oficiais, por mais que se lute, apenas um ou dois serão os "escolhidos"... sempre!
Os grandes conglomerados precisam sempre de mitos, ídolos. Os constroem, os engolem e depois os transformam em 'leite de saquinho', sempre iguais uns aos outros.

Rangel Jr · Campina Grande, PB 25/4/2010 18:46
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