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THE AFRO-BRAZILIAN MIND
RonaldAugusto · Porto Alegre (RS) · 19/11/2007 13:04 · 217 votos · 12 comentários ·  
 
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overponto

"This multilingual reader brings together literary and cultural critics from Africa, Europe, and the Americas to validate and re-evaluate the legitimacy of Afro-Brazilian studies and culture as a field of academic inquiry worthy of canonical inclusion. The thirty two multifaceted essays adopt an interdisciplinary approach in order to uncover the intellectual nature of Afro-Brazilian cultural production. Issues addressed include race relations, Afro-Atlantic Diaspora, gender, sexuality, identity formation, cultural diversity, performance, and popular culture.

Contributors are Kim Butler, Henry Drewal, Anani Dzidzienyo, Steven White, Carolyn Richardson Durham, Joel Zito Araújo, Edimilson de Almeida Pereira, Cuti (Luiz Silva), Zilá Bernd, Niyi Afolabi, Cheryl Sterling, Emanuelle Oliveira, Bolaji Campbell, Lesley Feracho, Moema Parente Augel, Ronald Augusto, Dawn Duke, Maria Nazareth Fonseca, Eduardo de Assis Duarte, Márcio Barbosa, Manuel García Castellón, Fábio Durão, and John Rex Gadzekpo."

(excerto do meu ensaio "Transnegressão")

No período em que morei na cidade de Salvador, Bahia, final da década de 1980, fui procurado, certa ocasião, por uma estudante alemã que desembarcara no Brasil disposta a realizar um minucioso estudo sobre a literatura negra brasileira. A jovem estudante demonstrava grande entusiasmo diante de tudo o que se lhe apresentava. Antes de Salvador havia passado por São Paulo e Rio de Janeiro, onde conheceu, respectivamente, o genial Arnaldo Xavier e o glorioso Ele Semog. Posteriormente, estes poetas encaminharam-na a mim e a outros escritores também residentes em Salvador.

Tivemos, se bem me lembro, dois ou três encontros de trabalho envolvendo entrevistas e leituras comentadas de poemas. Numa dessas reuniões, apresentei-lhe sem prévio comentário um poema caligráfico-visual. A jovem alemã, cujo nome prefiro omitir, se pôs a examinar e re-examinar aquelas traços opacos de sentido, e que, de resto, não ofereciam senão mínimos índices de informação verbal. Com um misto de desconfiança e inquietação, parecia procurar na folha de papel a porta de entrada ou, desesperadamente, a primeira fresta por onde escapar. Não demorou muito para que ela, erguendo a cabeça loira, me fizesse a seguinte indagação. Onde está o Negro neste poema?

Com efeito, até hoje não sei ao certo a que negro a loira estudante quis se referir. No entanto, sua indagação me forneceu algum material para reflexão. Assim, cheguei à conclusão de que tal pergunta traz em seu bojo algo como uma expectativa ready-made no que diz respeito às constantes que, supostamente, deveriam servir de marca, de escopo a uma poética negra. Apresento agora ao leitor algumas variantes que talvez traduzam ou, melhor, que talvez façam vir à tona aquilo que restava subjacente ao questionamento da minha entrevistadora: (1) onde está o típico?; (2) onde estão as palavras chibata, tronco, quilombo, liberdade?; (3) o que é feito do Lamento, da Dor, da Magia Negra?; (4) onde está o almost extinct?. Sob o véu esbranquiçado desta(s) pergunta(s), resta uma expectativa consagrada à força da repetição e de uma tradição reducionista.

Felizmente, uma parcela pequena, porém viva, de escritores negros vem nos oferecendo, há algum tempo, outros e necessários escurecimentos. Por meio de suas obras, conseguimos vislumbrar o posicionamento mais radical, ou mesmo plural, da idéia de transnegressão. Atentos ao risco da diluição - os esclarecimentos do controle institucional da interpretação -, que acompanha como sombra os bem-intencionados defensores de uma “verdadeira” literatura negra; estes autores transnegressores e seus poemas vão, aos poucos, tornando cada vez mais complexa qualquer definição pretensamente consistente e acabada a respeito das linhas de força do total desta escritura.

Portanto, a pergunta angustiada da estudante germânica também comparece com um peso considerável nos critérios de gosto e de valoração da maior parte daqueles que têm fundamentado o seu sucesso debruçando-se sobre o caso ímpar dessa literatura, quer seja através da organização de antologias fortemente temáticas, onde os conteúdos inessenciais se sobrepõem à realização poética mais penetrante, quer seja através da publicação de ensaios que investigam estes objetos literários tão só como exemplos de uma afirmação identitária, cuja função básica consistiria em amplificar e dar nobreza documental aos anseios de uma coletividade ou segmento étnico. Em outras palavras, toda essa fortuna crítica aponta para a responsabilidade social do escritor; o compromisso histórico do poeta como porta-voz de questões situadas aquém ou além do âmbito mesmo da invenção verbal. E segundo estes intérpretes, almas quase renomadas, tal literatura, para fazer jus ao apodo negro, precisa dar mostras claras, incontestes da presença do Negro. Ou seja, o texto examinado (“a patient etherised upon a table”, T. S. Eliot) precisa responder afirmativamente e com provas cabais àquela pergunta da estudante estrangeira; deve sustentar o paradigma imaginado, promovê-lo à verdade irretocável, que possa ser reificada ao longo de um discurso-livro de, pelo menos, umas duzentas páginas e que, por um efeito dominó, faça escola e granjeie defensores argutos e/ou indignados.

As provas de que há um negro entremeado ao texto, insuflando-lhe vida, são identificadas pela freqüência com que aparecem, por exemplo, além daquelas palavras já mencionadas acima, as de origem africana que adoçam e singularizam a fala do brasileiro, tais como: moleque, bunda, cachaça, empate, etc. Ou ainda, outra prova, por uma insistente reiteração de um nós negros, ideologicamente correto, indicando uma espécie de irredutível essência negra que cumpriria, principalmente ao criador e complementarmente ao exegeta, preservar a todo custo, como se tal essência fora um santuário repleto de ex-votos curiosos ou uma reserva natural ameaçada. Como conseqüência, temos a literatura feita pelos negros comodamente atada ao tronco da temática transitiva ou circulando livremente pela senzala de um estreito ismo.

O grande dano deste traçado programático, delimitador e, de resto, extremamente eficaz para confinar esta prática poética dentro do universo dos estudos culturais e das literaturas de testemunho, é a exclusão sumária de outros textos/autores que apontam hoje – ou que apontaram no passado – para zonas limiares, imprecisas, abertas à sedução da impermanência dos significados, onde a inteligência em movimento costuma puxar o tapete à mediocridade conformadora; o esforço dos poetas/escritores que focalizam a sua atenção mais no como dizer e menos, bem menos, no que é urgente dizer talvez ao ouvido do pesadelo da História.

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Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No Assoalho Duro (2007). Despacha no blog www.poesia-pau.zip.net




tags: Porto Alegre RS literatura


 
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Ronalde texto pertinente, fui ao teu blig e depois ao da Editora de teu último livvro. Faz um trabalho sério e bem precioso. Quanto a pergunta da menina germanica, muito interesante como nos veêm, como somos pré-concebidos em todas as linhas. Muito bom. Abraços.
Cintia Thome · São Paulo (SP) · 18/11/2007 20:00 
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Ronald, como sempre muito instigante, criador e revelador...
Parabéns!
Abçs.
Benny Franklin · Belém (PA) · 18/11/2007 21:06 
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Muito bom seu texto.
Que menina hein...?
Gostei muito.
Abraços
Paulo Apolonio · Salvador (BA) · 18/11/2007 23:20 
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Caro Ronald,
Seu texto vem muito à propósito. Estou lendo o romance "Equador", do português Milguel Sousa Tavares e, por sinal, adorando, sem conseguir parar de ler. No entanto, o contato com as desventuras dos negros angolanos nas ilhas de Sâo Tomé e Príncipe no início do seculo XX, contadas ficcionalmente por um branco, já tinha me dado tratos à bola. Tentando explicar, apesar de o romance estar me prendendo a atenção, o incômodo que ele me traz é relativo à péssima sensação da inexorabilidade da tragédia que envolve a vida do negro e de seus descendentes. Sei perfeitamente das condições injustas que estão implícitas à vida dos africanos (tenho uma irmã que mora metade do tempo em Botswana) e dos brasileiros afrodescendentes. No entanto, até por influência benjaminiana, me incomoda demais essa coisa da inexorabilidade, principalmente qdo ela é proveniente da literatura que deveria ser um dos lugares de onde o homem se permite escapar da sina. É justamente aí que entra o seu texto. Como o li, e não fiquei certa se o tinha entendido bem, fui para o google. Teclando em "literatura negra", entendo agora que inadvertidamente, dei de cara com uma entrevista com o autor Oswaldo de Camargo que me desorientou mais ainda, não preciso dizer porque pra não encompridar mais ainda este comentário. Dessa entrevista, curiosa que sou, fui parar no seu brilhante texto "Axévier, contralamúria". E dele para o ensaio de Arnaldo Xavier sobre Pelé foi um pulo. Embora ainda tenha que me aprofundar muito mais nessa seara, por enqto estou satisfeita. Acho que entendi seus argumentos e concordo com eles. Também consigo, depois dessas leituras, compreender meu incômodo mencionado acima. Penso que ele diz respeito à ausência da linguagem do negro na literatura ou, como vc mesmo diz, à ausência de "zonas limiares, imprecisas, abertas à sedução da impermanência dos significados, onde a inteligência em movimento costuma puxar o tapete à mediocridade conformadora".
Instigante e esclarecedor seu ponto de vista que eu espero não ter distorcido.
Grande abraço
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 19/11/2007 01:34 
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sempre curto suas intervenções, ize. o olhar em profundidade, não-facilitador. você viu bem. e legal que topou um texto do oswaldo que é o grande divulgador (mas pelo avesso) de uma vertente negra na literatura brasileira. é que na intenção de legitimar logo, na correria, o oswaldo simplifica coisas que pedem mais discussão. o problema é que literatura não pode ser resolvida. é arte. portanto, inconclusa. as passagens da poesia. forte abraço!

RonaldAugusto · Porto Alegre (RS) · 19/11/2007 01:54 
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Ronald,

achei muito bom o teu texto. O tipo de produção e de questão para debate fundamental aqui no overmundo, na minha opinião.

Quando referes a estudante alemã e seus pré-conceitos sobre um certo “ideal” de literatura negra brasileira - a sua expectativa de, indo in loco, topar com cascatas de lugares-comuns que a confortem em seus estudos – me fizeste sorrir um sorriso amargo. Porque faz 3 anos que moro na Europa (Itália), onde constantemente me deparo com esse tipo de expectativa, com perguntas que desejam apenas encontrar uma confirmação, para logo se verem frustradas. Eu e meu marido, para os europeus, somos alemães, ingleses, franceses, australianos (!), menos brasileiros. Sendo brasileiros, frustramos violentamente o imaginário deles, aquilo que eles esperam seja um brasileiro.

Mas isso não se restringe à cor da pele e dos olhos. Uma visão reducionista estende-se para o âmbito da produção acadêmica e literária, como tu salientas em teu texto. Da literatura, nem se fala. Se não se encontram certos elementos, termos e cenários, de que literatura brasileira (ou negra) se trata? (a perplexidade domina). No meio acadêmico, onde atuo aqui, também parece ocorre algo semelhante. Um brasileiro que aborda temas que não dizem respeito ao seu contexto específico, tende a causar estranheza. Como se um brasileiro não pudesse refletir sobre temas gerais, que dizem respeito a todos – como se estes temas fossem reservados para a produção européia e norte-americana (eles, sim, aptos a abordar qualquer assunto).

Bem, desculpe a extensão do comentário.
Parabéns pelo texto. Foi um prazer a leitura.
Um abraço,
Letícia.
Letícia L. Möller · Porto Alegre (RS) · 19/11/2007 07:07 
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Eu tenho gostado muitíssimo do que desafias em teus escritos em prosa, poesia e vida, Ronald.
E não me canso de laudar_te, como diria a Lili, qua ainda não veio aqui.
A propósito do que faremos amanhã, no 20 da consciência nossa, vens a calhar, feito luva no mel, mosca na uva, azeitona no pastel, se me entendes.
És o recheio do sabor, da qualidade que há e que falta, de ar e de criação.
Parabéns por me levar de mãos dadas ao lugar em que sempre estive, do meu sujeito de ser eu mesma, sem negar (ops!) ou carecer de interpretação deu ou de outrem.
Tipo assanhada, sempre me quis e me pensei ser humana.
Veja então, que, penso, sem hesitar, que existo planetária.
(Não nego que as circunstâncias nos dizem pesadelos e que muito é surda essa senhora História, que o tambor precisa ser tão alto como é o teu escrito, mais que meu bobo idílio com as semelhantes pessoas todas)

Beijin.
Se tiver entendido mal, me dá um toque que sou novinha nessas profunditudes, mas quero continuar aprendendo.
Juliaura · Porto Alegre (RS) · 19/11/2007 15:47 
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Grande Ronald,

Embora não deva me furtar a observação de que me causa algum desconforto a complexidade (e não a profundidade) de sua escrita, pouco usual neste assaz coloquial Overmundo, acho que compreendo, perfeitamente as suas inquietações.

Coincidentemente sou amigo, de longuíssima data de, pelo um dos escritores negros que você citou, o Luiz Gomes da Silva (Ele Semog) de quem acompanhei os primeiros passos literários, enquanto iniciava, eu mesmo, os meus claudicantes passinhos de artista- músico-poeta, quiçá transnegressor.

Julgo bastante pertinentes suas colocações, me alivia e conforta bastante saber que existem artistas refletindo tão profunda e corajosamente sobre o que, sem muita profundidade (ou originalidade reconheço), costumo chamar de síndrome do escravo, aquela armadilha existencial terrível que, mais cedo ou mais tarde, aprisiona o intelectual ‘negro’ que submetido às teias maquiavélicas do racismo, faz seu posicionamento ideológico e o seu fazer cultural oscilar entre a prática das mistificações e estereotipias (inclusive lingüísticas), exigidas pelas ‘moças germânicas’ (também conhecidas como ‘Academia’, vale ressaltar) e as idênticas (por serem inevitáveis projeções) mistificações e estereotipias solicitadas pelo’ povo do gueto’, no ambiente restrito e neurótico da ‘comunidade negra oficial’ (na velha síndrome-ilusão do "em terra de cego ser o rei").

‘...Pele negra, Máscaras brancas’..., Teria dito o Fanon (ou teria sido o Zé Kéti?)

Abs,

Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 19/11/2007 18:20 
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spírito santo!! que legal, e como vai o meu amigo semog? o arnaldo xavier foi para o orum. ele agora come egum. muito obrigado por suas palavras. também acho importante não rebaixar o debate até o nível das estereotipias. grande encontro (vamos trocar mais idéias) e grande lembrança do zé kéti. uma vez (milagre dos santos!) conheci pessoalmente o zé kéti aqui em porto alegre. mestre.
forte abraço!
RonaldAugusto · Porto Alegre (RS) · 20/11/2007 00:37 
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letícia, sua intervenção tocou nas questões fundamentais. somos macunaímicos, para o bem e para o mal; para o consumo interno quer das nossas genialidades, quer das nossas perversidades, e para consumo externo: o bizarro de exportação que o primeiro mundo espera encontrar em suas expedições. minhas posições sobre a vertente negra na literatura brasileira (aqui no quintal) causam algum incômodo. sem problema, o debate é que importa. forte abraço!
RonaldAugusto · Porto Alegre (RS) · 20/11/2007 00:45 
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Que o Arnaldo e Zé Kéti, lá do Orum nos iluminem contra as mistificações e as estereotipias.

'Podem me prender, podem me bater, que eu não mudo de opinião, daqui do morro eu não saio não...'

Nos vemos por aí
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 20/11/2007 06:56 
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Salve Ronaldo Augusto Amigo
Trabalho Muito especial.
Humildemente estou aqui rendendo homenagem.

THE AFRO-BRAZILIAN MIND

Voto pelo merecimento e Amor.
Parabéns e abracáo
azuirfilho · Campinas (SP) · 20/11/2007 21:06 
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