Se você um dia subir o Morro do Querosene, no bairro do Butantã, em São Paulo, em uma das três festas anuais de Bumba-Meu-Boi organizadas pela comunidade maranhense que vive lá, vai entender imediatamente porque São Paulo é a única cidade brasileira que pode ser chamada de cosmopolita – no sentido forte do termo. Para grande parte dos paulistanos, o Maranhão pode mesmo ser um outro país. Uma das figuras centrais dessa comunidade é o cantor e compositor Tião Carvalho, nascido em Cururupu (MA), “paulistano” desde 1980. Tião Carvalho é o artista que melhor poderia homenagear João do Vale pelo seu aniversário de 10 anos de morte e também por sua existência como compositor, hoje quase esquecida pelo público médio. Tião reencarna João por linhagem; é o que se ouve no recém-lançado Tião Canta João (Por-do-som/Atração).
Há 25 anos, por influencia de Fagner, Chico Buarque e Fernando Faro, foi produzido o disco João do Vale (1981/CBS, relançado depois na série Columbia Raridades). Nem Tom Jobim, do alto de sua maestria, poderia ter interpretado João do Vale com a mesma propriedade que o faz agora Tião Carvalho. A razão é que se Tom pôde ser capaz de estetizar os versos de Pé do Lageiro (João do Vale, José Cândido e Paulo Bangu) de um modo brilhante: “Ah! eu vou pegar a carabina/ eu vou calçado de botina/ pra cobra não me morder que não é de hoje nem é de ontem/ que o bicho vem no terreiro/ pra mode me envergonhar// Mas hoje em dia/ quem pode ter na certeza/ nem que peça a baronesa/ que hoje eu vou lhe matar/ é no pé do lageiro/ aonde a onça mora//” Tião pode cantar de forma visceral: “Por isso levanta nêgo/ olha o feitor que aí vem/ nós já não somos cativos/ se ele bater na gente/ a gente bate também/ Meu samba é a voz do povo/ se alguém gostou eu posso cantar de novo” (João do Vale). É do sofrer e não da arte musical em si que se trata aqui, para o bem ou para o mal. Tião sabe bem o que é construir uma vida nordestina em São Paulo.
Artista múltiplo de timbre agreste, Tião fez um disco tão definitivo quanto aquele de 1981, que posicionara João do Vale no seu lugar devido, entre Jackson do Pandeiro, Chico Buarque, Tom Jobim, Nara Leão, Gonzaguinha e Alceu Valença. No lançamento realizado no SESC Pompéia semana passada, no ponto alto do show, a canção Carcará (João do Vale e José Cândido) foi executada com a instrumentação de Boi-Bumbá, tal como no disco. Difícil não considerar essa gravação restauradora em relação às interpretações históricas de Maria Bethânia e Chico Buarque. É sua melhor forma, em qualquer tempo, depois de passado o furor político que ela continha originalmente.
Por coincidência, o disco de Tião foi lançado na mesma semana em que o SESC São Paulo lançou a Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade em 6 CDs e um libreto com artigos sobre o projeto. Material extraordinário de coleta realizado em 1938 no Pará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco e Minas Gerais, os dois projetos têm grande proximidade, colocados hoje sob o mesmo foco. Quando Mário de Andrade organizou a expedição de 38, seu temor era que a cultura popular desaparecesse diante das novas mídias que então surgiam, o disco principalmente. Daí a necessidade de preservar aquelas músicas, curiosamente, usando as mesmas mídias de gravação que as ameaçavam, como pensava Mário àquela altura.
Parece quase irônico que tantas décadas depois, em meio a discussões a respeito do fim da canção, da “geração MP3” – que não compra discos porque os acham inúteis –, a obra de João do Vale seja revista com tanta vitalidade justo no centro econômico do país, no mesmo lugar de onde Mário de Andrade imaginava ser possível resguardar a arte do povo dentro de uma estrutura teórica e protegida por forte ímpeto nacionalista. Sabemos hoje que isso é impossível; a música popular do Brasil é fonte inesgotável de civilidade, mas também de liberdade. Ainda hoje, em meio às nossas contradições insolúveis, é do seio do povo que nasce um dos únicos focos de afirmação de nosso país: sua música.
Como afirma Tião no encarte: “Cantar ou contar João do Vale, nos dá oportunidade de entrar em contato com símbolos, arquétipos e mitos da cultura popular brasileira”. É isso que Tião encarna através da obra de João do Vale: uma chance a mais de revigoramento para um país à deriva.
Embora não tenha sido gravada no disco-homenagem feito agora por Tião Carvalho, a canção abaixo é a melhor “autobiografia” feita por João do Vale:
Minha história (João do Vale)
Seu moço, quer saber, eu vou cantar num baião
minha história pra o senhor, seu moço, preste atenção
eu vendia pirulito, arroz doce, mungunzá
enquanto eu ia vender doce, meus colegas iam estudar
a minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar
a minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar
e quando era de noitinha, a meninada ia brincar
vixe, como eu tinha inveja, de ver o Zezinho contar:
- O professor raiou comigo, porque eu não quis estudar
- O professor raiou comigo, porque eu não quis estudar
hoje todo são “doutô”, eu continuo joão ninguém
mas quem nasce pra pataca, nunca pode ser vintém
ver meus amigos “doutô”, basta pra me sentir bem
ver meus amigos “doutô”, basta pra me sentir bem
mas todos eles quando ouvem, um baiãozinho que eu fiz,
ficam tudo satisfeito, batem palmas e pedem bis
e dizem: - João foi meu colega, como eu me sinto feliz
e dizem: - João foi meu colega, como eu me sinto feliz
mas o negócio não é bem eu, é Mané, Pedro e Romão,
que também foram meus colegas , e continuam no sertão
não puderam estudar, e nem sabem fazer baião.
Caramba! Tem Bumba-meu-Boi no meio de São Paulo??
É por isso que eu adoro morar nesta cidade!! :-D
Faz tempo que não apareço nas festas do Morro, mas no meu tempo o Dinho Nascimento aprontava boas por lá. Ele também é da comunidade, algo denunciado por faixas como "Querosene Blues".
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