Tijuca: um império e um projeto cultural

Helena Aragão
Professor e alunos de percussão afiam o ritmo para o carnaval
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Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ
5/2/2007 · 152 · 13
 

Foi no Segundo Encontro de Colaboradores do Overmundo no Rio que fiquei sabendo das atividades da Bienal da União Nacional dos Estudantes (UNE) – metade dos presentes no chope, gente de outras cidades, estava aqui por conta do evento universitário. Uma das programações me chamou atenção: todo dia estava saindo ônibus da Lapa para pontos de cultura (ações desenvolvidas pela comunidade que ganharam o reconhecimento do Estado e hoje recebem ajuda financeira pública). Sempre quis conhecer alguns, mas a enrolação do cotidiano + distância (em certos casos) me impediam de tomar iniciativa de fazer as visitas. Aí resolvi encarar a de quarta-feira. Na programação estava escrito: Ponto de Cultura Synval Silva e Império da Tijuca. Pareceu interessante...

A procura foi grande, a organização deixou um pouco a desejar, o ônibus arrancou (!) o retrovisor de um carro na frente da Fundição Progresso, principal espaço da Bienal, mas no fim deu tudo certo: quando me vi, estava sentada no veículo lotado com um bando de estudantes – chuto que 90% deles eram de outros estados – rumo à Zona Norte. Chegamos lá em pouco tempo. A bela casa, de dois andares, que possivelmente já abrigou famílias abastadas, estava vazia há tempos, por estar localizada justamente na subida de uma das favelas da região – o Morro da Formiga – e numa área basicamente cercada de comunidades, nem todas comandadas pelas mesmas facções. Desde 2005, o Ponto de Cultura Synval Silva, uma iniciativa do Instituto Trabalho e Cidadania, funciona lá com oficinas de instrumentos musicais, graffiti e informática. Ano passado cerca de 600 alunos passaram por lá. Os visitantes se dividiram: alguns foram fazer aula de percussão com Kleber, diretor de bateria do Salgueiro que dá aula no projeto; outros foram aprender a manejar os sprays com Julio, grafiteiro morador da área; e um terceiro grupo foi ouvir Alípio Carmo, outro diretor da casa, contar a história daquilo ali. Foi nesse grupo que me meti.

A conversa começou com cara de palestra. Alípio explicou a homenagem a Synval Silva, morador da área que foi motorista de Carmen Miranda e acabou se tornando um dos compositores mais assíduos no repertório da Pequena Notável. Depois, contou que, além das oficinas, cursos, bateria-mirim e atividades no estúdio digital, o PCSS também prepara uma pesquisa sobre a produção musical das favelas da Grande Tijuca. Imagina que riqueza de detalhes essa pesquisa não vai ter... A Tijuca é daqueles bairros cheios de preciosidades semi-escondidas. Tem um monte de escola de samba, espalhadas por todos os grupos do carnaval. Eles já recolheram mais de mil sambas de compositores do bairro. Tem baile funk a rodo, tem um monte de banda de rock – vocação que existia desde os tempos pré-Jovem Guarda, quando Tim Maia, Erasmo e Roberto Carlos moravam por ali... Realizado no começo por pesquisadores propriamente ditos, o trabalho agora vai contar também com a participação de dez garotos e garotas da Formiga e adjacências (modelo bem-sucedido iniciado por Samuel Araújo, da UFRJ, no bairro da Maré, e que agora começa a se espalhar por aí). Essa não é a única iniciativa de memória: para o segundo semestre, eles pretendem fazer um museu virtual do Morro da Formiga, nos moldes do Museu da Pessoa.

Funk como projeto social

Falando da diversidade musical da área, Alípio soltou a frase que fez meninos e meninas começarem a interagir: “Não consigo entender como não existe ainda nenhum projeto social voltado para o funk. Essa é a principal expressão do pessoal hoje em dia”. Causou um certo burburinho que o fez perguntar se tinha alguém do Rio entre o pessoal. Só tinha eu. Para praticamente todo aquele grupo, esta era a primeira vez na cidade. Aí eles começaram a falar. Um rapaz do Sul opinou que o funk não trazia nenhuma tradição, eram músicas descartáveis, de letras pobres, preconceituosas.

Mesmo sendo sambista de coração, Alípio ponderou que havia muitos funks com letras de protesto e que, preconceito por preconceito, o samba também tinha sua culpa no cartório. Lembramos de “Ai que saudade da Amélia”, de Mario Lago e Ataulfo Alves, e de “Mulher de Malandro”, de Heitor dos Prazeres, só para ficar em dois exemplos um tanto desrespeitosos às mulheres. Outros também falaram que, talvez pela distância de suas cidades, por lá só chegavam as letras de funk de pior calão. E exclamavam que a coisa mais impressionante que acharam foi a mistura de paisagens no Rio, de favelas ao lado de mansões, de prédios chiques cercados de morros por todos os lados... “Isso ajuda a entender um pouco o caldeirão que isso forma. Porque na minha cidade a pobreza não é vista pela classe média, ela fica escondida na periferia”, explicou outro menino com forte sotaque sulista.

Se houvesse um projeto social voltado para o funk, como sonhou Alípio, ele poderia ter sido uma escala no nosso passeio. Possivelmente ajudaria a embolar ainda mais questões nas cabeças de quem participou daquela interessante conversa. Mas como não há, estamos em vésperas de carnaval e o PCSS tem tudo a ver com o mundo do ziriguidum, partimos em seguida para a quadra da Império da Tijuca, ali perto.

Dez, nota dez

Entrar no universo dos preparativos de escola de samba é sempre um barato. Aquela adrenalina de ver o povo acabando os detalhes de última hora, os carros alegóricos desmontados, o samba-enredo rolando sem parar... No caso das escolas dos grupos de acesso, dá até para lançar um olhar de romantismo: aquelas pessoas lá trabalhando pacas, fazendo fantasias simples, com o que dá, material mais barato, sucata, o que pintar. Depois de muitos anos no grupo B, a Império da Tijuca foi campeã de 2006 e conseguiu entrar no grupo A (o que vem imediatamente antes do Grupo Especial, o poderoso). Essa não foi a única alegria do ano passado para a escola que se gaba de ser a primeira a usar o nome Império (“Antes mesmo da Império Serrano”, repetem eles). Há alguns meses, eles retomaram a antiga quadra, também na Conde de Bonfim.

E lá estávamos nós, seres estranhos de sotaques variados, metidos entre plumas, chapéus e um São Jorge estilizado na entrada do espaço. O enredo, bem sacado, é uma espécie de “São Jorge antes da fama”, ou seja, antes de virar santo (“O Morro da Formiga em procissão/Faz a sua homenagem ao santo de devoção”). As batalhas, o dragão, o sincretismo (é Oxum no candomblé), a fé. A primeira dama da escola ia contando que várias personalidades iam desfilar – Jorge Fernando, Jorge Vercilo... - e que a escola conseguiu atrair um monte de devoto do guerreiro graças ao tema. Eh, festa profana! :)

Enquanto meninas de outros estados se divertiam tirando fotos com pedaços de fantasias, encostei ao lado de Tales, uma criança que estava grafitando a parede do PCSS e depois nos acompanhou até a escola de samba. Achei que o approach ia ser complicado, mas nada, ele já foi se apresentando: “Eu tenho oito anos. Faço aula de graffiti, informática e percussão”. Para fechar o círculo, Tales é neto da baiana mais antiga da Império da Tijuca e já é integrante da bateria-mirim do ponto de cultura. Circulava discreto e à vontade no meio daqueles esplendores, plumas e paetês, como um pontinho de cultura que bem simbolizava a importância de um pequeno projeto para a tradição popular de um bairro.

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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

num único passeio conhecer tantos projetos, inciativas espetaculares de comunidades articuladas, ações que se gestam pela força de uma cultura popular organizada, foi o suficiente para perceber que a coisa, a Coisa, com "c" maiúsculo, parece ter jeito.

curiosa também essa visão de que o funk não tem tradição... tenho vinte e seis anos. quando garoto, escutei muito funk e, antes de mim, outros amigos, um bocado mais velhos. acho que existe um rastro de cultura nisso tudo, que apresenta, claro, aspectos bons e ruins.

abraços.

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 2/2/2007 20:30
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Egeu Laus
 

Helena, fala mais sobre isso tudo!
Acho que os "Pontos" vão merecer "matérias" especiais!
abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 2/2/2007 23:00
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Daniel Duende
 

Grande matéria, Donelena...
(e eu continuo devendo as minhas, não nego, saem já já...) :D

Quanto aos Pontos, concordo com o Egeu. Acho inclusive que bastante gente que já está trabalhando com os pontos poderia fazer também isso. Cadê o pessoal do EstúdioLivre/Conversê? Cadê o pessoal dos Pontos aqui pelo Overmundo? Chama a galera para falar do trampo deles aê! É só eles chegarem chegando...

Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 3/2/2007 02:43
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Daniel Duende
 

Ahhh... e sobre esse papo do Funk não ter tradição. Eu tô com o Henrique. Tenho 29 anos e, quando passava férias em Rio das Ostras lá pelos meus 12, 13 anos, o que animava as festinhas da minha galera era muito DJ Marlboro e Furacão 2000. A coisa faz parte da história de uma geração, poxa! E não é nem uma galera que cresceu nas comunidades. É galerinha ZonaSul mesmo...
Como é que o Funk que não tem tradição!?

Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 3/2/2007 02:46
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Spírito Santo
 

Bacana, Helena. Conheço bem o Alípio, a história e a trajetória do PC Sinval Silva. Muito legal também o seu relato todo. Deu bem pra perceber a emoção que o pessoal 'estrangeiro' deve ter sentido no passeio todo.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 4/2/2007 20:02
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Helena Aragão
 

Valeu, gente! Pois é, concordo plenamente que os Pontos de Cultura deviam ser mais citados/comentados no Overmundo. Mas acho que, como falou o Duende, seria muito mais bacana ler os próprios envolvidos falando do trabalho. Escrevi esse texto muito mais como uma visitante, praticamente tão "estrangeira" quanto os outros, do que como jornalista... Não quis negar o tom de descoberta das coisas - e isso é quase uma auto-crítica, afinal são coisas da minha cidade, que eu poderia muito bem conhecer mais de perto. Mas seria maravilhoso ter a visão deles sobre a rotina, as dificuldades, os dilemas, de quem toca um ponto de cultura assim. Um texto não invalida o outro, só soma! Sobre o funk: legal a opinião de vocês, concordo plenamente. Talvez falte justamente quem organize essa "memória" do funk. Isso já seria um projeto...

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 4/2/2007 20:55
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Gustavo Gama
 

A grande mudança começa por aí: a opção. Só assim as filas para "futuros donos de bocas de fumo" poderá diminuir. O menino citado na matéria é reflexo disso, está 100% envolvido com a cultura da sua comunidade, e mesmo tendo q enfrentar as armadilhas de uma nação q não dá oportunidade, pode usar a cultura como fonte de sobrevivência. E com certeza a atitude dele vai provocar algum questionamento nos meninos da mesma idade q sonham carregar um fuzil, ser o dono da boca... "O q esse bagulho de cultura tem?"
Quanto ao funk, o q vemos hoje é o lado ruim, q todo ritmo, estilo musical ou cultura possui, mas q não corresponde ao todo. E hoje ele é realidade, é a cara da comunidade, mas só precisa mudar o discurso, imaginem um funk falando do uso da camisinha ou então falando da importância do voto... Assim como o hip hop, é um canal perfeito pra q o sejam ditas as coisas q precisamos ouvir.

Gustavo Gama · São Paulo, SP 5/2/2007 14:44
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Egeu Laus
 

LG e amigos,
Deem uma olhada sobre o "Materia Prima" aqui.

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 5/2/2007 14:50
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Daniel Duende
 

Só para problematizar:

Até que ponto as bocas de fumo não fazem parte da própria cultura na qual está inserido hoje o funk? Pode-se (ou não pode-se, mas isso é outra conversa) fazer julgamentos morais a torto e a direito, mas não se pode julgar os elementos básicos de uma cultura e alijá-los se você os acha ruins. Há de se compreender a cultura numa totalidade, sem críticas de valor, para que se possa contemplar do que se trata. É por isso que acho fundamental que a memória e o "olhar" sobre o funk seja organizado por quem é de dentro, que sabe o valor e lugar de cada coisa, e possa falar sem os moralismos e os valores de quem olha de fora.

São meus dois cents incandescentes. :D


Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 5/2/2007 16:04
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Fábio Fernandes
 

Pessoal, sobre a memória do funk acho que o Hermano já escreveu textos interessantes a respeito... De resto, lembro-me de bailes funk freqüentados com meu primo na Baixada Fluminense no final dos anos 1970. Não era o funk de hoje, claro: era tudo made in USA, via Motown, James Brown e outros. Tutti buona gente, claro - mas serve como ponto de partida para uma reflexão do estudo da recepção do funk no Brasil.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 8/2/2007 07:26
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Fábio Fernandes
 

Aliás, já vou logo fazendo uma autocorreção: nesses bailes a gente também dançava ao som dos brasileiríssimos Lady Zu e Gérson King Combo, ilustres precursores!!!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 8/2/2007 07:27
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Spírito Santo
 

Pois é isso aí, Fábio. Digo porque também vivi esta época. Velhos bons tempos. Pros mais garotos que a gente é até bom fazer um paralelo: Esta onda de música pop afro-americana (sim porque não era só o Funk, havia também o Soul, o Break, etc.) é uma onda muito recorrente. Pelo que se pode lembrar já havia isto quando o Rag time influenciou caras como Pixinguinha e Donga. Um salto paradigmático porque o que havia antes eram ondas européias, do tipo Polka e Shotisches). No tempo dos nosso avós e/ou tios, só para lembrar, houve o 'Swing', certo? Uma coisa que, pelo que acredito, deu na Gafieira.Tem sido sempre assim: Um gênero desses chega avassalador, trazido por uma mídia poderosa na ocasião e toma conta de tudo, até se fundir ás nossas coisas mais tradicionais e se transformar numa terceira coisa 'genuinamente' brasileira.
Defendo a tese de que foi uma mistura dessas que redundou no samba (não na Bossa Nova mas no Samba mesmo, o real).
Cadê o Hermano que não volta com a gente a esta fita? Aliás este tema, alguém já colocou, daria um fórum da melhor qualidade, você não acha, Fábio?

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 8/2/2007 11:31
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Felipe Barros
 

Helena,
Aproveito o espaço para agradecer a visita e convidar os participantes do overmundo para conhecer o Ponto de Cultura Synval Silva.
Todos nós (Eu, Alípio, Kleber, Guilherme, Tales) ficamos bem felizes com o texto.
Forte Abraço

Felipe Barros · Rio de Janeiro, RJ 28/2/2007 11:21
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