."Tô pronto pra outra!".

.joao xavi.
.Eco observa seu grafitti acompanhado de dois transeuntes.
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joao xavi · São João de Meriti, RJ
21/9/2007 · 166 · 6
 

O dia começou bem cedo, o relógio marcava 07:40h da matina quando cheguei na Cinelândia, ponto de encontro dos grafiteiros que participariam da pintura. Encontrei gente dormindo nos bancos da praça. Era uma galera que encarou a aventura de seguir pra Volta Redonda virado, vindo diretamente de uma noitada no boêmio bairro da Lapa. Muita disposição! Mas como todos ainda não haviam chegado deu tempo de caçar uma padaria e engolir aquele pão na chapa quentinho. Pouco a pouco o povo foi chegando, alguns já conhecidos de trabalhos em comum, outros conhecidos das festas de rap, a maioria ainda estava por conhecer.

As 08:30h o time estava completo, os atrasados que vinham dos bairros mais distantes finalmente chegaram e o ônibus foi invadido numa empolgação que contrastava com uma manhã de sábado. Me senti num daqueles passeios escolares onde todo mundo corre pra sentar no banco dos fundos e comandar a bagunça. Amog, grafiteiro responsável pela curadoria do evento, fez a chamada. Conferiu, todo mundo presente, lá vamos nós! Partimos em uma viagem de aproximadamente duas horas rumo à cidade do aço, apelido dado graças a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), gigante estatal fundada por Getúlio Vargas. A idéia que se tem é que a cidade cresceu ao entorno da siderúrgica. Eu já volto a falar de Volta Redonda, objetivo final da viagem, mas até chegar lá tínhamos um grande caminho pela frente.

Atravessamos a Linha Vermelha, via expressa cercada por favelas, Gais (grafiteiro da Nação) ia apresentando cada uma delas, dizendo não só o nome, mas contando também algumas especificidades de cada lugar. No final da “apresentação” emendou dizendo que: “essas comunidades precisam de cor na vida delas, precisam de grafitti e muito!”. A voz, devidamente equalizada pela noite não dormida, soou de forma profética, numa sintonia perfeita com a missão daquele dia. A pintura faria parte da programação do Encontro de Valorização da Vida, evento organizado pelo Centro de Valorização da Vida, aquele famoso serviço de telefone que, através do número 141, presta apoio emocional no sentido da prevenção de suicídios. O pessoal do CVV escolheu o grafitti como linguagem para interagir com o público, a partir daí buscaram uma parceria com a Coordenadoria da Juventude do município e viabilizaram a ação. No dia anterior a pintura, aconteceu uma oficina de grafitti com o tema “Valorizando a vida pela arte”. A pintura do muro, com a presença de alguns dos grandes nomes do grafitti carioca, seria a seqüência deste trabalho.

A viagem seguia animada pelo freestyle de Acme que, junto com OCrespo, forma o grupo Rimas e tintas. Projeto que une rimas improvisadas com grafitti e prova de que o hip hop realmente funciona como uma grande cultura composta por elementos que se relacionam entre si. Distraído pelas rimas mal percebi que já estávamos chegando, o relógio marcava 10:30h quando estacionamos exatamente ao lado do alvo do dia, o muro do Instituto de Educação Professor Manuel Marinho, localizado na Vila Santa Cecília, um bairro central de Volta Redonda. O sono que já batia em alguns dos viajantes rapidamente foi deixado de lado. Todo mundo pulou do ônibus, partindo ao encontro do muro já na busca do melhor pedaço para realizar as pinturas. Ninguém quer ter o grafitti atrás de uma árvore ou qualquer outro obstáculo que dificulte a visibilidade do trabalho.

Muro dividido, tinta na mão, era hora de iniciar os trabalhos. O começo da pintura é um momento interessante, pois cada grafiteiro trabalha de uma maneira diferente. Alguns trazem um esboço do grafitti feito no papel e vão aos poucos transpondo aquela idéia pro muro. Outros chegam atacando o muro com um dinamismo e uma rapidez que parecem estar psicografando a pintura. Acompanhar o processo de realização de um grafitti também é algo bem bacana. Poder ver cada fase da pintura, o esboço, os primeiros traços, até o preenchimento e os acabamentos e perceber os caminhos percorridos pelo artista até alcançar aquele resultado final.

A pintura corria tranqüila, muita gente que passava pelo local parava pra ver. É curioso como o grafitti chama atenção das pessoas que, rapidamente, referenciam e criam um antagonismo entre grafitti e pixação. Como se um alcançasse o status de obra de arte e o outros fosse apenas um ato de transgressão e vandalismo. Obviamente são processos diferentes, que alcançam resultados diferentes, mas, queira ou não encarar isso, ambos tem as mesmas raízes. Distante destas questões filosóficas, as crianças são as mais atraídas pela comunicação proposta pelo grafitti.

O relógio já passava das 14:00h, o termômetro indicava 35°, o sol castigava a moleira dos grafiteiros que iam terminando o trabalho. A maioria nem parou pra almoçar, era um gole na garrafa d´agua, alguns na cerveja, e bola pra frente! Quando a maioria das pinturas já estava concluída, descobriram que havia um outro muro “liberado”. Essa foi a primeira boa notícia, a segunda era que o muro era gigantesco, a terceira é que estava na sombra. Lembra do Gais, que tinha virado a noite e tudo mais, falei dele lá no início do texto, a esta altura estava tirando um belo cochilo a sombra de uma árvore. Quando soube do muro novo, deu um pulo e avisou: “To pronto pra outra, eu sou da rua!”. Eu mesmo, apesar de ter tido uma noite bem dormida, já estava mais pra lá do que pra cá, encarar aquele solzão não era moleza. Partimos todos pro paredão que foi devidamente atacado sem dó por violentos golpes de tinta. O espaço deu um novo ânimo para essa rapaziada que, tendo muro e tinta, não deixa faltar inspiração.

Para mim foi incrível conhecer o rosto dos caras que já observo atuando nas ruas a anos. Como disse, estava presente um time com os melhores grafiteiros do estado. Só pra citar alguns, posso falar do Criz, do Ment, do Stille, da Anarkia, do Nitcho, do Bives, além dos locais, Tommy e Mano Tim. Artistas que conseguem criar um estilo próprio e diferenciado que, com um pouquinho de esperteza ao olhar os muros do Rio de Janeiro, você também pode reconhecer. Haviam pessoas ali que são a mais de dez anos envolvidas com grafitti, é o caso de Marcelo Eco e do Acme, que no meio de uma conversa desabafou: “Num dia como esse o que vale é a vivência, a experiência e a troca de idéia que você vai ter. Pra mim isso é o mais importante”.

A tarde ia caindo, o calor baixando, e a pintura continuava. O ônibus estava marcado para voltar ao Rio às 17h, mas ainda havia muito trabalho a ser feito. Um prazo final de 17:30h foi dado, alguns conseguiram cumprir a meta, mas nem todos. O perfeccionismo dos que precisam de um tempo maior para concluir sua pintura cria em todos uma certa compreensão que aos poucos vai vencendo o esgotamento físico. Afinal, apesar de ser um tipo de arte efêmera, o grafitti vai permanecer naquele muro até segunda ordem, portanto deve estar de acordo com as expectativas de seu autor.

A maratona se estendeu até mais um pouco, a hora já não importava mais. O trabalho acabou no momento que estava concluído. Fiquei encantado em perceber que todos aqueles caras, e uma menina, estavam ali pelo puro prazer de pintar. Alguns são profissionais da área que, de diferentes formas, ganham a vida através do grafitti. Mas naquele momento não havia dinheiro envolvido. A impressão que se tem é que se você botar uma lata, um muro e uma boa causa esses loucos chegam em qualquer lugar e só vão parar de pintar quando acabar a tinta ou o espaço, porque a disposição, essa parece que não acaba. Cheguei em casa por volta das 21:00h, e a lição que tirei deste dia, e que se encaixa perfeitamente na proposta do CVV, é que você pode ter momentos em que precisa deitar a sombra da árvore, desde que exista desejo na vida a ponto que você possa levantar num pulo e gritar “tô pronto pra outra!”.

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Cicero de Bethân
 

João, mais um exemplo de ação e reação! Ótima edição e texto muito bom. Volto para votar!
Abraço!

Cicero de Bethân · Vitória, ES 18/9/2007 09:15
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Higor Assis
 

Uau!

Alguém falando de verdade o que é o grafite, parabéns João. Nem li, mas pelas fotos sei do que fala, volto pra ler e votar.

Higor Assis · São Paulo, SP 18/9/2007 11:51
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FILIPE MAMEDE
 

Que relato hein João! Morei em São Paulo um tempão e sempre tive contato com o grafitte... Aqui em Natal, as intervenções urbanas como o grafitte estão chegando, devagas, mas estão chegando...Além da galera fazer o que pode aqui pelas ruas e paredões da cidade, no mês de março o projeto Whole Train 2007 Nordeste Tour trouxe para cá OS GÊMEOS. O objetivo do projeto era levar arte aos usuários de trens urbanos, proporcionando a valorização da cultura do Rio Grande do Norte (os temas usados pelos artistas foram o folclore e a cultura local), além de destacar a importância do Grafite como uma arte contemporânea importante e que merece respeito.

Em tempo: Excelente colaboração.
Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 19/9/2007 09:31
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Higor Assis
 

Filipe.

Conheço os irmãos, na revista deles tem grafite meu.

Higor Assis · São Paulo, SP 20/9/2007 08:47
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Rodrigo S.Levino
 

Muito Bom Votado !!

Rodrigo S.Levino · Rio de Janeiro, RJ 21/9/2007 14:11
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joao xavi
 

Filipe, esse grafitti foi feito bem perto da CSN, que é cortada por uma estrada-de-ferro. Vou te falar que quando o trem passou eu escutei um grafiteiro falando: "deixa esse trem parar pra ele ver só!".

joao xavi · São João de Meriti, RJ 21/9/2007 14:22
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.freestyle e animação ainda no ônibus. zoom
.freestyle e animação ainda no ônibus.
.início do trabalho - Ment. zoom
.início do trabalho - Ment.
.trabalho em processo - Anarkia. zoom
.trabalho em processo - Anarkia.
.Painel - Ment, Stille, Anarkia. zoom
.Painel - Ment, Stille, Anarkia.
.grafitti ACME. zoom
.grafitti ACME.
.Eco e seu grafitti. zoom
.Eco e seu grafitti.

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