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“Tocaia Grande”

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Guilherme Scalzilli · Campinas, SP
16/1/2010 · 0 · 0
 

Num ano dominado por leituras técnicas e alguma poesia, reencontrei a ficção despretensiosamente. Prestes a fugir para um retiro baiano, chegou-me por acaso um exemplar desse extenso romance (cerca de 550 páginas). Mais do que a oportunidade da leitura “de evasão”, seduziu-me a absurda coincidência de estar com viagem marcada exatamente para a região onde se passa a narrativa de Jorge Amado.
Confesso que jamais havia lido qualquer coisa do ilustre imortal, um pouco por rejeição à sua popularidade, que conheceu períodos de saturação através das incontáveis adaptações audiovisuais. Mas o fato do livro ter virado telenovela não me assustou, porque a ignorei solenemente na época.
Apostei no fato de se tratar de uma obra da maturidade, entre as derradeiras do escritor, e não me arrependi. É uma lição de exuberância narrativa. Amado atingiu uma fluência rara até mesmo nos clássicos universais mais festejados, aliando o vocabulário simples e objetivo a regionalismos enriquecedores que, em mãos menos hábeis, poderiam descambar para a cruel vulgaridade.
E então se opera esse milagre de que apenas os grandes criadores são capazes: o popular sublima-se em universal. Os personagens adquirem nobreza quase mitológica, com um sentido de dignidade desprovido de pedantismo didático ou melodrama. O mesmo ocorre com o humilde lugarejo do título, que sintetiza microcosmicamente a grandeza e a tragédia de um povo inteiro.

O primeiro parágrafo

"Antes de existir qualquer casa, cavou-se o cemitério ao sopé da colina, na margem esquerda do rio. As primeiras pedras serviram para marcar as covas rasas nas quais foram enterrados os cadáveres no fim da manhã, hora do meio-dia, quando finalmente o coronel Elias Daltro apareceu cavalgando à frente de alguns poucos capangas - quatro gatos pingados, os que haviam permanecido na fazenda - e se deu conta da extensão do desastre. Não ficara um cabra sequer para contar a história."

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