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Tocantins à francesa

João de Pietro
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Glês Nascimento · Palmas, TO
16/5/2006 · 104 · 3
 

A exposição das obras de Camille Claudel e August Rodin em Palmas, encerrada no último domingo, 14, colocou a capital do mais novo estado brasileiro no circuito dos mestres da escultura moderna. Saindo do eixo Rio–São Paulo, a realização da mostra tornou-se um evento singular para os tocantinenses que mantiveram contato com peças tão marcantes do universo artístico-escultural moderno. A exposição, que agora segue para Belém (PA), e depois para mais cinco estados, deixou saudades e grandes lembranças para mais de 25 mil tocantinenses que viram as obras, a exemplo de Thiago Silva, 13 anos, que nasceu em Palmas e nunca tinha ouvido falar em Camille Claudel nem em Rodin. “Não sabia quem eles eram, mas agora com o joguinho (o programa instalado no computador sobre a vida e as obras dos artistas), estou aprendendo mais”, disse o menino que mora no Jardim Aureny III – na periferia de Palmas.

A mostra ficou por aqui por 40 dias e, invertendo o ditado de Maomé e a montanha, os alunos da rede pública de ensino foram até o hall do Palácio Araguaia e viram as 16 peças de Camille, três obras de seu mestre/amante Rodin – incluindo uma réplica de “O Pensador” -, além de um busto da artista esculpido por Alfred Boucher. Além de entrar no universo rico e entorpecedor de Camille e Rodin, os visitantes assistiram ao filme “Camille Claudel - a sombra de Rodin”, que conta a vida e o romance de Camille com Rodin, e projetou a escultora fora da Europa no final dos anos 80.

As sensações da arte também foram experimentadas por cinco jovens com deficiência visual, que visitaram a exposição. Com as mãos, eles descobriram cada detalhe das esculturas. Para Lucas de Araújo, 7 anos, foi diferente estar ali. “Nunca tinha visitado nenhuma exposição e estou adorando”, disse.

No badalado dia do lançamento, em março, com ar superior, muitos jornalistas questionavam: por que a mostra da artista francesa começou por esse estado? Alguns pensaram e chegaram a escrever, como O Globo, que o Tocantins não tem nenhum vínculo com as artes e, principalmente, com a Europa. De fato a história é recente, são apenas 18 anos de criação do Estado, mas apesar disso, ele tem fortes laços com a França – desde a língua que no século 20 era a segunda mais falada por aqui até à música, como eu conto abaixo.

Pode parecer mentira, mas o francês, uma das mais importantes línguas românicas com um número de falantes apenas inferior ao do Espanhol e do Português, já foi a segunda língua mais falada no Tocantins. Isso no início do século 20, quando esta região era isolada - uma parte esquecida do Norte goiano. Tudo porque Porto Nacional, cidade história tocantinense com 145 anos, recebeu uma caravana de padres e freiras franceses, que vieram para a região a fim de educar as crianças. Aqui, os dominicanos fundaram dois colégios: um em Porto Nacional outro em Pedro Afonso, onde o francês fazia parte do currículo escolar, assim como o português e o latim.

Também foi nessa época que um piano atravessou o oceano atlântico, vindo da França, passou pelo rio São Francisco e, num lombo de um burro, veio parar em Porto Nacional. Quem conta essa história é a irmã Maria Amaral Mesquita que, durante anos, lecionou no Colégio Sagrado Coração de Jesus, fundado em 1904 pelas freiras dominicanas. “Naquela época dava-se muito valor à formação musical. As irmãs achavam importante as moças aprenderem a tocar piano e como não havia piano por aqui, mandaram trazer da França”, lembra.

Essa história rendeu. Segundo o professor Rui Rodrigues – ex-secretário de Estado por duas vezes e militante político no Tocantins nos anos 60 e, por isso, exilado por 20 anos na França – as curiosidades do Tocantins nesta época se tornaram rico material de teses de doutorado e mestrado nas universidades tocantinenes e goianas. “Eu mesmo oriento alguns pesquisadores”, afirmou ele, que hoje mora em Goiânia.

Rodrigues também foi figura importante para o fortalecimento da relação Tocantins/França. Trouxe para o Estado seminários sobre o país europeu e tentou implantar em Porto Nacional uma escola de língua francesa. “O Tocantins tem uma ligação importante com a França, principalmente as cidades de Porto Nacional e Pedro Afonso que foram catequizadas pelas irmãs dominicanas”, explica o professor.

Assim como a exposição de Camille deixou suas marcas nas retinas tocantinenses o áureo tempo do francês no Norte também não se esquece. Que o diga dona Ivanilde Aires Cristal, que estudou desde o primário no colégio das irmãs. “Era bom demais, tenho saudade deste tempo e não nego. Aprendemos muitas coisas com os franceses”, relembra. O francês deixou de ser ensinado no Tocantins, colégio das irmãs, em 1980.

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Glês Nascimento

Só para frisar que houve colaboração de Rose Vidal da Secom do Tocantins neste texto.

Abs.

Glês Nascimento · Palmas, TO 15/5/2006 18:42
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Adriel Diniz

Quanto mais a gente conhece esse Brasil que não se conta em todo lugar, mais apaixonante fica a busca pela nossa cultura no Overmundo. Parabéns Glês.

Adriel Diniz · Porto Velho, RO 16/5/2006 22:02
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Ana Murta

Glês,
Que delícia de texto! E adoooorei saber que um adolescente na periferia de Palmas joga em seu computador um game sobre Rodin e Claudel.

Ana Murta · Vitória, ES 4/7/2006 11:37
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