TODA LEITURA VALE PELA DESCOBERTA

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Gilberto G. Pereira · São Paulo, SP
8/3/2007 · 78 · 6
 

É possível escrever sobre pulhas e nobres, sobre nações e indivíduos. É possível sondar a alma e também expor as mazelas da vida cometidas por homens contra homens. E é possível de igual modo divagar sem nada dizer, e ainda assim comover os outros, extrair lágrimas de quem já chora tanto – vítimas da mesquinhez nossa de cada dia –, gozo dos que já gozam, prazer dos que comprazem, compreensão dos que sabem compreender. É possível escrever sem enxergar, dizer sem falar, retratar sem máquina fotográfica, sem pincel, mas com palavras, escarafunchando oceanos e desertos, as profundezas do ser e os pântanos que entrelaçam imaginação e realidade.

Nessas aventuras, no entanto, só entram alguns tipos de caracteres imaginativos. Alguns gênios e outros geniosos. Mas cada um a seu modo destrinchando o fio da linguagem a tal ponto que chega a tocar o leitor. E aí entra um novo mundo. Se é possível escrever tantos universos paralelos, também é possível ler e imaginar, recriando espaços e perfazendo caminhos nunca dantes imaginados, até mesmo por quem supunha ter encontrado o trilho da felicidade na leitura.

O leitor também tem sua vez. É possível ler o mundo como quem lê um livro. E o contrário pode acontecer de igual feita: é possível ler um livro como quem observa a realidade ao seu redor. Não diria assim o explorado atento, ao ler Vidas Secas? Não diria assim o sertanejo, ao ler Grande Sertão: Veredas?; e, ao ler, também não teria algo para dizer o humanista ao conhecer o mesmo Sertão de Rosa?

O fagulho depende do leitor para espalhar o fogo. Quem escreve acende o fósforo, mas quem lê oferece oxigênio ao vento que carrega a faísca, oferece mais, oferece material de combustão, oferece mais, oferece a eterna hospedagem. Não seria por isso que o leitor atento, ao ler Dostoiévski, vê na frase “todo homem necessita de um lugar para voltar” uma remissão ígnea ao velho Homero, que fez de sua obra um entendimento dessa premissa? Ilíada não fora escrito na juventude do poeta? Odisséia não fora na sua velhice? Uma era a marcha do herói à guerra. A outra, a volta para casa, depois de fatigadas lutas. “Todo homem necessita de um lugar para voltar”. Sábias palavras.

A literatura é como uma volta para casa, porque o leitor pode revolver o espírito e apontar para lugares e caminhos que nenhum outro tipo de escrita é capaz de fazê-lo, e depois retomar a cotidianidade. A literatura é ao mesmo tempo Ilíada e Odisséia. É possível escrever sobre tudo. Mas como se faz, como se faz? Nem todos conseguem, como não consegue ultrapassar a superfície das letras este que escreve agora. É possível ler rumo a diferentes paragens. Mas nem todos são capazes de compreender os mistérios e os fascínios da literatura a ponto de mergulhar nesse pântano de encontros. Mais vale a descoberta. E nisso, a literatura não tem igual.

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Saramar
 

Gostei tanto deste seu texto!
Você aborda a relação escritor-leitor de uma forma muito clara e interessante, principalmente nesta ligação com Homero.
Parabéns! É realmente ótimo de ler.

Saramar · Goiânia, GO 5/3/2007 19:47
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Ilhandarilha
 

Disse tudo: É possível ler o mundo como quem lê um livro. E o contrário pode acontecer de igual feita: é possível ler um livro como quem observa a realidade ao seu redor.

Ilhandarilha · Vitória, ES 7/3/2007 18:55
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eric renan ramalho
 

A descoberta da escrita revolucionou meu modo de pensar, passei a pensar o ato de escrever como um principio da arte e assim pude criar um mundo meu onde eu sou deus e o diabo ....

eric renan ramalho · Belo Horizonte, MG 7/3/2007 19:35
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Daniel Duende
 

Um excelente texto... ato de arte em si, sobre a arte de tecer histórias e visões com palavras! Gostei mesmo muito, e voto com gosto nesta postagem.

Está mesmo tudo posto -- do tudo que cabe em palavras, veja bem -- sobre aqueles que fazem da busca de palavras nas quais caibam as coisas sua profissão de fé. Escrever é tantas coisas, que é por vezes exaustivo dizê-lo, mas é sempre válido tentar. Ainda mais válido quando é tão bem dito, tão bem tecido, o texto que fala sobre os fazedores de tecidos de palavras....

Abraços do Verde.

Parabéns colega Gilberto.

Daniel Duende · Brasília, DF 9/3/2007 23:00
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Gilberto G. Pereira
 

Muito obrigado pelo incentivo, Duende!

Gilberto G. Pereira · São Paulo, SP 12/3/2007 10:28
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Daniel Duende
 

O incentivo é merecido, amigo Gilberto.

Fico feliz de tê-lo como colega aqui no Overmundo.


Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 12/3/2007 10:33
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