"Todo brasileiro é pornochanchadeiro"

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Marcelo V. · São Paulo, SP
28/3/2007 · 211 · 18
 

Muita gente um pouco mais velha do que eu lembra com certo carinho (e malícia) do "Sala Especial", sessão de cinema que passava no fim de noite da Record (quando ainda não era uma rede ligada a uma organização religiosa), dedicada a um gênero que alcançou grande popularidade nos anos 70 e 80 e que acabou levando o nome de "pornochanchada" (curiosa mistura do prefixo de pornografia com o rótulo dado às comédias musicais _no geral, de perfil carnavalesco, mas que também retrataram outros tipos de música, inclusive o então recém-nascido rock'n'roll_ que haviam movimentado o mercado cinematográfico nacional entre os anos 40 e 60 e que, como explica Sérgio Augusto em um ótimo livro sobre o assunto, era um termo originalmente pejorativo).

Eu, que sou jovem demais para tê-la acompanhado, entrei em contato com alguns destes filmes em sessões na extinta TV Manchete e, principalmente, no SBT, onde eram exibidos após o "Show de Calouros" que encerrava o Programa Silvio Santos (não existia esta bênção restrita a muito poucos, por constar apenas nos pacotes mais caros das exorbitantes TVs pagas, chamada "Canal Brasil" _à qual não tenho acesso; minha única opção, hoje, é alguma madrugada de segunda-feira na Globo, quando o "InterCine" é dedicado ao cinema nacional). Ali vi de tudo, de comédias eróticas que faziam jus ao termo, como "O Bem-Dotado Homem de Itu" e "Histórias Que Nossas Babás Não Contavam", a filmes bem mais sérios, como "Mulher Objeto", de Silvio de Abreu, a algumas obras-primas de Walter Hugo Khouri, um de nossos maiores diretores (cuja obra merece restauração urgente).

Ou seja, o rótulo "pornochanchada", que encerra falsos preconceitos, extrapolou as comédias populares e ingênuas com pequenas doses de erotismo para abarcar toda uma produção (em boa parte das vezes, independente, sem depender de recursos da estatal Embrafilme) bastante diversificada. Hoje, com a distância de mais de duas décadas, este conjunto de obras é objeto de estudos acadêmicos (tanto estéticos como de mercado _foi a época de maior bilheteria para nossos filmes, assim como o recorde de número de salas de cinema em nosso país) e também de culto: além de mostras dedicadas aos filmes nacionais com este perfil, surgiram na internet espaços que buscam valorizar esta parcela importante do nosso cinema, como a revista "Zingu!" e o blog "Estranho Encontro", entre outros.

Mas o que quero compartilhar aqui é um breve depoimento (cujo trecho em questão foi batizado com a frase que agora intituta este texto) gravado em vídeo há alguns meses, quando dirigi um curta-metragem em 16mm chamado "A Volta do Regresso". Dos quatro atores principais do filme, três deles foram muito atuantes no cinema dos anos 70 e 80: Ênio Gonçalves ("O Olho Mágico do Amor", "Filme Demência"), Kate Hansen ("As Deusas", "Aleluia Gretchen") e Carlo Mossy, sobre quem vamos nos concentrar aqui (o quarto é o Gustavo Engracia, que interpretou o repórter-fotográfico em "Cidade de Deus").

Nos anos 60, Mossy estudou nos EUA e na França; de volta ao Brasil, fez uma peça com madame Morineau e não demorou a estrear em cinema, como protagonista-galã de "Copacabana Me Engana", de Antonio Carlos da Fontoura. Poucos anos depois, era dono de sua própria produtora e escrevia, dirigia e estrelava sucessos como "Com as Calças na Mão" (fez também um filme singular, considerado sua obra-prima, chamado "Ódio" _uma espécie de "Desejo de Matar" brasileiro, com Átila Iório e Wilson Grey). Com a crise do cinema nacional a partir da metade dos anos 80, deu uma "sumida" e aos poucos volta às telas: atuou em "O Homem do Ano", de José Henrique Fonseca, "O Sacófago Macabro", de Ivan Cardoso, e no ainda inédito "Cleópatra", de Júlio Bressane, entre outros. Também está participando de várias produções recentes da Globo ("Minha Nada Mole Vida", "Amazônia", algumas novelas).

Neste vídeo de quatro minutos, gravado durante um intervalo nas filmagens (eram 4h30 da manhã, perdoem a sonolência), Mossy fala um pouco sobre a pornochanchada, revelando que gosta do rótulo. O que ele diz pode ser, em parte, discutível, mas creio que é um depoimento que vale a pena registrar, por lembrar de uma época em que técnicos e artistas operavam num verdadeiro mercado de cinema (o que temos hoje é artificial e elitista) e por vir de uma das figuras centrais do cinema popular brasileiro durante o período em que atuou. Quem fez a entrevista foi a roteirista, diretora de documentários e professora Ana Paul, e quem editou fui eu _como ele é grande demais para ser publicado aqui, peço que vocês o vejam em minha página no YouTube (que contém outras partes da entrevista com o Mossy, além de algumas brincadeiras que ele fez para a câmera).

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Thiago Camelo
 

Excelente colaborção, Marcelo!!! O livro em questão do Sérgio Augusto é "Este mundo é um pandeiro". Quem se formou em jornalismo na PUC do Rio como eu certamente, ao menos uma vez, já ouviu falar desse livro. Tinha um professor que não parava de falar dele. Falou tanto que acabei procurando para ler (e não me arrependo). Uma coisa sobre o seu filme: vc já tentou postá-lo no Banco de Cultura. Por lá, em torrent, é possível postar qualquer tamanho. Enfim, de toda forma, parabéns mais uma vez pela colaboração.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 27/3/2007 18:45
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Marcelo V.
 

Obrigado, Thiago. Apesar de estar inscrito no Overmundo desde o ano passado, esta é minha primeira colaboração, ainda estou aprendendo como funciona. Mas o objetivo desta não é exatamente o texto em si (até porque o assunto é rico demais, e eu mal arranhei sua crosta), mas o depoimento do Mossy, já que ele é um dos protagonistas desta história.

Este livro do Sérgio Augusto é uma excelente leitura, uma pesquisa muito rica, recomendo a todos os interessados na história do cinema brasileiro.

Quanto a meu filme, a trilha sonora (inspirada nas marchinhas carnavalescas e composta por um músico da Osesp) acabou de ser finalizada, então agora entro na fase de mixagem. Meu desejo é que ele esteja "na lata" até junho, em tempo de ser inscrito no festival de Gramado. Mas é possível que o filme seja exibido também em sessões especiais no Odeon (Rio), no Cinesesc (São Paulo) e nas salas do recém-inaugurado projeto PopCine (capital de São Paulo e interior do Estado). Claro que, eventualmente, ele será disponibilizado na internet, embora ele tenha sido feito para a tela grande (mesmo que a qualidade do 16mm não seja extasiante, ainda traz umas cores e uma definição que o vídeo ainda não atingiu _o problema desta bitola é justamente o som...).

Marcelo V. · São Paulo, SP 27/3/2007 21:41
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SILVASSA
 

eram filmaços! em TODOS os sentidos

SILVASSA · Salvador, BA 28/3/2007 13:35
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André Gonçalves
 

boa matéria. cadê o filme?

André Gonçalves · Teresina, PI 28/3/2007 14:00
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FILIPE MAMEDE
 

Se essa é sua 1° colaboração. Continue. E em relação aos filmes, passam realmente nesse CANAL BRASIL. Para mim, que não sou muito velho, é engraçado ver atores da GLOBO peladões pra lá e pra cá. Outro dia vi um com REGINA CASÉ hilário. e parece que na época ela não se preocupava muito com depilação. Enfim...

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 28/3/2007 14:32
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Marcelo V.
 

Gustavo, não deixo de olhar para estes filmes com senso crítico: acho importante analisá-los despido (epa, opa) de preconceitos, inserindo-os (opa, epa) em seu devido contexto, levando em conta as condições mercadológicas e sociopolíticas da época. Como o próprio Mossy diz no vídeo que divulguei aqui, "existem as boas e as más pornochanchadas"; vale a pena tentar separar o joio do trigo (e se divertir muito no processo).

André, se você está se referindo ao meu filme, já falei a respeito dele no meu comentário anterior; se está falando das entrevistas com o Mossy, há um link no texto que o redireciona para o YouTube (não pude publicar o vídeo aqui por falta de espaço).

Filipe, é importante lembrar que estes filmes eram "mainstream" na época de seu lançamento; eram sucessos populares, realizados por produtores que sobreviviam no mercado sem incentivos do Estado (a produtora do Mossy tinha equipamento de ponta e, se não me engano, alugava-o para a Globo!), algo que hoje é muito raro, e que vendiam milhões de ingressos, muito mais do que os sucessos de hoje, como os filmes com a Xuxa (isto se devia, em grande parte, ao fato de as salas existirem em maior número e de forma mais descentralizada, em cidades pequenas e bairros da periferia; ah, e o ingresso custava não mais do que 1 dólar _hoje, num fim-de-semana em São Paulo, é preciso desembolar dez vezes este valor!), então não é de surpreender o fato de encontrarmos neles atores de renome. O próprio Mossy trabalhou com gente como Jorge Dória, Paulo Gracindo, Cláudio Marzo, Odete Lara, Vera Fischer, Darlene Glória, Zezé Macedo, Nildo Parente, Joel Barcelos, Adriana Prieto etc. Até a Marieta Severo, na condição de grande atriz de teatro e "mulher de Chico Buarque", fez pornochanchada... A Regina Casé participou de um filme muito legal do Ivan Cardoso, chamado "O Segredo da Múmia" (também está no "Os Sete Gatinhos" do Neville d'Almeida, mas deste não gosto tanto; recomendo também o "Tudo Bem", do Arnaldo Jabor).

Marcelo V. · São Paulo, SP 28/3/2007 15:45
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Fanny
 

O vídeo vale uma visita ao You Tube - gostei quando o Mossy diz que o povo brasileiro é um povo simples, e que ele optou por fazer filmes simples para conquistar o povo. Bonito e despojado.

Fanny · Rio de Janeiro, RJ 28/3/2007 17:15
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Sarah Falcão
 

marcelo, ótimo texto!!!
As pornochanchadas definitivamente fazem parte da vida (e infância) de muita gente... rs... Ótimo resgate!!!

Sarah Falcão · João Pessoa, PB 28/3/2007 18:19
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Leandróide
 

Parabéns pelo texto e que depoimentos sensacionais de um dos envolvidos (o cara não deixa de ser um poeta) num desses "controversos" movimentos da cinematografia nacional.

Não deve ser uma idéia original, mas registro aqui a sugestão da produção de um documentário aprofundado sobre o tema.

Abraço.

Leandróide · Florianópolis, SC 28/3/2007 19:13
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Marcelo V.
 

Fanny, o Mossy começou sua carreira no cinema trabalhando como ator em projetos mais "sérios", mas, ao começar a produzir e a dirigir, escolheu o caminho do cinema popular, para vender ingressos e prosperar numa economia de mercado; se tivesse optado por fazer filmes mais sofisticados e ousados, certamente teria de recorrer a recursos públicos... Enfim, é toda uma discussão sobre o financiamento da cultura que se arrasta até hoje, e não apenas no Brasil. Mas o depoimento dele é mesmo bonito, humilde, sincero.

Sarah, engraçado que o Mossy diz algo como "o que antigamente era proibido pela Censura Federal, hoje passa em horários vespertinos que qualquer criança que assiste, entende e dá risada, e qualquer novela na TV é mais forte do que as pornochanchadas". Apesar do prefixo "porno", os filmes são bem ingênuos e inofensivos; mesmo assim, o Mossy costumava viajar a Brasília para brigar pela liberação de seus filmes, nos anos 70. E, falando em novela, essas do Carlos Lombardi me lembram um pouco o espírito de comédia ingênua que marca as pornochanchadas.

Leandro, o Mossy tem mesmo alma de poeta; no meu filme, ele recita Molière num francês perfeito (ele fala oito línguas). Concordo que um documentário abrangente sobre o tema seria ótimo, mas me pergunto se ele se sustentaria num lançamento nos cinemas (talvez uma versão de 52 minutos para uma TV educativa). Estou envolvido em outro projeto de resgate de parte desta cinematografia, mas não posso revelar o que é porque ainda estou em negociação.

Obrigado a todos que leram, votaram, comentaram e assistiram aos vídeos!

Marcelo V. · São Paulo, SP 28/3/2007 23:27
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carlo mossy
 

Honra-me sobremaneira ser lembrado tão carinhosamente por vocês. Obrigado.
Continuemos, pois, a perseverar e renovar os fotogramas de nossas vidas celulóidicas em todas as formas, conteúdos e gêneros, sobretudo, abastecendo o tanque de nosso imaginário cinematográfico.
A Volta Do Regresso, um curta que é longa, em todos os sentidos: da vontade de realizá-lo à criatividade e à perseverança em finalizá-lo. Obstáculos? Que obstáculos?
Excita-me a idéia de poder, finalmente, assisti-lo na íntegra. Fico à disposição à exibiçaõ do mesmo, queridos colegas cineastas, Marcelo e Ana Paul.
Beijos,
Até,
Carlo Mossy

carlo mossy · Rio de Janeiro, RJ 29/3/2007 07:52
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SILVASSA
 

Marcelo

vc tem razão. creio que, mesmo que alguns não queiram, Pornochanchada faz parte de noso imaginário. e, por que não dizer, de nossa cultura. sem ondas nem ironias.

a gente meio que tem vergonha de muita coisa. e joga pra debaixo do tapete um monte de coisa legal

SILVASSA · Salvador, BA 29/3/2007 09:47
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Pedro Vianna
 

Muito bom o texto. Mande mais...

Pedro Vianna · Belém, PA 29/3/2007 09:56
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Marcelo V.
 

Opa, que alegria ver nosso protagonista dando o ar de sua graça por aqui! Valeu, meu caro Carlo Mossy, pelo seu apoio indispensável ao nosso pequeno projeto. Para mim é uma honra imensa fazer parte de sua cinematografia; "A Volta do Regresso" não existiria sem você. Espero revê-lo em breve, quando acertarmos uma exibição do curta no Rio!

Gustavo, o interessante é que algumas pornochanchadas estão, com o tempo, tornando-se clássicas: mesmo feitas há mais de 30 anos, elas ainda encontram um público, inclusive de jovens (os integrantes da comunidade do Carlo Mossy no YouTube são, em grande parte, gente com menos de 30 anos); consta que a sessão "Como Era Gostoso o Nosso Cinema" é a campeã de audiência do Canal Brasil, mesmo sendo exibida nas madrugadas...

Pedro, devido à resposta positiva deste artigo, é provável que eu volte a colaborar com o Overmundo, falando inclusive de outros assuntos que não o cinema _mas, enquanto isto não acontece, convido os possíveis interessados a lerem meu blog, Cinema Cuspido e Escarrado.

Marcelo V. · São Paulo, SP 29/3/2007 14:42
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Higor Assis
 

Poderia ter colocado uma foto clássica no inicio do texto ficaria muito bacana ou talvez algumas fotos de underground de tempos atrás que, muitas pessoas como eu não toiveram o previlégio de ver.

Muito bacana.

Higor Assis · São Paulo, SP 29/3/2007 16:07
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Marcelo V.
 

Boa sugestão, Higor. Na verdade eu queria publicar o vídeo, mas só na hora fiquei sabendo que seu tamanho era excessivo _então fui obrigado a alterar o texto e inserir os links para o YouTube. Se sua sugestão tivesse aparecido enquanto o texto estivesse na sala de edição, certamente teria sido atendida. Como é minha primeira colaboração para o Overmundo, ainda estou aprendendo como isto aqui funciona.

Marcelo V. · São Paulo, SP 29/3/2007 20:46
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Fernando Niero
 

concordo, todo rótulo é limitador
e a obra de Khoury merece revisão urgente, a começar por seu lançamento em Dvd
a Zingu eu já tive a honra de colaborar
abraço.

Fernando Niero · São Paulo, SP 17/4/2007 01:09
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Marcelo V.
 

Pois é, Fernando: aquela iniciativa da Cinemagia foi louvável, mas os filmes precisavam de uma restauração antes do lançamento em DVD...

Marcelo V. · São Paulo, SP 17/4/2007 17:50
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