TODOS OS KARAS DE PEDRO BANDEIRA

divulgação
Pedro Bandeira é um dos autores mais populares da literatura infanto-juvenil
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Elefante Bu · Brasília, DF
17/1/2009 · 158 · 5
 

Chumbinho é um garoto muito esperto, além de ser um observador diferenciado. No colégio Elite de São Paulo havia uns caras mais velhos que ele admirava. Mas gostava tanto que passou a segui-los igual um espião profissional. Os caras nem se deram conta que um moleque de cabelo encaracolado e nariz empinado estava na cola deles. O garoto conseguiu reunir as mais impressionantes informações. Descobriu códigos secretos. Aprendeu a combinar esses mesmos códigos em mensagens que seria preciso perícia para decifrar. Memorizou gestos e constatou que vários tinham significados de comando. Ele sabia até o que esses garotos mais velhos faziam em suas atividades extracurriculares e onde se reuniam.

Mas não seria muito inteligente, depois de um trabalhão, ele chegar e se apresentar do nada e levar um fora. Seria preciso provocar impacto. Logo, Chumbinho teve paciência para esperar o dia exato, um evento diferente, para então surpreendê-los e, quem sabe, conquistar o seu lugar na turma. Quando viu uma movimentação di ferente, uma convocação para ação, Chumbinho soube que era o momento. Subiu no forro dos vestiários do Elite e flagrou os caras, quer dizer, os Karas iniciando uma investigação. Estavam lá Calú, o grande ator da turma e mestre dos disfarces, Crânio, como o próprio apelido diz, um rapaz diferenciado por sua inteligência e pensamento lógico, Magrí, a única menina do grupo e atleta de nível olímpico. E, por último, aquele que fez a convocação, o líder Miguel. O então quarteto não ficou feliz com a invasão de Chumbinho. Sem problemas, Karas, porque o moleque teria muitas oportunidades de mostrar que tinha a acrescentar com sua coragem e destreza.

Os Karas fazem parte do universo literário infanto-juvenil brasileiro. Criados por Pedro Bandeira, o primeiro livro com os personagens, A Droga da Obediência, foi lançado em 1984. O sucesso não tardou e ler as aventuras dos jovens transformou-se num marco da década tanto quanto as séries Para Gostar de Ler e Vaga-Lume, da editora Ática. Um feito tão expressivo que surpreendeu até o próprio autor. “Hoje eu entendo o porquê do sucesso de A Droga da Obediência. Mas quando a escrevi, não podia imaginar que esse sucesso fosse tão grande que o transformou num clássico que agrada a adolescentes há mais de vinte anos, apenar das enormes mudanças tecnológicas e sociais ocorridas nesse período”, disse Pedro. Estima-se que mais de 1,5 milhões de exemplares de A Droga da Obediência tenham sido vendidos no Brasil. Ele também é um dos poucos títulos de Pedro a ser traduzido para outros idiomas.

A popularidade do clássico infanto-juvenil não apenas garantiu a sobrevivência da história ao longo dos anos como também deu origem a uma série com mais quatro livros a partir dos anos 90, que inclui Pântano de Sangue, Anjo da Morte, A Droga do Amor e Droga de Americana. Houve um quinto, a Droga Virtual, que chegou a ser lançado, mas Pedro Bandeira optou por tirá-lo de circulação. “Tratava de computadores e isso muda tanto que torna impossível que o livro se sustente”, explicou. Todos pos suem histórias independentes, embora existam conexões, ou seja, seria interessante ler a série na sequência para captar certas nuances, mas quem começar pelo último, por exemplo, vai entender a dinâmica com perfeição.

O que fazem esses Karas? É um grupo de estudantes adolescentes investigadores. A história acontece sempre em torno de um crime ou uma série deles que de alguma forma afetam os garotos. No primeiro, por exemplo, havia uma onda de sequestros de estudantes dos colégios mais privilegiados de São Paulo. Quando um dos alunos do Elite desapareceu, os Karas se reuniram para tentar decifrar o mistério. Suas ações acabam os levando a um grupo industrial sinistro que desenvolvia uma droga do controle da vontade. Já no mais recente, Droga de Americana, a filha do presidente dos Estados Unidos vai fazer uma demonstração de ginástica artística no colégio Elite, mas um grupo armado invade os vestiários e, na confusão, sequestra Magrí por engano. Os Karas, com a ajuda do detetive Andrade (um personagem fundamental na série), lutam contra o tempo para descobrir quem são os criminosos e onde está Magrí antes que os bandidos percebam o erro e matem a jovem. Pedro explicou que a opção pela temática do enredo policial e de mistério não vem de qualquer tipo de influência literária ou preferência pelo gênero. “Meu tema são as emoções humanas. Os enredos aventurosos ou de suspense são apenas os trilhos por cima dos quais corre o trem das emoções”.

O grande mérito do escritor ao criar ospersonagens foi dar a cada um deles um ar de super-heróis – cada um tem uma habilidade especial – que integram uma espécie de “Teen Titans” com Nancy Drew, mas que na verdade não passam de adolescentes normais e imperfeitos que erram bastante, que estão abertos ao amor e tem os sentimentos à flor da pele. Isso faz com que o jovem leitor, em especial aquele de 11, 12 anos, tenha uma identificação maior com os Karas e com os temas típicos da idade que estão presentes nas histórias secundárias.

Uma curiosidade é que os Karas teriam a chance de ficarem ainda mais populares se produções baseadas na série para a TV e cinema tivessem sido levadas adiantes. “Tudo sempre parou no orçamento, sempre caro demais para a realidade do cinema brasileiro”. Mas Pedro deixou no ar a possibilidade de uma adaptação americana. Se concretizado, um filme dos Karas seria uma consagração definitiva da excelente criação de Pedro e o seu reconhecimento em terras internacionais. Ao mesmo tempo, poderia ter um gosto meio amargo se personagens brasileiros residentes de uma megalópole como São Paulo e todas as suas peculiaridades virarem norte americanos.

O cara

Pedro Bandeira é um dos escritores brasileiros que mais vendem livros infantis e infanto-juvenis no país e talvez um dos mais importantes da categoria ao lado de Ruth Rocha, Ana Maria Machado, além do imortal Monteiro Lobato. Ao longo de 25 anos dedicados exclusivamente ao ofício, publicou mais de 70 títulos e vendeu cerca de 20 milhões de exemplares. A Droga da Obediência e o infantil O Fantástico Mistério de Feiurinha estão entre os mais conhecidos.

É bem verdade que uma parcela das vendas deve-se à adoção dos livros pelas escolas. Algumas, inclusive, ainda seguem a linha de obrigar o aluno a ler um determinado título. Um tipo de abordagem, aliás, que Pedro condena. “Nada no ensino deve ser obrigatório. Ensinar é seduzir. Se o professor não conseguir seduzir os alunos para a Matemática, eles jamais gostarão da Matemática. O caso da Literatura, porém, é ainda mais grave, pois os livros são feitos para agradar, para divertir. Transformar sua leitura em algo imposto, Alguns Livros obrigatório, diminui muito a própria essência da arte”.

Natural de Santos, Pedro estudou e fez carreira em São Paulo. Formou-se em Ciências Sociais e trabalhou como jornalista na revista Última Hora, e depois na Editora Abril. O curioso é que Pedro começou a escrever contos como forma de complementar a renda. Só que ele tomou gosto pelo ofício e já início dos anos 80, tinha escrito histórias que se tornariam clássicos pouco tempo depois. Em 1983, quando chegou ao mercado o seu primeiro livro infantil O Dinossauro Que Fazia Au-Au, Pedro largou o jornalismo e passou a se dedicar com exclusividade à literatura para crianças e adolescentes. “Escrever para um determinado público é o mesmo que ocorre com a medicina: por que alguém escolhe ser pediatra em vez de geriatra ou ortopedista? Trata-se de uma questão de especialização”.

É fã de Monteiro Lobato, Machado de Assis entre outros grandes autores. Por vezes tem idéias de produzir histórias baseadas em clássicos pois acredita que ao falar de temas em comum pode mais tarde despertar o interesse do jovem leitor para obras universais. Foi o caso de A Hora Da Verdade, outro clássico de Pedro lançado nos anos 80 e que teve inspiração direta em Dom Casmurro, de Machado de Assis, e Otelo, de William Shakespeare. O conhecimento dessas obras é tão grande a ponto de Pedro afirmar ser um dos poucos a ter certeza que Capitu nunca traiu Bentinho.

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Esta matéria foi publicada originalmente na edição n°38 do fanzine Elefante Bu – http://elefantebu.blogspot.com

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Jorge Daher
 

Votado!

Jorge Daher · Ribeirão Preto, SP 16/1/2009 14:38
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Andre Pessego
 

muito boa inserção, muito boa referência,
abraço
andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 16/1/2009 20:09
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Pérola Pedrosa
 

Li a Droga da Obediência várias vezes quando pré-adolescente, e outro dia estava num sebo e vi o livro, não resisti e comprei. Pena que não li os outros e não encontro por aqui. Adoro o Pedro Bandeira. Ele me despertou a vontade de ler, e olhar curioso sobre qualquer acontecimento que acabei trazendo para minha profissão de jornalista.
Gostei muito do texto, Jorge! Mas dá pra ver que seu personagem preferido é o Chumbinho, o meu era o Crânio, adorava ler sobre ele passando a gaita pela boca sem tocar enquanto desvendava os crimes.
Obrigada por ter me lembrado dessa época da minha vida.

Pérola Pedrosa · Macapá, AP 19/1/2009 19:47
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Pérola Pedrosa
 

Desculpe troquei o autor, obrigada Elefante Bu.

Pérola Pedrosa · Macapá, AP 19/1/2009 19:49
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Mandynha
 

Pedro é muito bom, um dos livros dele "o Misterio da feurinha vai virar filme, da Xuxa, gostaria que os Karas fossem para a telona, ou até telinha.

Mandynha · São Paulo, SP 24/7/2009 14:48
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