Tom Zé no Burbom Escarro Cantri

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Monica Araujo · Salvador, BA
25/9/2007 · 22 · 7
 

Porto Alegre em seu último suspiro de inverno.
A chuva não deu trégua este domingo, véspera de primavera.
De minha rede, do ladinho do aquecedor, ouvindo a garoa, penso em desistir do show de Tom Zé.
O espetáculo vai acontecer num local distante de minha casa, na Cidade Baixa, não tenho carro e o horário é ruim para quem está de ônibus na chuva.
Seria um fato inédito se eu não fosse. Desde que vi o primeiro show, em 89, quando tinha 15 anos, nunca mais perdi o Tom.
Pensei um pouquinho mais e resolvi me dirigir ao Bourbon Country, que aqui se pronuncia Burbom Cantri. Imagino que adaptação se deva ao fato do original em inglês parecer um som de escarro em nossa língua.
Cheguei ao tal do teatro, vi pessoas conhecidas, um pocket show do Expresso 25.
A noite prometia.
Meu lugar era no mezanino... Sim, eu sabia que seria um lugar distante do palco, mas não imaginava que o tal lugar fosse tão apertado ao ponto de ter que levantar para outras pessoas poderem sentar.
Tom Zé, como te amo!
O show estava marcado para as 21h.
Ás 21h30, com as 2 primeiras campanhias tocadas e o teatro com cadeiras vazias por toda a parte, resolvo, com meu companheiro, mudar para um lugar menos opressor.
Aí começa o circo da província, desta que queremos negar com “nossa forte produção cultural”, mas que não passa no teste da atitude cotidiana do bom senso.
Sento-me ainda no mezanino, um pouco mais abaixo donde estava, ao lado de outras duas pessoas que antes estavam lá na clausura comigo.
Vem a lanterninha e informa, enquanto soa a terceira campanhia e as luzes baixam, anunciando que o show vai começar, que não poderíamos sentar ali enquanto não começasse o show.
Argumento que se o dono do lugar aparecesse eu sairia imediatamente e que o show já ia começar. Ela insiste que eu só poderia me deslocar depois de 10 minutos do espetáculo começado.
Tom Zé entra em cena e saúda o público.
Há ainda vários lugares vazios.
Enquanto o cantor fala a lanterninha, Juliana, volta e ameaça: “ se vocês não saírem eu vou chamar os seguranças”.
Saio. Saio e digo a Juliana que em qualquer teatro que conheço, depois que o espetáculo começa, os lugares vazios são liberados.
Juliana diz que cumpre ordens.
Não quero queimar Juliana, que cumpre ordens, só quero ver o show de um lugar decente e vazio, já que seu “dono” não apareceu.
Peço para falar com o gerente do Teatro do Burbom Escarro Cantri.
Antes, porém, sou interceptada por um segurança forte, desses bons para figurar em luta livre.
Enquanto explico chega o gerente. Imagino que, como gerente, ele não vá desautorizar sua funcionária, nem tampouco desagradar o cliente. Imagino que depois da meia hora de atraso do espetáculo e dos 10 minutos de “conversa” ele irá nos acomodar num outro lugar.
Ledo engano. Onde os machos são mais machos, os machos no poder são ainda mais machos.
E o gerente loiro, macho, do Teatro Burbom Cantri, este lugar nada a ver com Tom Zé, nada a ver com cultura, nada a ver com nada que não seja consumo de perfumaria, reitera tudo.
Conto a eles, numa cortesia, que já presenciei Tom Zé cantar de costas para o público por causa da movimentação em seu show, do troca-troca de lugar. Digo que permitir esse tipo de movimentação depois de decorridos 10 minutos do show é um desrespeito com o artista.
Digo também que se meu amigo estadunidense não tivesse anunciado que mudaríamos de lugar Juliana teria feito cara de paisagem, como fez com todas as outras pessoas que mudaram de lugar.
Juliana responde “isso é o Brasil”...
Digo mais algumas coisas sobre minha atividade como produtora cultural, digo que quero de volta o meu dinheiro e depois de dizer várias palavras inúteis para quem fingia que ouvia, vou embora.
Enquanto caminho penso o que eu, nascida e criada na periferia, coordenadora de um projeto sócio-cultural, moradora do “bairro boêmio de Porto Alegre” estava fazendo no Burbom Cantri, esse templo da futilidade, que não tem beleza nem no nome?
Irônico, mais irônico é pensar que este espetáculo fazia parte de um evento chamado “Porto Alegre em Cena”.
Que ceninha, meu deus!
Para uma triste noite sem Tom Zé, valhei-me Tom Zé, valhei-me!

Escolinha de Robô – Tom Zé

Todo mundo pronto pra começar
Cada qual por ordem no seu lugar
A corrente é 110
Vamos ligar
E já vai 1 e 2 e 3 e 1 e 2 e 3 e 1 e 2 e 3 e já!
Ao sentar-se dobre a perna pelo joelho
E se alguém lhe falar
Da desgraça que vai, da desgraça que vem, vem, vem,
Ha, há, há, há!
Queira sorrir, é permitido!
Faça suas orações uma vez por dia
Depois mande a consciência junto com os lençóis pra lavanderia, ehe!
Ao sorrir abra os lábios, docemente.
E se alguém te falar da desgraça que vai, da desgraça que vem, vem, vem
Ha, ha, ha, ha!
Queira sorrir, é permitido...











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Labes, Marcelo
 

Olá, Monica! Muito prazer. O texto está muito bacana, mas não sei se ele está bem posicionado. O Overmundo tem uma série de seções onde colocamos os textos, e no Overblog geralmente são colocadas colaborações de cunho jornalístico ou ensaístico sobre a produção cultural. Como o teu texto está para "não-ficção em prosa", sugiro que verifiques o Participe a fim de entender do que falo.

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 26/9/2007 13:36
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Labes, engraçado, não concordo com você. Não há nada que mostre que o texto é não-ficção, pelo que vejo é um texto como uma cobertura (ou uma cobertura às avessas), já que ela não conseguiu ver o show... Faz sentido? Sendo assim, acho que tá no lugar certo...

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 26/9/2007 16:26
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Monica Araujo
 

Labes,
Obrigada pelo comentário!
Embora não tenha usado a linguagem jornalística tradicional, o texto faz uma reportagem sobre o ocorrido e uma crítica a produção do evento, a inadequação do local e a existência deste tipo de aparelho cultural, excludente em sua essência.
Por isso o achei mais adequado ao Overblog.


Monica Araujo · Salvador, BA 26/9/2007 20:05
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baduh
 

Mônica.
Além de ser um texto bem escrito, as idéias, as denúncias, as opiniões que ele traz são de primeira. Você mandou-nos uma foto que fez do seu tempo, do nosso tempo. Uma fotografia em texto.
Texto que é excelente!
Meus parabéns e meus pêsames por ter perdido o show do Tom, por causa de meia-dúzia de imbecis.
Baduh
Votado.

baduh · Rio de Janeiro, RJ 26/9/2007 23:42
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Labes, Marcelo
 

Relativizando...
E olha que eu li mais de uma vez e não tinha mesmo certeza do que dizia, por isso chamei a Monica para compartilhar. Agora se encaixou. Será que me tornei quadrado?

E alguém faça alguma coisa para isso não se repetir, hein! Porque, olha, passando de ônibus na frente do Bourbon, já tinha medo de ser hostilizado. Eu, lá dentro do ônibus. :)

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 27/9/2007 10:58
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Monica Araujo
 

Baduh,
muito obrigada pelos comentários! A indignação é sempre uma ótima inspiradora.
um grande abraço.

Monica Araujo · Salvador, BA 27/9/2007 20:39
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Matheus José
 

TOM!TOM!MAIS ALTO! MAIS UM TOM! TOM ZÉ........pirulito da ciencia

Matheus José · Petrópolis, RJ 4/4/2010 19:43
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