Confesso que os 250 toques por minutos, ou até mais, adquiridos com a persistência dos treinos dos maratonistas, já me proporcionaram acesso a bons empregos como Secretária. Estranho? E os carbonos, lápis para apagar a letra errada, os malabarismos e criatividade para não deixar borrão nas várias cópias das cartas, memorandos ou formulários datilografados?
Alguém pode estar construindo a minha imagem como a de uma candidata ao Guiness Book na categoria de brasileira com idade mais avançada! Cuidado, hem!!! Pois bem, eu também me surpreendo com a velocidade das mudanças tecnológicas e eletrônicas das últimas décadas. Evolutivamente, passei da obsoleta máquina de escrever para o computador. Momento histórico de transição não fotografado.
Na institucionalização da informática, tanto empresarial como doméstica, tive certa resistência em usar a web como meio de comunicação com os amigos. Gosto de ouvir a voz, do olho no olho. Quanto às leituras, delicio-me em tocar o papel, levá-lo para o sofá, para a cozinha, para o banheiro e para a cama. Os bate-papos virtuais roubaram-me o toque, a visão da expressão do outro. No máximo a webcam mostra o movimento retardado da ação. Sei que o outro ri quando retorna com o rsrsrs, ouehueuhue, concorda comigo através do blz e outros tantos sinais – idioma do novo planeta. Recebo bjs ou abc no final. Tive que aprender o msnguês. Descobri que a minha grafia estava muito extensa e que eu não podia dizer tudo, só insinuar. Afinal, é a consagração do “Pra bom entendedor um pingo é letra”! Meus amigos estão todos aqui, seus endereços e seus perfis. Fiquei perplexa quando descobri que estava conectada a 45.991.450 pessoas. São amigos dos meus amigos, amigos destes e por aí vai – uma multidão add. Que maravilha! Não estou só. Imaginem uma big festa com todos. Talvez alguém ficasse ofendido se não fosse convidado...
Mergulhei nesta nova realidade. Assinei banda larga, adquiri softwares mais avançados, umas coisinhas aqui e outras ali para turbinar a minha máquina. Já não podia mais navegar em caravelas. Hoje, viajo pelo mundo inteiro ouvindo simultaneamente o som do PC, protegida em minha nave, sem o risco de ser atingida por bombas, lava de vulcões, terremotos, over bookings, check-in/out e ainda posso dar um mergulho em direção ao planeta terra, no lugar onde quiser, através do “Google Earth”. Não resisto à tentação de me intrometer nos comentários dos outros, de lançar o meu protesto diante de algumas aberrações sociais, de meter a cara na rede.
Abro o email de 2 gigas e tento pescar as mensagens importantes. Árdua tarefa. O meu endereço não é só de quem eu autorizei, com todo o carinho, ou para fins de resposta de alguma área de interesse. Mas do mundo inteiro. E os spams? Mesmo protegida e imunizada, eles vêm e tentam de todos os artifícios para me pegarem de surpresa. Embora injuriada, às vezes me divirto com alguns títulos: “Orgasmo Feminino TGUTNDCTMI – Fique horas...”; “Re: look...viagra”; “Te adoro” (remetente desconhecido); “Você está sendo traído – veja as fotos”; “Winning notice... Congratulation”, etc etc, sem falar nos nomes exóticos dos remetentes. São necessárias uma superlixeira e uma superpaciência. Fazer o quê?
Uma coisa é certa. Quero também o movimento, o caminhar na terra firme, o navegar ao vivo e a cores, aspirar o cheiro do mato, ouvir a gargalhada real, sentir o toque, perceber a direção do olhar, ver você sem retoques, falar a palavra inteira, sem o click ou enter entre nós.
Hehehe! Gostei desse texto. Também fiz curso de datilografia (coisa mais anacrônica!), passei pelos corretivos das máquinas elétricas (aquela fitinha branca que tinha entre o tipo e a folha), pelos primeiros computadores de tela verde (o que fazer com meus arquivos do drive B, que ainda guardo?), impressão em formulário contínuo (o barulinho da impressora era irritante!), até a internet, na primeira metade da década de 90, tão lenta e tão limitada, mas que pra mim já era uma porta escancarada para um mundo novo. Legal ver por aqui alguém que passou por isso também. E que se encanta.
Ilhandarilha · Vitória, ES 10/3/2007 23:24
Agradeço o comentário. Falar em datilografia chega a ser engraçado diante do que temos hoje. Era assim mesmo como você descreveu. O único problema é alguém querer achar que somos peças de museu. Ai de quem ousar, hehe.
Ô comunidade grande essa. Tem os blogueiros com curos de datilografia, até. Eu também sou do milênio passado (rsrsrs).
Bom seu texto Edna, datilógrafa do terceiro milênio.
E, não custa, né: navegar é preciso...
Obrigada, Adroaldo.
É interessante pegar carona na transição. Dá a sensação de ter passado pelo túnel do tempo e se descobrir em algum ponto do futuro.
Será que somos personagens de algum filme de ficção? Existimos mesmo? rsrsrs
Tem di que, Edna.
Com certeza... não sei,
Se existir é algo além
Do subsistir,
Só criando alcançamos o futuro
Perfeito.
A criação é um veículo poderoso!
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