Mais uma novela mexicana? Não. É a odisséia do BitTorrent, uma não tão recente tecnologia peer-to-peer que veio para quebrar o paradigma predominante da Internet, o modelo centralizador “servidor-cliente”. Aos iniciantes, criar e tornar disponível um arquivo torrent é igual a lançar uma missão para Marte, daí o apropriado termo “odisséia”. Mas todo o esforço para vencer o hermetismo vale à pena. Em termos gerais, adquirimos aprendizado ou por transferência genética ou por tentativa e erro. Não existe conhecimento por revelação. Com o BitTorrent não é diferente e todo o esforço para dominá-lo pode resultar numa benesse coletiva, ou no que os norte-americanos chamam de commons.
Sabiamente, o Overmundo resolveu encampar o BitTorrent em seu banco de cultura, pois é utópico pensar que o projeto do núcleo de idéias Movimento seja um spa com centenas de quartos, aptos a hospedar centenas de coisas interessantes, mas que sofrem de excesso de peso. Os overmanos e overmanas precisam se conscientizar de que é necessário dividir a conta de vez em quando. Hermano Vianna disse algo esclarecedor no fórum: “Sei que [o BitTorrent] ainda é difícil de usar, mas vale a pena gastar um tempo para aprender pois vai se tornar cada vez mais um padrão na internet – e ainda facilita a vida de todo mundo: sabemos que se muitas pessoas estiverem baixando um mesmo arquivo ao mesmo tempo, a velocidade de download também baixa para todo mundo, mas com o BitTorrent é justamente o contrário!”.
Conto agora a minha recente experiência ao tornar disponível no banco de cultura meu livro de ficção científica Piritas Siderais. No começo, pensei que eu precisava hospedar no Overmundo o PDF com todas as páginas digitalizadas do livro, que ficou um pouco pesado (25MB). Criei o torrent e o enviei, mas ninguém conseguia fazer o download. Graças ao generoso Felipe Vaz, descobri que o problema era com o piloto e não com o carro. Eu simplesmente não estava iniciando o torrent em minha máquina. Isso é aparentemente um detalhe sem importância, mas é vital. Quem cria o torrent deve ser o primeiro a disponibilizá-lo. Lei básica.
Mas como criar um torrent? Há vários programas que funcionam como “editores” de torrents, como o µTorrent e o Azureus (Dendrobates azureus é um tipo de perereca venenosa do hemisfério norte). Eu sempre usei o segundo para capturar arquivos na Internet - nunca fui uma sanguessuga (leecher, no jargão) e sempre respeitei as normas de isonomia do BitTorrent (um bit retirado, um bit posto) -, mas eu nunca havia dado o enorme passo de construir e servir um torrent. No Azureus, o procedimento para construir um torrent é relativamente simples: basta inserir o endereço URL do tracker e encontrar o arquivo que vai virar um torrent. Mas o que é o “tracker” afinal? A melhor analogia é que esse arquivo gerado tem o endereço de um site que é como uma torre de controle de vôo, definindo as rotas de distribuição dos pacotes que compõem o arquivo principal. O tracker é o Cindacta-1 dos torrents.
Em seguida, o torrent gerado deve ser hospedado no mesmo servidor do tracker. A partir deste ponto, o interessado deve “iniciar” o torrent em sua máquina, que ganha o status de seeder, ou no bom português: a máquina vira a semeadora de um arquivo de audiovisual, música, texto, etc. No início, deve haver no mínimo uma semeadora, para que os outros pares, assim que tiverem capturado o arquivo na íntegra, possam também se tornar oficialmente seeders. Só assim o sistema ganha escala e todos saem ganhando.
Colocar arquivos no YouTube, Megaupload ou Rapidshare é um paliativo que não resolve nada e passa por cima das possibilidades dessa tecnologia. O momento é propício para a evangelização da comunidade e por isso eu proponho ao Overmundo a criação de um CPC (Centro Popular de Cultura) Torrent, que poderia ser um fórum de discussão, um repositório, uma caixa de sugestões ou balcão virtual de dúvidas. Coloco-me, assim, à disposição. Esse texto não pretende, de forma alguma, esgotar o assunto. É apenas uma (talvez não tão eficiente) forma de evitarmos engolir alguns sapos.
"Creio que estamos presenciando uma mudança estrutural na indústria cultural: a decadência da cultura de massas descrita por Adorno em favor de uma nova fase que é mais similar à cultura popular da era pré-industrial." (WU MING, folha de são Pualo, 04.12.06
"Ho sempre rivolto a Dio una preghiera, che è molto breve: 'Signore, rendete ridicoli i miei nemici'. E Dio l'ha esaudita."
(Voltaire, lettera a Damilaville)
"Eu sempre usei o segundo para capturar arquivos na Internet - nunca fui uma sanguessuga (leecher, no jargão) e sempre respeitei as normas de isonomia do BitTorrent (um bit retirado, um bit posto) -, mas eu nunca havia dado o enorme passo de construir e servir um torrent. "
Cara, isso aqui ficou totalmente incompreensivel pra leigos. Não q eu ache q vc tem o dever de explicar tudo, mas acho q cairia bem um atalho pra um FAQ sobre torrent.
Gostei muito do artigo. Todos os links do rapidshare/4shared/megauplod/etc disponibilizados nos blogs, comunidades e fóruns podem desaparecer a qualquer momento. Seja no meio overmundano ou no orkutiano, temos que aproveitar esse "empuxo" de compartilhamento de informações e cultura oferecidos pelas redes sociais e estimular o BitTorrent. Essa "evangelização" mencionada no artigo serve para superar os ultrapassados softwares "modelo-cliente" (como Kazaa, Morpheus e outros) para propagar a cultura de forma autônoma pela "torrente de paixões". Como técnico em informática e entusiasta do modo cooperativo de distribuição de cultura, estimulo o BitTorrent como única forma de garantir que o compartilhamento acabe. Afinal de contas, é possível acabar com o portal de tracker ("Cindacta-1") mas nunca com os aeroportos... se fecha o Cindacta-1, vem o Cindacta-2, o Cindacta-Ultra2-3 e por aí. Opa, me alonguei demais neste comentário. Parabéns pelo texto!
yurik · Valinhos, SP 25/1/2008 09:51Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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