Três lados para cada história

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Eduardo EGS · Porto Alegre, RS
17/4/2006 · 196 · 14
 

Talvez a frase do título não seja uma verdade absoluta, mas se encaixa perfeitamente quando se fala em Marcelo Birck. Esse genial músico gaúcho tem uma carreira de duas décadas que abrange várias frentes de trabalho, cada uma bem própria, mas com coisas em comum. Seja em carreira solo, em bandas que fizeram história ou dando aulas. E aqui vão os três lados dessa grande história.

O lado experimental

No começo dos anos 90, depois de sair da Graforréia Xilarmônica (a saber: a banda mais importante do Estado – talvez do Brasil – no quesito influências de jovem guarda. É só perguntar as influências de muita banda nova pra comprovar isso), que ajudou a formar e da qual foi um dos principais compositores, ao lado de Frank Jorge, Birck se dedicou a um projeto altamente experimental: a banda Aristhóteles de Ananias Jr. “Ter encontrado pessoas que estavam dispostas a fazer aquele trabalho foi um achado e tanto. Não tenho como deixar de ser grato aos meus parceiros daquela época”, relembra o Birck. Pela declaração, já se pode imaginar a dificuldade de encontrar músicos a fim de encarar o projeto.

Usando colagens de trechos de músicas, sobreposição de vozes e muito, mas muito atonalismo, o Aristhóteles causou impacto na cena porto-alegrense. O trabalho da banda foi reunido em um CD lançado em 1996 pelo Grenal Records, selo do próprio Birck. Hoje, passados dez anos, ainda impressiona ouvir as experiências sonoras desse registro. Em 2000, foi a vez de testar em carreira solo. Marcelo Birck (o disco), foi bastante elogiado pela crítica, com sua mistura de surf music atonal, elementos eletrônicos e jovem guarda. Faixas como Iê-iê-iê do Oiapoque ao Chuí, Surf na Pororoca e Tricicloscópio são exemplos perfeitos dessa combinação explosiva. E vem mais experimentalismo por aí. Birck está trabalhando em um novo CD solo, com previsão de lançamento para este ano. Ouvidos a postos.

O lado pop

Com a palavra, Marcelo Birck: “Se for pra definir uma área de atuação, eu diria que sou um cantor e compositor de iê-iê-iê”. E essa admiração pela jovem guarda deixou marcas no trabalho com a Graforréia Xilarmônica e atualmente pode ser conferida na banda Os Atonais, fruto da parceria com o compositor Leandro Blessmann. “Atonais é pra bater de primeira”. E bateu. Pra valer.

Com um CD-R caseiro lançado em 2000, intitulado Em amplitude modulada, a banda atingiu uma certa projeção na cena independente nacional. Com o espetacular aproveitamento de 15 clássicos em 15 faixas, o CD transborda sentimento. Citando os nomes de algumas músicas, só pra deixar mais claro: És fundamental, Gosto de você, Quando existe amor, Garota dos meus sonhos e Vem meu amor. Depois de parar por um bom tempo, Os Atonais retornaram no ano passado e estudam a melhor forma de divulgar o trabalho, possivelmente através de um site. Pra 2006, podemos torcer por mais um registro da banda em CD, dessa vez de forma mais profissional, e certamente recheado de romantismo nas letras e menções a Renato e Seus Blue Caps nas guitarras.

O lado acadêmico

Rock na academia? Por que não? “O meio acadêmico é um ambiente aonde vou buscar informações, visando a aplicação em outros territórios, até como forma de provocação”. Como Bacharel em Composição pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Mestre em Música Computacional pela Universidade Federal de Goiás (UFG), além de professor substituto na UFRGS de disciplinas como Acústica e Improvisação e Laboratório Experimental de Música entre 1999 e 2000, e professor-colaborador na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) em disciplinas como Análise Musical, Laboratório, Música e Mídia e Prática de Conjunto e Arranjo entre 2002 e 2003, Birck pôde usar o conhecimento acadêmico nos projetos musicais, com muita propriedade.

“É pela descontextualização de procedimentos que o meu trabalho se impõe, o estranhamento de aplicar uma prática em outra”, teoriza. “Por exemplo, partituras, roteiros gráficos, algoritmos e outros recursos visuais não são muito freqüentes na música pop, totalmente voltada para a obtenção de um resultado audível”. E o resultado de todos esses estudos está aí para ser escutado, tanto no trabalho experimental quanto no trabalho pop.

Expostos todos os lados, cabe a cada ouvinte juntar as partes e apreciar o trabalho do músico sem julgamentos prévios, como deve ser. A chance da experiência ser positiva é realmente muito grande.

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Hermano Vianna
 

já falei isso em outros lugares, mas para mim o disco Marcelo Birck é um dos melhores de todos os tempos da música brasileira, em todos os seus gêneros - parece, mas não é exagero - com o passar dos anos, o disco fica sempre melhor - Marcelo Birck é mestre

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 18/4/2006 01:55
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Hermano Vianna
 

boa trilha sonora para ler este texto é a música do Leandro Blessmann que está lá no Banco de Cultura - tem 4 guitarras, uma é do Marcelo Birck (e tem uma outra do Demétrio Panarotto, nosso overmano oficial em Santa Catarina)

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 18/4/2006 02:05
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Jesuino André
 

O Birck é genial!

Jesuino André · João Pessoa, PB 18/4/2006 09:32
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Demetrio Panarotto
 

Só pra dar a dica: Os Atonais tocam este fim de semana em Curitiba-PR (sexta-feira dia 21, a partir das 23 h). Local: Motorrad - Trajano Ries, 418 - Centro.

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 18/4/2006 09:49
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Thiago Camelo
 

Outra dica: tem uma música deles na fila de edição do Banco de Cultura. Ouçam lá.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 18/4/2006 13:50
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Medina
 

O Birck sempre vai ser parte da minha santíssima trindade gaúcha: Birck + Frank Jorge + Thomas Dreher. 3 mestraços!

Medina · Porto Alegre, RS 19/4/2006 08:22
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Edmundo Nascimento
 

Medina !? Vídeo-Hits ?! Saudades do tempo de SP ! Esse trio aí Frank + Birck + Dreher é roquenrou "até umas hora". Jesuíno, nosso curso de música aqui da UFPB precisa de professores assim,a cademia muito erudita por esses lados, ngn do rock ! Parabéns pela matéria, desta forma ficamos sabendo muita coisa q gostaríamos de saber e não tínhamos a quem perguntar.. ehehehe.

Edmundo Nascimento · João Pessoa, PB 19/4/2006 11:43
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Eduardo EGS
 

Hermano: assino embaixo.

Diego: Santíssima Trindade! Minha lista também teria o Flavio Basso, mas esses três aí já valem pelo Rio Grande do Sul inteiro.

Eduardo EGS · Porto Alegre, RS 19/4/2006 12:13
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Hermano Vianna
 

isso sem falar em Os Futuristas, banda germânica (o blog tem design sensacional! e o som: tem horas que parece o gipsy-punk de Gogol Bordello ou Balkan Beat Box!), ou na tchê music de Tchê Guri e Tchê Garotos, animação total em qualquer baile de interior!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 20/4/2006 03:08
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Hermano Vianna
 

mestres musicais gaúchos: não esquecer de Arthur de Faria, Luciano Zanatta (Os Relógios de Frederico), Vitor Ramil (esse disco Longes é uma beleza!), Edu K (o reggaeton com Deise Trigrona é sensacional!), Flu, Tony da Gatorra (o blog é ótimo, mas tem também as músicas no Trama Virtual), Hique Gomes (por falar nele: tem show do Tangos e Tragédias no Canecão agora domingo 23/04), Nico Nicolaiewsky (aquela ópera em quadrinhos!), Os poETs, Irmãos Rocha!, Cláudio Levitan (eu tenho que arrumar um tempo para escrever aqui no Overmundo sobre aquele disco Minha Longa Milonga, uma obra-prima bem desconhecida) e muito mais!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 20/4/2006 03:09
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Thiago Camelo
 

Alô galera! A música dos Atonais está na home, lá no Banco de Cultura. Ouçam lá.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 20/4/2006 17:16
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Ana Murta
 

Aê ! Overmundo é isso aí. agora eu tenho um bocado de som pra conhecer. E pressinto que vou gostar. Valeu pessoas!

Ana Murta · Vitória, ES 29/8/2006 16:21
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Eduardo EGS
 

A lista é longa, mas vale a pena, Ana!

E ainda tem as bandas citadas no meu blog, o Churrasco Grego.

Confere lá!

Eduardo EGS · Porto Alegre, RS 29/8/2006 20:46
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Daniel Cariello
 

O Marcelo Birk tocou com o Frank Jorge aqui em Brasília uns anos atrás. Como diz o Demétrio, ele é um cara 'fora da casinha'. Ou seja, doido de pedra. Mas, ao mesmo tempo, genial musicalmente.

Essa geração de artistas e bandas gaúchos tem um grande fã-clube aqui na cidade.

Daniel Cariello · Brasília, DF 30/8/2006 14:25
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