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Triângulo das Bermudas
Estrangeiro · Rio de Janeiro (RJ) · 27/11/2007 20:20 · 78 votos · 6 comentários ·  
 
1
overponto
Não, o estrangeiro que assina este texto nunca leu Camus e, muito menos, nasceu no exterior. Em sua "naturalidade" cadastrada consta Rio de Janeiro, mas o cabra em questão é gaúcho e "tem cara de baiano", como brincam os que o conhecem. Trata-se um gaúcho que não toma chimarrão, não é branco, nunca usou bombacha e acha que o 20 de setembro tem um quê de patuscada separatista.

***

Se há um lugar com o qual me identifico hoje, este lugar é o Espírito Santo. Morei lá dos 15 aos 25 anos. Meu sotaque carregado feneceu à medida que os traços maratimbas foram ganhando terreno. O primeiro passo teve a ver com pés mesmo: abri mão dos sapatos -- e cortei raízes. Antigos símbolos de status no provinciano interior do Rio Grande do Sul, os tênis tornaram-se grilhões. Substutuí-os pelas sandálias tão longo descobri os encantos levíssimos dessas tiras de couro ou borracha.

E aí está um dos pontos fortes do Espírito Santo: a leveza, a descoberta do essencial. O Espírito Santo me fez livre. Livre da necessidade auto-afirmação racial e das posturas belicosas. A antipatia pelas tradições riograndenses guardam relação com isso: como quase-negro, era preciso, de certa forma, negá-las. Era questão de honra.

Isso explica, possivelmente, minha relação algo mística com o estado. O primeiro mito nasceu da necessidade de encontrar minhas bases, da urgência de construir uma história minha, do imperativo de construir um Rio Grande pra mim, que me explicasse/justificasse, já que o que estava dado não me pertencia. O Rio Grande com o qual me identifico tem um quê de "velho oeste" e traços de "grande sertão". É um misto das memórias de meu pai com leituras tardias de O Tempo e o Vento. É um território imaginado, um nenhures algo loco de sentidos entrecortados.

O outro mito fundamental foi o Grêmio. No ano passado, com a leitura de "Febre de Bola", de Nick Hornby, pude entender melhor minha relação irracional com o tricolor. Se Nick encontrou no Arsenal o substituto para seu pai ausente, o Grêmio foi meu elo de ligação com "o estranho mundo de Jack". Numa das tantas mudanças de escola, o futebol, antes relegado aos bastidores, passou a ocupar o palco principal. Eu devorava a Placar, mês a mês. Decorava histórias, nomes, estatística, artilharias, resultados, títulos, rankings, escalações. Foi a maneira que encontrei para cavar meus espaços, ser aceito... aquela ladainha toda, tão típica da adolescência. (Essa fase passou, mas, estranhamente, o Grêmio persistiu. Guardo com o time uma relação tão particular quanto a que guardo com o estado. Trata-se de algo meu. Nunca fui das massas, do estádio, da torcida. Minha relação com o time era silenciosa, estabelecida por meio de rituais mui sacros, encenados diante da TV. Tratava-se, sim, de uma experiência mística!).

***

O Espírito Santo representou, primeiro, a ruptura. Tudo me impelia a deixar o passado em seu lugar e redescobrir um jeito novo de viver, passando a operar em outra matriz. E não poderia existir lugar melhor pra se fazer isso. O Espirito Santo é a fronteira. Abrigo de todas as "naturalidades", o estado tem natureza antropofágica - possível herança dos botocudos de outrora - e modela a si mesmo espremendo-se entre três gigantes culturais: Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia.

Mas nem só de cariocas, mineiros e baianos se faz o Espírito Santo. Faz-se de gaúchos desgarrados, de brasilienses obscuros, de italianos mareados, de pedreiros pernanbucanos, de paulistas alucinados. O Espírito Santo é o espaço a ser descoberto, habitat de "náufragos, traficantes e degredados". Está aí o seu charme. O Espírito Santo não pede identidade. Dá pra refazer a vida (e a si mesmo) naquele espaço. Foi isso que fiz. Ganhei novo sotaque (menos imperativo, mas mestiço). Redescobri minha cor (passei, absurdamente, de preto a moreno). Aprendi a gostar de Congo e visitei o Convento da Penha no feriado. Aprendi a ter fé no Espírito Santo. Acreditei em milagres. Aquela terra, que tinha o "zero" na alma, parecia o lugar perfeito para a tentativa, para o recomeço, "para fazer certo desta vez".

E, na verdade, o Espírito Santo é mesmo esse lugar...

***

Mas aí eu vim parar no Rio e cá estou há pouco mais de um ano. O Rio eu ainda não assimilei direito. Idiossincrático ao extremo, o pêndulo invisível que me arrasta de um extremo a outro em questão de seguntos e não me permite fazer da cidade uma retrato muito nítido. Mas algumas imagens já se insinuam nos negativos gerados até o momento: se no Espírito Santo tudo é descoberta, no Rio tudo é ruína. No Rio Grande do Sul é preciso desfazer (mitos, preconceitos, complexos de inferioridade mal resolvidos); no Espírito Santo é preciso fazer, porque lá tudo é porvir; no Rio de Janeiro, é preciso refazer, porque aqui tudo desmorona.

Minha personalidade está nestes interstícios, entre o renitente, o nascente e o decadente. Não há identidade possível, nem naturalidade, nem pátria. A cultura, pra mim, é cada vez mais feita de novelos e mais novelos de linhas entrecruzadas. Andarilho, nowhere man, desgarrado: em qualquer lugar, serei eternamente estrangeiro.



PS: Este texto foi uma espécie de resposta poético-confessional ao texto "Cultura Cosmopolitismo e os Direitos Fundametais", publicado aqui. Sempre achei complicada essa discussão sobre identidade/tradição. Sempre que enclausurados, esse conceitos me parecem perder força, esgotam-se. Pra mim, na cultura, tudo é relação, intercâmbio. Toda postura taxativa, nesse campo, tem um quê de perigosa. A experiência do desterro é importante, sob esse aspecto. O ser humano precisa de raízes mais aéreas. Se não me engano, foi com raízes assim - aéreas, dispersas, díspares - que a gente fez o Brasil, não?

tags: Rio de Janeiro RJ cultura-e-sociedade cultura identidade rio de janeiro espirito santo estrangeiro


 
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Rapaz, que pancada de texto poético e útil.

Psychojoanes · São Domingos do Prata (MG) · 26/11/2007 16:20 
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Ufa, dá pra respirar um pouquinho?
Gostei.
Sem raízes aéreas corremos o risco de murar o Brasil. E haja cimento para isso.
Fabiano Merli · São Paulo (SP) · 26/11/2007 17:21 
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Gostei muito do texto, apesar da parte do Grêmio. Mas vá lá! Ninguém, nem um texto, é perfeito.
Fabinca · Chapecó (SC) · 26/11/2007 18:33 
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O sorriso que eu dei ao acabar de ler o texto foi suficiente para não precisar comentar nada. Demais!
vdepizzol · Ibiraçu (ES) · 26/11/2007 21:02 
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Para quem nunca saiu do berço, suas palavras abriram um horizonte gigantesco.
Muito, muito bom!

Beijos

Saramar · Goiânia (GO) · 26/11/2007 21:52 
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Parabens, muito bom texto, mas uma perguntinha: Por que brasilienses obscuros?
bjao
gabriela chaves · Brasília (DF) · 27/11/2007 01:22 
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