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Tributo Ao Calor

Matéria de capa do Jornal do Brasil... a que me fez desmaiar.
1
Tjago · Vitória, ES
12/2/2007 · 30 · 5
 

Aproveitando meu dia de folga, estava eu caminhando pela orla de uma praia de Vitória, debaixo de um sol forte e com minha indumentária sempre preta. Eu achava que seria um dia lindo, apesar da barriga estar roncando. Trabalhara as últimas 16 horas ininterruptas por conta de uma Feira de Mármore e, pelo mesmo motivo, ficara alheio ao que acontecia no mundo ao meu redor.
Não sou adepto da cultura praiana, o que é até um insulto à minha 'mineirice', mas vejo tudo aquilo como uma bela paisagem e não mais que isso. Minha cidade natal é mais quente que aqui, o que deu a ela o título de capital nacional do vôo livre e também o apelido singelo de ‘sucursal do inferno’. A propósito, desloquei-me de lá até aqui, dentre outros motivos, para poder trabalhar com pessoas frias e calculistas, responsáveis pelo sucesso de grandes empresas. Por considerar isso uma qualidade, assumo que tenho uma quota secreta de descontos, estabelecida por mim para tentar não julgar alguns homens de negócio no momento em que eles chamam funcionários (ou seres humanos) não pelos nomes, mas por números. Embora eu não tenha vivido a experiência da demissão, eu sei muito bem o que sente alguém ao receber a notícia inusitada. Alguns descoram, têm queda de pressão arterial e até ameaçam desmaiar. Alguns devem me achar um monstro, mensageiro do mal capitalista e insensível ao fato de todos eles possuírem família.

E de tanto me enxergar nos olhos deles, eu já até tinha me convencido da mesma coisa. Até que hoje eu saí pra passear e me permitir ter um dia agradável e louvar a mim mesmo pelos bons negócios fechados cujo trâmite dependia de mim para lograr êxito. Embora houvesse passado apenas algumas horas, eu imaginava que as matérias de capa nos jornais locais seriam referentes ao nosso sucesso; aditivando o setor com maquinário que faz o trabalho para muitos homens, demitindo gente e, assim, 'aquecendo' a economia local. Mas não, nem mesmo uma matéria sequer sobre o assunto. Em vez dela havia estampada a foto de um menino comum, na capa de pelo menos todos os jornais do Brasil. O menino podia ser comum, mas sua morte jamais teve precedentes por aqui e talvez em nenhum lugar do mundo. Um caso que já nasceu clássico e que fez o dia ensolarado de muita gente parecer uma terrível nuvem negra de temporal.

João Hélio seria jogador, como sugere o trecho da matéria que consegui ler. Ou então seria empresário, artista, verdureiro, mas pela alegria de ter feito um gol por sua escolinha de futebol, imaginava-se que era mais que evidência de uma vida próspera como 'o mais novo futuro ídolo' de uma paixão nacional, o futebol. Imagine uma torcida inteira gritando o nome do "Helião", se fosse de alta estatura, ou "Helinho" se fosse baixinho. Mas o importante seria ter um nome que enchesse a boca ao falar, mesmo que fosse nos botecos da vida; telão ligado e um bando de homem matando serviço só pra ter o gostinho de perder o controle das batidas do próprio coração, no momento triunfal, o gol de placa.
O menino poderia despertar o amor de muitos e também a agonia de outros tantos, mas jamais deveria ser vítima da indiferença.
Mas o menino morreu após ser arrastado por um veículo em alta velocidade, percorrendo 7km através de 4 bairros do Rio de Janeiro. Para quem não sabe, uma pessoa adulta sedentária leva em média 1h para caminhar cerca de 3,5km, ou seja, seria preciso 2h para concluir a pé o equivalente à via dolorosa do pequeno João Hélio. Enfim, uma eternidade para ambos os casos.

Da matéria eu li pouco, eu confesso, pois assim que parei na banca pra comprar picolé, eu fui atraído pela chamada do jornal que incitava a população a pensar no ‘melhor’ fim para bandidos com tamanha insensibilidade. Para meu azar eu já abri no fluxograma que mostrava com detalhes o itinerário dos bandidos. Quando eu li a legenda que explicava que um motoqueiro ajudou a polícia a localizar a cabecinha da criança, foi então quando passei mal. Descorei, senti a pressão cair em questão de segundos e não apenas ameacei, eu desmaiei. Escorado contra a lataria da banca, agarrado ao jornal que eu nem tinha pago ainda, só recobrei a consciência ao som de algumas vozes ‘filosofando’ a meu respeito. Uma delas até questionou se eu havia sido demitido, afinal eu apresentava todos os sintomas que fazem de um recém-desempregado, um verdadeiro arquétipo. A outra sentenciou: “- ele ‘tá bêbado”, e saiu de perto em passos largos carregando uma menina a tiracolo, como quem diz: “- não se misture com essa gentalha”! Mas houve uma voz ‘sensata’, a do jornaleiro. “- Bandido ele não é, porque bandido ‘mermo’ sai correndo e nem olha pra trás”, e prosseguiu “- ele desmaiou por causa do calor”!

No momento em que a frase foi proferida, é importante dizer, não houve pausa e eu senti um arrepio tão grande de imaginar como nossa sociedade já aceita com facilidade o perfil de um criminoso como aquele que passa por você, leva algo seu e não olha para trás. Pode ser sua carteira, sua bolsa, seu celular, mas pode ser também seu filho de 06 anos que só queria ser feliz... só queria ser criança... só queria ‘ser’.
Não uso o espaço do blog para debater a produção cultural brasileira no sentido da AÇÃO, aliás, muito pelo contrário. Sei que existem coisas lindas sendo produzidas hoje no Brasil, apesar de que muitas delas levam uma assinatura verde-e-amarela, mas não passam de herança de uma cultura estrangeira. Mas a cultura que impera no Brasil, independente de nível social ou acadêmico, não é a cultura do Dadaísmo, nem do Cubismo, nem dos outros ‘ismos’ da história da arte, mas sim a cultura do COMODISMO. O quadro que já foi pintado é feio e não merece noite de gala.

Estamos viciados em violência, mesmo reprovando-a. O jornal pode até ser bom e tradicional, mas cumpre mais que seu papel de informar, passando também a opinião coletiva de uma sociedade primitiva. O retrato do povo brasileiro é revelado em uma câmara escura, como nos tempos em que não havia máquina digital. No subconsciente de cada um, a resposta para pergunta “- O que eles merecem?” vai parar na ponta da língua... e não estamos falando de ‘tratamento’ ou ‘amor’. Aliás, amor nem passa pela nossa cabeça diariamente, muito menos diante de uma matéria de jornal que nos estimula a pôr pra fora todo o nosso mal velado. Como dizia a música under pressure, “- (...) o amor é uma palavra tão fora de moda / e o amor te desafia a se importar com as pessoas (...)” e por isso nós dizemos ‘sem querer’: “- pena de morte neles” e quando nos damos conta que essa discussão não leva a nada por tratar-se de uma causa pétrea, então escolhemos o mais fácil ainda... “- Linchamento”!
Até eu pensei nisso enquanto recobrava consciência e reconheço que alimentei a idéia durante os segundos em que me vi diante de um espelho imaginário me descrevendo como co-autor de muitos crimes por tirar o ganha-pão de alguns bons homens.

A luta comigo mesmo não estava vencida, mas eu poderia muito bem adiá-la. Nem foi necessário, pois achara um para tecer uma teia de cumplicidade; o jornaleiro que a mão estendia não para me ajudar a levantar, mas para se certificar que eu ainda me lembrava de pagar o jornal amarrotado contra o peito. De fato eu não queria mais aquilo, além do mais eu nem cheguei a ler direito. Eu não devia ser obrigado a pagar por algo que eu ia jogar na primeira lixeira, mas eu paguei pra me ver livre do ‘constrangimento’ de ter que explicar que eu passei mal por causa de uma criança que foi vitimada pelo mesmo sistema ordinário do qual eu faço parte. E ainda não é tudo porque do que mais me arrependo foi ter abanado meu rosto com o jornal enquanto negava que o sol quente mais minhas camisas escuras nunca foram problema, pelo menos não pra mim. Afinal de contas, até debaixo de muito sol, o que "eles merecem" é o que nós também merecemos e carecemos: muito, mas muito calor... calor humano.
Porém ninguém nunca vai entender se eu continuar abanando meu rosto com a foto de um anjo.

****************************************************

“o gelo da vida louca congelou os corações, mas eu sempre peço paz em minhas orações... alívio, meu deus” - APC 16

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Tjago
 

CORREÇÃO "(...) Eu não devia ser obrigado a pagar por algo que eu ia jogar na primeira lixeira (...)" e também "(...) E ainda não é tudo porque do que mais me arrependo foi ter abanado meu rosto com o jornal enquanto negava que (...)".

Tjago · Vitória, ES 10/2/2007 12:46
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Ilhandarilha
 

Acho que todos nós passamos mal com a notíca.
Texto emocionado, Tiago. O problema é que todos acabamos jogando o jornal na lixeira e cuidando da nossa própria vida. Sem ação e sem coração.

Ilhandarilha · Vitória, ES 12/2/2007 08:29
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Tjago
 

não por mim, mas queria que as pessoas lessem o texto.
sinto que é a parcela de contribuição que posso dar depois de tanto errar buscando meus próprios interesses.
sei que o mais importante de tudo que foi dito é sim o pequeno João Hélio, mas sei também que, além de minhas palavras não chegarem até a família, elas jamais serviriam para confortar alguém com uma dor sem fim.
por isso eu dedico o texto aos visitantes do overmundo porque julgo serem pessoas inteligentes e sensíveis e podem muito bem mudar o mundo com pequenos gestos.

Tjago · Vitória, ES 12/2/2007 11:33
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Ilhandarilha
 

Essa sua reflexão me lembra aquela música do Rappa que diz: "Paz sem voz, não é paz, é medo.(...) qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz"

Ilhandarilha · Vitória, ES 12/2/2007 12:23
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Tjago
 

assisti a uma entrevista na rede Cultura com Rudi Lagemann, o diretor de "Anjos do Sol" e ele dizia que o brasileiro é o povo que é passivo no que concerne ao coletivo e colérico no particular. Em outras palavras, nós não damos a mínima quando o problema é na casa do vizinho, mas quebramos o pau quando pisam no nosso pé.
pior de tudo é que ele dizia isso descrevendo a seguinte cena: um 'gringo' na beira de uma praia nordestina sendo abordado por uma menina que aparentava ter 5 anos, vendedora de picolés (eu acho)... e enquanto ele comprava, ele também tocava a genitália da criança... e ninguém fez nada para impedir, incluindo o sr. Lagemann :-(

Tjago · Vitória, ES 12/2/2007 23:59
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