Trilha sonora para olhos e mentes

Delfin
Todos os caminhos musicais levam à Mojo Books. E o vice-versa vale de verdade!
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Delfin · São Paulo, SP
26/3/2007 · 312 · 21
 

Em dezembro de 2006, o público brasileiro consumidor de cultura foi confrontado por uma questão intrigante: e se discos fossem tornados literatura? Uma evolução lógica de experiências, que passam pelas referências da novíssima leva de autores surgida principalmente desde o final dos anos 90 e tocam em nomes como Nick Hornby e Douglas Coupland (e, no Brasil, em escritores tão diversos como André Takeda e Clarah Averbuck). A pergunta foi proposta pelos editores Danilo Corci e Ricardo Giassetti, que tocam a Mojo Books, editora virtual que disponibiliza gratuitamente, todas as semanas, livros baseados em discos.

Não há discriminação em relação a estilo, tamanho, ideologia e nacionalidade, tanto das obras originais oferecida pela Mojo, sob licença Creative Commons, quanto das obras musicais que serviram de inspiração para os livros digitais. Segundo Giassetti, a criação de uma ponte entre os universos da música e das letras pode criar ou resgatar o hábito da leitura em um público crescente. A editora, baseada em São Paulo, oferece no momento apenas livros em português, mas já estão sendo preparados os primeiros livros em espanhol e inglês, por autores nativos destas línguas, para o segundo semestre de 2007.

Corci e Giassetti, nos anos 90, foram integrantes de uma banda que utilizava referenciais literários para a composição musical. Em parte, esta experiência guiou Danilo para a criação dos alicerces fundamentais da Mojo, iniciando em fevereiro de 2006 um processo de pesquisa sobre os diversos formatos de e-books e as propostas oferecidas ao mercado brasileiro. Os meses que se seguiram até o lançamento do selo literário foram preenchidos pela criação da infra-estrutura necessária para a viabilização do projeto, bem como o contato com os autores para a produção dos livros iniciais da editora.

Como modelo de negócio aberto, os editores enfatizam que a música e a literatura, como aspectos de interesse coletivo, devem ser disponibilizados a um público menos restrito. A gratuidade da distribuição de seus produtos é a linha de frente da Mojo Books, sendo que a internet e as licenças CC viabilizam que isto aconteça hoje em dia. Também a interação com o leitor é um princípio que será cada vez mais enfatizado, além da busca por movimentos comerciais fora da grande rede. Giassetti afirma, por exemplo, que editoras já se ofereceram para lançar coletâneas de e-books e alguns sites fizeram propostas monetárias pelo conteúdo. Segundo o editor, tais propostas foram declinadas pelo fato da editora ser um projeto em crescimento, tanto de modo estrutural como em termos de catálogo, e que, em alguns meses, haverá melhores alternativas para se negociar o conteúdo produzido.

O público-alvo primordial da Mojo Books são pessoas de 15 a 50 anos, consumidoras de cultura, notadamente música e literatura. Existem ferramentas no site da editora que permitem uma análise de hábitos de seu público e, segundo estas, neste primeiro momento pessoas com as características de formadores de opinião têm sido o leitor mais enfático. São pessoas com interesses pesados em internet, com blogs e sites muito acessados, jornalistas e músicos. Talvez por isto, segundo os editores, o projeto tenha alcançado um número expressivo de exposições espontâneas nos meios de comunicação – apesar de, claro, existir um esforço de divulgação por meio de uma assessoria de imprensa.

Apoiada pela revista eletrônica Speculum e também parte juridicamente integrante desta, a editora tenciona firmar parcerias que auxiliem na viabilização de novos projetos, tanto de modo financeiro como para a transposição destes para outras mídias. Giassetti explica que a idéia central da Mojo, a tal questão inicialmente proposta, pode ser transposta com sucesso para mídia impressa, televisão ou até mesmo sonora – o que criaria uma renovação cíclica da proposta. Ainda assim, o projeto ainda não avançou rumo a modelos tradicionais de negócios, devido ao seu pouco tempo de existência: o planejamento inicial prevê que estes sejam efetivamente iniciados após o fim do primeiro ano de atividades, algo que, segundo os editores, provavelmente será rediscutido, graças à superação das expectativas iniciais.

O pioneirismo de se oferecer este formato cultural, agregando literatura à música em forma de livros digitais, é o ponto central da estratégia de crescimento e sustentação no mercado. As derivações comerciais deverão ser conseqüências diretas da opção primordial adotada pela Mojo Books. Para isto, estão sendo identificados nichos de mercado que permitam futuras segmentações do processo. Um exemplo poderia ser a massificação de livros baseados em MPB para mercados externos, como o europeu e o japonês. Para isto, a internet provém à editora um meio eficaz para a experimentação, além de permitir a sustentação do projeto de forma independente.

Mas dá para participar desta iniciativa, sem concorrência no país e, até onde se apurou, também sem par no exterior? Segundo Corci, completamente. Todos que quiserem produzir e criar para a Mojo podem submeter materiais para a editora, igual ao que se faz com uma editora tradicional. Vale lembrar que todo o material será licenciado necessariamente por uma licença Creative Commons, que é discriminada integralmente em cada edição Mojo. Ocorrem, claro, convites feitos a autores pela própria editora, mas uma das coisas legais do projeto é poder trazer à luz autores novos ou estreantes, prestigiando estes, em caso de aprovação do projeto de livro, com um ambiente profissional para o desenvolvimento de sua obra. Mas o editor avisa que a gestão do negócio está aberta apenas aos parceiros comerciais deste.

Danilo Corci aponta que uma das principais dificuldades do projeto é encontrar novos autores dispostos a apostarem no projeto. Esta tendência, no entanto, pode ser uma impressão inicial: a editora informa que seu cronograma está com quatro meses de gaveta (ou seja, ao menos 16 novas edições já estão prontas) e este fôlego, claro, é fundamental para a avaliação mais acurada do material crescente que chega para avaliação dos editores.

Com conteúdo totalmente original e respeitando os direitos de cada escritor segundo as leis vigentes, estão garantidos os futuros ganhos dos autores, mediante contrato por prazo de tempo, caso haja futura comercialização de seus materiais intelectuais. Direitos estão também garantidos aos distribuidores de conteúdo, também por meio de contratos. Há duas motivações para tais garantias. Uma delas é a ética, ou seja, se a editora lucrar com o produto que idealizou, por que não também os que colaboraram para que este fosse construído? A segunda é que, agindo desta forma, é, além de algo justo, também uma garantia de produção de conteúdo, com conseqüente aumento de catálogo e, assim, há maiores possibilidades de comercialização deste, o que é bom para todos os envolvidos.

Segundo os editores, sem as novas tecnologias, o projeto não seria possível. Além da Mojo Books ter sido desenvolvida em cima de ambiente digital, os meios convencionais possuem as amarras da convencionalidade, o que restringiriam a abrangência do projeto e, também, as possibilidades de experimentação deste. Acrescentam que, apesar da dificuldade de grande parte da população em ter acesso aos meios digitais, o perfil da Mojo foi desenvolvido para atingir um público inicial que já está habituado a ele. Portanto, ao menos por ora, tal empecilho não atinge o público-alvo original do projeto, que atualmente é bancado pelos seus idealizadores e ainda não é auto-sustentável.

Por isto e também por ser uma iniciativa recente, os custos até agora estão dentro das margens de gastos previstos para a implementação do mesmo, como hospedagem de site, taxa de transferência de dados, direção de arte e edição. Previsão de retorno financeiro? Não para agora, mas para um futuro próximo, também previsto com antecedência no planejamento inicial da editora; algo possibilitado pelo fato de que a Mojo é uma iniciativa paralela às atividades principais executadas pelos envolvidos no projeto. Mas os números prometem: para um país que lê pouco, são baixados diariamente 80 livros, totalizando mais de cinco mil downloadas até agora, para um público leitor de aproximadamente duas mil pessoas, devidamente cadastradas pelo site.

Expectativas? De imediato, conseguir um forte patrocínio e a remuneração dos autores envolvidos. Para que isto aconteça, a diversificação já começou: além da já citada expansão de línguas em que os Mojo Books poderão ser encontrados (cujo primeiro passo é a América Latina), algumas variações sobre o tema inicial estão sendo desenvolvidas, como os Mojo Singles (baseados em apenas uma música), Mojo Boxes (livros especiais e maiores, baseados em coleções e discografias), Mojo Comix (música vertida para quadrinhos) e Mojo Kids (discos transformados em livros infantis). Tudo muito coerente e, segundo Giassetti, porque há um conceito forte e este é o principal diferencial da editora. Porque, como ele lembra, muitos outros sites disponibilizam e-books, bem como muitos blogs disponibilizam letras e músicas; mas nenhum agrega as melhores qualidades e potencialidades destes meios em conjunto. Além, claro de ser um investimento de alta qualidade em literatura em língua portuguesa.

Este investimento tem feito sentido, em grande parte, devido ao apoio do usuário de meios digitais. Não são apenas leitores, mas também aliados e vigilantes constantes do processo, apontando falhas e possíveis melhorias para este. O grande erro de muitos é ficar alheio ao seu público e, segundo Corci, se alguém se decidir por iniciar um projeto que envolva internet, a recomendação é a de nunca subestimar os usuários. E é um caminho a ser seguido naturalmente no futuro, devido à facilidade de difusão e criação que as novas mídias permitem. “O alcance global permite ações de impacto, o que, de certa maneira, mudará a maneira de entender a propriedade intelectual, que deixará de cumprir apenas uma legislação específica de um país para cair numa regra ética e geral que será desenvolvida pelas novas tecnologias”, afirma o criador da Mojo Books, que pode ser acessada em www.mojobooks.com.br.

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Egeu Laus
 

Beleza de matéria, Delfin!
Já vou lá visitar a Mojo... : ))
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 23/3/2007 10:05
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Egeu Laus
 

...e os projetos gráficos estão ótimos!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 23/3/2007 10:10
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eduardo ferreira
 

grande delfin: grande texto e com ótimas novidades desse fabuloso mundo cibernético. gosto de ver a literatura experimentando novos procedimentos. parabéns.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 26/3/2007 13:11
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Oona Castro
 

é genial essa fusão de artes! Design, literatura, música... será qe ainda vou descobrir algo novo? maravilha, delfin!

Oona Castro · Rio de Janeiro, RJ 27/3/2007 00:19
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André Gonçalves
 

excelente. adorei a proposta, e muito boa a matéria. vou correndo lá.

André Gonçalves · Teresina, PI 27/3/2007 11:40
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jujuba
 

Putz! Que doidera! Adorei a idéia!

jujuba · Santo André, SP 28/3/2007 00:18
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Faa
 

Muito maneiro!!!
Mandou muito bem cara!!!

Faa · Brasília, DF 28/3/2007 11:53
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Marcelo Bretton
 

A idéia em si pode não ser tão nova (inovadora, é), mas a coragem do Corci e do Giassetti em levar tal projeto adiante é louvável até os píncaros! Já enviei a minha contribuição ao MOJO BOOKS baseado no álbum "Yoshimi Battles The Pink Robots" dos Flaming Lips, banda que adoro com paixão insuspeita e, estou na fila de publicação.

Marcelo Bretton · Espanha , WW 28/3/2007 11:54
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Delfin
 

Vai ser bacana fazer uma capa do Flaming Lips!

Delfin · São Paulo, SP 28/3/2007 11:56
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Fernanda Lizardo
 

Que curioso! Foi exatamente assim que nasceu minha Cooper! Usei a letra de uma música homônima para desenvolver o trajeto da personagem / alter ego. E, quando escrevi o livro baseado no blog, adaptei trechos exatinhos da canção para contar a história. Inclusive o desfecho. Abraços!

Fernanda Lizardo · Rio de Janeiro, RJ 28/3/2007 12:59
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SILVASSA
 

o do pixies é do caralho

SILVASSA · Salvador, BA 28/3/2007 13:32
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Poeta Jorge Henrique
 

Beleza de matéria. Muito bom.

Poeta Jorge Henrique · Nossa Senhora da Glória, SE 28/3/2007 17:48
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Ana Beatriz Guerra
 

Música + literatura, uma combinação eternamente charmosa. Parabéns pela matéria, Delfin! Abraço.

Ana Beatriz Guerra · Rio de Janeiro, RJ 28/3/2007 20:43
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Pedro Vianna
 

Simplesmente demais!
Vou agora mesmo ver o site...
Bela matéria.

Pedro Vianna · Belém, PA 28/3/2007 21:06
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
zender
 

Mega idéia, que como disse o Marcelo, em si não é nova, mas me parece ter o fôlego necessário pra ir muito, muito adiante.
Já peguei os meus books e a madruga será uma criança!

E divulgar também me faz um bem...

Todo o sucesso do mundo

zender · Rio de Janeiro, RJ 29/3/2007 01:15
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Milena Azevedo
 

Mojo Books é a pedida! Grande idéia, excelente matéria!

Milena Azevedo · Natal, RN 29/3/2007 08:35
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ella
 

Cara a Mojo Books é demais. Estou louca pra escrever algo pra lá. Só não sei o que ainda...

ella · Cametá, PA 29/3/2007 11:56
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Jessyca. .maasfe.
 

Simplismente Ph_oOdastico ...

uma idéia que nos leva á mundos, antes, inimagináveis ..

Jessyca. .maasfe. · São Paulo, SP 29/3/2007 13:47
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Giassetti
 

Quantos comentários, quanta energia chegando aqui na MOJO impulsionando nosso projeto cada vez mais pra frente. Obrigado a todos que nos visitam, baixam, criticam, tietam, ajudam...
A MOJO está aberta a idéias. Sempre.

Giassetti · São Paulo, SP 4/4/2007 12:48
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Ludmila Ribeiro
 

sempre em tempo: essa iniciativa é muita boa. e a matéria divulgou bem os atrativos e perspectivas da MOJO. linkei!

Ludmila Ribeiro · Belo Horizonte, MG 26/1/2008 14:25
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businari
 

o trabalho da mojo é mesmo muito bacana, legal ter postado!

businari · São Vicente, SP 16/2/2008 01:29
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