(Tríplices) Fronteiras literárias

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Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS
10/8/2011 · 32 · 2
 

Escritor brasiguaio, Douglas Diegues faz uma reflexão sobre o portunhol selvagem, idioma híbrido adotado por ele próprio

O portunhol selvagem não é uma língua. Muito menos um movimento. Enquanto o português é forçado a um acordo ultramarino de padronização, o portunhol selvagem surge como uma opção de liberdade. “O portunhol selvagem é free!”. O autor da frase é o poeta carioca de nascimento, mas “brasiguaio” de coração, Douglas Diegues. Morador de Assunção, ele vem, desde 2007, a transgredir os limites estabelecidos pelas “academias linguísticas” com uma literatura baseada no indomável portunhol selvagem, que utiliza o espanhol, o guarani e o português, mas que tem espaço para palavras em qualquer idioma.

Douglas já traduziu vários livros para o portunhol selvagem, inclusive o clássico O corvo, de Edgar Allan Poe. Ele mesmo já publicou Da gusto andar desnudo por estas selvas (2003), Uma flor (2005), Rocio (2007), El astronauta paraguayo (2007), La camaleoa (2008), DD Erotikon &; Salbaje (2009) e Sonetokuera en Alemán, Portuniol Salvaje y Guarani (2009). Inspirado em Manoel de Barros – de quem é amigo pessoal – e inspirador de escritores como Xico Sá, ele e seu portunhol selvagem são um abrigo seguro para o modo de falar que vem das ruas e que dispensa dicionários.

Com exclusividade, Douglas respondeu as perguntas da entrevista no seu idioma pátrio. Mas nem poderia ser diferente, pois é este o modo natural do escritor se expressar, assim como a maioria das pessoas que habita a fronteira de “dentro” do Brasil.

Quando e como surgiu o portunhol selvagem?

El portunhol selvagem surgiu por si mesmo hace um par de siglos... Desde os trovadores galaiko-portugueses, Martin Codax et allia, puedo verificar la erristencia dum proto-portunhol selvagem... Después, Souzandrade, el romantiko maranhense, com suo Inferno de Wall Street, en que mixturava latim, tupi, italiano, ingles etc. No puedo omitir a Juana de Ibarbourou (1892-1979), com su prosa portunholensis. Em James Joyce y Guimarães Rosa se encuentran vestígios vários de vocablos formados por palabras de duas ou mais lenguas. Después, Haroldo de Campos y proesia de las Galáxias, onde se puede leer algo de portunhol selvagem em muitos fragmentos. Assim llegamos al papyro mais rarófilo de mio cumpá Wilson Bueno, el Mar Paraguayo, que me inspirou a full a fazer literatura en portunhol selvagem sem imitarlo servilmente, quando fiz mio primeiro libro, Dá gusto andar desnudo por estas selvas, que es a la vez el primeiro libro de poesia em portunhol, um libro magro, raquitiko, com másooménos 40 sonetos selvagens shakespeareanensis... Depois aparece Cavaleiros solitários rumo ao sol poente, de mio bróder Xico Sá, que me viu leyendo textos em portunhol durante um encuentro organizado pelo grande Nelson de Oliveira em 2006 nel Itaú Cultural de la abenida Paulista, que le inspirou a escribrir esse hermoso romance selvagem a caballo sobre la noite mais hot de San Palo city...

De onde vem o termo portunhol selvagem?

Lo inventei yo mismo, aqui en la frontera, para diferenciarlo del portunhol comercial, generalmente utilizado en telenobelas y otros programas de la Rede Globo, del portunhol de los turistas kurepas, del portunhol de los avisos publicitários rioplatenses y del portunhol papai-mamãe em geral...

Em tempos de politicamente correto, o portunhol selvagem vai contra a corrente?

El portunhol selvagem es uma liberdade de linguagem que nunca caberá inteiro dentro de los limites de lo politicamente correto... Es un lenguaje que existe enquanto habla, kanto, escritura, pero que non existe como idioma. Por isso digo que non conbiene gramatificarlo. Gramatificarlo seria castrarlo. Ofizializarlo seria como suicidarlo. Me parece lindo que siga assim, klande, transnacional, libre como algo que se parece a nada parecido.

Quais os fundamentos principais do portunhol selvagem?

Repito lo que ya disse uma vez al Mariskal Costa e Silva, que dirigia el suplemento literário del saudoso Jornal do Brasil: (El portunhol tiene forma definida.) El portunhol selvagem non tiene forma. (El portunhol es um mix bilíngue.) El portunhol selvagem es um mix plurilíngue. (El portunhol cabe em qualquer moldura.) El portunhol selvagem non cabe em moldura alguma. (El portunhol es bisexual.) El portunhol selvagem es polisexual. (El portunhol es meio papai-mamãe.) El portunhol selvagem es mais ou menos kama-sutra. (El portunhol es urbano y post-modernus.) El portunhol selvagem es rupestre y post-porno-vanguardista. (El portunhol es binacional.) El portunhol selvagem es transnacional. (El portunhol es determinado.) El portunhol selvagem es indeterminado. (El portunhol tem color.) El portunhol selvagem non tem color. (El portunhol es um esperanto-luso-hispano-sudaka.) El portunhol selvagem es uma lengua poétika de vanguarda primitiva que inventei para fazer mia literatura, um deslimite verbocreador indomábel, uma antropófagica liberdade de linguagem aberta ao mundo y puede incorporar el portunhol, el guarani, el guarañol, las 16 lenguas (ou mais) de las 16 culturas ancestraes vivas em território paraguayensis y palabras del árabe, chinês, latim, alemán, spanglish, francês, koreano etc. (El portunhol pode ser dulze). El portunhol selvagem talvez seja mais trilce. Resumindo sem concluziones precipitadas: el portunhol selvagem es free...

Cabem todas as línguas no portunhol selvagem?

El portunhol selvagem es del tamanho de mio korazon, que es mayor que el universo, enton cabem muchas coisas, incluso todo lo desconocido infinito sem nombre...

O portunhol selvagem já é falado naturalmente pelos brasiguaios? Fale um pouco sobre quem são estas pessoas que inspiraram e que praticam o portunhol selvagem...

Fala-se um portunhol selvagem en las zonas mais obscuras de la triple frontera. Cuando un paraguayo tenta falar portugues ele fatalmente mixtura espanhol com guaraní y portugues, cujos detalles pode ser muy inspiradouro para hacer uma literatura mais selvagem. Sim, las personas simples de las feiras y mercados populares, el pueblo inbenta lenguas de la triple frontera, son los que creadores de muchas palabras y giros que utilizo en mios textos...

Para mim o portunhol selvagem soa como um grande grito de liberdade e uma excelente provocação à nossa ABL e todos os “acadêmicos”. Utilizar o portunhol selvagem tambem é uma postura política?

Sim, los puristas odeiam y odian el portunhol selvagem porque rompemos los esquemas de la lengua única... Non temos apoyo del estado... Transitamos libremente de um lado ao outro y confundimos hasta la dissolucione las fronteras idiomáticas establecidas... Es una anarkia feliz que non necessita mais ser feliz kontra el aburrimiento ofizialesko y servil...

Você tem grandes aliados no movimento do portunhol selvagem, como Manoel de Barros e Xico Sá... O portunhol selvagem é um movimento?

Primeiro: el movimento del portunhol selvagem es um non-movimento... Segundo: Manoel de Barros es mio amigo, mio abuelo poétiko selvagem, parte de minha formacione en Letras fueron las visitas a ele em Campo Grande, las conbersas na sala de sua casa de la Rua Piratininga... Ele sempre me estimulou a fazer uma literatura própria, com minha propia voz, com minha ignoranza propia, com meu nada pessoal intransferíbelle... Xico Sá conoci en 2006, durante aquela lectura que fizemos juntos nel Itaú Cultural... Yo le di Uma flor, ele me deu suo Catecismo pornô. Ficamos amigos, después ele veio a Asunción, y numa noche selvagem y borracha fundamos el movimento del non movimento del portunhol selvagem... Fizemos tanto barulho que buena parte del continente y hasta Ouropa ouviram y se dieron cuenta que nem tudo ainda se habia dicho mismo después de todo supuestamente haber sido dito deste y del outro lado de las fronteras geopolíticas y literárias de tutti la Gluebolandia...

O que o Campo Grande e Ponta Porá, em MS, e Assunção, no Paraguai, têm a ver com o portunhol selvagem?

Entre esses lugares, essas hermosas citys salvajes, essas aldeias urbanas posmodernas, estan los non lugares, los vazios primitivos, los nadas vegetaes, las tierras de nadie desde onde brotam los portunholes selvagens como flores tipo hongos de la buesta de las vakas... Es uma lengua alucinógena que se non faz bem también non faz ningum mal a la gente... Puede que expanda percepciones y deixe lectores menos burros, menos mezquinos, menos serviles a la tirania del mercado, seja mercado literário, merkado akademiko, merkado sexual, merkado ekológico etc.

O guarani naum deixa de ser uma língua de resistência de um povo massacrado pelos outros hermanos. O Brasil falou ne-en-ga-tu (ou nhengatu) até os 1700. Como esta língua se insere no portunhol selvagem e como é a realidade atual de Assunção e Paraguai com o guarani?

El guaraní es uma lengua hermosa que nadie sabe al cierto de onde viene... Nem mio amigo el Pá í Melià, autor de la única História de la lengua Guarani, sabe al cierto de donde viene la lengua guarani... Los kantos enkantatórios del Ayvu Rapyta, los textos mítikos de los mbyá-guarani del Guairá, kompilados y traduzidos al castellano-paraguayo pelo grande León Cadogan, son una bella amostra del vigor poétiko de una de lo guaranitiko en uno de suos momentos mais expressivos... Es notable, de hecho, que el guaraní pudo lograr sobrevivir a tanta tirania, tanta mezquinaria, tanta maldade...

Sua mãe é hispano-guarani e seu pai carioca. O portunhol selvagem já vem do berço?

Myriam Avila notou algo que me parece interessante, que mio portunhol selvagem non es um teatro, uma encenacione, es algo vital, visceral, porque brota de mim mesmo, de minhas bolas, de mio esperma, de mios desencontros, de mios fracassos, de mio ser y sua circunstancia... Minha mãe, la xe sy, es hija de um espanhol y uma paraguaya descendente de paraguayos y guaranies... Meu pai es um carioca, descendente de baiano y uma carioca trilce, que minha abuela era mucho mais que dulce... Meu pai fue amigo de Nelson Rodrigues, Sergio Porto, Juscelino Kubitschek, trabalhou na revista O Cruzeiro. De modo que yo nasci del amor entre um brasileiro e uma paraguaya, de la sedución entre las culturas brasileira y paraguaya-guaranitika... Isso, obviamente, es una influencia, significativa, em cada linea que escrevo, mayor que la de las literaturas que curto...

Como você analisa a reação da “intelectualidade brasileira” ao portunhol selvagem quando vai a encontros como o de Paraty, por exemplo?

La intelectualidade brasileira, muy ouropeia, muy purista, muy esnobe, sigue mais feliz y sorridente que nunca, seja bajo el sovaco de la estátua del cristo no Rio de Janeiro, ou a la sombra de las bolas de la estátua del Borba Gato, em Sampaulandia... Yo nunca fui a Paraty... Uma vez uma jornalista da Folha de São Paulo me disse que viu meu nome em uma lista da Flip, mas después alguém foi contra, y cortaram meu nome de la lista... Fui a Puerto de Galinhas, Berlin, Buenos Aires, Rosário, Asunción, São Paulo, mas nunca deixei la gente em bola, sempre muy aplaudido, mismo por gente que non entendia direito el portunhol selvagem mas sentia la energia de vanguada primitiva... Em la Feria del Libro de Buenos Aires, em 2006, um menino kurepi disse que yo era meio degenerado... Yo le respondi que mio portunhol, y non yo, es que era degenerado...

Mais informações no blog
http://portunholselvagem.blogspot.com/

*Esta matéria foi editada e faz parte da edição nº 2 da Revista Overmundo.

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Doroni Hilgenberg
 

Muito interessante!!! bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 8/8/2011 20:54
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Rodrigo Ostemberg
 

é a Cultura PURA de nosso Estado, atravessando a fronteira literaria. "O desinteresse causa ao não interessados a curiosidade" por mim mesmo :)

Rodrigo Ostemberg · Campo Grande, MS 19/8/2011 10:36
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