Tropa de Elite e No Country for Old Men

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Arthur Tuoto · São Paulo, SP
2/3/2008 · 200 · 17
 

Tratado da violência e sua natureza.

“Tropa de Elite” teria muito o que aprender com o filme-tese dos irmãos Coen. Enquanto Padilha prefere usar a violência para nitidamente vibrar com seu Capitão Nascimento, os irmãos norte-americanos criam um melancólico e sério panorama do que vem a ser uma natureza violenta e toda a irracionalidade e destruição que ela carrega.

O problema de todo o universo “Tropa de Elite” ainda vem sendo justamente o discurso de José Padilha. Ao mesmo tempo em que ele se refere ao filme como uma crítica a polícia e seus métodos; na prática, toda a mise-en-scène de Padilha no filme vibra com essa mesma polícia. Isso é, a força e o movimento do BOPE “cativam” e divertem. Conseqüentemente o filme serve não para a população desaprovar o método e a imagem do BOPE, mas para incentivá-lo e ver como uma possível única esperança. Para complicar existe a pessoa de Harvey Weistein, que sabe muito bem do caráter divertido e inconseqüente do filme e o vende feito um filme do Tarantino. Qualquer tipo de celebração dentro desse contexto, seja pelo Urso de ouro em Berlim, sejo pela grande sucesso nas bilheterias, é bastante lamentável.

Já em “No Country for Old Men”, encontramos a mesma violência, não em seu contexto, mas em seu estado de natureza - violência é violência em todo lugar – tratada e mesmo estudada de uma maneira muito mais madura e mesmo útil do que o filme de José Padilha. Aqui, os irmãos Coen não estão atrás de vibração, de criar um fenômeno contagiante, mas sim de compreender (ou simplesmente concluir) toda e qualquer irracionalidade que isso envolve. Não existe um lado, quando o jogo nem mesmo é pensado, mas apenas imposto. Quando Anton Chigurh (Javier Bardem) nos propõe o cara ou coroa, que melhor resposta senão a da esposa de Llewelyn Moss em recusar o jogo? Porque não existe jogo, está tudo nas mãos de Anton. Ele impõe seu jogo sádico e irracional, e usando do cara ou coroa, tenta se distanciar um pouco da possível culpa de uma morte. Mesmo que evidentemente ele seja um homem sem culpa, o cara ou cora ainda é seu ponto fraco, porque é aonde ele mesmo tenta negar sua própria natureza irracional, transformando tudo numa simples brincadeira de acertar ou errar.

Existe culpa em “Tropa de Elite”? Se Anton Chigurh trabalha por conta própria, tendo apenas sua mente doentia como motor, o Capitão Nascimento tem todo um aparato político e supostamente justo de trabalho. Ele sobe o morro e mata, sem julgamento, por que não seria isso mesmo o que os traficantes merecem? Claro que na realidade é um trabalho extremamente condenável e sinceramente tão irracional quanto o de Anton, mas na situação extrema que se encontra o Rio de Janeiro, será mesmo que o espectador vai concordar com isso? Para ajudar, existe toda uma humanização do Capitão Nascimento. Sua suposta preocupação pelo filho que vai nascer e todo um ambiente familiar que somos apresentados de quando em quando. Anton, por outro lado, não é um ser humano, é um animal violento e irracional. Não existe expressão em seu rosto e nem mesmo reação. O Capitão Nascimento, um homem da polícia e pai de família, é uma contradição real no meio policial do Rio de Janeiro. Ou seja, ele não é inventado, a contradição em Tropa não está dentro do filme, mas sim em seu diretor. O filme é apenas imaturo, Padilha é oportunista e ainda paga de bom moço.

A violência em “Tropa de Elite” é tão injustificável quanto a praticada em “No Country for Old Men”. Porque estamos diante de crimes e apenas uma coisa é certa em ambos os filmes: as leis não valem mais nada. Mas enquanto o Capitão Nascimento pensa que faz justiça pelas próprias mãos, Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), o xerife no filme dos Coen, apenas aceita a inevitabilidade da situação.

Talvez o que “Tropa de Elite” precisasse era simplesmente de um xerife como Ed Tom Bell. Não para resolver a situação, que supostamente não tem solução. Mas para concluir que a falta de solução tem motivo numa criminalidade tanto dentro do tráfico, como dentro da polícia. É um ciclo vicioso. O documentário “Notícias de uma Guerra Particular”, de João Moreira Salles e Kátia Lund, faz esse trabalho quando não toma nenhum dos lados, porque de novo, não existe lado para se tomar em uma guerra, quando a própria guerra não deveria nem existir.

Na metade para o fim do filme dos Coen, nós nem mais vemos os assassinatos de Anton, porque não é mais necessário. A tese já está feita, o trabalho agora é da natureza inevitável que rege todo o ambiente. Enquanto em “Tropa de Elite”, a última cena é justamente a celebração principal dessa violência, porque ela envolve uma vingança pessoal. O policial André vinga a morte de seu companheiro Neto por um motivo pessoal, quando todo o contexto em que eles se inserem nada mais é do que dois lados diferentes em uma guerra impessoal.

Sendo assim, “Tropa de Elite” é um filme anti-humanista porque torce por uma “justiça” de medida extrema, tomando o partido de um lado dentro da guerra. Enquanto “No Country for Old Men” compreende que a guerra – violência contra violência – é irracional em todos os seus sentidos.

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Kais Ismail
 

Finalmente uma verdadeira crítica, verdadeira, corajosa e necessária!

O Overmundo precisa deste tipo de trabalho. É muito água com açucar a maioria dos trabalhos que estão rolando por aqui.
Enquanto que a nossa realidade amarga lá fora.
As pessoas acreditam, pelo visto, que cultura é adocicar a realidade pra ver se fica diferente, apenas com floreios.

Arthur, nota 10 p/ vc!!

Kais Ismail · Porto Alegre, RS 2/3/2008 13:07
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Andre Pessego
 

Arthur,
O filme "Tropa de Elite" naõ tem conteúdo socio-institucional diferente de nenhum outro do gênero. Começamos da série de "os cangaceiros". Todos apresentam uma crueldade aqui, um tiroteiro ali, tudo distante de uma realidade histórica; mais adiante "O pagador de Promessa", vai na linha de Jeca Tatu, a credulidade é aquilo... De uma irracionalidade de quem? Mais adiante "Pixote", retrata um fato publico e notório - e a raiz?
a série mais recente "Cidade de Deus": O mesmo fato, sem indicio ou vontade de indicar solução.
Estes três últimos nos remete ao teatro de costumes - "O NEGRO PITORESCO E ENGRAÇADO" e só serve para ser pitoresco e engraçado.
O pecado deTropa de Elite é o mesmo, a origem da verba. E daquela origem a vontade de agradar a todo custo: bilheteria, aplauso ainda que possa arranhar o Governo. Mas não arranha poque como voce diz - estão no mesmo balaio: a violência é a violência parta de onde partir.
Eu acho que não, qualquer um acuado tem direito e o dever de partir para o salve-se quem puder. O Estado não. O estado é alimentado para gerir, gerenciar o corpo social, se é social não pode ser violento.
Mas valeu o teu trbalho, votei votaria mesmo.
um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 2/3/2008 13:27
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Paulo Esdras
 

Torço para o filme Tropa de Elite, recentemente reconhecido com o Urso de Ouro. É, apesar da polêmica (e talvez por ela mesma), o filme mais assistido e com direção firme, roteiro muito bem feito e atores no topo de suas performaces.

Também gostei de "Onde os fracos não tem vez" - outro estilo.

Paulo Esdras · Brumado, BA 2/3/2008 15:25
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AULINHA.com.br
 

Crítico. Gostei da crítica perfeita.

AULINHA.com.br · Afeganistão , WW 2/3/2008 15:49
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marco sevidanes
 

Respeito opiniões contrárias, mas penso diferente. A violência mostrada no "Onde os fracos..." é a violência psicológica, in natura; a do "Tropa" é a derivada de um sistema perverso de comércio de drogas e como ele coopta pessoas e se sustenta. Não dá para comparar.
Vi o filme "tropa" com um olhar diferente; para mim, o fime não legitima a figura do Capitão Nascimento nem o coloca como uma figura meio charmosa; ao contrário, mostra como o sistema deteriora o personagem e sua família, pouco a pouco. E o filme demonstra, pela figura do aspirante frequentando a universidade, como a classe média/alta é hipócrita, pois alimenta o mesmo sistema que critica; a madame que pede paz domingo de manhã na praia de ipanema é a mesma que não vê que seu filho na madrugada anterior estava consumindo droga. E acho que o filme mostra isso. Então se presta à reflexão e à crítica. Ou será que eu entrei no cinema errado?

marco sevidanes · Rio de Janeiro, RJ 3/3/2008 00:26
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Kais Ismail
 

Marco,

O dia em que tratarem todas as drogas como drogas, independente se uma arrecada imposto ou não, o sistema será mais justo.
No filme, eu não vi a valentia do BOPE sendo usada contra políticos corruptos e nem contra aos empresários corruptores.

Vc entrou no cinema certo sim, pois o sistema assim o quis.

Kais Ismail · Porto Alegre, RS 3/3/2008 08:51
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Kais Ismail
 

No Brasil morrem mais gente no trânsito do qualquer guerra do mundo, e os estudos apontam para a bebida alcólica como uma das principais causadoras de acidente. O tabaco mata bilhões em todo o mundo, além de trazer enormes prejuízos aos cofres públicos para tratamento das doenças que dele provêm.

Não me recordo de ter visto capitão algum dando tapa na cara de quem permite a venda destas drogas. Vai ver é pq são eles que pagam os salários destes valentes e patrocinam estes tipos de filmes.

Kais Ismail · Porto Alegre, RS 3/3/2008 09:02
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crispinga
 

Gostei do Tropa de Elite, incomoda porque é quase um documentário, a realidade das grandes cidades brasileiras, doa a quem doer.
Duro é aceitar o " Onde os fracos não tem vez" como melhor filme, eleito pela Academia de Cinema Americano. Violência "non sense", filme trash. Tarantino faz melhor.

crispinga · Nova Friburgo, RJ 3/3/2008 09:11
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Paulo Esdras
 

Marco, perfeito seu comentário.

Kais, o filme "Tropa de Elite" É UM FILME.

Crispinga, Gostei também de Tropa de Elite. Gosto muito do humor e das referâncias de Tarantino. Porém não devemos comparar os estilos do narigudo com os irmãos no play, apesar do humor negro estar sempre presente.
O "Onde os Fracos não tem Vez" não é Violência "non sense", ou filme trash. Sugiro que assista novamente para entendê-lo.

Paulo Esdras · Brumado, BA 3/3/2008 12:36
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Kais Ismail
 

Esdras,
por ser tratar de FILME as críticas são merecidas.
Tecnicamente, é um filme bem feito. Mas no resto...

Kais Ismail · Porto Alegre, RS 3/3/2008 13:00
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Lu&Arte
 

Parabéns pelo teu texto. Uma crítica contundente e precisa. Por incrível que pareça, ainda não vi nenhum dos dois filmes, por opção minha, talvez recusando tanta violência. Mas vou acabar assistindo uma hora dessas.

Lu&Arte · Porto Alegre, RS 3/3/2008 13:36
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AULINHA.com.br
 

Vale a pena o filme comprado na esquina, pois pode rever quantas vezes for a vontade e repetir cenas.

AULINHA.com.br · Afeganistão , WW 3/3/2008 15:31
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Paulo Esdras
 

Kais, eu fui redundante não por tentar sinalisar o foco na questão técnica. Mas para refletirmos que num filme que questiona a violência urbana é impossível colocar TUDO sobre a violência urbana. O que o filme nos mostra é a visão de policiais (algo nunca feito pelo cinema braileiro) com seus desencantos, corrupção e tudo o mais.

Paulo Esdras · Brumado, BA 3/3/2008 18:30
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Anilson
 

Violência mesmo...eram aqueles filmes de John Wayne. Lembram? ele sozinho exterminou toda raça indígena da America do Norte. Anton e capitão Nascimento são pintos perto dele. Ví estes dois filmes, sinceramente: são bem fraquinhos. O grande injustiçado deste ano; em relação ao Oscar, na minha opinião, é o SENHORES DO CRIME, este sim...FILMAÇO...recomendo.

Anilson · São Luís, MA 3/3/2008 19:36
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Kais Ismail
 

Vou reproduzir aqui, parte de um artigo de José Pedro Goulart, publicado na ZERO HORA do dia 01/03/2008 que tem como título:
Toc toc toc
...
"Ah, teve o prêmio do Tropa de Elite em Berlim, o que incrementou as negociações para que o filme vire uma série de TV. Ótimo.
Agora teremos o Capitão Nascimento, uma espécie de serial killer oficializado, fazendo o papel de justiceiro em capítulos. Especulo, inclusive, se a série não poderia ser patrocinada por alguma marca de sabão em pó, afinal, "se sujar faz bem".
...

O Zé Pedro é um dos publicitários mais premiado do Brasil.
Tenho o privilégio de prestar serviços para a sua produtora há mais de 20 anos, por isso, sei que o que ele fala acontece. Vai virar série!

Kais Ismail · Porto Alegre, RS 4/3/2008 08:36
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Gledson Shiva
 

por favor Arthur, mas os filmes dos irmãos Coen não querem provar porríssima nenhuma! Que mané "tese" o quê, eles querem é se divertir e fazem isso em seus filmes com um primor maravilhoso, eu adoro, e acho que os acadêmicos americanos estão se rendendo ao charme da dupla e tudo que representa a estética do humor negro.

quanto ao filme TROPA não escreverei nada porque não vi, e sinceramente, acho que ele não merece nenhuma primeira comparação que não seja seu sucesso em termos comerciais e de prêmios (segundo entrevista do diretor ao Jô Soares só 30% do orçamento do filme foi feito com recursos públicos), pois segundo estes critérios temos que tirar o chapéu para o José Padilha que mostra que o cinema brasileiro tem um autentico "CINEMA NOVO", e não apenas "cabeça", do tipo que o diretor faz para seus 6 ou 7 amiguinhos de mesa de bar entender e ele se sentir menos neurótico; e o pior: este ele faz com 100% de dinhiro público, sem que o público vá ver, e nem aguentaria assistir tais abominações intelectualoides que prevalece em nossa "bem sucedida" cinematografia nacional.

Gledson Shiva · Fortaleza, CE 5/3/2008 12:30
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AULINHA.com.br
 

Tô gostando do debate...

AULINHA.com.br · Afeganistão , WW 10/3/2008 17:56
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