A comoção gerada pelo filme “BOPE: Tropa de Elite” que, mesmo antes de seu lançamento nos cinemas, foi assistido por alguns milhares ou milhões de brasileiros de classe média (quase todos assistindo com cópias piratas vendidas nas ruas, o que por si só já é um bom indício de como anda a criminalidade no Brasil, entranhada na vida de quase todos), nos mostra um fenômeno de transição no Brasil: de uma fase esquerdista-populista (como forma de explicar o caos) para uma fase que provavelmente levará o país para seu próximo governo “linha-dura”.
O filme em si segue um padrão novo no cinema brasileiro: é um filme policial, de aventura, ao estilo do “cinemão” de Hollywood: feito para as massas; para que elas, enquanto se divertem, sejam catequizadas com uma determinada visão das coisas, a visão de que a vida é uma luta para se conseguir objetivos imediatos. Nos EUA isso serve tanto como valor moral para a vida privada quanto para nortear a vida política e social do país, bem como a relação dos EUA com o resto do mundo.
Nesse sentido ideológico, o filme “Tropa de Elite” também segue um modo de pensar bem mais comum nos Estados Unidos do que no Brasil.
Os EUA são um país onde grande parte da população aceita o fato de que uma certa civilidade e ordem pública somente podem ser mantidas às custas de repressão policial, pena de morte, muito sangue e muita porrada; principalmente contra os pobres e marginalizados em geral, os quais, não conseguindo alcançar uma vida burguesa por meios “politicamente corretos”, tentam usar o crime como ponte para conseguir poder e dinheiro.
Nos EUA o pobre tem o direito de cumprir a lei. Além disso, se for muito habilidoso para descumprir a lei sem ser pego, ou se tiver disposição de trabalhar feito cão para os ricos, ou ainda se possuir alguma habilidade especial, pode até deixar de ser pobre. Fora isso, o cacete come com facilidade. E com apoio da justiça e consentimento, mesmo que nem sempre declarado, da maior parte da sociedade. Uma preocupação “social” com o pobre, como se diz no Brasil, só existe de forma minoritária e sem muita expressão política – ou com expressão apenas “para inglês ver” (ou, mais adequadamente, “para francês ver”).
O filme “Tropa de Elite” tem um protagonista-narrador da história que vê o mundo sob essa ótica, da vida como uma luta para conter o caos auto-destrutivo e a ignorância da sociedade, e ainda tentar ser individualmente feliz.
Não há no filme uma preocupação social-solidária com a pobreza. O lado mau da pobreza, independentemente de qual possa ser a origem “sociológica” ou “histórica” desse mal, deve ser eliminado, morto; e o lado bom, caso não se suje ajudando ou sustentando o lado mau, pode ter permissão para continuar vivendo e sendo pobre.
No filme, traficante de droga é inimigo de guerra; e numa guerra ao estilo antigo: quem estiver do outro lado do front deve ser morto, não ser preso – a não ser se for para ficar sob tortura até delatar mais algum colega.
Advogado de classe média, no filme, que fica estudando Michel Foucault, idealizando os excluídos e condenando as formas sociais de poder e repressão na modernidade, é tratado como um idiota afeminado – no sentido de alguém que adere a uma moralidade cristã humanista que o torna covarde para a luta; e que o faz por meio de ONGs, a fim de dar sentido para sua própria vida burguesa e tranquilizar sua própria consciência cristã culpada.
No filme, o Brasil é um país em guerra com sua própria barbárie interna, contra traficantes bem armados com armas suíças contrabandiadas e que conseguem dinheiro vendendo a luxúria das drogas para estudantezinhos imbecis da Zona Sul, para se divertirem em suas baladas “cheiradas”; e ainda poderem posar, vez ou outra, de pacifistas e de intelectuais com capacidade de crítica sobre a situação social do país.
Mas o caos vai muito além de uma territorialidade restrita à favela e à pobreza. Quase ninguém, do lado rico e “ordeiro” da sociedade, quer assumir a guerra como sua. A maioria dos policiais preferem negociar com os bandidos a lutar contra eles – já que nenhum policial anda muito afim de se matar para proteger a vida de “playboys”. Os comandos das polícias preferem fazer vista grossa ou também lucrar, indiretamente, com o crime organizado. Os políticos preferem não se meter, ou se meter apenas quando é para “tapar o sol com a peneira”. No filme, a ordem tática do que a polícia deve fazer contra a bandidagem só vem “de cima”, de políticos, quando o que se quer é apaziguar temporariamente uma favela durante a visita do Papa; quando, então, muita gente morre para que o Papa não corra o risco de ser acordado à noite com barulhos de tiro. Ao mandar matar mais um, o policial grita: “Põe na conta do Papa!” (Será que tem cinema no Vaticano?).
Fora demandas pontuais, e inúteis (como esta da visita do Papa, ou a dos Jogos Panamericanos de 2007 – que não aparece no filme), a guerra da parte ordeira da sociedade contra o caos não é assumida por ninguém. Não há comando geral, nem metas nem objetivos. O BOPE, a tropa de elite, que só existe para esta guerra (e que no filme é idolatrado ao estilo da idealização que filmes americanos patrióticos fazem de policiais honestos e de soldados heróicos), age isoladamente contra tudo e contra todos para matar traficante e apreender armas.
O BOPE age contra bandidos, mas também contra todo o resto da sociedade. Seus “heróis” têm que lutar contra advogados “humanistas” e picaretas, contra ONGs de classe média, contra movimentos sociais ingênuos ou demagogos que só querem saber de vitimizar o bandido e, principalmente, contra a corrupção/conivência de todo o restante da sociedade com o crime que se alastra como um câncer.
É um filme definitivamente pós-petista, e nisso ele é realmente um marco. Tanto um marco para o cinema brasileiro, que começa a ter uma referencia bem sucedida de que é possível filmar o “mundo-cão” sem o viés esquerdista. E um marco de como vai ficar a sociedade brasileira com o fim das ilusões humanistas que o PT ajudou a sepultar.
Deve ter sido muito difícil para os produtores de “Tropa de Elite” arrancar dinheiro do Ministério da Cultura do Gilberto Gil e do PT. Não há no filme a apologia das minorias, nem a visão “socializada” de pobreza e do crime. Também não há nenhuma compaixão cristã com os pobres que se tornam bandidos. Ou seja: tudo aquilo que fez o PT atrair tantos militantes bem intencionados nas décadas de 1980 e 1990 desapareceu da ideologia que sustenta o filme. E as platéias estão gostando disso.
Mais até do que pós-petista, “Tropa de Elite” é um filme anti-visão petista de mundo.
Desde que o PT mostrou que suas fachadas “éticas” e propositivas sobre real mudança social existiam principalmente para atrair eleitores ingênuos e cabos eleitorais que trabalhassem de graça – enquanto nos bastidores alguns poucos lideres petistas faziam de tudo (literalmente falando) para construir um poder verdadeiro para tentar governar o país –, passou a haver uma crescente demanda de muitos brasileiros por endurecimento com o crime, com a corrupção, com a malandragem e com a pobreza que perdeu o respeito por qualquer forma de autoridade. Muitos brasileiros, talvez os que logo irão formar a opinião da massa, estão querendo “comando”, “força”, “autoridade”... Estão querendo ver algum poder sendo exercido de fato, com firmeza e sem piedade. E estão começando a ficar dispostos a dar carta branca para quem tiver peito (e loucura) de assumir o comando dessa guerra.
O filme “Tropa de Elite” e sua espantosa popularização vêm a ser a primeira manifestação pública de massa dos últimos 20 anos (pós-ditadura) que reflete este pensamento que clama por autoridade para conter o caos nacional.
Vozes – certamente ainda isoladas – conseguiram construir o filme e arranjar dinheiro para lançá-lo, mesmo que a duras penas e, provavelmente, indo contra as dificuldades que o Ministério da Cultura deve ter colocado para seu financiamento. O filme, por exemplo, não foi o escolhido como candidato brasileiro ao Oscar; isso, pelo menos, o governo petista conseguiu evitar. Colocou em seu lugar mais uma insossa farsa idealizando os “esquerdistas” que lutaram contra a ditadura – deve ter mais gente querendo ganhar indenizações do Estado.
Com esse ardor, é possível que, ainda bem longe das opiniões públicas e publicáveis, forças profundas da política e do poder militar brasileiros já estejam se organizando para emergir e subverter a atual ordem das coisas – a qual, por enquanto, ainda é a do caos salvaguardado por humanistas utópicos, por ex-esquerdistas picaretas e pela adesão silenciosa de quase todos ao ilícito.
Espero, contudo, que durante um bom tempo esse filme continue sendo apenas um marco do cinema brasileiro, e só do cinema; ou ainda um marco de “quando a pirataria esvaziou os cinemas”, e passe longe de se tornar um marco político desse novo Brasil que se afigura. Nosso país não é como os Estados Unidos. Aqui, tentativas de corrigir o caos pela força costumam apressá-lo.
E boa sessão de DVD pirata a todos os moralistas!
Tomasio,
Hoje vou assistir ao filme. Foi adiada a exibição em S.Paulo
e Rio. Ia deixar algumas considerações do meu ponto de vista. Vou assistir primeiro.
Mas de tudo que li, acho que continuamos, (o Brasil, a querer tapar o sol com a peneira. Se em 1655-1685, tivesse jornal, imprensa, televisão. Toda machete seria igual à de hoje.
- Tudo isto se chama débito para com a escravidão negra e índigena (de que ninguém fala mais).
- um abraço, andre.
olá Tomasio,
Li rapidamente agora e gostei. volto depois c mais calma para ler, refletir e comentar.
Tenho um texto sobre o tema aqui, o tropa da elite. Se puder, dá uma olhada lá.
Abraço
Prezado Tomasio
Sem delongas, sou coronel da PMERJ e gostaria de postar seu artigo no meu blog com sua foto inclusive. Meu perfil completo está no meu site (www.emirlarangeira.com.br). Parabéns pela abordagem!
Abraços.
Emir
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