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Tropa na rua

Rony Maltz
Uruguaiana: um farol para os piratas
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Tiago Carvalho · Rio de Janeiro, RJ
20/10/2007 · 151 · 3
 

O filme Tropa de Elite, de José Padilha, ocupa as manchetes de jornais há meses, desde que uma cópia inacabada da obra caiu na rede carioca de distribuição informal de produtos audiovisuais. Polêmicas levantadas, os articulistas dos jornais escreveram, os soldados do Bope opinaram, os sociólogos analisaram, os alunos da PUC protestaram (esses maconheiros irresponsáveis), e os produtores do filme sonharam com o tilintar das caixas registradoras.

Ninguém quis saber, porém, da opinião dos intrépidos trabalhadores do Mercado Popular da Uruguaiana, infalível farol que orienta os piratas a singrar o formigueiro humano do Centro do Rio. A instituição verdadeiramente lançou o filme, que chega aos cinemas na sexta-feira 5, e poupou aos produtores alguns milhões de reais em gastos com publicidade. O camelódromo da Uruguaiana respira Tropa de Elite. Lá, até quem não viu o filme viu o filme.

É o caso de Rodrigo, 21 anos, funcionário da sofisticada tabacaria que funciona numa das mais nobres alamedas do mercadão. Entre cigarrilhas sabor café au lait, garrafinhas metálicas de uísque pra guardar no bolso de dentro do paletó e faquinhas para cortar os "puros cubanos" à venda no estabelecimento, ele explica o aparente paradoxo. "Não vi o filme, porque, trabalhando aqui direto, não tenho gás pra ver nada quando chego em casa. Fico cansadão. Mas em todas as televisões do camelódromo passa Tropa de Elite o dia inteiro. Aí eu acabei vendo quase tudo, mas vi um pedaço em cada barraca. Pena que essa aqui em frente só passa o Tropa de Elite 1", conta.

O um, o dois e o três

Tropa de Elite 1?, há de se perguntar o leitor desinformado, acreditando que a história do capitão Nascimento é parte de uma série. É que, nas ruas, o documentário Notícias de uma guerra particular, de João Moreira Salles, virou Tropa de Elite 2; e foi seguido por Tropa de Elite 3, uma compilação de flagrantes de violência policial filmadas em operações em favelas cariocas.

Victor, um mulato de 18 anos nascido para vender, desfaz qualquer mal-entendido. "Tem o um, o dois e o três. O um é o filme mesmo, com o Wagner Moura, é maneiro. O dois é um documentário sobre tráfico e violência no Rio, mas, tipo assim, vamos dizer, não é a realidade. E o terceiro é boladão, é uma coletânea de cenas reais de invasão da polícia nas comunidades, neguinho matando geral, botando dentro do caveirão. O três é a real, é o mais maneiro, tudo filmado por cinegrafistas", diz.

Victor opina que o filme – "o um", que fique claro - é bastante realista e ele não acha que a fita faz um elogio à truculência policial. "No filme os polícias entram na comunidade como? Esculachando geral, quebrando geral. Que nem na vida real. Isso é muito vacilo, mas, se eu fosse polícia, ia ser assim também. Não é fácil ser polícia não".

Poucos segundos depois, ele convence a reportagem de Palma Louca a levar por dez pratas os volumes 2 e 3 de Tropa. A cópia do documentário de João Moreira Salles era de ótima qualidade, com extras e tudo mais. A compilação de cenas reais, porém, não rodou de jeito nenhum. Bad disc, informava o combalido aparelho de DVD. No dia seguinte, procurado pela reportagem, Victor trocou a cópia bichada por uma boa e brindou-me com um "cartão fidelidade". Com 10 compras na mão dele, eu ganho um dvd de graça. Faltam 8. O garoto vai longe.

Talvez vá tão longe quanto Manoel, 53, que comanda o que parece ser o maior esquema de venda de jogos e dvds piratas da Uruguaiana - o que não é pouca coisa. Quando aparece freguês, Manoel aciona pelo Nextel uma entidade chamada Jogador que providencia os produtos requisitados pelo cliente, que chegam em segundos pelas mãos de seus muitos ajudantes. São dezenas de funcionários, todos tensos e em permanente comunicação com o Jogador por seus walkie-talkies de última geração.

"É só extorsão, ameaça, desrespeito ao morador"

O instinto de vendedor faz Manoel falar de seu principal produto ao potencial cliente. Com 38 anos de morro do Turano, ele garante que tem autoridade pra fazer a crítica especializada de um filme como Tropa de Elite – o original. "O que o filme mostra não é nada perto do que esses caras da PM, do Bope, da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais, a "tropa de elite" da Polícia Civil) fazem na realidade. É só extorsão, ameaça, desrespeito a morador, chamar senhora de idade de vagabunda. Tinha que mostrar mais coisa ainda", conta. E pondera, com um misto de admiração e terror: "Mas os caras do Bope são foda. Batem de frente mesmo, com eles não tem desenrole".

Não é o que pensa Pablo, 26, que anuncia ao microfone as ofertas imperdíveis da loja de CDs e DVDs gospel Fogo Puro. Evangélico, ele assistiu apenas a Tropa de Elite 1. Usa anéis dourados em ambas as mãos, brinco dourado na orelha direita, calças apertadas, blusa apertada, luzes no cabelo. E acusa: "O Bope se chama tropa de elite porque eles só roubam de R$ 20 mil pra cima. É por isso. Mas essa é a realidade e o filme mostra isso". Como assim, Pablo? O filme mostra um Bope que não é corrupto. Qual é a realidade então? Pablo, confuso, se enfada da entrevista e volta a anunciar no microfone um DVD sobre a vida de Moisés. Exclusivo da Fogo Puro.

Fogo puro é também o que parece animar o espírito de Marina, transcendental mulata de 22 anos, colega de trabalho do temperamental Pablo na loja de artigos evangélicos. Ela conta que viu Tropa de Elite e gostou muito, especialmente da atuação de Vagner Moura, "o Olavo de Paraíso Tropical". Ela entende que o filme faz a denúncia do estado lastimável em que se encontra a Polícia Militar do Rio e engata um sem número de histórias sobre violência policial que presenciou no Morro da Providência, onde mora.

"O Bope só mata quem tem que matar"

Marina diz que nunca viu o Bope em ação em sua comunidade e que não se assusta com a possibilidade de isso vir a acontecer. Depois de ver o filme, ela confia plenamente na honestidade e justeza dos homens do Capitão Nascimento. "Tudo o que o filme mostra é bem a realidade mesmo. E o Bope só bate em quem tem que bater, só mata quem tem que matar", diz, pontuando a frase sanguinolenta com um sorriso encantador.

Mas Marina, quem deve apanhar e quem deve morrer, na sua opinião? Você acha certo a polícia bater nas pessoas, matar gente? "Certo não é, mas esse é o trabalho deles, né?". Vai saber. Não sei mais. O fotógrafo também não. A equipe de reportagem se entreolha, se pergunta se já deu, se é hora de encerrar. Também não sabemos. Achamos que sim, mas não temos certeza. E aí, qual vai ser? Vamos nessa?

Marina interrompe a indecisão e desfaz o impasse: "Olha só como a minhas mãos são macias".

Nossa, Marina, são mesmo. Tem até uns brilhantes nas tuas unhas.

"Eu uso hidratante direto, sabe? Eu me cuido".

Jura?

"Juro. Em que site vai sair a reportagem?"

Aqui ó, deixa eu anotar pra você.

"Eu tenho um site também, vou escrever aqui pra vocês, tá?"

Claro.

"É do concurso Garota da Laje. Tem um vídeo meu e tem umas fotos minhas também. Gente, tão lin-das. Entra lá pra votar em mim".

Vou votar sim, claro, pô.

Aliás, Marina, é barbada. Já ganhou, já ganhou, já ganhou.

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Este texto foi originalmente publicado na revista eletrônica Palma Louca.

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Thiago Camelo
 

Muito bacana o enfoque do texto, Tiago. Enriquece ainda mais o debate enorme que vem sendo travado sobre o filme, fora e dentro do Overmundo. Só uma coisa. O nome do ator é Wagner Moura, com "W", certo? Abração e parabéns pela colaboração!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 16/10/2007 15:03
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Roberto Maxwell
 

Bacana o texto. Muito boa sacada.

Roberto Maxwell · Japão , WW 17/10/2007 03:11
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Tiago Carvalho
 

valeu pelas dicas, pessoal.

Tiago Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 18/10/2007 13:42
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