T(r)ópico Americano

Esso A.
1
Esso A. · Natal, RN
15/8/2006 · 153 · 10
 


O artigo instigante postado aqui pelo H. Vianna acerca da maneira como nós brasileiros vimos transando nossa latinidade com outros países vizinhos me fez pensar acerca do assunto refletidamente. E óbvio que me fez voltar para o interior da questão desejando ir mais pro-fundo, o que literalmente me trouxe para avaliar a nossa própria situação enquanto nação de gigantescas proporções, seja em tamanho geográfico ou em diversidade cultural. Claro que estamos tratando de um ponto que vai desatando discussões.
Trouxe de novo à luz o tema justamente para poder vermos ainda com maior perspicácia o comportamento de nossa política cultural internamente, repassando as páginas de uma história recente que nos faz perguntar se a aproximação que se deu entre alguns artistas nacionais e outros latinos se deveu muito mais a uma afinidade de propostas estéticas e/ou ideológicas do que em função de um esforço conjunto de setores envolvidos e relevantemente importantes nessa estratégia, como seriam no caso a área cultural do estado e da própria iniciativa privada, leia-se gravadoras. Que fatores propiciaram o encontro entre Chico Buarque e Pablo Milanés, por exemplo? Ou o de Fagner com a Mercedes Sosa? Cito os dois casos, embora um pouco distantes no tempo, para salientar parcerias que de fato marcaram o alinhamento de artistas brasileiros com outros vizinhos, e de forma consistente. Mesmo mais recentemente o namoro desatado entre o Paralamas e o Fito. Outros momentos emblemáticos se deram, como foi o da invasão dos Menudos em meados dos anos 80. Naturalmente pus tudo num parágrafo só para ilustrar o argumento, mas cada uma das referências apresentadas envolvem circunstâncias e posturas diferenciadas, tanto na sua gênese quanto nos seus resultados e importância.
Ao meu ver o que veio acontecendo nesse período remonta a antigos estigmas de nosso passado pesado, pois fomos todos vitimados por uma colonização que beirou a barbárie, onde extirparam-nos os bens e a estima. O talento não. Mas ficou inscrito no nosso perfil um certo desencorajamento para nos afirmarmos enquanto povo que constrói sua altivez a partir do que produz. Até hoje ainda encontramos com relativa facilidade o tipo que exalta as qualidades apregoadas pelos modismos, sem um grau de discernimento que possibilite uma mínima leitura atenta de tudo que somos induzidos a consumir. Dá nisso!
Mas estamos mudando. Até porque há, mesmo de forma fragmentada, uma abertura maior para a apreciação dos nossos valores hoje em dia. Os paulistas e os cariocas, berço do alastramento dessa cultura que vangloriou o europeísmo, e mais tarde o estilo dos ianques, estão se dando conta do equívoco que cometeram, principalmente nesses tempos em que é cada vez mais fácil constatar o erro da adoção de padrões tão toscos e esvaziantes. Sem contar que é ainda desses dois principais centros brasileiros que irradia grande parte do que absorvem a imensa maioria das cidades brasileiras. Dá nisso!
Gente que carrega impresso no peito frases que nem sabem como traduzir. Dá dó. “Caboclos querendo ser ingleses”, cantou Cazuza. Menosprezo pelo que temos de bacana, mas que repelimos para posar como marionetes de um cirquinho viciante que esconde nossa autenticidade. Lastimável demais para os que amamos o Brasil.
E ... se nem conseguimos nos apreciar, como vamos fazer isso aos outros espontaneamente?
Mas estamos mudando isso. Só que leva um tempo danado.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Rodrigo Teixeira
 

A questão tb é que o brasileiro tem uma postura arrogante diante do seu vizinho sul-americano. E não vê nenhuma ligação com eles. Pelo contrário. Prefere admirar os q vem de além-mar. Para nós os paraguaios são um bando de muambeiros, os bolivianos traficantes e os argentinos arrogantes. E a verdade é q naum sabem mais nada da América do Sul. São ignorantes mesmo. Todo o sistema incentiva isso. T-o-d-o.

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 14/8/2006 10:51
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Marcos Carvalho Lopes
 

Concordo com o Rodrigo...vivemos nosso chauvinismo comcerta altivez. Nossa autenticidade é autêntica mistura. Mas queremos ainda ser gregos! Com-tradições...

Marcos Carvalho Lopes · Jataí, GO 15/8/2006 08:48
sua opinião: subir
Ana Cullen
 

É um assunto complicado esse, mas realmente o entrelugar em que se encontra o latino-americano é sempre ponto interessante de debate. Tanto o intelectual e artista brasileiro, como os outros latino-americanos, têm um histórico de não saber onde se encaixar, de querer alcançar e se equiparar ao europeu, de não valorizar o que é nosso, ou de negar absolutamente qualquer influência européia, estamos num ponto bem mais interessante do que já estivemos, mas realmente ainda leva um tempo danado! E olha que essa discussão já tem um tempo danado!

Ana Cullen · Brasília, DF 15/8/2006 12:19
sua opinião: subir
bucadantas
 

Destaquei a frase do texto "...Mas ficou inscrito no nosso perfil um certo desencorajamento para nos afirmarmos enquanto povo que constrói sua altivez a partir do que produz..." para dizer que tem muita gente fazendo exatamente o contrário. E tento incluir-me neste grupo. De fato desconheço quase que a totalidade dos artistas mencionados pelo Hermano, mas que o "pensamento latino" está latente em todos que nos inquietamos. E agora que sabemos da existência e ação destes, temos a responsabilidade de conhecer.

bucadantas · Natal, RN 15/8/2006 12:35
sua opinião: subir
peter dreyfa
 

A (falta de) identidade latino-americana é uma questão na qual os brasileiros não são os únicos vilões.. aliás, se há algum país na América Latina que tem uma justificativa maior para "olhar apenas para o próprio umbigo" este país é o Brasil, pela barreira da língua e pelas dimensões continentais de seu território. Não quero aqui defender nem fechar os olhos para o terrível e duradouro domínio cultural externo ao qual somos submetidos, mas justamente abrir os olhos para o fato de que a via cultural que nos une com nossos "hermanos latinos" está congestionada em todos os sentidos, seja pelo preconceito ou pela lei de mercado. Em termos genéricos, é um traço cultural inegável que os argentinos "se acham europeus" e são, portanto, superiores aos "macaquitos" brasileiros. Históricamente, o que nós brasileiros conhecemos do tango argentino e da salsa colombiana não é muito diferente do que eles conhecem do samba e da bossa nova (e olha quanto tempo já se vai!). Num episódio ilustrativo: Há três anos estive no Chile e, para o meu espanto, quando se falava em Brasil citava-se sempre uma tal banda Axé Bahia, estourada nas rádios e programas de tv de lá e da qual eu não tinha o menor conhecimento... talvez a solução seja contratar o empresário dessa banda pra fazer essa aproximação cultural latina tão desejada... de preferência com produtos de melhor quaidade!!!

peter dreyfa · Florianópolis, SC 15/8/2006 18:20
sua opinião: subir
Rodrigo Teixeira
 

Oi Peter! Vamos as considerações:

01 - No contato q tive com artistas de 10 países sul-americanos nas 3 edições do Festival América do Sul não foi isso q presenciei. Quando vc fala q 'nós brasileiros conhecemos do tango argentino e da salsa colombiana não é muito diferente do que eles conhecem do samba e da bossa nova..." te digo q conhecemos bem menos, bem menos mesmo, de tango do q eles conhecem de música brasileira. Enquanto nossos artistas confessavam conhecer quase nada dos sul-americanos, a maioria dos músicos de lá tocou em seus shows música brasileira. Fito Paez (ARG) tocou só ao piano Luz do Sol, de Caetano. Susana Baca (PERU) cantou Estrela, de Gil, Pedro Aznar (ARG) atacou de Lenine, Liliana Herrero (ARG) teve a coragem de enfrentar umas 10 mil pessoas com Aos Nossos Filhos, de Ivan Lins, sendo q a platéia estava ali para ver Zeca Baleiro. Quando fui tocar em Assunção, conheci vários instrumentistas q sabiam tudo de música brasileira, além da Rita Lee (sic) ser febre por lá. Quando vc fala de produtos de melhor qualidade tb não foi o q vi. Os discos dos argentinos são muito bem gravados, mixados e tem um material gráfico de primeira. Digo o mesmo do Uruguai, Colômbia, Chile e Venezuela. No Paraguai tem a Kamikaze Records q só tem produto de primeira, com capas inventivas e modernas. Esta discussão vai longe... valeu

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 15/8/2006 22:32
sua opinião: subir
Rica P
 

Não tenho nem de longe a experiência profissional do Rodrigo neste assunto, mas faço coro: conheço bem a Argentina e o Uruguai, e sim, eles sabem muito mais sobre nós do que nós sobre eles. A última vez que estive em Montevideo o taxista que me levou ao Aeroporto era fã do Wando! Sabia todas...uma moça na loja de CDs me teceu uma vasta comparação entre o nosso Candomblé e o Candombe deles (do qual eu, que sou músico, nunca havia ouvido falar). Por aí vai...

Rica P · São Paulo, SP 16/8/2006 13:03
sua opinião: subir
peter dreyfa
 

só pra esclarecer alguns pontos mal interpretados:
- quando me referi à questão da qualidade, estava relacionando com o sucesso no Chile da banda Axé Bahia e não sobre a música produzida na América Latina.
- quando comentei que a ignorância dos outros países latinos em relação à mùsica brasileira é praticamente igual à nossa em relação à musica deles, me refiro ao público em geral e não aos artistas em relação aos seus colegas de profissão.
- só posso falar de minha experiência, e por ela, acredito que a música brasileira é mais admirada e incensada, pelo público geral, fora da América Latina do que dentro dela. Cito como exemplos o sucesso dos Mutantes na Inglaterra e EUA, sem contar na quantidade de lançamentos de bossa-nova que vem do Japão...
- de muma maneira geral, todos nós latinos somos vítmias das questões comerciais que envolvem a música, e é ela que permeia o conteúdo de meu comentário anterior.
- em tempo: vivi alguns anos no Chile na década de oitenta e pude acompanhar o sucesso da banda argentina Soda Stereo (que já não existe mais).. era a banda mais popular em praticamente todos os países do continente, e totalmente desconhecida no Brasil... era uma banda com total afinidade sonora com o rock que se produzia por aqui Paralamas, Legião, etc...
- por último, penso que independente da dominação cultural, os apreciadores de música hoje em dia dispõem de totais condições de correr atrás do que é bom, seja do país que for... basta ter acesso à internet...

peter dreyfa · Florianópolis, SC 16/8/2006 16:37
sua opinião: subir
Rodrigo Teixeira
 

Sugiro a audição de Quyquyho, de Garaldo Espíndola, que está lá na sala de edição. É a prova de que existe uma música mais ligada a América do Sul do que ao litoral brasileiro. É o Brasil de dentro, que vive o dilema de se sentir tão sul-americano quanto mameluco-luso-amerindio!

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 16/8/2006 16:58
sua opinião: subir
Rica P
 

Oi Peter, muito bem lembrado o Soda Stereo!

Rica P · São Paulo, SP 17/8/2006 11:57
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados