Tu improvisas, eles improvisam...

Capa do livro - Divulgação
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Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ
29/12/2008 · 236 · 15
 

Se fosse bom de versar como é de tocar projetos culturais, o casal Alexandre Pimentel e Joana Corrêa poderia recitar todas as aventuras e percalços que envolveram a produção da obra "Na ponta do verso – poesia de improviso no Brasil". Só falta mesmo a rima farta como a dos personagens do livro que estão lançando, porque a história está na ponta da língua. Tudo começou com um projeto bem sucedido de shows com gêneros musicais baseados no verso livre no Centro Cultural Banco do Brasil, em 2005. Deu tão certo que eles, junto com outros amigos, começaram a idealizar um livro. A idéia era ambiciosa, com direito a pesquisa de campo e gravação in loco. Com o tempo e os passos necessários para se enquadrar nas exigências (e na verba) do patrocínio do Minc, via Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural, as coisas foram sendo adaptadas. Arestas foram aparadas ao longo de três anos, mas a essência da idéia se manteve.

"Na ponta do verso" é composto por nove artigos de especialistas sobre tipos de poesia de improviso de várias partes do Brasil. Para complementar, um CD traz 16 faixas com exemplos preciosos dos gêneros analisados, seja em gravações antiqüíssimas (como algumas das Missões Folclóricas coordenadas por Mário de Andrade em 1938), antigas (como uma faixa do primeiro CD da Clementina de Jesus, dividindo o improviso de um partido-alto com João da Gente) e recentes, feitas pela Associação Cultural Caburé, formada pelo casal e mais alguns pesquisadores apaixonados pela cultura popular. Escolher os autores e definir os artigos foi tarefa tranqüila se comparada com a missão de recolher autorizações e comprar direitos para reunir as faixas num disco. Completam o pacote as imagens de Luciana Carvalho, que abrem os artigos. Inspiradas na xilogravura, elas são atrações à parte.

Nada como ler os artigos ouvindo as faixas correspondentes ao gênero analisado. Muitas vezes, a gravação é até citada no texto, caso de "Barracão é seu" – o tal partido-alto do primeiro disco da Clementina. Nei Lopes, que assina o artigo sobre este subgênero do samba carioca, conta que "a porfia entre os veteranos sambistas traz alguns antológicos momentos de puro improviso", renegando a impressão de que espontaneidade não combina com a frieza de um estúdio.

Nei, que tem no currículo um livro sobre partido-alto (e é blogueiro), explica as origens portuárias desta vertente do samba, influenciada pelo samba rural baiano e o calango do sudeste. Mas também por vários outros gêneros que se valem de uma tradição poética popular em comum – vale lembrar de frases que podem ser ouvidas em cantorias de qualquer região, como "Atravessei o rio a nado", "Você diz que é malandro" ou "Era eu e tu e ela"... Com o passar das décadas, o pagode de fundo de quintal chegou a ser aposta das gravadoras. Do partido-alto, seu elemento fundamental, muitas vezes só sobraram os refrões marcantes. Nei aproveita para elogiar partideiros que sempre honraram a criatividade do gênero, como Almir Guineto, Jovelina Pérola Negra, Arlindo Cruz e Dudu Nobre. No disco (e no lançamento do livro, vide fotos), há ainda a participação de dois dos partideiros mais atuantes do Rio, Tantinho e Marquinho China.

Para mim, que vivo no Rio, partido-alto é algo natural. Conheço alguns partideiros e suas histórias – como um figura que diz "dialogar" com William Bonner no Jornal Nacional para treinar as rimas de improviso. Mas confesso que não saberia explicar boa parte dos gêneros destrinchados no livro, e muito menos apontar suas diferenças. A professora de etnomusicologia da UNI-RIO Elizabeth Travassos faz isso muito bem no prefácio, comparando cantoria de viola (analisado no livro em artigo de Braulio Tavares) e coco de embolada (Maria Ignez Ayala):

"[Eles] opõem-se como o cômico ao sério, o espontâneo ao estudado. Cantador de viola que se preza não pega o pandeiro para cantar coco (mesmo que saiba), não gosta de cantoria na rua (só em caso de extrema necessidade), não rima todos os versos em á. Muito menos diria que tem a cabeça oca ou que seu repente "não presta", como ouvi dizer um coquista (...). Cioso de sua reputação de "poeta", o cantador de viola prefere o nome de batismo a apelidos como Rouxinol, Concriz, Treme-terra, Cachimbinho."

Ou seja: mesmo tendo muito em comum, cada tipo de improvisação cantada encontra sua própria vocação. Usa número de versos diferentes, "porfias" e desafios com regras diversas e lida cada um a sua maneira com a influência das músicas da moda, da televisão e da tecnologia. Vejamos:

Braulio Tavares conta como a cantoria de viola migrou do desafio para a estrutura de parceria, em que dois poetas se intercalam (mas não duelam) no versejar. Ainda que o formato de dupla passe a ser o padrão, não há necessidade de fidelidade. "Não existem duplas fixas, como ocorre, por exemplo, na música sertaneja paulista, na qual Chitãozinho sempre canta com Xororó e Tonico sempre canta com Tinoco. Ao longo dos anos um cantador pode trabalhar com dezenas de parceiros."

Já o cururu, comum na região do Médio-Tietê – interior de São Paulo – segue funcionando como um verdadeiro embate poético-musical, realizado exclusivamente para a diversão do público. Um dos símbolos da cultura caipira, ele é o único que se desenvolve em desafios com mais de dois participantes. Em geral, "são quatro cantadores, em duas duplas que normalmente se compõem por sorteio, antes do início do evento", explica Alberto Ikeda em seu artigo.

O aboio pode classificar dois tipos de improviso: o do canto de trabalho do vaqueiro e o gênero poético que celebra a profissão do vaqueiro. O segundo ainda é bastante popular nas festas de vaquejada. O primeiro é cada vez mais raro, já que "hoje os espaços rurais já não são tão ermos, sendo raras as localidades não servidas por rodovias", explica Maria Ignez Ayala. Assim, reduz-se "a quantidade de vaqueiros que aceitam o registro de suas vozes entoando esses cantos de trabalho, porque a memória do canto depende do corpo em exercício".

Não foi só o aboio que se influenciou de jeito pelos novos tempos. O maracatu de baque solto passou por várias transformações e, segundo Siba e Astier Basílio, é na poesia que têm se dado as mudanças mais significativas da tradição nos últimos 30 anos. Normalmente entoados por poetas analfabetos, os versos do maracatu acabaram influenciados pela cantoria de viola e pelo coco de embolada, que têm mais regras e são feitos por poetas letrados. Seja como for, mantém-se a sambada, nome para a disputa de rimas entre dois mestres de maracatu. Para além da cantoria, o maracatu viu suas roupas ficarem mais extravagantes e o transporte passar a fazer parte dos percursos, antes percorridos a pé. Além de descrever detalhes preciosos – como o "azougue", bebida à base de cachaça, limão e pólvora (!), que fica enterrada por sete dias antes de ser consumida – os autores contam como a rivalidade entre grupos, que resultava em brigas no passado, foi substituída por uma certa profissionalização.

Se o aboio se mantém nas vaquejadas e o maracatu sobretudo no carnaval, o calango, gênero típico do interior fluminense, não depende de lugares específicos, não tem horário certo nem se vincula a calendário. Cáscia Frade explica que ele precisa apenas do acompanhamento de uma sanfona de oito baixos e gente disposta a versar sobre temas diversos. A simplicidade do calango contrasta com os mil e um elementos da folia de reis. Nesta manifestação, tradicional em várias partes do país e do mundo, um grupo distribui bênçãos em troca de ofertas, reafirmando, assim, importantes laços sociais e remetendo à mítica viagem dos três magos a Belém. Com diversos personagens, rituais e roupas, a folia tem sua parcela de improviso por conta do palhaço, que usa máscara e roupas grotescas e declama "chulas" gaiatas, a fim de atrair doações, como conta o artigo de Daniel Bitter.

Para concluir, a pajada. Gênero sulista do qual, confesso, nunca tinha ouvido falar. Paulo de Freitas Mendonça a descreve bem, traçando de cara a diferença para o outro estilo típico dos movimentos tradicionalistas gaúchos: a trova. Segundo ele, o trovador canta sua poesia oral em sextilhas, com acordeão, enquanto o pajador improvisa no estilo recitado, acompanhado por uma milonga ao violão. É um gênero com poucos participantes e escassa renovação, a ponto de parte da imprensa anunciar a morte do estilo junto com seu principal pajador, Jayme Caetano Braun, em 1999 (no CD, é possível ouvir sua bela voz). Mas, ainda que discreta, a pajada sobrevive.

Os nove gêneros estão bem representados em artigo e músicas. Mas, se a idéia é refletir sobre como o Brasil improvisa, senti falta daquela que hoje talvez seja uma das mais populares formas de versar no Brasil e no mundo – o rap. Ainda que seja compreensível a opção de não incluir na obra por não se tratar de um gênero originariamente brasileiro, achei que alguma referência poderia ter sido feita, mesmo sem se contemplar com um artigo específico. Afinal, como se vê numa Batalha do Conhecimento da vida, sejam quais forem o ritmo, as regras e a origem, a criatividade dos versos sempre está a ponto de bala para aflorar.

Mas isso nem de longe tira o mérito do livro que, de modo conciso e eficaz, chama atenção para a variedade de gêneros de verso livre no Brasil. Pensando bem, é até irônico - no bom sentido - que o brasileiro, conhecido por seu "jeitinho", mostre toda sua criatividade justamente no improviso, palavra que define bem seu estilo de vida (se formos levar o estereótipo ao pé da letra). Mas verso livre não é privilégio do país, é claro. Sonhando alto, quem sabe um volume 2 possa ser feito reunindo os formatos latino-americanos de verso livre - que não são poucos.

A obra está sendo distribuídas para instituições ligadas à cultura popular e bibliotecas. Para mais informações, o email da Associação Cultural Caburé é cabure@cabure.org.br.

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Pedro Monteiro
 

Arte de escrever, cantar, recitar, interpretar e de viver...
Artes.
Abraços

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 26/12/2008 22:58
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nina araújo
 

Nossa, isso é tudo de bom! Eu particularmente, sou fascinada pelo verso improvisado, cantado ou declamado! Adorei!
Abraços daqui e depois volto.

nina araújo · Rio de Janeiro, RJ 26/12/2008 23:06
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Gyothobat
 

O improviso está presente, como você bem destaca, em vários gêneros musicais brasileiros e parece ser uma característica ligada a criatividade espontânea do nosso povo. Boa a dica da publicação. Aliás, por falar no poeta e ensaísta Braúlio Tavares, veja texto que postei no overmundo sobre a música dele e de Lenine: "La vem a Cidade"

Gyothobat · Brasília, DF 27/12/2008 17:56
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Pedro Monteiro
 

Voltei para mais um saborear...
Bjs

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 28/12/2008 01:32
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nina araújo
 

Votando com muita alegria! Feliz 2009!
Abraços daqui,

nina araújo · Rio de Janeiro, RJ 28/12/2008 20:37
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Claudia Almeida
 

Depois volto, votando.Beijos.Feliz Ano Novo

Claudia Almeida · Niterói, RJ 28/12/2008 22:04
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joao xavi
 

além do rap, também existe muito (e cada vez mais) improvisso no funk.
fica a dica para uma próxima edição.
bjs

joao xavi · São João de Meriti, RJ 29/12/2008 17:44
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Andre Pessego
 

Estou arquivando para reler. Reler e mante-lo arquivado. Muito
rico e interessante.
Feliz 2009

Andre Pessego · São Paulo, SP 29/12/2008 18:01
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Paula Martini
 

Helena, que bom que é ler seus escritos.
Estou também muito feliz por saber do livro de Joana e Alexandre. Essa série Na Ponta do Verso foi maravilhosa, assim como tantas outras tão bacanas, como A Política da Palavra e a Arte África Brasil. Fico feliz por ter curtido de perto, e mais ainda por saber dos desdobramentos. Viva a querida Fulô Projetos de Cultura, e vida longa à Associação Cultural Caburé.
Feliz novo ano pra vocês.

Paula Martini · Rio de Janeiro, RJ 30/12/2008 00:02
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Paula Martini
 

Aliás. Onde acho o livro?

Paula Martini · Rio de Janeiro, RJ 30/12/2008 00:05
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Higor Assis
 

Oi Helena.

Muito pertinente a matéria e bem esclarecedora. Só um pinguingo. Na parte que diz sobre o rap, acho certo a forma que fizeram em não coloca-lo e você explica bem o porque disso.

Será que o canto dos índios não seria bacana resgatar ? Talvez tenha versos interessantes, bem mais também...

Higor Assis · São Paulo, SP 30/12/2008 10:08
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Helena Aragão
 

Obrigada pelos comentários, gente! Paula, para saber como ter acesso ao livro o ideal é entrar em contato via o email que passei na matéria. Higor, pois é, sem problemas, só quis registrar porque acho mesmo que é uma forma de improviso muito popular hoje em dia. Sobre os índios, caramba... não faço idéia, mas é bem possível que tenha alguma coisa, pois a cultura deles é tão vasta... Abraços!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 30/12/2008 11:17
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Higor Assis
 

Pensou em um samba indigena ? que bacana seria.

Talvez a sinvaline ou o pessoal mais próximo, que sempre por aqui nos tras textos sobre a cultura indigena poderia investigar.

Valeu pelo aprendizado. (e o carnaval esta chegando, usaremos a tag carnaval-2009)

Higor Assis · São Paulo, SP 30/12/2008 16:03
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rosa melo
 

Maravilha de informação. Bem o que preciso pra seguir minha inspiração, na trilha da inspiração dos múltiplos seres da caatinga.
Beijos!

rosa melo · Pio IX, PI 2/1/2009 14:00
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cimples ocio
 

vou procurar. Fico feliz que dois belissimos partideiros e improvisadores, Tantinho e Marquinho China tenham participado. Pena que Xango da Mangueira tenha ido no dia 07 jan

cimples ocio · Curitiba, PR 12/1/2009 14:04
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Como o lançamento foi no Rio, foi regado a partido-alto. Na foto, Tantinho versa zoom
Como o lançamento foi no Rio, foi regado a partido-alto. Na foto, Tantinho versa
Tantinho da Mangueira improvisa no lançamento do livro, na livraria Folha Seca zoom
Tantinho da Mangueira improvisa no lançamento do livro, na livraria Folha Seca
Marquinho China era o principal zoom
Marquinho China era o principal "concorrente" de Tantinho na tarde de lançamento

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