Tupi or not tupi, that is the question

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absurdosturos · Rio de Janeiro, RJ
14/4/2007 · 107 · 10
 

Caso um neófito em história brasileira republicana se proponha nela mergulhar, com o intuito de desvendar o período em que a questão da identidade nacional começa a ser abertamente estruturada por intelectuais, artistas e até mesmo autoridades governamentais do país, encontrará seguramente nas décadas de 1920 e 1930 a sua fase mais frutífera. Tendo a abolição da escravatura e a proclamação da República como processos recentemente deflagrados, o Brasil do início do século XX procurou, através do movimento modernista, estabelecer um novo tipo de diálogo com as informações irradiadas dos países centrais.

Nesta época, as influências externas que chegavam ao Brasil estavam relacionadas ao processo civilizador pelo qual nações como França e Inglaterra haviam recentemente atravessado em suas conjunturas internas. Uma vez visto como completo e terminado pelas sociedades européias em seu próprio seio (especialmente no e após o século XIX), o conceito de civilização se transforma em justificativa para a conquista e dominação de povos não-europeus, vistos como incivilizados e, portanto, inferiores, da mesma maneira como a aristocracia da corte se enxergava perante os outros estratos sociais que a rodeavam.

Se a civilização tinha a Europa como centro, o ingresso do Brasil nos tempos modernos, especialmente após o advento da República, implicava a imposição de um modelo de civilização que excluía a diversidade brasileira, pois que calcado na experiência européia. O endeusamento do modelo civilizatório, notadamente parisiense, crescia durante as primeiras décadas do século XX, em detrimento da mistura de tradições que caracterizava a sociedade brasileira.

Neste período, conhecido como a belle époque carioca, a postura da elite (especialmente no Rio de Janeiro, então capital da República) era a de negar qualquer manifestação da cultura popular, o que era feito através da expulsão dos pobres e portadores de heranças culturais tradicionais dos centros (o que ocorreu no Rio através das reformas do prefeito Pereira Passos no panorama urbanístico do centro da cidade, na década de 1910) e da tentativa de erradicação das religiões afro-brasileiras e do controle policial das festas carnavalescas.

Tal visão elitista, como fica claro, encontrava-se impregnada de valores construídos de fora para dentro, resultante de um grande torcicolo cultural que denunciava o papel central de países estrangeiros na constituição do caráter nacional do Brasil. Com efeito, o vírus do recalque só acharia um antídoto, ao menos no plano cultural, a partir da fruição intelectual ocorrida no movimento Modernista.

Não irei aqui me deter nas idiossincrasias do Modernismo, uma vez que tal esforço exigiria a redação de um novo artigo (o que provavelmente farei em outra oportunidade). O importante, neste momento, é frisar que os modernistas brazucas procuraram valorizar um olhar introspectivo em relação à sua própria cultura, sem que a proposta de um contato mais direto com as particularidades brasileiras fosse revestida de um caráter exótico e cerrado, cientes que estavam da necessidade de alinharem-se à marcha de modernidade e progresso, símbolos da civilização européia que aqui se fazia impor.

O ponto é que, desde então, a discussão entre o que é parte da “cultura brasileira” e o que seria “influência externa” tem alimentado discussões em salas de aula, pátios de faculdades, mesas de botequins. Enquanto Mário de Andrade, na década de 20, não via com bons olhos a proposta de Oswald de absorver influências externas – cioso da possibilidade de descaracterização da nossa cultura – , o crítico José Ramos Tinhorão, quase 50 anos depois, chegava ao ponto de ver na Tropicália de Gil e Caetano um plano para impor a dominação cultural estadunidense (afinal, aqueles baianos estavam botando roquenrol na bossa-nova, que porra é essa?).

Pra não dizerem que estou exagerando, vejam o que o cara escreveu:

“Alinhados com o pensamento expresso por seu líder Caetano Veloso, “Nego-me a folclorizar meu subdesenvolvimento para compensar as dificuldades técnicas”, os tropicalistas renunciaram a qualquer tomada de posição político-ideológica de resistência e, partindo da realidade da dominação do rock americano (então enriquecido pela contribuição inglesa dos Beatles) e seu moderno instrumental, acabaram chegando à tese que repetia no plano cultural a do governo militar de 1964 no plano político-econômico. Ou seja, a tese de conquista da modernidade pelo simples alinhamento às características do modelo importador de pacotes tecnológicos prontos para serem montados no país” (Tinhorão, História social da música popular brasileira, p. 324-325).

Com o movimento Mangue não foi diferente. A peleja entre Chico Science e o escritor Ariano Suassuna, Secretário de Cultura de Pernambuco entre 1995 e 1998 (durante o governo de Miguel Arraes) produziu frases como esta, dita por Suassuna a Chico:

“Você está servindo de ponta-de-lança para os piores inimigos do Brasil, aqueles que tentam descaracterizar a nossa cultura. Mude o nome de Chico Science para Chico Ciência que eu subo no palco do seu lado”.

Ou seja, existe um claro embate cultural travado há quase cem anos no Brasil (e também alhures) entre os que assumem uma postura “purista”, de defesa da legitimidade da cultura brasileira, e os que promovem a livre imbricação entre as culturas.


Pessoalmente, considero os dois lados discutíveis, pois se há algo de nocivo na irrefletida absorção de elementos culturais externos, por outro lado acho um tanto complicado recorrer a uma suposta “legitimidade” cultural tupiniquim – e assim como Alfredo Bosi, me recuso a ver a “cultura brasileira” assim, no singular, preferindo pensar em “culturas populares” de forma plural.

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Spírito Santo
 

Falaram e disseram, quer dizer, aflou e disse, Absurdosturos (não sei por quê, continuo achando que é um grupo) mas é muito bom que o conflito exista. Saca aquela da 'luta dos contrários' (papo de filosofia marxista)?
O Um versus o Outro gera sempre o Terceiro e por aí vai.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 13/4/2007 21:04
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Rejane Calazans
 

Pois é, Ariano Suassuna foi pra além de Tinhorão, também criticou a Tropicália, e até mesmo a Bossa Nova, pela influência do jazz. Mas o Armorial também faz suas misturas. A questão é que misturas são feitas. Se a contribuição for ibérica, tudo bem pra Suassuna. Mas se não, é imperialismo por um lado, subserviência, por outro.
No entanto, pelo que eu entendo, em nenhum dos movimentos citados (Modernismo, Tropicalismo e Mangue), houve uma "absorção irrefletida de elementos culturais externos", mas incorporação de elementos cultuarais diversos, sejam brasileiros ou não. E cultura é isso! Afinal estamos no mundo!

Rejane Calazans · Rio de Janeiro, RJ 14/4/2007 10:30
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Spírito Santo
 

Isto memso, Rejane.
A caravana passa.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 14/4/2007 20:03
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absurdosturos
 

Spirito, só posso ficar lisonjeado por ser visto como vários, e penso que assim somos todos, múltiplas facetas de um só eu - contraditório e metamórfico, ainda que uno.

absurdosturos · Rio de Janeiro, RJ 16/4/2007 09:54
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Spírito Santo
 

Valeu mas, isto de ser múltiplo confunde, sabe?
Grande abraço,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 16/4/2007 10:51
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Senna
 

É, essa idéia de várias culturas virou meio que uma marca registrada do brasileiro. Na verdade, acho que essa marca disfarça o quão ruim é, o Brasil não ter sua própria cultura.

É fato não termos cultura própria, então Suassuna, não adianta forçar algo que não existe.

Senna · Itu, SP 18/4/2007 18:11
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absurdosturos
 

Pois é, grande Spirito. E aí lembro dois craques brazucas:

"Eu vim aqui pra confundir e não pra explicar" - Chacrinha

"Eu tô te explicando pra te confundir, tô te confundindo pra te esclarecer" - Tom Zé

absurdosturos · Rio de Janeiro, RJ 19/4/2007 12:13
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Spírito Santo
 

Grandes absurdosturos!

Abs,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 19/4/2007 14:36
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Rgralmeida
 

Ok. Desculpem o atraso. Mas a pergunta ainda persiste: qual é a questão? Um dos fundadores do mangue beat, Renato L., cujo declaração está registrada neste sítio ou site diz o Mangue Beat "não é fusão p. nenhuma." Então como defini-lo hibrido e antropofágico tal qual sugeriu Oswald de Andrade? Esta resposta estou construindo em minha monografia. Aceito sugestões.

Rgralmeida · Rio de Janeiro, RJ 26/11/2008 15:35
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absurdosturos
 

Almeida, na minha opinião o fato de alguém dizer alguma coisa não faz desta coisa uma verdade. Creio que o mangue é fusão, sim, mas não só isso. Acho que o que ele quis dizer nesta entrevista (que li e reli várias vezes) é que o mangue não se limita a ser uma mistura de rock com maracatu, oui seja, não é só uma batida ou um som, mas é também uma atitude, uma visão de mundo, um posicionamento do jovem periférico, um manifesto.

Em tempo: no meu blog, www.absurdosturos.blogspot.com , há um link prum artigo meu, chamado "Um sampler para um repentista: a estética antropofágica do movimento mangue", publicado em uma revista de sociologia do Iuperj, que extraí da dissertação de mestrado que defendi neste instituto (de título "Modernizar o passado: movimento mangue e a antropofagia revisitada). Se vc está pesquisando o movimento mangue, vale uma lida.

abs

absurdosturos · Rio de Janeiro, RJ 26/11/2008 17:00
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