Turnês: conceito e estratégias

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Leo Salazar · Recife, PE
25/7/2009 · 2 · 0
 

Conceitualmente, turnê é uma série de apresentações em várias cidades. Mais se parece com uma excursão, um pacote de viagem, ao melhor estilo pé na estrada. Cada noite, um palco. A maior parte do tempo é gasto com a viagem.
Bruce Thomas, baixista da banda Attractions, que acompanhava Elvis Costello, registrou no livro “The Big Wheel” o depoimento abaixo sobre uma de suas excursões.
Viajávamos milhares de quilômetros, ficando hospedados em Holiday Inns que eram exatamente um igual ao outro e vi algumas das mais famosas atrações turísticas da janela de um automóvel cruzando a cidade. Outras vezes, fiquei em lugares que desejaria nunca terem visto. Ou então dormia enquanto atravessávamos os mais espetaculares cenários do mundo, não porque não estivesse interessado, mas porque estava exausto. (SHUKER, 1999, p. 282).
As turnês são extremamente necessárias para promover o lançamento do disco na mídia, aumentar o público do artista e gerar faturamento. Sites de comunidades e de relacionamento, como Myspace e Orkut, servem para divulgar o repertório, mas não remuneram o artista. A passagem do artista pela cidade gera pauta na mídia local – jornal, rádio, televisão – e gera receita com venda de ingressos e de discos. Também é uma oportunidade para o contato pessoal do artista com seu público através da visita a uma loja de disco, de um pocket show ou de uma seção de autógrafos.
Um aliado estratégico nas turnês é o assessor de imprensa. Este profissional entra em contato com os veículos de comunicação de cada cidade, envia pelo correio disco e release, e influencia o jornalista para que publique matéria no dia do show. O assessor de imprensa também deve agendar entrevistas em programas de rádio e televisão. Se o artista não tiver dinheiro suficiente para contratar um assessor de imprensa, deve ao menos combinar com o contratante do show para que divulgue seu material para a imprensa local. A imprensa geralmente não concede espaço para os artistas independentes. É preciso ter um gancho, como o show, para que uma matéria ou simples nota seja publicada. Além disso, é preciso que alguém esteja permanentemente em contato com os jornalistas para conseguir a pauta.
As gravadoras costumavam arcar com despesas de turnês, ou davam algum suporte logístico. Hoje, com a crise da indústria fonográfica, isso soa como história de conto de fadas. A turnê é um investimento sob conta e risco do artista. Uma alternativa é buscar patrocínio, público ou privado, que cubra pelo menos as despesas da viagem como transporte, hospedagem e alimentação da equipe. O contratante da cidade entra no risco arcando com os custos do show – espaço, estrutura, divulgação. A bilheteria pode ser dividida 50/50 entre o artista e o contratante. Esse é um modelo viável de turnê para artistas independentes.
Alguns cuidados operacionais devem ser tomados, principalmente em relação a equipamentos e instrumentos. Levar o mínimo necessário para evitar custos com excesso de bagagem e transtornos com manuseio e acomodação. A equipe também deve ser enxuta.
A turnê deve ser programada com antecedência por dois motivos. O primeiro, de ordem executiva, para conseguir pauta nos principais festivais e casas de show. O segundo motivo, de ordem financeira, para conseguir passagens promocionais. O início da organização de uma turnê deve ser o fechamento de um evento importante que justifique o investimento. Esse evento será o marco inicial que indicará o período e a região da turnê. A partir daí, considerando o roteiro e a época, os demais shows serão fechados nas outras cidades. Nunca é demais lembrar para assinar contrato estipulando cachê, condições, obrigações e deveres de cada parte em relação ao show e à viagem.
Se a turnê for internacional, deve-se providenciar, com antecedência, passaporte e visto de trabalho para todos da equipe. As legislações sobre trabalho de músico estrangeiro mudam de um país para outro, por isso o responsável pelo visto deve ser o contratante do show. A regra é que os principais contratantes, aqueles shows em festivais de verão, providenciem os vistos de trabalho. Os shows de menor porte, em clubes, podem ser documentados como promocionais. No planejamento financeiro devem constar os impostos e retenções incidentes sobre o cachê, se houver.
Shuker (1999) apresenta uma variante de turnê onde vários artistas tocam juntos. Diz que este modelo foi muito popular na década de 1960, principalmente por grupos britânicos. É um modelo sustentável: juntar forças e unir público de dois ou mais artistas. Desse encontro podem resultar outros produtos como CD ou DVD. Também é interessante convidar pelo menos um artista local para participar do show em cada cidade. Num segundo momento pode haver uma troca de papéis, onde o artista anfitrião é o próximo a excursionar, por exemplo.

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