Faz muitos anos li o conto Um Artista da Fome, Kafka, e freqüentemente seu enredo volta a minha cabeça. Para quem não leu, o conto tem como protagonista um jejuador que vive enjaulado, definhando. Como era de se esperar, o artista da fome é observado passivamente pela população curiosa.
Repare que Kafka escreveu esse conto em 1922, mas não consigo ver nada que retrate melhor a política cultural brasileira. Há duas semanas, meu amigo Lailton Araújo sugeriu num fórum o debate sobre as condições de trabalho dos artistas brasileiros partindo do fato da hospitalização de Jamelão.
Enquanto os roteiristas americanos fazem greve, reivindicando maiores participações nos lucros de suas obras, patrimônios vivos brasileiros, como Jamelão, morrem sem nenhuma condição. Nossa indústria cultural é de dar pena. Tropa de Elite, que todos apontam como o maior fenômeno do cinema nacional nesse começo de século, foi visto por 2 milhões de pessoas no cinema. Em contrapartida, o péssimo Homem Aranha 3, foi visto por 6 milhões brasileiros.
Não entrarei no mérito da propagação pirata do filme, pois na minha opinião, se esse fato não tivesse ocorrido, a bilheteria não passaria de 800 mil espectadores. Minha intenção é debater a política de produção cultural.
Peguemos como exemplo o já citado cinema. Não se produz filmes no Brasil sem a LIC ou a Lei Rouanet. Mesmo a Globo Filmes utiliza estas ferramentas. Desde a EMBRAFILMES (criada pelos militares), nosso cinema sobrevive de gorjetas. Isso que o cinema é uma arte prestigiada pelo público. Outros ramos como a literatura, por exemplo, quase nem gorjeta há. Viver da escrita no Brasil é um privilégio de muito poucos. Os demais escritores se viram como dá: trabalham para agência de publicidade (como eu), dão aulas, vendem cachorro quente...
O fato é que nós, artistas brasileiros, somos fracos, egoístas, pequenos e invejosos. Preferimos sempre o fracasso alheio. A vaidade de ser um mendigo criador nos impede de cooperamos com o trabalho alheio ou da construção de sindicatos sérios que defendam os interesses de verdade, garantindo remunerações justas, condições para criação e aposentadoria.
Enquanto a rasteira for o comprimento da classe artística, continuaremos como artistas da fome. Se bem que esse fato justifica comodamente nossa mediocridade.
Mauro, concordo com a mediocridade no Brasil , não há cooperação entre os interessados. Ainda se tem a Lei Rouanet.Muito boa a sua colaboração, pertinente ao que o Overmundo cultua. Abçs.
Cintia Thome · São Paulo, SP 16/11/2007 20:46
AMIGO MAURO...
Já tinha lido o texto!
Fico contente por fazer parte do enredo...
Ilustrando o tema:
http://www.overmundo.com.br/forum/convite-debate-geral-sobre-a-situacao-financeira-do-artista-brasileiro
Parabéns por sua sensibilidade!
Abraços.
Lailton Araújo
demorou mas voltou com a carga toda.. tb li kafka, faz tempooooo.. bom relembra-lo... este final de semana discutimos sobre esse 'probleminha' de ser do brasileiro - se o outro dá certo, faz alguma coisa, age, deixa de ser ocioso, vem a rasteira, o dedo-azeda-leite, a torcida pra tudo dar é errado... é incrivel o quanto 'nos odiamos', dizem ate´que o brasil nao precisa terremotos, maremotos, vulcoes, há o brasileiro...
sem pessimismo, há o brasileiro, em muitas versoes
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