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Um “bahiano” um tanto bizarro

Lorena e seu amado nos círculos de velas
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Luciano Carôso · Salvador, BA
22/2/2007 · 237 · 16
 

Lorena era filha de um importante senhor. Um dia, na praia de Ipanema, aguardava seu pai em um bar, quando mirou um “trigueñisimo” pianista baiano… Apaixonou-se perdidamente. Não tinha dinheiro nem futuro, o poeta sonhador baiano, mas, para Lorena, “foi mais que o céu, foi mais que um deus” já que “lhe ensinou o que é o amor”. Só que a felicidade de Lorena durou pouco, pois seu pai tomou conhecimento do “mal logrado” romance e esbravejando, ordenou que esquecesse o dito cujo: “esse miserável não é de tua categoria e não combina com nossa rica sociedade”, proibindo-a definitivamente de voltar a ver o trigueñisimo. Lorena então, desesperada, subiu ao Corcovado e, lá de cima, “abriu suas asas e voou”…

Deve ter se espatifado toda a bichinha, coitada :-). Também, foi logo se apaixonar por um negão-pianista-baiano (negão é minha tradução livre para trigueñisimo), lá pelas bandas da praia de Ipanema. Tinha mais, essa pendenga, era que terminar desse jeito mesmo. Lorena, de tão tenra idade, não deve ter ouvido falar de Ícaro e de suas asas coladas com uma cera de quinta categoria que, obviamente, derreteu. E o probrezinho despencou direto pro mar Egeu. Então ela, ao se atirar voando do Corcovado, pode ter querido planar pela Baía (ou seria Bahia?) da Guanabara, e quem sabe, pegar o vácuo de um urubu até o Porto da Barra (Salvador, Baía?), onde, bem pertinho, fica um outro Cristo, só que bem mais baixinho. Lá poderia ver o pôr-do-sol com seu negão pianista e mandar às favas os preconceitos paternos. Mas conta a lenda que ninguém nunca mais viu Lorena…

Eu conheci a estória de Lorena pela voz de uma linda “cantante” argentina: Soledad Pastorutti, através do incrível Youtube. Clique aqui para ver o videoclip da música "El Bahiano".

Concordo com aqueles que dizem que o mesmo brasileiro que adora rotular o americano de etnocêntrico por este achar que a capital do Brasil é Buenos Aires, jura de pé junto que a capital da terra dos aborígenes e dos cangurus é Sydney (sinto desapontar alguns, mas a capital da Austrália se chama Canberra) e ainda aposta seu último níquel que a capital dos Estados Unidos é New York. Então, longe de uma postura nacionalista do tipo policarpiana, o que me move ao escrever essas linhas é mais uma observação bem humorada do bizarro (que na acepção mais usada no Brasil significa estranho, esquisito), ou de como algo que parece ter bom suporte técnico e financeiro, pode descambar para o superficial e o equivocado. Antes de tudo, não me consta que “Sole” seja (ou fosse em 1999, ano em que foi feito o videoclip) uma cantora de renome mundial. Mas, basta dar uma olhada no site da Sony BMG para perceber que a empresa não a teria em seu cast se ela, como artista, não tivesse, pelo menos, o potencial de transpor as fronteiras da Argentina. Portanto, não se trata de uma produção amadora. É certo também que as “bizarrices” já vinham acontecendo: Michel Jackson e Spike Lee são a prova disso, com o vídeo que produziram entre o Rio de Janeiro e Salvador, em 1996. Agora, mesmo que não se fizesse como um Paul Simon que veio, em 1990, a Salvador gravar com o Olodum a faixa “Obvious Child” do álbum Rhythm of the Saints, e que, depois de um ano, com um milhão de cópias vendidas e um Grammy nas mãos, levou os percussionistas para um grande show no Central Park, a coisa poderia ter sido, digamos, melhor contextualizada.

Vamos lá: especulam alguns que o vídeo foi gravado no Uruguai ou em Miami. Se foi na Conchichina, tudo bem. Na Bahia é que não foi. Se não, Soledad derreteria dentro do espesso casaco de lã vermelha, com o qual aparece na maior parte das cenas :-). E os trajes das “bahianas”? Poderiam muito bem ter saído dos desenhos de Rugendas ou Debret se já não tivessem precedentes nas estereotipadas novelas de época e minisséries globais, que também devem ter inspirado as cenas com os círculos de velas. Os percussionistas estão uniformizados e aquietados demais, com instrumentos variados de menos, além de inadequadamente coloridos. E por falar nisso, a referência sonora a uma possível banda de percussão baiana, que acontece com mais ênfase no intermezzo, apesar de ser bem resolvida musicalmente, como é inclusive toda a música, soa irremedialvelmente frustrante. Imaginem um violinista, por melhor que seja, tentando se fazer soar como uma orquestra de cordas inteira? É mais ou menos isso que acontece. O trigueñisimo baiano que toca piano (o ator, branco, diga-se de passagem, pode até ter nascido na Bahia, mas não tem quem me tire da cachola que o sujeito é argentiníssimo) num bar da praia de Ipanema, vestido como os escravos das novelas da Rede Globo, só que usando um colete com ares andinos, é um tipo quase surreal, vocês hão de concordar. Ver o videoclip ambientado numa pseudo Bahia e imaginar o casal se amando em Ipanema e Lorena se atirando do Corcovado é, no mínimo, engraçado.

Enfim, tudo me parece e me soa um tanto bizarro. Não que isso tenha alguma consequência para o futuro das relações entre Brasil e Argentina, mas que eu dei boas risadas com o vídeo, não há como negar. Por último, me vem à mente um trecho citado por Hemarno Vianna, num dos fóruns do Overmundo, de Jorge Luis Borges, escritor argentino, onde este diz que a falta de camelos no Alcorão é exatamente a prova de que este livro é árabe. Maomé, o “autor”, por ser árabe, não sentiu a necessidade de incluir camelos, já que eram comuns ao seu contexto. Porém, “un falsario, un turista, un nacionalista árabe, lo primero que hubiera hecho es prodigar camellos, caravanas de camellos en cada página”.

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Moysés Lopes
 

Muito legal teu texto, Luciano, curti muito tua abordagem. Pena que não consegui ver o vídeo porque o YouTube estava em um "recesso agendado", mas vou ficar no bico... :-)

Um abraço,

Moysés Lopes · Porto Alegre, RS 22/2/2007 06:24
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Roberta Tum
 

Adorei o texto, vi o vídeo... onde o pianista é branquérrimo...rssssss!
tudo de bom Luciano! Valeu!

Roberta Tum · Palmas, TO 22/2/2007 10:00
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Luciano Carôso
 

Caros Moysés e Riberta:

Fico muito feliz que tenham gostado do texto. A internet (pricipalmente pela onda no momento, o YouTube) nos possibilita dar de cara com essas coisas. Há poucos dias vi um vídeo no mesmo Youtube (tentei em vão procurar o link pra mostrá-lo a vocês) de uma banda japonesa que se diz influenciada principalmente pelo som dos Novos Baianos e de Armarndinho, Dodô e Osmar. Parece ser um vídeo amador numa espécie de festival onde o sue generis vai muito além da música. Passa pela forma de cantar, pela roupa, pelo cenário... Acho que observar-nos refletidos nos argentinos, nos japoneses, nos irlandeses ajuda o nosso próprio auto-entendimento.

[]s,

Luciano Carôso · Salvador, BA 22/2/2007 10:36
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Luciano Carôso
 

Errata:
...pricipalmente pela onda do momento, o Youtube e, é claro, não é Riberta, é Roberta :-).

[]s,

Luciano Carôso · Salvador, BA 22/2/2007 10:40
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Carlos ETC
 

Ótimo texto, Luciano!
Fiquei curioso para ver o vídeo... em casa dou uma olhada.
Deve ser um tanto hilário mesmo.
Abraço!

Carlos ETC · Salvador, BA 22/2/2007 11:20
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Helena Aragão
 

Hahahahahaha. Ri muito. Que pérola, Luciano! Estou sem palavras com tanto nonsense. E me diga: você reparou na risada macabra que a baiana dá no final? Seria uma profecia dos Orixás? E o senhorzinho, que parece ter sido inspirado em algum livro do Jorge Amado? Muito bom!!!
Gostei muito do seu enfoque no texto também. Sem hipocrisias, mas também sem deixar de se divertir com a fantasia. Vê se acha aí o link do tal vídeo japonês pra colocar aqui no comentário, fiquei curiosa!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 22/2/2007 11:44
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Helena Aragão
 

Um último comentário: só um 'trigueñisimo' argentino usaria um corte de cabelo desses...

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 22/2/2007 11:46
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Luciano Carôso
 

Pois é Helena, a risada macabra, eu tinha reparado sim :-). A roupa do senhorzinho deve realmente ter vindo de Jorge Amado, via Rede Globo. Mas o corte de cabelo do 'trigueñisimo', esse me passou :-). MAs reforça a minha tese que o sujeito é argentino :-).
Finalmente achei o link da banda japonesa. Eles se chamos Novos Naniwanos. Repare nos trajes do cantor e na inscrição que substitue o "Ordem e Progresso" na bandeira do Brasil. Aqui eles estão cantando o hino do Bahia. Ah, obrigado por seus comentários.

[]s,

Luciano Carôso · Salvador, BA 22/2/2007 13:22
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Balbino
 

hahahahahahahahahaha cara não me divertia assim há tempos, putz o cara que faz papel de pai parece demais jorge amado, pobre saudoso Amado que me perdoe, mas que parece parece, muito divertido, valeu Luciano

Balbino · Cuiabá, MT 22/2/2007 17:26
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Felipe Obrer
 

Luciano, gostei do teu texto, do teu jeito de escrever. Não vi o vídeo ainda, mas pelo que falas deve ser engraçado. O voto fica pelo texto mesmo, que tem um humor muito bom.

Abraço.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 22/2/2007 17:59
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Ilhandarilha
 

Eu acho que a baiana riu foi do videoclip!

Ilhandarilha · Vitória, ES 22/2/2007 21:28
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Luciano Carôso
 

Mesmo que a semelhança com Jorge Amado não seja extrema, você tem razão Balbino, parece mesmo! :-) A risada, Ilhandarilha, meio lúgubre-burlesca do final, é um fechamento, com chave de ouro, da porta do que eu chamo de "bizarrices". Mas, como disse no texto, realmente não olhei o videoclip como algo somente burlesco, na acepção mais pejorativa. Como músico, inclusive, gosto muito do resultado musical. Acho-o marcante. E parece que esta música é um dos hits da carreira de Soledad. Parece ser um momento apoteótico do seu show. Tem um bocado de versões ao vivo feitas em shows dela pela América Latina lá no Youtube. O "problema" foi juntar o áudio e o texto com as cenas :-).
Obrigado a Felipe e aos outros. Eu fico feliz por terem gostado. A aqueles que não viram o vídeo, insistam. Vale a pena por si só.

[]s,

Luciano Carôso · Salvador, BA 22/2/2007 23:37
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Dora Nascimento
 

Luciano, ótimo o texto.
Fui lá ver o vidio-clip. Cara como é que essa galera trabalha, hein?
Sabe, custa nada fazer uma pesquisa local? Uma pré-produção condizente com a realidade... Dar a César o que é de César, algo assim. As baianas... parecia que eu tava revendo A Escrava Isaura, ou coisa do tipo global. O baiano... Não que na Bahia não exista músicos com cara de argentinos, mas... achei um lixo divertido o vídeo, poderia até ser romântico se fosse apenas cantado, o resto é uma sequência de equivocos e exageros. Adorei teu texto, e você tem razão, vale a pena assistir ao vídeo para se dar umas boas risadas.

Dora Nascimento · Olinda, PE 23/2/2007 09:54
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Carlos ETC
 

Eu vi o vídeo ontem! Uma comédia, novela mexicana quase ao estilo de Chaves e Chapolim Colorado! Claro que a musicalidade é outra coisa... mas ainda assim podia ter mais dendê, não acham?

Carlos ETC · Salvador, BA 23/2/2007 09:58
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Cida Almeida
 

Adorei o texto e ainda estou passeando pelos links.

Cida Almeida · Goiânia, GO 23/2/2007 10:18
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Ju Polimeno
 

Bom texto. Congratulações e abs.

Ju Polimeno · São Paulo, SP 23/2/2007 11:07
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