Um carioca no Tocantins

Bruna Célia
?O que significa pasquim? É um jornal que não tem pretensão de nada.?
1
Bruna Célia · Goiânia, GO
5/5/2007 · 275 · 6
 

PERFIL TOCANTINENSE

Em uma entrevista que durou quase duas horas, o carioca-tocantinense Iberê Barroso conta como foi sua passagem pelo jornal Pasquim, fala sobre a ditadura, a liberdade de imprensa e Taquaruçu - To, seu reduto de tranqüilidade onde garante querer ser enterrado.

Bruna Célia - O senhor é do Rio de Janeiro mesmo?

Iberê Barroso – Graças a Deus. Quer dizer, fui, né? Eu sou do centro do Rio de Janeiro. Nasci na Lapa, que é um bairro boêmio, me criei na Tijuca, que é um bairro mais pra Zona Norte, morei na Zona Sul, no Leme, em Copacabana, fui salva-vidas no Leme durante muito tempo. Sou carioca, agora tomaram meu berço natal e me deram um berço adotivo, que é Palmas, de onde eu não vou sair mais.

Bruna Célia - O senhor é formado em jornalismo?

Iberê Barroso – Não, eu não sou formado. Agora quando me perguntaram “escuta, o senhor não é formado, não tem diploma, só tem apenas um registro em carteira”. Aí eu disse: o que é que eu faço com meus 42 anos de profissão, jogo no lixo? Eu tenho dois prêmio Esso de reportagem. O jornalista passa a vida dele em peso lutando por esse prêmio. Eu tenho o Luxo do lixo, quando eu fui pra brasília pesquisar o lixo das grandes mansões lá no Lago Sul e não posso declinar de quem eu achei o lixo mais fácil de todos em termos de esbanjamentos. Coisas tipo caviar russo com uma colherada passada na lata e o restante da lata jogada no lixo. Champanhe, licor e outras coisas jogadas no lixo. Eu fiz a outra reportagem na época que eu tava no JB. Foi Presídio de mulheres e depois até houve uma novela ou um seriado chamado Presídio de mulheres. Passei oito meses internado na penitenciária de Bangu. E então eu pergunto a todo mundo que diz “você não tem diploma?”, tá, eu não tenho diploma, não sou catedrático não sou coisa nenhuma, eu sou pano de chão. Mas, gente, eu tenho 42 anos de estrada e isso não se joga fora, tá?!

Agnez Pietsch– Em que ano o senhor entrou no Pasquim?


Iberê Barroso – 72, 73. Era o “must” entrar no Pasquim, então eu fucei e fucei e consegui o trabalho. Tive lá um bom tempo e fiz excelentes amizades na época, inclusive. Quanto ao Pasquim em si, foi um trabalho de onde nasceu uma contra-revolução, foi realmente o grande fator propiciador da volta democracia. E com o bom humor dessa galera, Jaguar, Millôr Fernandes, Ziraldo, Henfil, aqui eu tive o Sérgio Cabral e o Henfil como meus orientadores porque eu tava começando no jornalismo. Então, na época, a minha passagem pelo Pasquim foi relativa. Tudo que eles fizeram se deve a esse grupo aí. E tinha mais dois focas, pra eles, comigo.

Agnez Piestch - Nessa época ocorreram várias prisões. O senhor foi preso alguma vez?

Iberê Barroso - Não, infelizmente não. Gostaria ter sido. (risos) Mas dizem na época que eu era tão encapetado que nem na cadeia conseguiam me botar. Mas isso é porque hoje a gente vive de recordação. Aqui me deram alguns títulos, o Rotary mesmo me deu um de Jornalista Modelo. Eu não mereço, não faço mais que a minha obrigação. Mas eu respeito vocês que tão começando, acho importantíssimo o trabalho das universidades, mas se em uma coisa que me preocupa é que laboratório eles estão oferecendo a vocês. Porque você pode ter certeza de uma coisa: jornalismo é 10% inspiração, 90% transpiração. Se não partir pra briga, pra luta, não vai não. Ficar sentadinho em escola só teorizando, teorizando, teorizando, as coisas estão acontecendo.

Bruna Célia - Qual era sua função no Pasquim?


Iberê Barroso – Eu era foca. Eu fazia de tudo. Lavava a redação. Limpava máquina. Fazia matéria. Tive umas matérias publicadas. Eu tive receio de fazer mais, porque para contestar a ditadura você corria um risco muito grande e eu estava relativamente no início da carreira. Então de vez em quando dava um medinho, aí você puxava o freio de mão. Porque era um negócio assim, de chamar um de filho de senhora desonesta, pra baixo. Então eu não tive uma passagem que eu possa dizer assim “eu fui jornalista do Pasquim”, não, não fui.

Bruna Célia – O que de interessante marcou sua passagem por lá?

Iberê Barroso - Primeiro, o aprendizado. Agora de fato interessante que marcou minha passagem por lá, foi a busca do Vladimir Erzog. Todo mundo objetivando isso, levantando dados aqui e ali. Quando nós soubemos, eu não tenho autoridade pra declarar, ele estava em um porão de uma unidade militar. Então partimos nós todos em cima, mas ele já tinha apanhado muito, tava nas últimas.

Bruna Célia - Você mantém contato com alguém daquela época?

Iberê Barroso - Não, não, não tive mais contato. Até porque eu vim para cá em 89, Palmas nem existia. Aqui eram quatro grandes fazendas. Ficamos na capital provisória, em Miracema. O único lugar que eu podia me empregar era na Assessoria de Comunicação. Era o Fernando Martins, o secretário de comunicação da época, e nós ficávamos vindo pra cá retratando as coisas. Eu trazia minha secretária, o cinegrafista e o fotógrafo, então a gente ia abrindo caminho e esbarrando com as jaracuçus do brejo, sucuris, siriemas, que passavam era de bando. Nessa fase inicial a Organização Jaime Câmara teve uma expressão muito grande e sempre foi o maior sustentáculo daqui.

Bruna Célia - O senhor acha que os jornalistas de hoje conseguiram a liberdade de imprensa?

Iberê Barroso - Eu acho que ainda existem certas restrições, mas se você for comparar com os anos 70 realmente é um grande paradoxo. Hoje tem toda liberdade do mundo, mas por vezes o jornalista é podado.

Bruna Célia - Qual a sua opinião sobre o jornalismo feito aqui em Palmas?

Iberê Barroso - Eu acho muito bom. Tem bons valores. O jornalismo existe a partir do relato de fatos verídicos. Então existe a preocupação de se tal deputado vai gostar, se o governador vai gostar. E isso existe aqui. Então você procura de uma forma ou de outra não fugir totalmente a realidade. Eu acho que o passar do tempo vai apagando, já foi muito pior. Houve épocas aqui que o negócio era diatorial mesmo. Você pode perfeitamente relatar um fato, amanhã ou depois eu posso criticar, respeitosamente, uma atitude do governador. Desde que a minha crítica seja respeitosa e tenha fundamentos. Eu não vou criticá-lo por que não gostei da cor da camisa dele. Inclusive o atual governador é muito aberto a críticas. Eu nunca senti coação e para isso existe uma Secretaria de Comunicação do Estado pra filtrar esse tipo de coisa. Eu nunca fui bloqueado aqui, não, graças a Deus, porque antes de escrever eu penso no que vou escrever.

Bruna Célia - Alguns anos atrás, no Pasquim, por exemplo, as reportagens eram grandes, as entrevistas maiores. Hoje em dia existe uma tendência de torná-las mais sucintas. O senhor acha que isso é uma vantagem ou que descaracteriza o jornalismo?

Iberê Barroso - Eu acho que sim, veja bem. No momento que eu deixo de usar um pouco mais de prolixidade eu tô correndo o risco de não retratar para o público leitor a realidade das coisas, o universo todo. Eu, quando começo a escrever, eu vou-me embora, se bobear o computador cansa. Evidentemente, quando você edita um tablóide, o custo gráfico sai muito caro. Segundo, que Palmas não tem uma estrutura de anunciantes que possa garantir o sustento do veículo. Eu acho que você pode enxugar o texto, mas não tem o direito de omitir dados importantes. Não precisa florear muito quantitativamente, muito qualitativamente.

Bruna Célia - Você não mora em Palmas e sim em Taquaruçu, não é? Por que a preferência por lá?

Iberê Barroso - Graças a Deus! Bom, você agora me faz voltar a mil novecentos e antigamente, quando nem tinha asfalto por lá. Nós estamos organizando um conselho de segurança comunitária, um trabalho sério, e eu tô nesse meio, no sentido de preservar o Taquaruçu. Taquaruçu pra mim é tudo, tudo. Agora minha saúde anda baqueando, de vez em quando a mufa dá um grito, “ah, tô cansado”. Eu já comprei meu pedacinho de terra lá no Campo Santo, debaixo de um pé de pequi. Quero ficar lá, quando eu apagar me botem lá, me deixe em paz. Eu adoro lá pelo clima, pelas amizades que eu tenho, enfim, eu gosto, sou meio roceiro, apesar de ser carioca eu gosto, aprendi a ser meio roceiro.

Bruna Célia- E aqui no Detran, o que o senhor faz?

Iberê Barroso - Pertenço à assessoria de comunicação, tem a Luciene e a Arlete comigo. Me sinto muito bem aqui, tô aqui desde a administração passada. Aqui eu chupo cana, assovio e toco clarinete (risos).

Bruna Célia - O senhor não sente falta da época dos prêmios Esso?

Iberê Barroso - Ah, sinto. Ainda tenho a minha máquina de escrever que ganhei em 63. Do tipo da máquina que cai no chão, aquele negócio do editor “vamos escrever sobre Jesus Cristo”, e o gaiato pergunta lá “contra ou a favor?”. Mais ou menos assim. Era um jornalismo muito esculhambado, mas muito gostoso. O dono do jornal dizia pra você “escuta, eu preciso vender jornal!”. Aí você saía como eu e o Aroldo, saímos e tínhamos que trazer algo. Minha primeira cobertura foi um português que se suicidou da maneira mais original que eu já vi. Ele tinha um armazém no morro do Itapiru, aí ele meteu a cabeça no sifão do vaso sanitário e puxou a descarga. O perito era um tal de - impressionante como a gente consegue reter essas coisas na memória - o perito era um tal de Castro, ele não admitia a imprensa antes de ele fazer o local. Aí chamei o Rosa, meu fotógrafo, um neguinho desse tamaninho, que quanto mais bêbado, melhor fotografava. Disse: Rosa, vamos fazer o seguinte, vamos subir aqui por trás, vamos passar pelas telhas, eu levanto a telha, você faz a foto sem flash. Aí quando eu levantei a telha, o telhado desabou. Caí em cima do difunto. O Castro veio lá de dentro, de arma em punho, “pei, pei”, e a gente correndo pelo morro. Era assim. Essas coisas fazem a gente gostar da profissão, sabe. São recordações que a gente guarda.


Entrevista cedida à Bruna Célia e Agnez Pietsch - alunas da Universidade Federal do Tocantins - num dia muito, muito quente, porém chuvoso na mais nova capital do país, Palmas-To.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Helena Aragão
 

Oi Bruna, legal a entrevista. Só senti falta de um abre, pois vocês já começam a entrevista de sopetão e muita gente não vai entender nem do que se trata. Você não acha que vale a pena fazer nem que seja um parágrafo introdutório? Enquanto está na fila de edição, é só clicar no lapisinho.
A foto tb está um pouco estranha... O ideal é postar fotos horizontais, em jpeg e com média de 800 x 600 px (mínimo). Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 2/5/2007 15:34
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Bruna Célia
 

Helena, valeu pela sugestão. Já vou editar... postei com tanta pressa e superestimei achando que já estava ótimo! Sempre é bom receber opinião, viu? Beijo

Bruna Célia · Goiânia, GO 2/5/2007 19:12
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Egeu Laus
 

Beleza, Bruna! Manda mais de Palmas!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 4/5/2007 02:35
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Thiago Conrado - www.souniversitario.ilax.com.br
 

Gostei do texto, realmente, concordo com a Helena, a matéria teve o seu início meio complicado devida falta de uma boa introdução, mas tudo é um aprendizado e concerteza sempre teremos oportunidade para melhorarmos nossos trabalhos. Sucesso!!!

Thiago Conrado - www.souniversitario.ilax.com.br · Piúma, ES 5/5/2007 19:15
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Guilherme Mattoso
 

pois é! quero conhecer palmas!!!

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 5/5/2007 20:30
sua opinião: subir
Roberta Tum
 

Também concordo com a Helena, faltou introdução. Quanto ao mais, conheço as mil e uma utilidades do Iberê, um cara queridíssimo no meio, patrimônio histórico de Palmas (nem lembrava que ele é carioca). Parabéns pela iniciativa.

Roberta Tum · Palmas, TO 7/5/2007 17:07
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados